Mr. Fingers // Cerebral Hemispheres

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Larry Heard é um dos grandes, um pioneiro que a partir do original impulso house de Chicago em meados dos anos 80 – o seu clássico “Mystery of Love” saiu em 1985, três décadas antes de Kanye West usar a sua linha de baixo para “Fade”… – ousou projectar um futuro em que as máquinas, sintetizadores e caixas de ritmos, sobretudo, serviram como pulsantes extensões de uma imaginação sintonizada com o espaço exótico, tanto o sideral como o tropical.

Agora, quase um quarto de século volvido sobre Back to Love, a sua última criação de fôlego enquanto Mr. Fingers, Heard regressa com uma aventura noutro espaço, o interior que se aloja no nosso cérebro: Cerebral Hemispheres é um duplo CD (triplo LP…) que sucede ao EP Outer Acid de 2016 (e que expande todas as suas quatro faixas, com oportunos retoques de produção) e que reintroduz Larry Heard ao mundo como autor de sofisticadas derivas de pista de dança ou de reinvenções r&b de combustão lenta.

O jazz, a suavidade sofisticada da soul, o pulsar primal do techno, a gestão do espaço aprendida nos silêncios dos discos de dub, as texturas cósmicas de algum krautrock, a ambiência cristalina da new age e claro a vertigem rítmica do house e do techno são as principais coordenadas por que se espraia o pensamento musical de Heard e que se sentem nas camadas mais expostas ou pelo menos nas entrelinhas deste novo álbum.

Em 2016, aquando da edição de Outer Acid e a propósito da atenção naturalmente dispensada à sua discografia clássica depois do carimbo de aprovação que lhe valeu o sample em “Fade”, o tema que serviu de ponto final no alinhamento de The Life of Pablo de Kanye West, Larry Heard explicava à Billboard que nos seus arquivos existia também muito material com inclinações hip hop ou r&b, experiências laboratoriais conduzidas a partir do estímulo que, na década de 90 e primeiros anos anos deste milénio, a ubiquidade de nomes como Brandy ou Timbaland inspirava.

Nessa mesma entrevista há também uma breve, mas reveladora, menção a uma aventada, mas nunca concretizada colaboração com Sade, a deusa maior da soul quiet storm que marcou os anos 80 com clássicos incontornáveis como Diamond LifePromise ou Stronger Than Pride. O encontro em estúdio nunca chegou a suceder devido ao veto da editora à intenção da artista, o que não significa que pelo menos num dos seus hemisférios cerebrais Larry Heard não tenha procurado responder à inevitável pergunta “e se…?” já que várias das mais tranquilas passagens do seu novo álbum podem perfeitamente resultar de um investimento nessa gorada possibilidade de trabalho com a voz de “Sweetest Taboo”: “Urbane Sunset” ou até a belíssima “A Day in Portugal” poderiam ter envolvido a voz da diva. As sofisticadas camadas de verniz digital aplicadas em boa parte do lado mais relaxado de Cerebral Hemispheres são garantia clara de como poderia ter sido mágico o encontro, caso tivesse tido lugar. O que não significa que fiquemos mal servidos com os próprios préstimos vocais de Larry Heard, que em temas como “Crying Over You” clarifica os seus dotes de escritor de canções, pelo menos tão fortes quanto os de construtor de mais abstractas paisagens instrumentais.

A segunda parte do álbum, inaugurada precisamente com o tema que lhe dá título, investe por caminhos mais declaradamente rítmicos, mantendo o centro da pista como objectivo primeiro. Mas é a partir de “Electron” que a paisagem muda: mais pulsante, menos “orgânico”, mais electrónico, menos “soulful”, mais “abstracto” e menos atmosferico, o trabalho nesta segunda parte do álbum parece ecoar o lado mais experimental de Mr. Fingers cuja música sempre funcionou de facto como uma ponte que unia de forma sónica as tradições da sua Chicago natal e da mais distante Detroit que nunca esteve, ainda assim, muito afastada do seu apurado radar.

De certa maneira, os dois “hemisférios” aqui representados podem igualmente ser lidos como os que separam os trabalhos assinados como Larry Heard – mais jazzy, mais acetinados, mais atmosféricos – e os que carimbou como Mr. Fingers – declaradamente mais orientados para a pista, mais “ácidos”, mais imediatos. “Outer Acid”, um dos temas do ep de 2016 retrabalhados para este álbum, soa como a banda sonora de um filme de detectives passado algures numa distante galáxia, com o delicado equilíbrio conseguido entre o repetitivo motivo ácido de uma 303 e o cristal melódico dos synths a garantir a beleza alienígena do tema o que acaba, aliás, por ser uma fórmula de contrastes usada noutros momentos.

Não há nada de errado em Cerebral Hemispheres se descontarmos o facto de nada aqui soar a novo ou a gesto de ruptura, mas também não seria lícito esperar isso de alguém como Larry “Mr. Fingers” Heard. O importante é que nas suas mãos a matéria primordial do house continua a soar vibrante e urgente e sofisticada, clamando por pistas bem equipadas com sistemas de som de qulidade ou por auscultadores capazes de revelar todos os detalhes de que a sua música se faz, com cada um dos dos sons a soar como se tivesse sobrevivido a uma longa ponderação sobre o seu carácter tímbrico. E a música aqui incluída faz-se, sobretudo, de uma prodigiosa imaginação e de uma invulgar capacidade musical, com arranjos de uma precisão geométrica a toda a prova. Mais do que suficiente para justificar a vénia.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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