Morreu João Gilberto, um dos criadores da bossa nova

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Michael Ochs Archives/Getty Images

O músico e cantor João Gilberto, uma das principais referências da bossa nova, morreu, aos 88 anos. Foi o seu filho, João Marcelo Gilberto, quem confirmou a notícia do seu desaparecimento, através das redes sociais, sem ter, no entanto, apontado o dia exacto ou o local do falecimento.

João Gilberto foi figura dianteira de uma geração que alterou para sempre o rumo da música popular brasileira, sendo um dos responsáveis, juntamente com outros artistas como Vinicius de Moraes ou Tom Jobim, pela cristalização de uma nova abordagem à canção popular que ficaria conhecida pela expressão “bossa nova”, palavras que pretendiam sublinhar o carácter de novidade de um som que se apoiava em novas técnicas de execução harmónica e num “balanço” — ou batida — muito singular que depressa o mundo aprenderia a amar.

Da junção do samba, do jazz e da pop americanas, e de um sentido poético muito específico, nasceu então um género musical que ainda hoje inspira músicos por todo o globo. Chega de Saudade, álbum lançado na Odeon em 1958, marcou o início de uma celebrada, embora algo curta, discografia de álbuns que representa um dos cânones máximos da bossa. Esse clássico não tem abandonado os escaparates e ainda este ano voltou a ser relançado em vinil pela espanhola Wax Time.

“A sua nova síntese”, escreveu ontem o New York Times, “substituiu a percussão do samba com figuras de guitarra em padrões incomuns (a que alguns chamavam “violão gago”) e transmitiam intimidade através de um estilo de canto confessional, subtilmente percussivo e sem vibrato”.

“Quando eu canto”, escreveu-se ainda no jornal de referência de Nova Iorque, “penso num espaço aberto e límpido e é aí que eu toco sons,” explicou o senhor Gilberto numa entrevista com o crítico de jazz do New York Times John S. Wilson em 1968. “É como se eu estivesse a escrever numa folha de papel branco. Tem que estar tudo muito tranquilo para que eu consiga produzir os sons em que estou a pensar”.

Ruy Castro escreveu sobre João Gilberto em Chega de Saudade, livro que é um dos retratos definitivos da bossa nova e que a Tinta da China editou em Portugal em 2016: “Quase ninguém no Rio, em 1957, entre os mais jovens, sabia muito sobre João Gilberto — quem era, o que fizera antes, como aprendera a cantar ou a tocar daquele jeito. Sabiam vagamente que tinha vindo da Bahia para cantar num conjunto vocal (qual era mesmo?), que saíra do conjunto e que trabalhara esporadicamente na noite. Nomes, datas, lugares, tudo era impreciso a seu respeito e, engraçado, as pessoas não estavam muito interessadas — ou não ousavam atravessar a barreira de silêncio que ele próprio se impunha a seu respeito. Mas a grande pergunta era: como não tinham sabido antes da existência daquela maravilha?”

Se não sabiam antes, passaram certamente a saber depois. Os discos que João Gilberto gravou e editou entre 1958 e 1961, incluindo, além de Chega de Saudade, os registos O Amor, o Sorriso e a Flor e ainda João Gilberto, funcionaram como partes de um manual por onde estudariam não apenas as gerações seguintes, mas também os seus contemporâneos.

Como explica Ruy Castro, João Gilberto foi ele mesmo um dos criadores do seu próprio mito, quase sempre afastado da imprensa, truculento, como sublinha também o crítico Ben Ratliff no seu obituário para o New York Times, quando em palco o som não estava à altura dos seus exigentes padrões, mas, ainda assim, profundamente amado por artistas que transformariam, e continuam a transformar, a face da canção popular brasileira. Como Caetano Veloso.

“Eu tinha 17 anos e ainda vivia em Santo Amaro quando pela primeira vez ouvi João Gilberto”, escreveu Caetano em Verdade Tropical. “Um amigo de liceu quis que eu ouvisse um disco que para ele soava estranho. ‘Caetano, você gosta de coisas malucas, tem que ouvir um disco deste tipo que canta completamente desafinado — a orquestra faz uma coisa e ele faz outra’. Ele exagerava sobre o quão estranho era para ele ouvir João, talvez influenciado pelo título da canção, ‘Desafinado’ — uma pista falsa para os que primeiro ouviram essa canção no verão de 1959. Com intervalos melódicos inesperados”, remata Veloso, “a canção exigia intérpretes com tom extraordinário”. “A bossa nova”, confessa ainda o cantor, “esmagava-nos”.

Sam The Kid, claro, samplou a maravilhosa “Manhã de Carnaval” em “Chelas”, tema que gravou com NBC para Sobre(tudo) de 2001. E esse é apenas um exemplo possível entre as incontáveis vénias que diferentes gerações, diferentes artistas e diferentes géneros foram prestando ao génio imortal de João Gilberto.

“Mais importante do que tudo”, ressalva ainda Caetano Veloso, “mesmo hoje, quando algum de nós canta ‘Chega de Saudade’ — que ainda é o hino da bossa nova — em qualquer estádio no Brasil, somos sempre acompanhados por um coro de dezenas de milhares de vozes de todas as idades que cantam cada sílaba e nota da longa e rica melodia.”


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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