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Milhões de razões para não perder o Milhões de Festa

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Quem já esteve em Barcelos durante a realização do Milhões de Festa sabe bem o quão particular e especial é este festival. A programação canhota, o ambiente de tradicional hospitalidade minhota, a localização dos palcos e o perfil do público contribuem para uma experiência que não é replicável em nenhum outro ponto do país durante nenhum outro evento. E isso é uma das razões porque ano após ano tanta gente regressa para repetir a dose. Este ano a única coisa diferente que se pode apontar é mesmo o facto de este ser provavelmente um dos melhores cartazes da história deste festival.

Com projectos como The Bug com Miss Red, a malta da Goth Money Records, Adrian Sherwood, Islam Chipsy & Eek, Gaika, El Guincho, Nidia Minaj ou, entre tantos outros, Ghost Hunt, este é, obviamente um festival carregado carregado também com rimas e batidas que deverá atrair definitivamente a vossa atenção.


THE BUG & MISS RED

Murder é o título da mixtape que assinala a estreia de Miss Red em nome próprio. A MC de dancehall israelita conheceu Kevin Martin, nome por trás do projecto The Bug e parte do King Midas Sound, em Tel Aviv em 2011 e após uma sessão de improviso durante um dj set do produtor britânico iniciou com ele uma frutuosa colaboração que a levou a mudar-se para Inglaterra.

A história foi contada à Fact por Kevin Martin e pela própria Miss Red. O produtor, que convocou outros beatmakers para a estreia da sua protegida, como Evian Christ, Mark Pritchard, Andy Stott ou Mumdance – todos referências na mais abrasiva paisagem electrónica actual – explica que Murder levou algum tempo a ser preparada: “Prometi-lhe um dia por semana. Mas não foi assim sempre porque a minha agenda tem estado muito preenchida desde o meu último álbum, Angels and Devils. Começámos depois disso e fui trabalhando neste projecto em paralelo com o último disco de King Midas Sound”.

Investindo numa sonoridade que Kevin Martin define como acid ragga, Murder é um incrível registo onde um certo flow dancehall de Miss Red se cruza com beats que são igualmente devedores dos modos dos sound systems, mas que aqui se apresentam com um recorte bem mais experimental. A MC é a verdadeira estrela da mixtape, apesar das presenças de peso ao nível da produção: a sua voz é única e a capacidade de se encaixar nos beats absolutamente perfeita, acrescentando sempre algo do ponto de vista musical a cada tema. Murder pode aliás ser um dos títulos do ano.

Link para download aqui.


GOTH MONEY RECORDS

A internet é um local distante: uma selva exótica, um deserto ardente, uma galáxia situada para lá da nebulosa mais remota. A internet é mesmo ali, ao lado daquele botão. A internet é muito grande. Cabe lá tudo. Até a imaginação mais delirante. Ou Flexico, a cidade/lugar/país imaginário para onde o colectivo Goth Money escapa, sempre que a luz vermelha se acende e é hora de gravar.

Trillionaires é a estreia a sério do colectivo formado por Hunned Mill, Kane Grocerys, Karmah, Luckaleannn, Black Kray e MFK Marcy Mane. Curiosamente, e isso é um dado novo, os seis elementos centrais da Goth Money não vêm de um mesmo bairro ou de uma mesma cidade. nem sequer de um mesmo estado. Este grupo forjou as suas alianças através da internet, usando as redes sociais como canais de comunicação através dos quais se desenhou uma outra ideia de pertença. Não a um lugar, mas a uma ideia: “Gods Over This Humanity“. GOTH.

Claro que a ideia nocturna de um sentido puramente americano de gótico atravessa o subtexto musical deste grupo: tons menores, arrastados, como se esta música fosse produzida durante um sonho ou melhor ainda durante uma alucinação; e depois há o sentido estético dominante nas roupas, com o grupo a adoptar sobretudo cores escuras e a não se importar de usar t-shirts de Linkin Park ou Korn não como afirmação de algum tipo de filiação musical, mas como uma oblíqua declaração de moda – um grupo de miúdos negros dos projects que pega numa “farda” dos subúrbios brancos de há uma década ou mais e a reclama tem que ter um significado mais profundo do que simplesmente um redondo “why not?“… Certo?…

Em entrevista à Noisey, o grupo explica que na sigla que se traduz por “Gods Over This Humanity” assenta um positivismo a toda a prova, blindado numa certa inocência que os leva a quererem manter-se ferozmente independentes, a terem uma inabalável fé um nos outros e a apostarem numa visão positiva do mundo e da vida. Alguns dos membros explicam ao jornalista da Noisey que vêm de vizinhanças f*didas, pelo que escapar para um lugar de fantasia, Flexico, é afinal de contas uma estratégia de sobrevivência tão válida como vestir a pele de um thug.

Citando influências como DJ Screw ou Madlib (!!), os membros da Goth Money identificam na raiz do seu som estetas que pela desaceleração ou pela lisérgica combinação de sons também souberam alterar a realidade. A música de Trillionaires é arrastada, lenta, densa, mas ao mesmo tempo atravessada por algumas texturas sintetizadas que parecem remeter para uma década feita de néons e de cores puxadas, o que talvez ajude a explicar a sua opção de fazer vídeos usando velhas câmaras de VHS. A ideia de uma luz gótica pode igualmente ser interpretada como a ideia de um mundo iluminado apenas pela claridade que emana de um televisor – ou de um ecrã de computador – num quarto escuro. Lá fora o mundo real, mas do outro lado da luz o paraíso. Ou Flexico.

Barron Machat, o precocemente desaparecido patrão da Hippos In Tanks, tinha uma enorme fé na crew Goth Money que terá sido o seu último projecto, infelizmente não concluído. Trillionaires é a extraordinária prova de que a visão de Machat era acertada. “Quando é que se tornaram tão positivos?”, pergunta-lhes a dada altura Reed Jackson da Noisey. “Depois de fazer tanta cena negativa”, responde assertivamente Karmah. O que as cabeças pensantes da Goth Money identificam como “positivismo” é, afinal de contas, o bom e velho desejo de superação que continua a animar quem no centro do bairro procura olhar de cima e alcançar mais longe. O som da Goth Money, feito de um delicado rendilhado de beats, sinos, sintetizadores de néon, acordes menores, cordas fantasmagóricas e rumbles de baixo desenhados à dimensão das frequências de graves suportadas pelos Beats By Dre, é, afinal de contas, um passaporte. Para outra dimensão. Para os mais longínquos domínios da internet. Para outra galáxia. Tão longe e tão perto.

(O colectivo da Goth Money Records apresenta-se na ZdB a 23 de Julho)


ISLAM CHIPSY & EEK

Islam Chipsy é rápido a distanciar-se de qualquer posicionamento político na sua música. E de géneros também: em entrevistas faz questão de dizer que o que faz não é Electro Chaabi ou Mahraganat, talvez as duas mais vibrantes sonoridades que se podem descobrir nas ruas do Cairo ou de Alexandria. Mas claro que se sente uma dimensão política na sua música. E claro que há uma ligação ao Electro Chaabi e ao Mahraganat (esta palavra árabe traduz-se como “festival”…).

A dimensão política que se adivinha em Kahraba, o mais recente trabalho assinado pelo projecto EEK featuring Islam Chipsy, é óbvia: isto é música que nasce de uma tradição específica – música de rua, pop egípcio, música árabe clássica, tudo coordenadas que Islam Chipsy retrabalha num turbilhão psicadélico contemporâneo que deve alguma coisa à tradição, mas aponta ao futuro através da amplificação, da tecnologia (Kaharaba traduz-se como “Electricidade”) e da vontade de evoluir. Tudo ideias que animaram a Primavera Árabe cujos efeitos também se fizeram sentir de forma dramática no Egipto.

Ao despir a sua música de uma dimensão política, Islam Chipsy está na verdade a reclamar espaço de acção e liberdade de movimentos. E aos 30 anos, este músico tem muita amplitude de movimentos para desenvolver a sua música singular. Este é o som de um Cairo moderno, caótico, quente, misterioso que Alan Bishop, o lendário músico dos Sun City Girls, começou por gravar num álbum que levou o título de Live at the Cairo High Cinema Institute, editado em 2014 pela etiqueta egípcia/argelina Nashazphone, e que já este ano teve seguimento com Kahraba, na mesma editora. Em entrevista à Queitus, Chipsy confessa o amor pelo hip hop, admite ter referências na cena Electro Chaabi, revela que ouve sobretudo pop egípcio, mas devota todo o tempo disponível a explicar que este é som novo que resulta de um apurado estudo do passado e de uma vontade clara de renovação. Na mesma entrevista, Chipsy também faz questão de dizer que odeia metal. Mas a verdade é que Kahraba é, de certa maneira, tão extremo e tão imersivo como o metal mais avançado. Fica o aviso!

(Excerto de texto escrito a convite da ZdB para a folha de sala de um concerto de Islam Chipsy que acontecerá já a 28 de Julho)

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