Minus & MRDolly: “Fazer beats ou música instrumental é extremamente libertador para mim”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Paula Rocha [ARTWORK] Bruno Albuquerque

Man With a Plan é o título do novo longa-duração de Minus & MRDolly, o primeiro lançamento da Kids Alone, a nova editora criada por Minus e DJ Spot. Em primeira mão no Rimas e Batidas, “Fishing Boots/Camping” é o single de apresentação do projecto, que, nas palavras do artista, é um exemplo feliz da sua capacidade de expor as influências de géneros como o funk, o disco ou o jazz.

Com um percurso menos vistoso que alguns dos seus pares – falamos de Keso ou Virtus, por exemplo – , Hugo Oliveira lançou o promissor Distracções, em 2012, e o superlativo Árvores, Pássaros e Almofadas, em 2014. Nestes últimos anos, as suas faixas soltas estiveram em compilações de colectivos como a Habitus e a slow habits, tendo também entrado com versos no mais recente trabalho de Keso, KSX2016, e nos três discos que compõem o catálogo de originais dos Conjunto Corona.

A partir de hoje (18 de Dezembro), é possível fazer a pré-reserva do disco na Bandcamp da label e na loja online da hhv.de. No dia 25 de Janeiro, o álbum estará disponível em vinil e em todas as plataformas digitais.

 



Man With a Plan é, segundo o press release que acompanha o lançamento, “um refúgio da rotina, um plano de férias por cumprir”. Neste caso, o “barulho” dos instrumentais não justifica o uso de palavras, que até podem ser um impedimento para quem quer criar um ambiente que dê espaço à imaginação. Isto faz sentido para ti?

O press release é – até ele – apenas um condutor, uma sugestão de como podem ou não ouvir o disco. A minha observação sobre os temas. Daí o refúgio e o escape à rotina. A música sempre foi uma forma de eu me desligar, de certa forma, das responsabilidades comuns de qualquer cidadão comum. Talvez o facto de estar a lutar contra o dilema de não ser músico a tempo inteiro – aquando da criação deste disco, e até tudo o que se seguiu a ele – fez-me ter uma sensação de vida dupla. Se quiseres, acaba por ser o espaço que tenho de lazer no meu dia-a-dia, a minha fuga à realidade emocional. E este é, de facto, o único conceito que o disco possa sugerir e enquadrá-lo em algum lugar, mas não pretendia de todo que ele tivesse um conceito explícito e acessível a todos. Gostava de proporcionar uma experiência livre a quem vai escutar o disco. Posto isto, o uso das palavras seria, de certa forma, uma prisão em primeiro [lugar], para mim, e para quem o escutasse. Se conseguir que cada pessoa que escute o meu disco tenha um conceito singular sobre ele, fico feliz e, de certa forma, realizado.

“Fishing Boots/Camping” é uma entrada a pés juntos, se me permites. Apesar de estares mais associado à escola nova-iorquina, neste single parece existir a intenção de citar os sintetizadores da Costa Oeste. Quando é que esse lado mais funk despertou em ti?

Este tema, que são dois, na realidade, é, provavelmente, o mais “deslocado” desse rótulo ou etiqueta da escola nova-iorquina. Mas, apesar de ter consciência da necessidade de usar esses rótulos para me definir como artista uma vez mais, não gostava que eles tivessem o papel de prender-me ou guardar-me num determinado espaço na prateleira para sempre. Sempre fui curioso por todas as ramificações dos estilos e géneros musicais. Pode até soar estranho dizer isto, mas eu nem na prateleira do hip hop colocaria este disco. Fazer beats ou música instrumental é extremamente libertador para mim e, por isso, conduzi-lo com uma etiqueta definida para um certo nicho de possíveis interessados em ouvir a minha música é castrar o projecto. Sempre fui fascinado por música negra, e um dos prazeres que tenho enquanto ouvinte é encontrar o jazz na soul, a soul no disco, o funk no house, etc. Daí não pretender etiquetar a minha música. Como um dos fundadores da Kids Alone Records (editora pela qual o disco vai ser editado), eu e o DJ Spot (o outro fundador da label) temos o princípio de escutar e coleccionar de tudo, e apenas rotulamos “o que gostamos” e “o que não gostamos”. Eu prezo muito o bom gosto na mistura de influências de qualquer artista. Esse lado mais funk existe em mim naturalmente. Adoro música “disco” e os meus DJ sets são maioritariamente constituídos por esse género. “Fishing Boots/Camping” é, na minha opinião, um exemplo feliz da minha capacidade de expor essas influências.

Desde Árvores, Pássaros e Almofadas que andas a lançar música a conta-gotas. És alguém que demora a criar cada pedaço de música ou o teu processo criativo é rápido?

O meu processo criativo é cada vez mais objectivo e eficaz, provavelmente não é o mais rápido, mas é dedicado e cada vez mais pragmático. Isto deve-se ao facto de não ser músico a tempo inteiro. O A, P & A foi um álbum emocionalmente cansativo para mim, mas foi muito rápido de o executar, provavelmente o mais perspicaz que já fiz até agora, mas como exigiu muito de mim como produtor e, na altura, MC, desde então sinto necessidade de criar e editar coisas mais passageiras. Eu decidi fazer uma pausa da minha personagem enquanto “rapper” para me dedicar ao que realmente me faz feliz, que são os beats e a produção. Isso também ocupou tempo e espaço na minha cabeça e limitou, durante um certo tempo, a minha música. Contudo, eu faço muita música todos os dias. Sou é exigente na música que partilho com o público. Isso provoca a sensação de que o faço num processo mais espaçado. Mas não, eu faço música todos os dias, felizmente.

 


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Estás a concluir a licenciatura de PTM (Produção e Tecnologias da Música) na ESMAE e tiveste anteriormente a estudar piano jazz na Valentim de Carvalho. Imagino que isso tenha aumentado o teu leque de skills quando começas a abordar e a pensar uma música. Para ti, um auto-crítico que gosta de reflectir sobre o que faz, quais é que foram os efeitos imediatos que reconheceste nas tuas novas produções?

Sim, é verdade, e neste momento é uma prioridade conclui-lo. Está a ser cansativo e ao mesmo tempo recheado de imensas experiências que estou muito grato por ter, assim como o piano Jazz na Valentim o foi. Sempre fui muito crítico e exigente comigo e gosto de pensar que, por vezes, abrandar e tentar perceber onde estão as nossas limitações é mais vantajoso do que forçar os vícios que nos podem fazer cometer “erros” no futuro. Prefiro combater de imediato essas limitações do que continuar limitado, mesmo que isso leve tempo e provoque delays como os que referiste na questão anterior. Nada é imediato, a não ser que sejas uma pessoa super talentosa. Toda a aprendizagem leva tempo, dedicação e esforço, assim como tomar decisões na altura que as deves tomar. É muito comum no meu curso dizer-se que um dos papéis mais importantes de um produtor é tomar decisões sobre um tema, por exemplo, que vão ser definitivas e decisivas na tua abordagem final. Com a minha música, eu faço-o com o mesmo intuito.

Nos últimos tempos lançaste beats pela Habitus e pela slow habits, dois colectivos criados por jovens produtores portugueses com fome de destacar os valores dessa área em Portugal. Comparando com a altura em que lançaste os teus primeiros projectos, achas que a Internet possibilitou que os produtores tivessem o seu próprio espaço no universo musical?

Tenho um carinho muito especial pela abordagem à beat scene que o Cláudio ( na altura, a cabeça da Habitus, agora, um dos representantes da Slow Habits) tem. Mesmo que vá editar o disco pela Kids Alone, a editora que tenho com o DJ Spot, e que também tem o objectivo de se focar em muitas das perspectivas que imagino o Cláudio (sleeppatterns) e o Rafa (rafxlp) terem, nós somos coleccionadores aficionados de música. É importante para nós trabalharmos com edições físicas e, mesmo que isso não nos queira comprometer a editar musica só em vinil, cassete, CD ou outro tipo de formato, é uma delicadeza e preocupação que temos ao editar um novo projecto. A Internet é das melhores ferramentas, actualmente, se não a melhor. Mas o que mais prezo na Internet e na comunidade dos beats/música instrumental, é saber que este universo musical se emancipou no que toca a categorizar a música. O Cláudio e o Rafa na Slow Habits, assim como eu e o Spot na Kids Alone, temos uma perspectiva de alargar os horizontes e numa perspectiva mais worldwide, com o intuito de juntar e, de certa forma, colaborar com artistas que bebem do mesmo objectivo. Os beats e a música instrumental não necessitam essencialmente de interpretação de letras – é mais directa e direccionada. Se fores como nós, um bom beat vai ser um bom beat, seja ele house, techno, hip hop ou whatever.

A criação parte sempre de uma certa urgência em “fazer”. Qual é que foi o impulso que vos levou à criação da Kids Alone?

Acaba quase por ser um “sonho” ter uma label e ter liberdade de escolher artistas que partilham o nosso universo musical. O Spot (que também é o autor de todos os scratches do disco [Man With a Plan]) é a pessoa que no meu núcleo de amigos vem de encontro à minha forma de estar na música. Ambos temos imensa curiosidade de pensar como seriam parcerias improváveis, projectos em estudo (como este disco Man With a Plan) ou, como coleccionadores, materializar ideias e dar-lhes um caminho. Gosto de pensar que as coisas não acontecem por acaso e que, ao mesmo tempo, nenhum de nós se quer comprometer a assumir que o nosso catálogo vai ter um género ou direcção. Este projecto da editora com ele é uma forma de incentivar artistas a expor o seu trabalho e as suas ideias. Este disco, que é a primeira edição limitada da label em formato vinil, só é possível com o apoio do André Carvalho da Circus Network, que nos apoiou e ajudou a concretizar este objectivo desde a ideia piloto até ao projecto final. E por isso, este disco é assinado pelas duas partes.

As rimas ficaram na gaveta por causa do período diferente em que vivemos? Já não sentes necessidade de escrever? Neste momento, o Mr. Dolly é mais forte que o Minus?

O meu último álbum desgastou-me muito emocionalmente. Como já referi, é complicado para mim relativizar ou ignorar o conteúdo sobre o que escrevia, isso fez me fazer uma pausa ou sossegar essa minha faceta. Honestamente, também estou desiludido com o caminho que as rimas levaram no panorama nacional (porque escrevo em Português). Depois de muito reflectir sobre essa decisão, percebi que era um ambiente do qual não queria estar rodeado e fazer parte. Não me fazia mais forte ou feliz, pelo contrário, enfraquecia-me e deixava-me desiludido, não por falta de vocação ou interesse, porque eu leio e escrevo muito ainda. Só não o faço na abordagem e pela abordagem que o fazia anteriormente. Um dos segredos, ou senso comum, talvez, é saberes separar a tua necessidade em relação à necessidade que outros têm em consumir a tua música e isso, enquanto artista, é uma luta complicada. Eu não me sinto capaz, de momento, de satisfazer os objectivos que tinha enquanto MC e, ao mesmo tempo, oferecer matéria ao público que espera algo de mim. Eu só não quero ser hipócrita ou cair no comodismo de ter de fazer as coisas porque tem de ser. Gosto de valorizar e desafiar o meu percurso, ser melhor de dia-para-dia, não cair na tendência de repetir fórmulas só porque o público não é capaz de responder às tuas expectativas e direcções. Eu sei que dizer isto pode parecer que a minha opinião é um pouco severa ou presunçosa em relação ao público do hip hop, mas não é. Acho a cultura e os seus elementos uma forma de estar muito bonita e interessante. Gostava era que fosse mais desafiante e exigente no que se espera do produto final de um artista, o que fica para a eternidade. Contudo, fico muito grato se conseguir que a minha música instrumental possa tocar e sensibilizar o público que já anteriormente se identificava com a minha escrita.

O álbum de instrumentais é um formato raro em Portugal. Quais é foram os projectos nacionais deste género que te marcaram?

É um formato um pouco ignorado, infelizmente, talvez porque seja complexo de abordar e mais: em Portugal, permite-me a crítica, tudo tem que ter um “conceito” e a tua liberdade artística e as epifanias, neste caso, musicais são em grade parte ignoradas. Mas claro, há quem já o tenha feito anteriormente como o caso do D-Mars com os projectos de Rocky Marsiano (o Pyramid e Pyramid Sessions) e, mais recentemente, os dois volumes do Meu Kamba. O Sam The kid com o Beats Vol.1 – Amor. Recentemente, o Mz BoomBap que, apesar de ter uma abordagem lírica num dos lados do disco, é considerado um álbum instrumental, pelo menos para mim. O dB já com 4 discos de instrumentais ([Retro]Activo, [Beat]erapia, Black Cobra EP e 4400 OG). Ele que tem sempre um conceito ou propósito interessante por trás. O meu homie Virtus com o álbum de instrumentais (Se eu fosse…), que, para mim, é um dos mais especiais. E, claro, sem esquecer o Kilu, também conhecido como DellaFyah que tem algumas beat tapes e muito trabalho na área instrumental. Estes são os projectos que me marcaram em Portugal no que toca a música instrumental.

 


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