Moullinex: “Há uma idade em que saímos, bebemos uns copos, apaixonamo-nos e percebemos porque é que as pessoas dançam”

[TEXTO] Bruno Martins [FOTOS] Nian Canard

Filho da década de 1980, Luís Clara Gomes é uma das maiores referências do universo da música electrónica portuguesa. Ele é uma espécie de CEO na editora Discotexas, selo criado em 2007 na senda das festas que um colectivo de DJs de vários pontos do País começou a fazer, de Norte a Sul, com especial incidência no eixo Viseu-Lisboa-Porto. “Em Viseu não havia muitos sítios que passassem a música que eu e os meus amigos queríamos ouvir, então decidimos criar um colectivo de DJs só para tocar essa música, sem pretensão de ser DJs”, explica Luís Clara Gomes, aka Moullinex, que, juntamente com os seus amigos, cruzavam nas “pistas” várias referências estilísticas, que iam do chamado indie à pura música electrónica.

A música feita por Moullinex sempre teve um olho no abanar de ancas, mesmo sendo – e apelando ao trocadilho fácil dos electrodomésticos – uma “mistura” de múltiplos fascínios e interesses. Nesta conversa que o músico e produtor teve com o Rimas e Batidas no seu estúdio ali para os lados da Praça do Chile – e que poderás descobrir mais a fundo em breve numa reportagem com o selo RBTV – Luís Clara Gomes há-de explicar as origens deste fascínio pelo trabalho de estúdio, a maior parte das vezes de forma solitária, como quando partiu para São João da Pesqueira, para a casa da sua avó, isolar-se a fazer Elsewhere, o seu último disco. Mas Moullinex não é só um “rato” de estúdio. Há também nele um enorme desejo de palco, de partilha, de enfrentar as multidões, muitas vezes a andar na corda-bamba – recordam-se do espectáculo que fez no Lux com a sua banda, em Dezembro, a recriar a música de Star Wars de John Williams? É nesta corda-bamba que Moullinex adora estar.

Este sábado, dia 5 de Março, Moullinex vai estar presente no Lisboa Dance Festival, que acontece em várias salas do LX Factory. Uma actuação mais controlada, na sua zona de conforto – com a sua música. A sua actuação, na sala Zoot, às 22h05, será a primeira de duas com o carimbo da Discotexas, a editora onde trabalha com os amigos Xinobi (que também toca mais cedo, às 20h55) e Mr Mitsuhirato.

 

Luís, antes de te dedicares a sério à música estudaste Engenharia Informática.

E cheguei a ser engenheiro! Fiz investigação em áreas mais díspares como Neurologia e Astronomia.

Então porquê a música?

Foi algo que sempre quis. O meu pai tinha um estúdio em casa – fazia e faz muita música para teatro e eu sempre vi como um processo muito solitário. Por isso ele acabou por recorrer à electrónica como auxílio à composição. O estúdio dele era um bocado inacessível: território sagrado porque podia estragar-se alguma coisa – sabes como é! – mas eu fiquei sempre com vontade de explorar aquilo por ser, talvez, o fruto proibido. Mal tive um computador, instalei um demo de uma coisa chamada Fruityloops. No outro dia a falar com o João Barbosa [Branko] que me disse o mesmo: que foi pelo Fruityloops que começou a fazer música. E atenção, hoje em dia há muitos produtores, muito bons, a usar, exclusivamente o Fruityloops. Na altura era a única coisa que o meu processador aguentava, só que eu tinha uma demo, que nem sequer dava para “salvar” os meus ficheiros. Então de manhã sentava-me, fazia uma música, compunha a estrutura toda, gravava para cassete e ficava assim. Não havia maneira de voltar atrás. Tinha amigos a fazer as mesmas coisas e íamos ouvindo as cassetes uns dos outros.

A ligação à produção de música electrónica vem dessas experiências solitárias e partilhadas?

Eu sempre quis fazer canções. Tinha uma guitarra, mas nunca conseguia fazer gravações porque não tinha como gravar bateria. Então comecei a explorar mais a música electrónica e também a descobri como ouvinte. Foi uma experiência o mais caótica possível. Quando percebi que tinha aberto a caixa de pandora, comecei a devorar tudo: de Aphex Twin a Tangerine Dream; passando por Squarepusher e Amon Tobin – por quem tive uma obsessão gigante – mas também Alva Noto, as coisas mais synths do Klaus Schulze… até àquelas bandas manhosas de nu metal que cruzavam guitarras de sete cordas com industrial, tipo Fear Factory. Tudo o que tivesse synths e programação agradava-me. Eu nasci em 1984 e isso foi no final dos anos 90, numa altura em que a música de dança estava particularmente formatada. O pessoal que fazia coisas mais interessantes era mais experimental e mais downtempo, como o trip hop e outras que saíam do reino unido. A música de dança não me interessava particularmente.


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Moullinex ao vivo no Lux, em Dezembro, durante o concerto em que recriou para a pista as músicas de “Star Wars” do compositor John Williams – Foto: DR/YouTube Discotexas


Eras mais apanhado pelos processos de criação do que propriamente pelas melodias?

Os processos e os resultados: na altura era tudo formatado ao 4/4, um bocado como a música electrónica de hoje em dia me soa – o EDM – era como me soava na altura as Whigfield, os Ace of Base ou Sash!. Aquele house tribal mais formatado também me irritava, não conseguia entender a música dos clubs. No Day After, uma discoteca gigantesca em Viseu que tinha muitas pistas em que tínhamos que passar pela principal até chegarmos à pista para onde queríamos ir – e que tocava mais indie e electrónica rock – estava um dia estava a passar pela principal e ouvi uma música de Mojo, chamada “Lady”, que tem uma linha de baixo incrível. E fiquei: “isso é maravilhoso”. A vida às vezes prega-nos partidas musicais, porque descobri o house francês através de Mojo: andei para trás, verifiquei que já conhecia Daft Punk por causa de “Around The World” e outras. E no house francês encontrei gente que fazia coisas modernas, dançáveis, mas com uma bagagem de sampling e diggingin e conhecimento do passado que me abriu portas e me ligou tudo: o soul da Motwon, o funk de Parliament-Funkadelic, o house francês e o techno. Em poucos meses consegui fazer a ligação a tudo isso.

O hip hop do final da década de 80 e 90 também recorria muito a essas referências. Não te cruzaste com o hip hop?

O meu contacto com o hip hop foi mesmo através do hip hop português. O primeiro disco que comprei com o meu dinheiro – e ainda no outro dia estava a falar com o Carlão – foi a compilação Rapública. E o segundo foi o Dou-lhe com a Alma dos Da Weasel. Acho que isso teve mais que ver com a questão da língua: se a rima e o texto é tão importante no hip hop, prefiro perceber os problemas que estão a haver na Margem Sul – ressoam mais comigo, apesar de ser de Viseu – do que os problemas que acontecem em Brooklyn! Se bem que os Beastie Boys também tiveram a sua responsabilidade, mas porque vão muito ao rock – tal como os Da Weasel. Nessa altura era muito comum esse tipo de sampling com coisas mais rockeiras, com mais pêlo.

Avancemos uns anos: a ideia de criares, juntamente com o Xinobi, a Discotexas. A editora surge pouco tempo depois dessa altura em que andavas a atravessar as pistas do Day After?

(Risos) Acho que é mais tarde. Eu continuei a fazer música – ouvia muito este tipo de coisas, mas não as fazia. Explorava coisas mais rápidas, como algum jungle e drum ‘n’ bass por ser mais programado, menos repetitivo. Há uma idade em que saímos, bebemos uns copos, conhecemos uma miúda, apaixonamo-nos e percebemos porque é que as pessoas dançam (sorri). Há uma parte funcional desses géneros que não tira mérito nenhum à música. Da mesma forma que a música da Motown, Stax e Strictly Rythm servem uma função – pode-se ser supercriativo e ultrapassar os limites das coisas. Mas acho que senti uma espécie de elitismo que acontece a muita gente que vem do rock que olha para a electrónica como sendo muito quadrada – apesar de quem ouvir a electrónica pensa o mesmo: “o rock só tem três acordes e só falam do quão grande são os tomates”. É preciso calçar sempre calçar os sapatos das outras pessoas para se conseguir perceber as suas motivações em vez de se diminuir o esforço.

Mas ias falar-me da Discotexas.

Em Viseu não havia muitos sítios que passassem a música que eu e os meus amigos queríamos ouvir, então decidimos criar um colectivo de DJs só para tocar essa música, sem pretensão de ser DJs. Nesse processo comecei a fazer edits de músicas que gostava para tocar, como The Kills ou Bloc Party. Coisas meio indie. Lembrei-me de fazer, um dia, um edit de uma música dos [portugueses] The Vicious Five, na altura do MySpace, a “Bad Mirror”. Quem me respondeu do outro lado do MySpace foi o Bruno – Xinobi – que tocava guitarra na banda. E começámos ali a fazer um pingue-pongue de músicas porque ele estava a fazer mais ou menos as mesmas coisas que eu.

Apesar de estar numa banda de punk-rock, o Xinobi também já calçava os sapatos da electrónica.

Verdade. E ele é das pessoas mais responsáveis pelo meu crescimento. Primeiro porque é um bocadinho mais velho do que eu e segundo porque conseguia coexistir pacificamente com os dois mundos – e até mais! Hoje em dia é quase impensável para os miúdos haver tribos: nos anos 90, se fosses skater não eras biker; e se fosses surfista não eras bodyboarder… numa altura em que havia muito menos acesso a coisas, havia tribos; hoje em dia, que há muito mais acesso a coisas, já não faz sentido. Bom, começámos a fazer remixes, a pô-las online no MySpace e apareceram pedidos aqui e ali para ir tocar. A primeira vez que toquei em Lisboa foi no Mini-Mercado ou no Lux (numa noite chamada TPC, que era o Nuno Rosa que organizava e mostrava novos talentos). Mas a Discotexas surgiu porque fizemos uma festa em Viseu, organizada por esse colectivo de DJs a que chamámos Mecanismo Divino, em que convidámos o Xinobi para vir tocar a essa festa connosco. Um amigo nosso tinha uma crew de hip hop e, uma vez estávamos no café e ele a dizer-me uma letra de uma música dele: “a disco night vira disco fight; a discoteca vira discotexas”.



Isso foi apenas uma festa. Pelo meio andaste a morar por Munique, a crescer como artista, a conheceres novos produtores e a Discotexas cresceu e tornou-se uma editora.

Sim, também por causa disso juntaram-se a nós alguns DJs com quem tínhamos afinidades musicais. A música que estava a mover-nos muito conseguia cruzar esses géneros: coisas mais pesadas com a malta do groove e do funk, mais o techno e aquele dos ritmos das cinco da manhã. Acabámos por juntar estes DJs novos, amigos, debaixo de um chapéu para toda a gente. Eu e o Bruno estávamos a fazer originais, remixes, sem samples e por isso tentámos fazer uma editora, a focar-nos nas nossa música e a convidar pessoas fora com quem tínhamos afinidade. Nunca tivemos a pretensão de ser uma editora: ainda hoje o que fazemos não é para ser rentável, mas pela paixão de editar a nossa música e ajudar alguns amigos a editar as deles. Nos dias em que tivermos de nos preocupar com os resultados de vendas de uma editora, deixa de ter piada e de fazer sentido.

Paralelamente ao trabalho de manager aqui na Discotexas, és também produtor e tens trabalhado com múltiplos artistas: desde Da Chick até Throes + The Shine ou Carlão. Estabeleces diferenças entre aquilo que és como produtor e aquilo que és como músico?

Ser músico, hoje em dia, é ter os dois mundos, mas mais: ser marketeer, ser designer, advogado, contabilista… é preciso ter essas valências todas para conseguires sobressair no meio de todo o ruído que há à volta e de um attention span do público que é hoje de nano segundos. É raro haver segundas oportunidades e quando existem têm de ser aproveitadas porque terceira não há-de haver quase de certeza. Quando sou o produtor, acredito que estou a dar tanto como a receber. Por exemplo, quando gravei o disco dos Equations nunca tinha gravado baterias e queria ir para um estúdio onde o faziam muito bem, nos Estúdios Sá da Bandeira, no Porto. Fiz as coisas à antiga, a supervisionar tudo com um caderno de tarefas, mas estava a aprender muito sobre gravar baterias e acabei por incorporar todo esse processo na minha música. A produção não é algo que eu faça só para ajudar alguém a concretizar sons, é também o contrário: conseguir ver como é que as pessoas fazem bem e também eu conseguir vir a fazê-lo bem.

Conta-nos o que vem aí a seguir: já é público que estás a trabalhar com o Carlão no novo EP dele. Porque é que ele te convidou?

Disse-me que queria trabalhar com produtores novos e gostava muito do meu trabalho. E reconhecia que o facto de eu fazer música de dança podia não fazer sentido com a obra dele, mas queria experimentar na mesma. Perguntou-me se eu tinha algum beat parado. De facto tinha uma coisa parada, que não utilizei em Elsewhere porque não encontrei a voz certa e porque achava que deveriam ser rimas. Ele gostou muito e estou muito satisfeito com o resultado: eu sou um fã dele – e de Da wesael. Se falasses ao Luís de 13 anos que um dia ia estar a fazer uma música com o Carlão… (sorri) É alguém que marcou a minha música adolescência musicalmente.

E como Moullinex, apesar de o teu disco ser do ano passado, há ideias para novas canções?

Sim. Tem-me acontecido ter alguns fins-de-semana ter tempo para compor e tenho andado atrás da coisa de forma voraz e por isso tenho muita música nova. Durante o mês de Março vamos também um documentário sobre a digressão do ano passado e teremos também alguns concertos para apresentar esse doc. Além disso, tenho uma colaboração com um músico alemão chamado Lorenz Rhode e vamos terminar isso. E, claro, teremos a nova sub-label da Discotexas a partir de 18 de Março chamada Forbidden Cuts.



Bruno Martins

Sou jornalista desde 2003. O hobbie da música vem de garoto e há um bom par de anos que cruzo tudo em papéis. Tudo se mistura nesta mixtape cheia de scratches que é a vida.