27 de Fevereiro de 2026, Campo Pequeno, Lisboa. É esta a data e o local em que se assinalou um mais um marco histórico na cultura hip hop nacional. Pela primeira vez, um produtor encabeçou uma atuação em nome próprio numa grande sala de espetáculos diante uma plateia muito bem composta. É motivo mais que suficiente para verter uma ou outra lágrima, ainda para mais se tivermos em conta todo o percurso (e a velocidade a que este foi trilhado) de Mizzy Miles: não há muitos anos, era apenas um DJ a animar festas em bares e discotecas de Lisboa, uma figura completamente periférica que, com muito suor e insistência, alcançou um patamar de excelência na música portuguesa, com palcos incendiados em festas de Norte a Sul do país, uma carteira de hits invejável, uma das redes de contactos mais amplas da indústria (que chega até ao Brasil) e até um programa de rádio na Cidade FM, More Bars, que apesar de ter tido vida curta, nos apresentou alguns artistas num formato intimista como nunca se tinha visto até então.
Mizzy tem todas as razões do mundo para se ter emocionado no final da noite de ontem, e mais razões tem ainda para estar confiante de um futuro que, visto a partir do “agora”, se prevê continuar em sentido ascendente. Pode (e deve) orgulhar-se também da experiência que proporcionou aos seus fãs, assente numa produção arrojada — um palco de grandes dimensões, bailarinos, muita pirotecnia e até o ator Pêpê Rapazote metido ao barulho — e uma constelação de convidados que foi um autêntico Quem é Quem? do hip hop tuga, dos Wet Bed Gang a Kosmo Da Gun (o primeiro a acreditar em Mizzy e a rimar numa batida sua, conforme confessou o produtor), de Agir a LON3R JOHNY, de Nenny a Slow J, entre muitos, muitos outros. MC PH e Ryu, The Runner representaram o Brasil nesta grande celebração, mostrando que a ponte entre os dois países não é artificial e a fazer um esforço para dar backup às ambições do português. PH foi até mesmo um dos mais cirúrgicos (e aplaudidos), apresentando uma performance imaculada, sem vacilos nas letras e com a voz a sustentar na perfeição o flow mais melódico que aplica a cada canção. E sem esquecer os dois músicos de excelência que acompanharam Mizzy ao longo de todo o concerto, dando camadas extra às faixas com apontamentos de guitarra (Rodrigo Correia) e teclas (Jónatas).
Ainda assim, depois dos foguetes, o apanhar das canas levanta algumas questões. O concerto de ontem serve de confirmação clara do facto do hip hop mainstream se ter desligado por completo da sua componente social e interventiva. Nas dezenas de artistas que pisaram aquele palco, foi difícil contar com os dedos das mãos as rimas que realmente provocam a reflexão em quem ouve. “Pеdes p’a não seguir nenhum damo da tua zona / Mas quеm te deu toda essa autoridade?”, de Nenny, em “Delulu”, foi um dos raríssimos casos (se não o único) que trouxe à tona um problema flagelante dos dias que correm, como o da toxicidade no namoro. O resto da receita sabe a monotonia: ostentação, malandragem, amor, egotrip, uma pitada de rua aqui e ali, mais ostentação e um sem-número de conselhos não aconselháveis a ninguém que nem primam pela componente poética. “Fumo muita erva, eu ’tou muito forte / Bebo muito lean, eu ’tou muito forte” — a sério? A teoria da simulação torna-se ainda mais palpável ao ver a quantidade de casos em que versos se perderam no éter, tenha sido por esquecimento ou falta de caixa torácica para os interpretar na íntegra, em total contraponto com a habilidade de exibir poses e drip — isso nunca faltou e houve momentos que o palco pareceu mais uma passerelle do que outra coisa qualquer.
De Mizzy, obtivemos tudo o que esperávamos e mais umas quantas coisas extras. Carisma raro, anfitrião nato e líder por natureza, sempre na frente da marcha a ajudar na interpretação dos temas ao microfone, com algumas rimas da sua própria autoria, como em “Premium”, que integrarou o seu álbum de estreia FIM DO NADA. Chega a ser estranho como não escutamos a sua voz mais vezes no material que lança, pois soa como peixe dentro de água a ensaiar melodias com o auto-tune. Pelo meio do show, recuou por breves minutos para recordar os tempos em que era apenas um DJ nas noites de Lisboa, posicionando-se atrás dos decks para entregar às massas um breve mix que incorporou temas de Travis Scott, Drake ou XXXTENTACION. Aqui, a simulação foi ainda mais evidente, desta vez do lado do público: a chegada de “FE!N” foi o momento que mais aplausos recolheu durante aquelas duas horas de espetáculo. Diante de tantas estrelas da música nacional em palco, é estranho que tenha sido uma gravação norte-americana a gerar o maior alvoroço da noite.
Há também momentos que vão ficar gravados para sempre na memória. O mais marcante, ao ponto de poder realmente impactar vidas, foi dedicado ao concurso MAKE IT INSIDE. Apesar de se tratar de uma oportunidade inédita da sua carreira, de actuar em nome próprio numa das maiores salas de Lisboa, nada impediu Mizzy de dividir alguma da luz do spotlight a quatro caras novas do game que venceram uma competição curada por si e que resultou recentemente na edição de um EP. “Chapadas” (de Bere e Lucca Sayao) e “Longe” (de Vieitos e dollasignsaint) foram as duas faixas escolhidas para subir a palco e serem interpretadas pelos seus autores, que agarraram a oportunidade com mestria e sem medo de enfrentar uma plateia bem preenchida.
Mas os maiores arrepios foram-nos provocados já perto do fim. Ver Slow J e Gson e interpretar “CHAMPIONS LEAGUE” lado a lado com o arquiteto do instrumental é um daqueles momentos mágicos e dificilmente repetíveis na história do hip hop tuga. É uma colisão entre dois dos maiores titãs da nova escola do rap nacional e destoa muito do resto que se escutou ao longo deste Mizzy Miles & Friends. Mesmo sem colocar o dedo em nenhuma ferida, fala-nos de fome sem recorrer a ideias bacocas e tem o dom de inspirar qualquer um no seu trajeto pessoal. Seja um pedreiro ou artista circense: a mensagem passar por colocar sempre a fasquia elevada e ambicionar a jogar a “CHAMPIONS LEAGUE” de qualquer que seja o ramo em que cada um se insere. E é a banda sonora perfeita para a vida de Mizzy, que fez da barriga vazia combustível para chegar onde chegou. Entre quem observava, tornou-se claro que esta foi uma das interpretações mais simbólicas e tocantes do evento.
Ainda antes do encore, que juntou toda a gente em palco, soaram alto as duas músicas mais bem sucedidas do super-produtor: primeiro “EUROPA”, depois “Benção”, com esta última a levar Mizzy Miles a não conseguir conter as emoções que borbulhavam já na reta final da atuação. “Agradeço ao Van Zee e ao Bispo por me terem ajudado a criar a canção que mudou a minha vida”, disse entre alguns soluços sobre um dos temas mais virais de todos os tempos da história do hip hop criado a partir de Portugal.
O céu não parece ser limite para Mizzy, que veio derrubar por completo a ideia de que os produtores têm de ficar remetidos a um lugar de uma certa obscuridade. Por mais intérpretes que receba na sua música, ele é o rosto do próprio sucesso e tem autoridade suficiente dentro do game para conseguir trazer a palco tantos artistas diferentes numa noite só. Casar tantas agendas para conseguir todas estas presenças na hora de celebrar a sua própria carreira não é tarefa fácil e só prova que o respeito que conquistou é bastante palpável, mesmo numa altura em que as relações parecem cada vez mais descartáveis e movidas por interesses. E mesmo que a sua carreira terminasse de forma abrupta já amanhã — pede-se aqui três toques na madeira, por precaução — há uma página inteira no livro do hip hop tuga a ser escrita em seu nome.