Metro Boomin // NOT ALL HEROES WEAR CAPES

[TEXTO] Miguel Santos

“If Young Metro don’t trust you, I’m gon’ shoot you”

A frase acima já se tornou sinónimo de incontáveis hits no mundo do trap. Desde “Jumpman” de Future e Drake a “Father Stretch My Hands Pt.1” de Kanye West, quando a ouvimos sabemos automaticamente uma coisa: o Metro Boomin tem mão nesta batida. E mesmo sem uma das suas tags a soar, há qualquer coisa que distingue a produção do artista nascido Leland Wayne. São instrumentais espaçosos com um reverb que percorre os canais auditivos de uma ponta à outra e com uma seriedade típica do trap que Boomin adapta para si. É um dos produtores mais proficientes deste género musical e um dos poucos que abraça e compreende a sua estética ameaçadora, fazendo-o transparecer na música que produz através de arranjos esparsos mas efectivos.

E tudo isso faz com que Boomin esteja neste momento nas bocas do mundo e no topo da indústria. Na era do trap, quanto mais uma música bomba melhor, e ainda que o hook possa também carregar uma música quem é que iria ouvir o “Bad and Boujee” sem aqueles 808s rimbombantes ou aquela melodia discretamente entusiasmante de teclas? O trabalho de Boomin está intimamente ligado ao sucesso de vários artistas estandarte do trap, tanto que em cinco anos de produção só agora chega o seu primeiro longa-duração oficial em nome próprio. Depois de uma mixtape e projectos colaborativos com vários artistas entre os quais Young Thug, 21 Savage e Offset, NOT ALL HEROES WEAR CAPES mostra uma produção clássica de Metro Boomin aliada a uma experimentação com outros géneros. Não é um álbum brilhante mas conta com alguns momentos musicais que o distinguem de tantos outros lançamentos de trap.

Ainda que o estilo de produção de Boomin seja reconhecível, as primeiras músicas do álbum espelham abordagens diferentes do produtor a uma música: “10AM / Save the World” introduz o projecto e é a faixa em que mais transparece a “marca” do produtor, possante e melancólica, um instrumental tenso que serve como fundação para os versos de pura opulência e braggadocio de Gucci Mane. Transita de forma eficaz para “Overdue”, um dos melhores temas do álbum, construída à volta de um sample infeccioso e bem aproveitado, em que as melodias de Travis Scott encharcadas em Auto-Tune fazem sobressair o instrumental inspirado pela synth-pop. Finalmente, “Don’t Come Out the House” termina este conjunto fluido de canções com uma batida esquelética destruidora de subwoofers, um tema que começa sussurrado e vai subindo a tensão com a violência da letra de 21 Savage (“I green light hits, I don’t make jingles”).

Músicas como “Dreamcatcher” ou “Borrowed Love” mostram a capacidade que Metro Boomin tem para mais do que produzir trap. Ambos os temas contam com a participação de Swae Lee e são mais r&b que hip hop, sintetizadores aquosos que se fundem com 808s numa união quente e mais suave que rivaliza a voz aguda desse artista. Mas o tema que mais destoa do projecto é “Only You”. A canção mostra uma uma sonoridade mais dancehall e conta com participações de J Balvin e Wizkid. Mas é uma música insossa que acaba por se tornar repetitiva. Neste caso, Boomin mostra alguma versatilidade ao ser capaz de produzir uma música perfeitamente banal e inócua.

Fora algumas explorações pouco aventureiras, o projecto não deixa de ser um álbum de trap e nesse sentido acaba por ser um conjunto de músicas que aspiram a ser hits e poucas chegam à primeira metade da tabela. Mostra um trabalho decente de Boomin mas a curta lista de convidados faz apenas o esforço mínimo. 21 Savage dispara mais adlibs que versos em “10 Freaky Girls”, mostrando mais do mesmo de forma genérica, e em “No More” o rapper e companhia perdem-se em drogas e hedonismo ao som de uma batida “preocupante” com uma estrutura tediosamente repetitiva. Mas Gunna, detentor de uma sonoridade em tudo semelhante a Young Thug, é quem protagoniza alguns dos piores momentos deste projecto. “Lesbian” é um tema com uma progressão instrumental visível mas que sofre com o flow letárgico e desinteressante de Gunna. E em “Space Cadet”, o rapper “rouba” ao seu mentor o instrumental espacial pautado por um teclado agudo cintilante, que certamente estaria mais bem servido com um dos devaneios vocais mais expressivos de Young Thug.

NOT ALL HEROES WEAR CAPES é um título adequado ao artista mas, salvo algumas excepções, o álbum não espelha o percurso de um dos super-heróis do trap. Há músicas que simplesmente passam ao lado, afogando-se no oceano de faixas deste género que inunda a música popular hoje em dia. Há batidas que soam muito parecidas a algo que Boomin já fez antes, confundindo-se com outros incontáveis hits do produtor que já ouvimos a bombar. E pelo meio, há alguns temas que certamente ficarão na cabeça, provando que para muitos, e definitivamente cada vez menos, Boomin’ é um herói nas sombras: mesmo sem capa, está (quase) sempre lá para salvar a festa.

 


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