Moreno Ácido: “Quero incentivar outro pessoal a mexer-se e a pôr cá fora a sua música”

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] João Pedro Fonseca

O mais recente disco de Moreno Ácido saiu em finais do mês de Fevereiro deste ano. Desta vez, o produtor lisboeta optou por uma edição (em cassete) de autor — já colaborou e lançou por colectivos como a ZABRA ou a 1980.

Memories From Four Feet Beneath é uma exploração abrangente e downtempo que vai buscar timbres ao industrial e ritmos a África ou à América do Sul. Compostas entre 2016 e 2018, as nove faixas criadas por Mário Vinagre sintetizam uma pista de dança com história para contar e onde reina o house. O lado mais pessoal e emocional do produtor é complementado pela sua visão da transformação de Lisboa — que aparece transposto através de field recordings captados na cidade.

O último projecto foi a “desculpa” ideal para falarmos com Moreno Ácido sobre o seu processo criativo, digging ou o live set.



Estando já associado a editoras como a ZABRA, a 1980 ou ainda outros projectos, o que te levou a lançar Memories From Four Feet Beneath de forma independente?

Tudo partiu porque no ano passado dei conta que não tinha lançado nenhum trabalho, nenhum disco, e então comecei a pensar, “ok, se calhar vou lançar eu próprio uma cassete, um álbum, o que seja”. Não cheguei a mostrar ou a mandar a nenhuma editora, sem razão específica, mas na realidade também já sei que nesses casos há sempre um problema temporal, porque a editora pode ter outros lançamentos já planeados, e isso poderia fazer com que este trabalho fosse só lançado daqui uns meses ou daqui a um ano, uma coisa assim do género. E a minha vontade era: “eu tenho esta música aqui feita, isto faz todo o sentido, cola tudo, é sobre os últimos dois anos da minha vida: vou lançar isto por conta própria”. Há esse lado.

Depois há o lado também de que hoje em dia é fácil lançares tu mesmo a tua música, é fácil editar, colocar no Bandcamp, online, noutros sites, sei lá. Se quiseres fazer em formato físico também é fácil, não é preciso muito dinheiro para comprar algumas cassetes ou mandar gravá-las. Se tiveres mais algum dinheiro, ou se tiveres juntado, até podes fazer discos, se tiveres ajuda de alguém. Podes lançar, há pessoal que lança mesmo discos, faz white labels, fazem editoras próprias. Eu até pensei fazer uma editora para lançar este trabalho, e eventualmente outras cenas doutro pessoal, mas depois decidi lançar independentemente. E também quero incentivar outro pessoal, que sei que há bastante gente a fazer boa música, mas que não lança, por uma ou outra razão não põem cá fora as coisas, e acho que hoje em dia é tão fácil que quero incentivar também desta maneira outros produtores, músicos e cantores a meterem a música. Acho que é sempre motivador. Ver outros a fazer isso dá-te a ideia, “se ele fez, eu também posso fazer, também consigo fazer”! Também quero incentivar outro pessoal a mexer-se e a pôr cá fora a sua música, a sua criação.

É um disco, como nos apresentas, que retrata memórias tuas dos teus últimos dois anos. Houve momentos ou situações específicas que inspirassem directamente estes ambientes?

É um disco de memórias, sim. Há momentos e situações, claro, que inspiram directamente desde a primeira faixa, que andei a gravar sons de Lisboa (pessoas, trânsito, aviões a passar, ambulâncias, metro) e isso depois inspirou-me. Eu primeiro fiz as gravações e, quando já as tinha e estava a ouvi-las, comecei a inspirar-me. Pensei: “vou fazer uma música sobre o estado actual da minha cidade, Lisboa”.A forma como vejo as coisas, como interpreto a descaracterização, a massificação, a gentrificação, toda esta confusão e eu queria retratar isso. Depois há outras situações mais pessoais: relações, ou uma relação com uma ex, faz com que expresses… como é a letra? “Eu quero estar com ela, mas ao mesmo tempo ela não me deixa correr” [risos]. Sim, depois há músicas que são dedicadas a pessoas, há uma dedicada ao meu filho. Chama-se “Azzurro”, em que ele dá assim logo uns berros ao início, e depois eu meto uma melodia por cima. Há outras situações. Tirando a “Everynite” – que é um flip, uma versão de uma faixa minha que é a “Everyday” do primeiro EP – todas as outras têm o cunho pessoal de ser sobre um momento, uma situação, um lugar, uma viagem, uma relação. É um bocado como aquele jogo dos nomes, países e por aí fora.

És muito individualista na tua maneira de produzir? Tens alguns artistas com quem planeias ou gostarias de trabalhar?

Sim, sou individualista. Claro! Eu acho que o lado da criação é uma cena muito individualista. Mesmo se estivesse, por exemplo, a trabalhar com três pessoas numa banda, há sempre um cunho individualista no acto de criação. Mesmo estando a trabalhar em grupo ou com outra pessoa. Eu estou a trabalhar algumas cenas em conjunto com outras pessoas, um desses projectos já tem previsto um lançamento – vai ser com o Diogo Vasconcelos da PISTA, que também faz parte da editora Extended – e há outras cenas que vão surgir, espero, com outros produtores e sobretudo com cantoras. Vou fazer mais cenas com voz, é uma coisa que quero fazer agora durante este ano. E gostaria de trabalhar, sei lá… se é para dizer nomes, eu gostava de trabalhar com o Karlos Rotsen, que é um pianista incrível que vive em Lisboa, é da Martinica. É um músico muito bom mesmo, mais na onda do jazz, mas eu fiquei mesmo a achá-lo mesmo muito bom, é incrível. Mas gostaria de trabalhar com mais pessoal cá em Lisboa, há muito talento.

Considerando a individualidade de cada uma das faixas, interessa-me questionar: como se costuma dar o teu processo artístico? Como começas as músicas ou de que maneira decides arranjos e estruturas?

Não tenho um processo único, é muito variável. Eu trabalho normalmente em dois softwares diferentes; também tenho samplers, drum machines, máquinas e synths. Às vezes posso estar a gravar uma pequena jam só com um synth. Estar a tocar, a experimentar sons, etc. Depois gravo aquilo e faço um loop, samples… Como posso também começar a trabalhar a faixa por uma voz, um sample de voz, qualquer coisa do género. Tal como posso começar a faixa a partir da recolha de sons ambiente, como aconteceu em duas ou três faixas deste trabalho. São um bocado originárias de recolhas de sons ambiente, ou de pessoas a falar, e isso inspira-me depois a fazer a música sobre aquele momento, ou aquele lugar, aquela pessoa. Portanto não há um processo único. A mesma coisa para os arranjos e para as estruturas. Por exemplo, a primeira faixa é quase uma cena live, em que eu estou ali a estou a colocar sons, a retirar, a meter efeitos e a tirá-los. É uma cena muito live, por isso é que a música também ficou para aí com nove minutos ou o que é, porque eu não tinha uma estrutura mesmo feita, era uma jam, era praticamente uma cena quase improvisada mas já tinha os sons todos preparados, feitos e já com os efeitos também decididos. Mas sim, principalmente neste disco, não há mesmo uma estrutura. Se fosse uma cena mais de dança, mais de pista, normalmente tem sempre uma intro, um outro, cenas mais dj friendly, ou um break, há uma estrutura mais de dança, na maior parte das vezes, não é? A concepção das faixas para pista ou pelo menos com essa ideia de ser para pista, há uma estrutura mais definida. Neste trabalho, como a maior parte das músicas não é pensada para pista, não tive essa preocupação a nível de estrutura, ou de arranjos.

Algumas batidas tuas vão buscar grooves de percussão mais fora do mundo ocidental, certo? Como se dá o teu digging?

O digging vem de todo o lado. Hoje obviamente a Internet é a maior ferramenta para fazeres digging. Mas na Internet também não há tudo, e por vezes há um disco que tu encontras numa feira, numa loja. Ou vais viajar e vais comprar um disco, ou uma cassete, ou o que seja nesse país e depois vais utilizar em sampler. Não há, portanto, assim uma fórmula única. Mas sim, já tive mais essa dedicação, de fazer digging, mas acho que tenho uma boa biblioteca de sons, de loops e de samples, sobretudo se formos falar a nível de percussão, cenas africanas ou brasileiras. Houve uma altura que andava, não direi obcecado, mas gostava bastante de ouvir cenas de percussão do Luciano Perrone, que é um percussionista brasileiro. Também houve o Guem. O Guem também é um percussionista da Argélia, e eu tenho também um par de discos dele, e é muita bom para samplar, é incrível. É muito fixe usar esse tipo de percussões.

Numa conversa informal, o João Fonseca da ZABRA confessou-me que não gostas de actuar em live set, apenas como DJ. A que se deve essa relutância?

O live!… Há-de acontecer. Eu só ainda não tenho nada preparado, nem nunca fiz live, porque ainda não avancei para essa ideia mesmo, não coloquei o foco aí. Mas vai surgir em breve. Eu gosto muito do DJ set, acho que me permite uma melhor leitura do público, sentes mais o que se passa à tua volta, como é que a vibe das pessoas à tua frente está. Porque o live eu considero que é uma coisa que tu vais apresentar, enquanto que, apesar da selecção num DJset já estar predefinida, há sempre uma possibilidade de tu ires a mais lugares. Num live é mais uma questão de apresentação, concentração. 

Depois, na parte mais de execução, eu ainda não decidi que tipo de live é que eu gostaria de fazer, se seria mais aquele live de controlar sons pré-feitos, com faders e knobs, e ter pouca vertente de live mesmo, de tocar, só uma cena mais de apresentar. Há algumas pessoas que consideram isso uma cena híbrida com DJ set. Ou fazer um live mesmo onde eu tenho duas ou três máquinas, um sampler, uma drum machine, um synth ou dois, talvez um pedal de efeitos, e depois ser: “olha, vou fazer música; não vou mesmo apresentar temas ou faixas”. Posso até utilizar alguns sons de temas meus, mas vou estar a fazer mais uma cena improvisada, e durante uma hora vou estar a mostrar isso às pessoas. O que é fixe, algumas pessoas conseguem fazer isso de uma maneira boa, mas eu ainda não sei. Qual das duas vertentes de live imagino querer fazer? Talvez até possa experimentar as duas. Mas ainda não decidi em relação a isso. Pessoalmente, tenho que planear. Ainda não me foquei aí, mas eventualmente há-de surgir, não é que não goste de fazer live. Nunca o fiz, portanto, é uma hipótese. Veremos no futuro!


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