Midori Takada na Culturgest: entre o teatro e o sonho

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Vera Marmelo

A apresentação de Midori Takada no auditório da Culturgest, ontem mesmo, encaixa na perfeição na ideia ocidental de exotismo: um espectáculo que desafia cânones, que se desenrola com uma diferente dinâmica, uma diferente mise-en-scéne e, claro, uma igualmente diferente ideia de performance.

No palco dispõem-se, com nítida preocupação de harmonia cénica, uma série de címbalos, um núcleo de percussões com timbalões e um gongo, à esquerda, e, à direita, o instrumento central de Midori Takada, a marimba. E é ainda a coberto da penumbra que a artista japonesa entra em palco, com o que parece ser uma pequena taça metálica tibetana, que faz vibrar gerando um doce drone que naquele contexto é claramente o convite à imersão na proposta da senhora Takada. E, pela movimentação no palco, fluída, quase como uma dança, percebe-se que há algo da particular tradição teatral japonesa a informar a sua performance.

A atenção de que Midori Takada goza neste momento — com três espectáculos em Portugal e apresentações em vários outros pontos da Europa — resulta, claro, do fluxo de atenção recente de que a sua obra foi alvo graças à reedição de Through The Looking Glass, pioneiro trabalho de 1983 recuperado para o presente através de oportuna reprensagem por parte da etiqueta suíça We Release Whatever The Fuck We Want Records em 2017. Essa mesma editora relançou igualmente, já este ano, Lunar Cruise, trabalho de 1990 que Takada assinou em conjunto com Masahiko Satoh, e ainda Ki-Motion Mkwaju, álbuns de 1981 do Mkwaju Ensemble, trio que a percussionista teve com Junko Arase e Yoji Sadinari.

 



Curiosamente, vários eixos de acesso ao passado explorados correntemente pelas editoras especializadas em reedições confluem para a obra de Midori Takada, que se impõe como relevante no contexto do recente fluxo de relançamentos de peças da discografia japonesa (Haruomi Hosono, Satoshi & Makoto, Yasuaki Shimizu, Hiroshi Yoshimura, Hiroshi Sato…), na contínua exploração do minimalismo (está em curso, por exemplo, a recuperação de peças importantes de Steve Reich), na investigação de um certo exotismo percussivo (a Mr. Bongo redescobriu o incrível Luis Perez…), na entusiasmante corrente “quarto-mundista” (vários trabalhos de Jon Hassell, mas também, para dar outro exemplo, da dupla Roberto Musci-Giovanni Venosta têm merecido relançamento) ou, para citar apenas mais uma “zona” do passado  reavaliada nos tempos mais recentes, da chamada new age (e de Laraaji a Ariel Kalma há um sem fim de reedições que aí encaixam). Não é necessário grande esforço para emparelhar os trabalhos que Midori Takada lançou na década de 80 com qualquer um dos campos atrás mencionados. E isso, claro, ampara este “regresso” aos palcos. As aspas justificam-se porque, na verdade, e como relembram as certeiras notas da folha de sala do espectáculo de ontem na Culturgest, Midori Takada tem integrado a companhia teatral de Tadashi Suzuki, residente na pequena cidade de Toga, com que faz regulares apresentações. Takada, portanto, nunca chegou a desaparecer, apenas existia num outro plano…

Ontem, o espectáculo quase que se pôde dividir em duas partes. Num primeiro momento, Takada explorou os diferentes instrumentos de percussão dispostos no palco, começando no gongo que fez vibrar de forma tranquila, libertando uma nuvem de harmónicos que nos envolveu a todos. Seguiram-se momentos nos timbalões e nos címbalos, mas com algo de desconcertante: é que Midori quase que consegue esconder que é uma executante com formação clássica (estreou-se, há precisamente 40 anos, com a Filarmónica de Berlim) e prefere, em vez disso, dar-nos durante boa parte do concerto a ideia de que pouco se estende para lá da execução de uma série de padrões primitivos (quase que se poderia dizer infantis), repetitivos e pouco elaborados.

Essa ideia não se desvanece imediatamente quando chega à marimba. Este instrumento de percussão é de uma riqueza e beleza quase indescritível e consegue soar como uma espécie de versão primitiva de um Fender Rhodes ou até de um DX7, com uma amplitude de cores harmónicas absolutamente hipnóticas. Mas Takada, inicialmente contida e minimal na sua abordagem ao instrumento, quase parece exclusivamente interessada em mostrar-nos como resulta o som nesse instrumento se percutido de forma simples, sem grande elaboração nas figuras melódicas, sem grandes arremedos técnicos.

 



Só no último terço do espectáculo, tanto na marimba como nos timbalões, é que Midori Takada deixa claro o seu virtuosismo, adoptando uma abordagem mais técnica, expansiva e complexa às possibilidades dos diferentes instrumentos que tem à sua disposição. Antes disso declamou, ou recitou, o que soou a uma espécie de mantra budista, evoluiu pelo espaço cénico com graciosidade clássica de movimentos e, quase que sem o percebêssemos, foi-nos envolvendo a todos no seu mundo de vibrações primordiais, como se fôssemos sendo lenta e tranquilamente engolidos por um mar tropical, de temperatura amena e cores vibrantes.

O concerto está longe de ser uma reinterpretação de palco da brilhante música que o mundo não ouviu em 1983 quando Through The Looking Glass foi originalmente editado. Mas entende-se que a figura que criou esse pedaço sublime de música continua interessada em explorar novos e imaginários mundos através das possibilidades da libertação de vibrações ancestrais em instrumentos de percussão. Com um som e uma luz imaculados, o concerto de ontem na Culturgest insere-se na rara classe dos momentos que parecem só fazer pleno sentido quando, algum tempo depois, finalmente despertamos do torpor onírico em que nos envolveu.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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