Mother Earth’s Plantasia é “mediador” da relação entre Moullinex e Pernadas

[TEXTO] Francisco Couto [FOTOS] Ana Viotti

Em 1976, na cidade de Los Angeles, a loja Mother Earth oferecia um disco de edição limitada intitulado Plantasia, de Mort Garson, a cada pessoa que lá comprava uma planta interior, uma banda sonora inusitada que tinha sido feito com o propósito de ser escutado pelas plantas e pelas pessoas que as amam. Poucos foram os privilegiados que tiveram acesso a este álbum nessa era, o que rapidamente o transformou num álbum de culto (a par com o seu impacto na exploração do sintetizador Moog, o único instrumento utilizado na composição de todo o álbum), nunca chegando a atingir as massas. Em 2019, numa “parceria” entre a editora Sacred Bones, que reeditou o álbum, e o algoritmo do YouTube, este chegou finalmente aos ouvidos do mundo, deliciando todos os ouvintes com as suas melodias leves, a estética sonora e visual e o próprio conceito.

A história repete-se no dia 25 de Outubro, no Musicbox, em Lisboa. Bruno Pernadas e Moullinex juntam os seus distintos universos musicais para criarem uma reinterpretação do LP, que será tocada ao vivo para uma sala esgotada com pessoas que tiveram o privilégio de conseguir bilhete para este espectáculo único que junta o presente e o passado numa ode ao “mundo vegetal”. No entanto, segundo os próprios, as coisas não vão ficar por aqui. Entrevistámos os músicos durante uma sessão de ensaios para o concerto e procurámos saber mais. 



De onde surgiu a ideia deste projecto?

[Moullinex] A ideia foi do Pedro Azevedo, o programador do Musicbox, que nas suas férias no ano passado ouviu muito este disco, e assim num momento de epifania pensou, “isto ficava bem era ao vivo tocado pelo Moullinex e pelo Bruno Pernadas”. Falou connosco e nós aceitámos. Esta é a história muito curta desta colaboração.

E porque é que aceitaram esta proposta?

[Bruno Pernadas] Somos fãs deste disco, e surgiu numa altura em que ambos tínhamos disponibilidade, vontade e tempo para investir neste projecto, e queríamos fazer o disco. Além disso, o Pedro falou connosco muito atempadamente, o que nos permitiu planear com distância e segurança.

Vocês têm backstories musicais bastante distintas, um mais ligado à música electrónica e outro ao jazz. Como está a ser a experiência de colaborarem um com o outro e de conciliarem esses dois mundos para reinterpretar este álbum?

[Bruno Pernadas] É saudável: o que um de nós não consegue dominar tão bem, o outro consegue ajudar melhor nesse sentido e vamos revezando nas necessidades técnicas e artísticas, e “dividindo o mal pelas aldeias” no que é mais da praia de cada um. Vamo-nos adaptando. É uma constante adaptação, mas saudável.

[Moullinex] Sim, eu acho que nenhum dos dois é muito fechado, tanto eu na electrónica como o Bruno no jazz, e por isso acho que nas nossas músicas está a outra parte com menos conhecimento ou menos domínio, o que também nos permite ser hospitaleiros o suficiente para ver o mundo do outro contaminar. E ainda bem que é um disco, pois é um terceiro elemento aqui que funciona como mediador. Assim temos de ser sempre respeitadores do disco.

Sendo um álbum exclusivamente feito com um só sintetizador (Moog), como decidiram que abordagem tomar para reinterpretar este disco?

[Bruno Pernadas] No início pensámos nalguns sintetizadores e instrumentos acústicos, agora por acaso temos vindo a ficar mais próximos da sonoridade do disco e a afastar-nos da sonoridade inicial na qual eu ia usar a guitarra — e íamos usar mais trompete. Vamos usar a flauta — porque casa bem com os timbres dos sintetizadores –, mas está a ficar mais próximo do disco, sendo que este quase não tem bateria, e é o baixo que ocupa essa função rítmica. Aqui usamos bateria e drum machine para tornar isto mais nosso e mais próximo dos dois universos.

[Moullinex] Fazer uma reinterpretação tal e qual ao vivo não era o que nos interessava mais. O que nos interessava, e que acabava por ser o desafio do Pedro, foi tentarmos trazer um bocadinho do nosso mundo, das nossas cores e das nossas texturas para este universo. O disco diz-me muito esteticamente, também diz muito ao Bruno, e acho que é fácil encontrar ali pontas soltas de coisas que nós já fazemos, como por exemplo a flauta, que até foi sugestão do Bruno. Desde o meu segundo álbum que ponho flautas nos meus discos, portanto há aqui muitas que tocam no universo do lounge, e até mesmo algumas coisas a piscar o olho à MPB, ou seja, o próprio Plantasia também é difícil de caracterizar em termos estéticos. Para nós, é especialmente desafiante ser respeitador e não demasiado “a risco”.

Portanto, apesar de quererem utilizar a vossa linguagem para interpretar o disco, este obriga-vos a ceder à sua própria sonoridade. 

[Moullinex] Sim, há coisas ali que são quase a mesma linguagem, há outras que são completamente novas para mim, mas para mim é também muito bom poder aprender isso, e habituar-me a este registo. Estou a aprender muito com isso.

Qual era a relação que tinham com o álbum antes deste projecto?

[Bruno Pernadas] Era só de fã, de o ouvir e achar que era um disco de culto, porque é, e que é um registo especial na história dos sintetizadores.

[Moullinex] O disco acompanhou muitos jantares que fiz em minha casa, é sempre daquelas coisas que ponho a tocar, porque é transversal a quantidade de pessoas que se deixam contaminar, tanto pelas melodias como pelas texturas dos sons em si e dos timbres destes. É muito fascinante o disco, e acho que, por ser também feito para a harmonia das plantas, nunca é bruto, é sempre muito suave.

Agora que estão a explorar este disco de outra forma, sentem que a maneira como o vêem e ouvem mudou muito?

[Bruno Pernadas] Sim. Apesar de também dar para ouvir do ponto de vista mais académico, agora durante uns tempos vai ser impossível desligar o que está a acontecer a nível de notação, saber que acordes são e quais e quantas melodias estão a tocar quando se ouve o disco.

[Moullinex] Sim, é impossível, ao mesmo tempo que também é impossível ter uma perspectiva de fã neste momento, porque estamos completamente mergulhados nele.

Com este concerto esgotado, planeiam tocar este projecto ao vivo mais vezes?

[Moullinex] Estamos, já temos pelo menos mais uma data fechada. Não é que não acredite no nosso trabalho, mas eu preciso de ver a coisa materializada para ver o que ela significa, e acho que só nesta semana é que senti que temos uma coisa que merece não se ficar por um concerto, e assim será.

Gostam de plantas? E sentem que este álbum também foi feito para vocês?

[Bruno Pernadas] Gostamos de plantas, sim, eu já dei concertos cheios de plantas. 

[Moullinex] Eu tenho um álbum intitulado Flora. Acho que o mundo vegetal tem uma certa harmonia, uma certa poesia que me agrada no abstracto.


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