Moullinex sobre House Of Hypersex: “É arte completa. Arte total”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Manuel Abelho

Moullinex está de regresso a Portugal depois de uma série de datas fora de portas. Lisboa está agora novamente na mira do músico da Discotexas, que prepara um grande evento em nome próprio, um ano após a festa de apresentação de Hypersex no MAAT. Quarta-feira (dia 31 de Outubro), no Capitólio, abrem-se as portas para House Of Hypersex, um evento que procura celebrar a “arte total” — música, dança, moda, artes visuais ou plásticas cruzam-se numa festa que presta homenagem à cultura ballroom de Nova Iorque. HAI, MEERA e Xinobi acompanham-no no alinhamento, no qual cabe também uma competição entre o público que adere aos dress codes propostos para cada categoria em jogo — Casa dos Segredos, Voguing, Vilões da Disney, Undead Divas, Avant-Human e Normcore.

Na bagagem de Moullinex para a sua actuação no Capitólio está Hypersex, o disco que editou em 2017 e que contou com participações de Georgia Anne Muldrow, Da Chick, Marta Ren ou Best Youth. Um ano após a edição original, Moullinex abriu as portas do LP para que outros músicos pudessem recriar alguns dos seus temas, uma prática habitual na sequência dos seus últimos lançamentos pela Discotexas. Algumas das novas versões estarão, certamente, em destaque neste arranque de House Of Hypersex, uma curadoria que o músico admite querer que “continue para lá desta festa e que hajam mais edições deste encontro,” permitindo assim “descentralizar” o evento que vive de um espírito fortemente acolhedor.

 



Tu vens de uma série de datas no estrangeiro. Tens sentido que o disco também está a ser bem recebido lá fora?

Sim. Melhor até do que eu poderia esperar. E até traçámos objectivos ambiciosos para este disco. Felizmente tem corrido muito bem. Desde que saiu, em Outubro do ano passado, tenho tocado tanto ao vivo, com banda, como só eu, em DJ set, um pouco por todo o lado. A perspectiva é continuar e estou muito feliz.

Dos sítios onde actuaste fora de Portugal, qual foi o local onde sentiste uma melhor empatia com o público? Ao ponto de, se calhar, até teres gente na fila da frente da plateia a entoar as tuas letras.

De uma forma geral, na América Latina — México, Colômbia — corre sempre bem. As pessoas, efectivamente, conhecem bem o disco. É engraçado porque, se fores ver as estatísticas do Spotify, Portugal aparece em oitavo. A seguir ao Estados Unidos da América e ao Reino Unido aparecem México e Colômbia. É bué engraçado e eu não consigo justificá-lo de uma forma racional. A verdade é que sou sempre muito bem recebido e até vou voltar em Novembro ao México. Estou ansioso.

Foram actuações em nome próprio ou no âmbito de festivais?

As últimas foram em nome próprio, sim. No México e Colômbia foi em nome próprio. Fizemos alguns festivais na Europa. Estivemos agora no MoMA, em Paris, no Low Festival, em Benidorm. Neste último abrimos para Chemical Brothers, que foi assim uma efeméride. [risos] Mas tem sido 50/50. Eu gosto de festivais porque nos conseguimos expor a um público que não nos conhece necessariamente. Mas os shows dedicados também têm sempre outro sabor.

Agora regressaste a Portugal e preparas uma grande festa no Capitólio. Fala-me sobre este conceito de House Of Hypersex.

Esta ideia de comunidade vem desde a génese deste disco. Para mim, foi muito importante abrir as portas e utilizar o disco como uma casa aberta. O “Open House” até foi o primeiro single. Foi uma casa aberta que conseguiu receber pessoas diferentes, com sensibilidades diferentes, para as deixar à vontade de fazerem aquilo que quisessem na minha casa. Foi o que aconteceu, desde os músicos com quem trabalhei aos cantores convidados, dos instrumentistas aos artistas plásticos, do Braulio Amado, que fez a capa do disco, aos realizadores, coreógrafos, performers… Tem sido essa a vontade. Então gostaria que esta ideia de comunidade fosse para lá do álbum. Piscámos o olho às houses da cultura ballroom de Nova Iorque, dos anos 80, que têm um papel social e político muito importante ao acolherem as pessoas que se encontravam na rua e, se calhar, não tinham uma comunidade que as incluísse. O objectivo desta House Of Hypersex é criar um local onde possam reunir-se pessoas com sensibilidades diferentes, mas todos com a vontade de fazer alguma coisa. Seja música, performance, artes visuais, moda… Para mim, é muito importante esta ideia e acho que já nem consigo fazer nada que não tenha este tipo de manifestações todas que vão para lá da música. Eu gosto imenso de também expor a música a outras pessoas que não vêm da música, que mexem nela e a vêem de forma diferente, que a ilustram de forma diferente. Isso para mim é muito importante. É arte completa. Arte total.

Eu vi a notícia do evento a ser partilhada por alguns meios de comunicação, que apontaram a festa de quarta-feira como a primeira edição de uma série de curadorias que vais organizar com o mote House Of Hypersex. Confirmas?

Eu quero que a House Of Hypersex continue para lá desta festa e que hajam mais edições deste encontro. Aproveitámos o pretexto do Halloween para organizar a primeira, que vai convencer mais pessoas a mascararem-se e a vestirem as roupas que quiserem vestir. E queremos que hajam mais edições. O que começámos em Outubro de 2017, no MAAT, foi também para lá do conceito de concerto, com DJ sets, performances, exposição… Agrada-me especialmente esta coisa de verter aquilo que é a ideia de um concerto. Um DJ set é mais participativo do que um concerto, na medida em que o DJ está preocupado com o alinhamento para o público — é um diálogo. E eu gosto de transpor essa ideia para um concerto, em que o público tenha oportunidade de participar mais, em vez de ser uma coisa unidirecional do género “estou aqui, entretenham-me se fazem favor.” Gosto dessa ideia de criar uma comunidade na própria pista de dança e na sala de concertos. Foi isso que começámos a fazer no MAAT. Utilizámos vários subterfúgios para o fazer. E, desta vez, vamos fazê-lo ainda mais a sério. Vamos receber as pessoas à entrada do evento com uma chroma key. Antigamente tínhamos isso em palco mas agora vamos tê-lo também no público. A ideia é convidar toda a gente que participa no evento a ser filmada, para que, depois, essa imagens que captamos sejam utilizadas não só nesse concerto mas em todas as edições da House Of Hypersex e dos concertos de Moullinex que aconteçam no futuro.

Tens alguma noção da regularidade com que vão acontecer essas festas?

Para já, interessa-me descentralizar. Começar em Lisboa mas saltar para fora de Lisboa o mais rapidamente possível. Porque, não sendo eu de Lisboa, tenho essa necessidade intrínseca de descentralização. Mas não temos um plano regular. Não é para ser regular. Sempre que existir um bom pretexto para fazer mais uma vamos fazê-la.

Explica-me em que é que consiste o “ballroom competition” que estás a promover nesta primeira edição.

Como eu te expliquei antes, o ballroom é uma sub-cultura que aconteceu em Nova Iorque, em que conflui o breakdance, o disco, o início do house, a moda, o início de várias correntes da cultura LGBT, cultura drag, etc. É um ponto na história em que estas coisas se juntam todas. As pessoas têm uma necessidade de se exprimir artisticamente e subverter o que é a ideia de dança, a ideia de transformismo, a ideia de passerelle. No fundo, esta comunidade que existia em Nova Iorque juntava-se com alguma regularidade e competia em diversas categorias, que poderiam ser a dança — especificamente o voguing, que surgiu aí também —, o encarnar diferentes personagens — o tema podia ser militar e as pessoas vestiam-se o mais militar que conseguissem ser. Então, para nós, fazia sentido lançar esta comunidade de gente, que é também uma óptima oportunidade para as pessoas se manifestarem ao nível da moda, dança, performance, e para a qual criámos categorias adaptadas à nossa realidade.

Já as têm definidas? Qualquer pessoa do público se pode inscrever de forma espontânea ou existe uma espécie de registo?

Eu gostava que fosse espontâneo mas, como já estamos a receber muitas inscrições, vamos tentar que seja só por inscrição. Se nos conseguimos adaptar no próprio local à participação de mais gente, ainda melhor. As categorias são: Casa dos Segredos, Voguing, Vilões da Disney, Undead Divas, Avant-Human e Normcore. Este último um “normal” levado ao extremo. [risos]

Algumas delas bem a condizer com o espírito do Halloween.

Sim, claro. Aproveitámos o pretexto da data. Provavelmente podemos fazer caretos e outro tipo de coisas relacionadas com o Carnaval, em Fevereiro…

Tu editaste o Hypersex há um ano e, quando o apresentaste no MAAT, lembro-me que aproveitaste o acontecimento para apresentar uma fanzine. Esse projecto mantém-se activo? Não me lembro de ter ouvido falar numa segunda edição.

A ideia é fazermos uma segunda edição agora por esta altura.

A regularidade é, portanto, anual?

Sem compromisso. A verdade é que, por muita vontade que eu tenha de que as coisas que criamos — e digo-te isto no plural porque, se não fosse a equipa de pessoas com as quais trabalhamos, nem um décimo disto seria possível — tenham continuidade, somos uma equipa pequena e desdobramos-nos em muita coisa. Por mais que eu gostasse que a fanzine tivesse mais edições, só nos permitimos fazer uma até agora.

 

 



Começámos a conversa a falar dos espectáculos lá fora. Também me disseste que Portugal estava em oitavo lugar na lista dos países que te ouvem no Spotify. Agora que te preparas para apresentar o Hypersex novamente “em casa”, que memórias guardas da primeira digressão nacional e do feedback que recebeste face ao álbum vindo do público português?

Eu gosto de álbuns. Apesar de vir da música house, em que as edições são muito orientadas para o maxi, para as músicas soltas, gosto muito de álbuns e cresci a ouvir álbuns. Gosto da ideia de poderes fechar um período da tua vida numa fotografia, que é um álbum. Isto para te dizer que este disco superou muito a lógica daquilo que eu esperava que um álbum conseguisse. Hoje em dia as pessoas ouvem um álbum e “siga para o próximo, já não é novidade.” Isso não se tem verificado com este. Desde que o disco saiu, fechámos, por exemplo, o palco do Mexefest no Coliseu dos Recreios, um dos palcos principais do Primavera Sound, um dos palcos principais do Rock In Rio… Isto foi, para já, um voto de confiança gigante por parte dos promotores e está alinhado numa coisa que me deixa muito feliz: há uma confluência de público, media, agentes promotores e salas de espectáculo, no sentido de dar, não diria privilégio mas, pelo menos, o mesmo lugar à música portuguesa que se dá à música internacional. Sinto-me muito feliz por estar a viver neste momento e que confiam em mim e no nosso espectáculo. A verdade é que muito rapidamente se concretizaram estas coisas. Há certos palcos, como o Coliseu, em que uma pessoa, quando entra como público, sonha em lá tocar. Quando isso se concretiza é especial. Nós também procuramos sempre responder à altura desses desafios com o melhor espectáculo que conseguimos dar e é isso que esta equipa tem como característica: quando eu lhes faço um desafio, eles respondem-me com um maior ainda e estamos assim a puxar uns pelos outros.

De que forma vai diferir a tua apresentação no House Of Hypersex das outras que já fizeste?

Vou ter muitos convidados — os suspeitos do costume e alguns mais difíceis de ter, porque não estão cá. Mas não quero desvirtuar a ideia do drag show que temos no próprio espectáculo, que consiste em que muitos dos convidados, que não estão presentes, sejam representados por um drag show do Ghettoven. Ele vai estar a fazer lip sync assumido, não é para enganar ninguém. Não desvirtuando esse conceito, vamos também ter alguns convidados. Aproveitei o pretexto para aumentar a banda com alguns músicos com os quais já trabalhei em concertos esporádicos. A banda vai aparecer reforçada.

Quanto aos músicos que escolheste para preencher o resto do evento: MEERA e Xinobi, tal como tu, também representam a Discotexas. Como é que surge a hipótese da HAI também fazer parte do alinhamento?

Ela tem uma sensibilidade especial para aquilo que é a pista de dança. Os DJs que eu mais admiro têm essa capacidade de criar uma narrativa acima da música que me agrada muito. Da lista de pessoas que eu pensei, no topo estavam, além da HAI, o Daniele Baldelli, que não estava disponível para essa data, entre outras hipóteses. A verdade é que, quando me dei conta, aquilo que estas pessoas têm em comum é a capacidade de contarem uma história. Nos melhores DJ sets eu acho que acontece isto: nós saímos diferentes do que quando entrámos. Isso é o que eu mais gosto, a capacidade de o DJ ser um contador de histórias. A HAI tem isso. E agrada-me também o facto de ver uma miúda a passar malhas pesadas, techno mais pesado, com uma orientação própria e uma história para contar.

Há pouco falaste-me no conceito de “casa aberta”, que se estende desde o teu álbum até este House Of Hypersex. Recentemente editaste as remisturas do teu disco — uma fórmula que tens mantido — permitindo a que outras pessoas pudessem pegar na “planta” da tua casa e acrescentar-lhe divisões novas.

É por aí. Eu gosto muito das remisturas. É quase como se fosse uma profecia auto-cumprida em relação a esta coisa da colaboração. Porque eu sou muito apegado ao processo, não entrego os meus temas a ninguém para os misturar. E eu tenho a certeza que provavelmente iriam fazer um melhor trabalho que eu, mas há uma parte de mim que quer superar-se a aprender no processo. É muito importante o processo, que é o que me dá mais gozo. Como me apego muito aos temas, também é um exercício de libertação, o entregar as pistas a alguém em quem confio para fazerem o que quiserem. Depois, ouvir o resultado e pensar “fogo, no meu tema não dei tanto destaque a esta flauta ou este baixo.” E a outra pessoa fez o tema todo à volta daquele elemento e é tão bom sentir que daria para fazer um tema por ali. Neste EP de remisturas está um conjunto de pessoas muito díspar. Estão desde pessoas que admiro, como o Yuksek, que faz música há imenso tempo e que se soube sempre reinventar. Foi bom podermos ter trabalhado juntos numa remistura. O outro extremo é ter um tema remisturado pelo Guilherme Salgueiro, que assina o remix do “Daydream” como Yanagui, o primeiro tema dele, em que a cena beat de Los Angeles encontra o groove. Inspira-me muito. O Gui é um óptimo produtor e tem muitas mais coisas para mostrar. Estou também muito orgulhoso que a Discotexas e este EP tenham servido como casa para pessoas como ele editarem.

Foi tudo feito sem a tua ajuda ou existiram casos em que a remistura também levou algum input adicional da tua parte?

Eu dei o disco às pessoas que gostava que remisturassem e deixei-as escolherem o tema. Nem foi “tu ficas com este, ele fica com aquele…” Se calhar tinha um tema para o qual haviam três interessados e eu pedi para escolherem outro, porque queria também essa diversidade. Mas procurei não acompanhar muito. Dei feedback apenas a quem mo pediu. Talvez tenha dado uns toques na mistura aqui e ali. A do Mr. Mitsuhirado é também um primeiro tema, que é do Hugo Moutinho, que nos acompanha na Discotexas há anos. Estou farto de a tocar nos meus sets, funciona super bem. Contra mim falo: venho do house e toco como DJ, mas quando estou a fazer um tema esqueço-me — ou saboto-me — porque não faço intros e outros agradáveis para DJs. Nem sempre são fáceis de tocar. A “Love Love Love” não só vive como peça de música como também de ferramenta muito útil para DJ sets. Envolvi-me na produção dessa remistura com a direcção do Hugo. Fui apenas engenheiro de som do Hugo, neste caso.

Foste tu que escolheste todos os nomes que remixaram ou tiveste casos de malta que te abordou a perguntar se poderia também contribuir com uma nova versão?

Tive pedidos também, sim. Como foi o caso do Guilherme, Romance Orchestra, MEERA. Achei que era especialmente bom para os MEERA porque são novos elementos da editora e fazia todo o sentido abrir-lhes a porta desta forma. Da mesma maneira que quis dar-lhes o slot de abertura para o House Of Hypersex.

Para os MEERA esse foi o segundo tema editado, certo?

Não. Eles editaram uma remistura de NERD não oficial do “She Wants To Move”. Se não estou enganado, esta remistura é a terceira edição. E está prestes a sair o “Little Of Your Time”, que é o próximo single deles.

Estas remisturas, tu também as aproveitas para tocar ao vivo ou servem apenas para editar e usar em DJ sets?

Servem para tudo. Aliás, nós tocamos um remix muito antigo do Lorenz Rhode para um tema meu que é o “Superman”. Tocamo-la ao vivo e fazemos isso com outras remisturas às vezes, porque confesso que gosto mais de tocar a versão dos outros do que a minha.

Para terminar: eu por acaso não apanhei isso no Instagram, mas falaram-me de uma story em que surges no estúdio com o Holly, Dino d’Santiago, Papillon e o Slow J. Andam a preparar alguma coisa? Estás a dar-lhes algum tipo de apoio na produção dos seus próximos projectos?

É sem compromisso algum. O Holly tem uma coisa fantástica que é o ser um aglutinador de pessoas. Ele vai buscar pessoas mais veteranas e mais novas e junta-as ali. Gosto imenso dele enquanto ser humano e enquanto produtor também acho que é fantástico. Ele desafiou-nos. A última vez que tinha estado com ele tinha sido em Los Angeles. “Bora aí trabalhar juntos. Estão cá o Slow J, o Dino, o Fumaxa. Vamos embora.” Fizemos uma sessão espontânea em que tivemos dois terços do tempo à conversa. E digo isto como sendo uma coisa boa, porque tive uma ligação humana com estas pessoas que já conhecia do meio, mas nem sempre é fácil conseguirmos ter tempo para uma conversa longa. Foi uma ligação humana tão rápida e tão forte que, depois, a música que saiu identifico-me muito com ela. Até tenho voltado a trabalhar com alguns deles mas sempre sem compromisso. Eu estou sempre a compor. Tenho músicas nas quais estou a trabalhar e se são para um projecto meu ou deles, isso ainda não sei.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira