Mucho Flow 2018: um vaivém da música contemporânea

[TEXTO] Rui Correia [FOTOS] Bruno Carreira 

Na viagem do Porto para Guimarães, feita de comboio, as pessoas dispostas (e bem-dispostas) ao nosso lado, discutem entre si sobre as suas experiências relativas a más práticas do público em concertos: “Sou pequenina, imagina alguém à minha frente, para além de ser mais alto, passar grande parte do seu tempo a filmar o concerto! Naturalmente, chamei logo à atenção”, comenta um dos elementos do grupo. “Quero ter uma experiência única, vivida no momento. Na realidade, o falatório constante de pessoas desinteressadas, um mar de braços no ar a captar selfies e vídeos, desconcentram e destroem por completo a intenção do espectáculo. Gasta-se dinheiro, actualmente, para ver o concerto mais tarde?”, parafraseando outro dos visados. É necessário saber o contexto, algo que não fica inteiramente claro. Permanecemos no nosso canto, como meros espectadores, com expectativa acrescida para imergir na experiência musical que nos aguarda e, talvez, com possibilidade de provar que há excepções a uma regra que se parece verificar cada vez mais.

Chegámos cedo ao CAAA — local envolto numa paisagem industrial onde decorre o Mucho Flow — e acompanhámos as movimentações do staff, que ultimava os retoques para que se desse início à sexta edição do festival vimaranense. Eram ainda poucas e tímidas as pessoas que se encontravam para ver o primeiro concerto do dia. Vaiapraia e as Rainhas do Baile – em alteração de horário com Huggs — tocaram no palco noc noc, exterior e de acesso livre, e souberam como marcar as pessoas nas entrelinhas do punk: “Nós somos como as baratas. Se nos calcam, vêm logo 1000 bichas”. A banda deu-nos o alento para ir perceber o Mucho Flow no contexto do Guimarães noc noc.

 



Calcorreámos as ruas até ao centro de Guimarães para visitar vários espaços históricos e emblemáticos da cidade, oportunidade rara que este ciclo itinerante de artes possibilita durante três dias. São centenas de trabalhos expostos, em dezenas de locais embelezados pela pintura, fotografia ou performances musicais. Ao contrário do Mucho Flow, não existe no noc noc uma curadoria tão elaborada. O que se verifica é uma facilitação em integrar todos os que se queiram mostrar à população. Na aleatoriedade de eventos com que nos vamos cruzando, a determinado ponto do  percurso, fomos cativados pelo que se ouvia dentro do bar Oub’Lá. Os Melífluo, grupo do Porto guiado pelo “conceito de libido, como reflexo de energia, como medidor de expressão humana”, foram uma inesperada e bela surpresa a meio da tarde. Spoken word intercalada pelas perspectivas masculina e feminina, sintonizada ao sabor do jazz, rock, trip hop ou do que mais conviesse às suas histórias. Sobre a libido: reparámos que era uma temática presente em várias vertentes artísticas espalhadas pelo evento. Uma feliz coincidência.

A proximidade entre os vários pontos da cidade é uma grande vantagem. No palco Revolve, ouviram-se projectos que jogam no campeonato rock. Os estreantes em terras lusas foram os DITZ, banda que faz lembrar o som aguerrido de METZ ou Girl Band (grupo que actuou no Mucho Flow em 2015). No palco Super Bock, a aposta foi feita no alternativo e na diferenciação entre estilos musicais. Por lá ouviu-se em primeiro lugar a delicadeza de Hilary Woods com a sua comovente voz e jornada ambiental, num registo minimal e ainda mais despido do que se percepciona no álbum de estreia Colt.

Entre as duas salas onde estão montados os palcos, não há interferências e nada se atropela ou sobrepõe, público e música. Completam-se vaivéns musicais, com cada estilo a providenciar viagens imaginadas a diferentes universos. Fazem-se intervalos que dão tempo para assimilar e discutir “achismos” na companhia de amigos e desconhecidos ou para aprofundar o discurso sobre o que foi visto e o que se seguirá. Num lado ouço “gosto de vir sem saber quem actua”, no outro alguém diz “confirma-se o que esperava”. Aqui, as pessoas até podem vir ao acaso, puxadas por amigos ou com conhecimento de causa, mas a atenção é total em ambos os casos. A escala a que se produz o festival — contam-se entre 300 a 400 pessoas — também ajuda a esse facto.

 



Ao início da noite, e com um público mais numeroso, os FIRE! libertaram a fúria instrumental que têm dentro de si. O grupo sueco que se apresenta num formato trio, composto por saxofone/sintetizador, baixo e bateria, revela uma fome animalesca que se traduz num som experimental e que se constrói por impulso. O caos aparente causado pelo jazz é mais controlado do que se pensa, principalmente, quando terminam o set com uma toada stoner rock, lembrando a colaboração de Black Bombaim & Peter Brotzmann. Seguir-se-ia uma experiência única e onírica. SKY H1, a produtora belga que actuava pela primeira vez em Portugal, fez da fluidez o seu maior atributo. A entrada deu-se com uma electrónica fantasmagórica, com alguns samples vocais a evocar Burial. Falo de um som que paira no ar, que atrai sentimentos nostálgicos. Minimal e avessa a batidas, a artista foi ocupando o espaço da sala com composições emotivas, capazes de colocar o público em transe. O seu último EP Motion foi editado pela PAN, editora de Berlim, reconhecida pelas suas brilhantes edições exploratórias e extra-sensoriais. De lá ouvem-se trabalhos de Yves Tumor, M.E.S.H. ou Objekt, referências que chegam a ter influência em projectos nacionais como os Ermo. Valerá por isso, e muito mais, atentar à “fonte” que nos brindou SKY H1 no Mucho Flow.

Até chegarmos a GAIKA, um dos grandes destaques do cartaz deste ano, passámos ainda pelo concerto acutilante dos black midi. Jovens, muito jovens e praticamente desconhecidos, montaram um espectáculo refrescante de math rock e post-punk, com uma energia inesgotável. Ressalvamos o momento em que um dos guitarristas utiliza o seu smartphone “colado” à guitarra para transmitir um sample de voz. Inventivos, como nos explicavam no folheto informativo, não haja dúvidas.

 



Por esta altura, as salas enchem-se rapidamente e as temperaturas sobem ainda mais. A coqueluche britânica aparece em palco imponente, apenas com um colega carregador de play atrás de si (quando até uma função tão simples falha…). GAIKA, vem de Brixton, Londres, carregado de histórias sobre gentrificação, violência sistémica e os mais variados temas focados na experiência dos imigrantes. Basic Volume, o seu álbum de estreia lançado pela Warp, contém alguns dos beats mais viscerais de 2018, como é o caso de “Immigrant Sons (Pesos & Gas)”, produzido pela escocesa SOPHIE e Aart. Foi também um dos momentos altos ao longo de um concerto que se focou no disco e no seu conceito. As músicas, que se alastram a partir do palco, têm um conteúdo difícil de digerir, de teor altamente social e político. Ao mesmo tempo, as letras vão sendo declamadas e cantadas sempre no registo dancehall, evocando as suas raízes jamaicanas. Uma contradição bem explicada pelos IDLES, que defendem a “felicidade como acto de resistência” e que pode abanar as fundações de preconceitos e verdades infundadas. Seguindo essa filosofia, GAIKA apresenta-se como um artista de qualidade rara no panorama actual, com encaixe completo do puzzle que representa o som e a vida de Londres. Pela via da diversão, artista e público vibram e saltam juntos, enquanto se tenta decifrar as vozes que nem sempre soam perceptíveis.

Mais uma volta. Agora é a vez da banda espanhola MOURN, que começa em inglês e finaliza o certame rock do festival a comunicar na língua nativa com o público. “Habla en español!”, um espectador lança o repto que estaria no pensamento de tantos outros. Não há razão para formalismos, todos se entendem e é como estivessem a tocar em casa. A performance é eficaz, é intensa e muito apreciada por todos. O grupo aponta já a voos mais altos.

Os concertos acabaram e pela madrugada a dentro ainda se anunciam os DJ sets de Nídia e DJ Lynce. O público agora quer é dança e uma noite Príncipe, encabeçada neste caso por Nídia, providencia-a. A produtora é uma das mais influentes e requisitadas à escala global. Na sua curta carreira, já contribuiu para um dos discos mais aclamados de 2017: falo de Plunge de Fever Ray, para além de remisturas de músicas de Kelela ou a Elza Soares. Não, não estou a esquecer o memorável disco de estreia Nídia É Má, Nídia É Fudida, que condensa todo o seu potencial criativo.

O house casa-se com a intempestividade dos ritmos africanos e faz qualquer pessoa libertar-se em frenesim. Abanam-se os leques, abanam-se os esqueletos, abanam-se as fundações do CAAA. Ao longo do seu set, Nídia sabe que o povo está seguro e joga a cartada da ironia. “Ninguém foge…”, desafia através de um sample. Por momentos ouve-se “In My Feelings” de Drake (maldito sejas!), a passada fica lenta para tarraxar, até que a dinâmica chega ao pináculo da festa já na recta final. “Nídia é má”, “Nídia é fudida!” atiram artista e público em troca de galhardetes na despedida.

DJ Lynce segue-se e fecha a longa jornada do Mucho Flow que juntou onze artistas dos mais variados contextos sonoros. Seis anos da existência do Mucho Flow é sinónimo dos seis anos da sua participação nele. Munido pelos vinis mais obscuros das culturas e sub-culturas urbanas, a colecção com que se apresenta é idiossincrática, no mínimo. Se o quisessem ver iluminado, poderiam tê-lo procurado por Barcelos, no Milhões de Festa ou por Viana do Castelo, no NEOPOP. Em Guimarães, as luzes apagam-se a pedido do DJ para que a viagem sonora se faça para bem longe, a apontar às galáxias onde habitam seres inteligíveis e de memória inabalável, onde a comunicação se faz com ritmos acelerados e ambientes cavernosos. Lord of the D ou Volruptus são alguns desses seres longínquos que habitam na selecção cuidadosa do portuense DJ Lynce.

Na ida para casa, os joelhos e os pés estão gastos, mas a mente já sonha com o que ouviremos em 2020…

 


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