Muleca XIII: A militância cultural através do hip hop

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

Arriscar é o princípio da arte, diriam alguns. Neste caso, “Arrisca” é a nova faixa de Muleca XIII com produção de Sam The Kid, um tema com versos amadurecidos pela visão de alguém que está na cultura hip hop com amor incondicional, utilizando as vertentes ao seu dispor para se mostrar ao mundo.

Com 30 anos, Samantha Muleca é uma rapper brasileira que vive há cerca de três anos em Portugal. Depois de militar no hip hop brasileiro durante toda a sua vida, a mudança de país não esmoreceu a paixão que existia pelo graffiti, o breakdance ou o rap.

A porta de entrada nas rimas aconteceu no Comando Selva 22, colectivo de artistas, e a longa caminhada fez-se através de “militância cultural nas favelas ou comunidades”. Em território nacional, Muleca XIII foi a vencedora de um concurso de rap na ETIC, evento que tinha Valete, NBC e Rui Miguel Abreu como júris.

Sem que exista grande burburinho à sua volta, Samantha criou nome com versos ácidos em rodas de freestyles e a chegada a Samuel Mira acabou por acontecer de maneira orgânica. O ReB esteve à conversa com a artista brasileira e falou sobre a sua carreira, “Arrisca”, projectos para o futuro e as suas referências no universo musical:

 



És uma desconhecida para grande parte do público português. Conta-me: quem é a Samantha Muleca e quando é que começaste a fazer rap?

Eu sou uma mulher brasileira de 30 anos. Comecei a ouvir rap no início da adolescência, em meados da década de 90, e escrevi algumas letras neste período, o que já mostrava a minha necessidade de me expressar musicalmente e com uma tendência forte à linguagem de protesto. A paixão pelo movimento hip hop acompanhou minha vida desde então, sendo fortalecida ainda pelo amor ao skate. Comecei a andar de skate aos 12 anos, passei a treinar break aos 17, fiz meu primeiro graffiti aos 18 e tudo isso considero minha trajectória até o rap.

Desde 2006 pertenço ao colectivo de artistas Comando Selva 22, onde entrei através do graffiti e expandi para as rimas. Sempre estive presente nas rodas de freestyle, algumas batalhas e escrevia constantemente até gravar uma música pela primeira vez em 2007, produzida por Clebin Quirino, na actual produtora Produto Novo, em Belo Horizonte – MG, no Brasil.

Sempre me dediquei mais ao graffiti e à execução de projectos culturais, e nesses dez anos gravei aproximadamente dez sons sem compromisso com divulgação, sendo apenas conhecida no meio underground brasileiro, principalmente pela presença das minhas pinturas nos muros, meu freestyle e nossa militância cultural dentro das favelas ou comunidades.

“Arrisca” é o teu primeiro single “mais a sério”, certo? Como é que surge a ligação com o Sam The Kid?

O Samuel é uma pessoa de visão apurada e que aprecia um bom rap. Conhecemo-nos por acaso em um concerto da Cone Crew Diretoria, grupo de grandes amigos meus, quando eles estiveram em Portugal em 2015. Nessa ocasião até fizemos um freestyle todos juntos antes do concerto. Após esse primeiro contacto e algumas poucas ocasiões seguintes, o Sam convidou-me para gravar um som. Lembro-me que ele até chegou a comentar sobre essa vontade no programa “3 pancadas” cujo tema foi sobre as mulheres no rap português.

Teclas do João Gomes (Orelha Negra), beat do STK e adds do Here’s Johnny em “Arrisca”. Estiveste envolvida no processo de criação do instrumental da faixa?

A minha parte no projecto foi compor a letra e cantá-la, enquanto a parte do Sam foi compor o instrumental e produzir o som. Dentro dessa divisão trabalhamos em conjunto com o mesmo foco e o resultado foi fruto dessa sintonia.

Além de eu não ser beatmaker, eu vivo há apenas três anos em Portugal. Sendo assim, mesmo tendo tido abertura para opinar no instrumental, não foi muito necessário e senti-me muito tranquila em confiar os meus versos nas mãos do STK, artista que já admiro há um bom tempo – e agora ainda mais.

 



Há dois anos venceste um concurso de rap na ETIC, certo? O que é que retiraste dessa experiência e porque é decidiste participar? Tu tens vídeos no YouTube mais antigos – e ainda no Brasil – , mas cá só tens um cypher no Titanic Sur Mer.

Sobre o concurso da ETIC, eu fui a convite de um amigo, MC Cebolinha, que, na altura, estudava lá e insistiu que eu participasse. Foi organizado pelo Rui Miguel Abreu e teve como jurados o próprio, o Valete e o NBC, que além de jurado fez uma guest session inspiradora. Gostei muito de participar desse evento, principalmente pelo facto de ver o rap invadindo a academia pela porta da frente.

Como disse, já há muito que estou inserida no movimento hip hop e por isso tenho alguns registos feitos por outras pessoas divulgados na web. O vídeo no Titanic Sur Mer foi, na verdade, uma participação, juntamente com o Zuka e o Mass, no concerto do Rapadura, também grande amigo nosso. O registo foi um presente do Sebastião [Santana] que é componente dos Orteum, o mesmo grupo do Mass.

Quem são as tuas referências musicais?

Desde que nasci estive mergulhada em trilhas sonoras. A minha mãe sempre ouviu muito James Taylor, Bob Dylan, Stevie Wonder, Bob Marley, The Beatles e Renaissance, além de música popular brasileira. O meu irmão é guitarrista e trouxe o rock para perto: bandas como Metallica, Sepultura, Raimundos, Dream Theatre, entre outros. O meu pai é instrumentista de sopro e com ele aprendi a tocar e apreciar o som da flauta. Entre todos esses estilos, considero que, além do Planet Hemp, que foi a banda que fui realmente fã na adolescência, minhas influências mais fortes são Nina Simone, Erykah Badu, Lauryn Hill, B Negão, Black Alien, Speed Freaks e MV Hemp.

Também estiveste em palco com o Gabriel, o Pensador. Como é que isso aconteceu? Imagino que sejas uma grande fã dele.

Fui indicada pelo Udi, guitarrista dele que me conheceu através do Tommaso, um dos meus melhores amigos, que é também produtor do Digital Dubs, maior e mais antigo soundsystem do Rio de Janeiro. O Gabriel sempre abre espaço para freestyle no concerto dele.

Quais é que achas que são as principais diferenças entre o rap feito no Brasil e no rap feito em Portugal?

Acho que o rap tem uma energia muito parecida ao redor do mundo e o que determina essa variação são os hábitos culturais de cada sociedade, então o que posso dizer é que o rap brasileiro me parece mais presente nas ruas, enquanto que em Portugal ele fica mais à porta fechada, o que não significa que não o encontramos por aí em uma esquina ao ritmo do beatbox – e é disso que eu gosto.

O que é que vem a seguir a este single? Mixtape, EP ou álbum?

Alguns trabalhos estão em andamento neste momento. A continuidade do meu trabalho solo que é o álbum Pós-Guerra, uma participação na mixtape Hellas, uma produção protagonizada por mulheres, e o álbum dos Turistas de Guerra, grupo do qual faço parte e que é composto por mais três MCs brasileiros que vivem em Londres, Bocão, Mano Lipe e Folizz.