Mobb Deep: Lisboa virou Queensbridge

 

[FOTOS] Francisco Henrique Melim

 

I think they are ready.” Quando Prodigy, metade dos Mobb Deep, solta esta frase no incendiário ambiente do Santiago Alquimista, já todos sabem o que aí vem. Os décibes no interior do café-teatro implantado numa das colinas de Lisboa sobem exacerbadamente, a malta agarra o momento como se fosse o último da sua vida, acotovela-se na plateia e ergue os braços no andar do topo, preenchido de rostos e corpos em todo o redor da sala de espectáculos. Liberta-se o beat – grita-se “oh oh oh oh oh” – e a primeira frase é lava pura neste vulcão lisboeta: “To all the killers and a hundred dollar billers“. Solta-se uma primeira porção do grave gordo. “For real niggas who ain’t got no fellings.” Vamos nessa. “Check it out now.” Estamos definitivamente em “Shook Ones (Part II) e dá-se a erupção.

Estou cá em cima, junto a uma coluna que me bafeja ininterruptamente, e observo lá em baixo centenas de pessoas a um metro de distância dos históricos MCs, hoje com rostos de homem, mantendo, ainda assim, os traços que lhes reconhecemos desde os primeiros vídeos nos anos 1990. E se, ao lerem este texto, estão a desenhar na mente um Santiago Alquimista tornado The Shelter, aquele clube underground de Detroit celebrizado em 8 Mile, tenho a dizer que estão longe de toda a fotografia do que se está a passar: os seguranças formam um cordão humano diante do público, esforçando-se para conter os estilhaços emotivos de uma bomba que acabou de explodir na sala. Se todo o hardcore hip hop se resumisse a um único momento, isto que está a acontecer nesta pequena sala é o seu retrato mais fiel: denso, inflamado, rebelde, polvoroso.


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Este é um espectáculo que celebra os 20 anos de The Infamous e arrisco dizer – aliás, afirmo mesmo – que metade do público aqui presente não somava mais de uma mão cheia de anos de vida quando esse emblemático disco foi editado. São muitos os tenros jovens, rapazes e raparigas, que por aqui se passeiam em busca do melhor lugar para ver o duo em carne e osso no palco, prova de que a sua influência é intemporal e que continuam a ser uma referência global no movimento hip hop.

Talvez, para estas gerações mais novas, muito tenha contribuído, então, o biopic de Eminem, 8 Mile, para dar a conhecer os Mobb Deep e eternizar “Shook Ones”. Partindo desta especulação, o exercício de antecipação de um concerto da dupla nova-iorquina que emergiu com um poderoso street rap tem tudo para ser preguiçoso: fácil é pensar que o pessoal quer mesmo é ouvir “Shook Ones”, viajar pelas ruas dos projects à boleia das barras dos “official Queensbridge murderers“, e o que mais vier é acréscimo. Quando cheguei ao portão esverdeado que dá acesso ao Santiago Alquimista, a malta divertia-se num pequeno círculo a entoar as virulentas rimas da faixa de The Infamous enquanto a música era replicada a partir de um audível telemóvel, o que só carrega mais na solidificação desta percepção. Porém, o público português prova neste momento a inocuidade e distorção deste juízo ocioso. Os hardcore fans – e não só! – sabem as letras de todas as faixas em apresentação, têm a lição de história bem estudada, e demonstram que os Mobb Deep são muito mais do que apenas um single que é ainda hoje um verdadeiro hino ao classic street rap.

O concerto abriu com “Survival Of The Fittest“, mais uma icónica malha de Prodigy e Havoc, e logo aqui o público se adensa diante do palco, empurrões e pulos incontidos, letras milimetricamente gritadas, Lisboa transformada em Queensbridge; “Give Up The Goods (Just Step)” é outro dos sons fortemente aclamados e entoados entre todos, braços e dedos-em-molde-9-mm em riste; e “Outta Control“… bem, o título diz tudo e serviu de preâmbulo para a aguardada “Shook Ones”.


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“There’s a lot of new shit but this what we do right here, hardcore hip hop shit.”
Prodigy


Son, they shook / Cause ain’t no such things as halfway crooks“, grita-se, alto e a bom som, em sintonia perfeita. “Shook Ones” aproxima-se do fim, já não há qualquer espécie de controlo sobre os eventos. Não só lá em baixo como cá em cima: a malta debruça-se no parapeito, agita os braços, berra, e os Mobb Deep não podem sair de Lisboa sem o sentimento de que este foi um encontro marcante, certamente memorável em toda a sua tour Europa fora. Lisboa foi Queensbridge, hoje como há 20 anos atrás, e Havoc e Prodigy estiveram em casa, deste lado do Atlântico.

A vídeo-reportagem de toda esta estória tem publicação marcada para muito em breve. E daqui sigo para o Musicbox. É Noite Príncipe. A capital em ebulição cultural.

Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.