Miss Red: “Tu não consegues ver como as coisas realmente são quando estás dentro delas”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Hiroo Tanaka

Em 2015, o primeiro “encontro” com Miss Red foi brutal: Murder, a mixtape de estreia, era um exercício de flows dancehall em cima de beats experimentais e abrasivos que, à primeira vista, não seriam os mais óbvios para uma artista alinhada com a grande invenção das ruas jamaicanas.

O cruzamento da MC israelita com The Bug foi dramático e transformativo: por causa disso deu concertos pelo mundo, colaborou com vários artistas — Gaika foi um deles — e, pelo caminho, assumiu-se com um dos nomes mais fascinantes de uma nova geração de criadores que acredita que a mistura despudorada é o segredo para encontrar a originalidade.

A preparar o lançamento do seu álbum de estreia — “a coisa mais pessoal” que escreveu, revelou-nos –, Sharon Stern actua amanhã no Musicbox, num concerto que, se tudo correr bem, contará com novas músicas no alinhamento.

Ao telefone de Berlim, Miss Red falou com o Rimas e Batidas sobre a educação que teve em casa, os artistas que a inspiram, o papel da mulher no dancehall ou o álbum de estreia.

 



Nasceste em Israel, mas a tua mãe é marroquina e o teu pai é polaco. Como é que foi a tua educação em casa?

Eu acho que me educaram bem. Quer dizer, eles não estavam muito em casa, para ser honesta. Eu sou a mais nova e nasci numa altura em que a minha mãe pensava que já não podia ter mais filhos. Ela tinha 43 anos. O meu irmão e a minha irmã já eram bastante crescidos quando nasci e aos 8, 9 anos já estava toda a gente fora de casa. E o tempo em casa para mim foi diferente por causa da situação financeira: penso que o meu pai estava à procura de trabalho e a minha mãe passava o dia todo a trabalhar. Eu tive que encontrar algo para fazer.

Mas a educação que eles me deram sempre funcionou à volta da igualdade, tomar conta uns dos outros e das pessoas. O meu lado maior da família é o marroquino. Do lado polaco quase ninguém sobreviveu ao Holocausto. Existia apenas uma avó e ela morreu o ano passado. A minha tia também foi uma pessoa importante para mim. No lado marroquino tenho centenas de primos.

És fruto de uma “mistura” e tens vivido em diferentes cidades europeias. Sentes-te uma cidadã do mundo?

Sinto muito. Ter nascido judia… Não interessa, sabes? Está tudo tão misturado na sociedade. Tu consegues ver um monte de culturas dentro dela. Israel é um sítio com bastantes misturas. Tu consegues chegar a toda a gente, em todo o lado. Para conhecer o mundo, tu só precisas de conhecer o teu país, mesmo que não seja grande. As pessoas são diferentes. Quando consegues entender o teu país, tu entendes o mundo, percebes?

Cada país inspira-me de maneira diferente. Para mim, Londres foi um choque completo. Fez-me pensar de outra maneira.

Porquê?

Porque descobres outra cor no globo. E antes de chegar a Londres, eu não tive grandes oportunidades para viajar. Tudo parecia exótico. Mas quando cheguei a Londres e vi o quão misturada estava a sociedade… eu tenho outra percepção porque estou de fora nesta situação. Eu não sou de lá. Eu cheguei como outsider, mas é como entrar na minha sociedade ao mesmo tempo porque não é assim tão diferente. Tu não consegues ver como as coisas realmente são quando estás dentro delas.

No fim, não existe algo como “uma pessoa” ou “uma sociedade” foram responsáveis por inventar alguma coisa. Tu começas a perceber que as coisas estão sempre a evoluir. Toda a gente está ligada a toda a gente. É como uma árvore: não consegue crescer sem oxigénio ou sem água. É uma evolução que está a acontecer com as culturas, as pessoas e as misturas. Pode acontecer com elementos diferentes, mas as raízes são as mesmas.

As tuas referências são, na sua maioria, artistas de outra época. Quais são os criadores do presente que te inspiram?

Nos últimos dois, três anos andei a viajar e tive a oportunidade de ver concertos e conhecer novas pessoas. Foi realmente inspirador ver uma banda indonésia chamada Senyawa.

Também gosto de metal. Recentemente conheci Monolord. Também foi bom ser introduzida a Equiknoxx este ano. O álbum deles [Cólon Man] é muito fixe. Tive a oportunidade de ver Sleep ao vivo. Foi uma experiência muito boa. Hum, também te posso dizer que amo a Moor Mother.

O Kevin Martin foi uma pessoa importantíssima para o boom inicial na tua carreira, mas já existia uma Sharon antes desse encontro fortuito. Musicalmente falando, o que é que fizeste antes de começares a trabalhar com o The Bug?

Começou no meu nascimento. Eu sempre tive uma cantora que amava completamente. Os vizinhos juntavam-se e víamos quem fazia a melhor imitação. Costumávamos imitá-la. E ela morreu muito nova com Sida. É uma história triste.

Quando era bebé toda a gente estava muito ocupada e punham-me à frente da televisão a ver MTV. Também sei todas as músicas que passavam na rádio. A certa altura, algumas pessoas vieram, viram quem tinha a melhor noção rítmica e acabei a estudar violino. Depois, o meu irmão e a minha irmã riam-se de mim porque o barulho era muito e eles queriam que parasse de tocar. Tinha 9 ou 10 anos e acabei por agarrar-me à guitarra.

Mais para a frente, a minha tia apareceu e disse: “mostra-me o que estás a fazer e vamos fazer uma canção”. E começámos a escrever canções. Depois conheci outra das minhas incríveis amigas, que também é uma grande criadora hoje em dia. Ela é uma grande liricista. Eu não tinha grande jeito para letras enquanto crescia. Tinha grandes dificuldades a escrever. Sou completamente disléxica. Sou muito melhor no freestyle [risos]. Cada vez que nos juntávamos, eu tratava da melodia e ela escrevia as letras e juntas fazíamos uma pequena banda e tocávamos em bares, ruas, onde tivesse que ser.

Aos 15, 16 anos, eu reparei que existia uma crew de reggae na cidade. Comecei a aparecer, a coleccionar vinil e um dia disseram-me: “Sharon, pega no microfone”.

O primeiro sítio onde me senti realmente confortável e confiante com o que estava a fazer foi no dia em que o Kevin [Martin] tocou na cidade. Foi a primeira vez que agarrei no microfone por mim mesmo. O que eu quero dizer é que sempre existiram festas, as pessoas sempre cantaram e eu juntava-me a elas, fazia o meu espectáculo e saía. Mas nunca chegava e tomava controlo do assunto. Mas quando o Kevin tocou, a minha cabeça explodiu. Nunca tinha testemunhado algo do género. Por isso foi um momento que eu nunca vou esquecer. Desde esse momento, pude ver o mundo, assistir a concertos, conhecer artistas e tornar-me numa também.

Quando se fala de dancehall, a misoginia acaba por surgir na conversa. Como é que foi entrar numa cultura que está associada a isso?

Eu acho que não tem mal divertires-te e dizeres piadas se for de bom gosto. Precisa de ser com bom gosto, com uma boa vibe. Quando começa a ser um bocado desconfortável, tu tens que estar atenta. Em qualquer altura da vida.

A verdade é que as pessoas se magoam, as mulheres magoam-se em todo o mundo por causa deste tipo de comportamento. Não é bom para ninguém. Na cena dancehall existe muito jogo, muita diversão, um monte de coisas que não poderias fazer noutro sítio. É uma parte disso por isso tens que ser forte o suficiente para aguentar e perceber qual é o teu lugar.

 



A tua mixtape de estreia, Murder, está recheada de beats experimentais e muito pouco convencionais. Se não pudesses recorrer a The Bug, quem seria o produtor que convidarias para te produzir um disco na íntegra?

Provavelmente o Mark Pritchard. Quero mesmo trabalhar com ele. Eu adoro quando ele faz dancehall.

Outro dos artistas com que tens colaborado é o Gaika. Como é que se conheceram?

Conheci-o num concerto. Foi realmente fixe. Criámos logo uma ligação. Acho que falámos até às 6 da manhã. No dia seguinte, eu disse-lhe, “envia-me o riddim”. E ele enviou-me. Foi super simpático. Eu fiquei muito contente por poder cantar ao lado de dois bons MCs [a Miss Red falava da faixa “Buta”]. Desde essa altura, nós partilhámos algumas coisas, actuámos juntos. Somos bons amigos, definitivamente.

Uma das primeiras coisas que me impressionou no teu trabalho foi a maneira como entregas as letras. Como é que é o teu processo de escrita? Começas com um freestyle?

Habitualmente sim. Também depende das canções que estivermos a falar. Sou uma rapariga temperamental. Cada música para mim representa um momento. É terapia. É mesmo terapia para mim. Eu tenho que trabalhar comigo mesma para sair da cegueira da vida. Às vezes entramos em buracos e só pensamos em como sair. Para mim, as canções servem para isso mesmo. Eu escrevi a “Diss Army” quando estava a caminho de um julgamento no exército. Eles queriam-me pôr na prisão e eu não queria ir para a prisão. Eu não conseguia ver a luz. E escrevia-a. Saiu simplesmente de mim. Depois eu conheci o Kevin e essa foi a canção que repetimos três vezes nessa noite. Momentos, momentos e momentos. Tudo na vida se completa.

Às vezes parte daí [freestyle]. Às vezes apetece-me praticar a minha técnica de escrita. Eu leio muito e depois digo, “ok, agora vou escrever uma canção”. E a primeira emoção que aparece com o riddim escolhido é a emoção de que vou falar no tema.

Numa publicação feita no início de Março revelavas que o teu álbum de estreia vai sair pela Pressure. O que é que podes desvendar sobre o disco?

O álbum é a coisa mais pessoal que já escrevi e meti cá fora. É o meu primeiro álbum. Tive que lidar com um monte de coisas. Como a perda, por exemplo. Foi algo em que tive de meter toda a minha tensão fora do corpo. A produção é fantástica e finalmente chegámos a uma linguagem em que sou realmente eu. Levou algum tempo até encontrar-me. Como sabes, toda a gente que vive neste planeta passa por cenas maradas e tu perdes-te, voltas-te a encontrar, perdes-te e voltas-te a encontrar. É o álbum em que eu me encontrei.