MEO Sudoeste’19 – 8 de Agosto: uma carta de amor enviada de Atlanta

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Manuel Casanova | Íris Cabaça e Francisco Direitinho / World Academy

Mal se soube que 6LACK se iria estrear em Portugal na edição deste ano do MEO Sudoeste, as vozes por essa Internet não se calaram: não era o festival certo para um dos diamantes mais brilhantes que o r&b norte-americano nos deu nos últimos anos. Concordando-se ou não com a argumentação contra (“a sua música não encaixaria no resto da programação”; “a plateia era demasiado jovem”), a colocação entre Jimmy P e Post Malone, não esquecendo os alinhamentos dos palcos secundários com bastante rap, ajudou a criar as condições necessárias para que brilhasse. E Ricardo Valdez Valentine aproveitou.

Antes da subida a palco do protagonista, DJ Tonee aqueceu o público com seis disparos certeiros: “Old Town Road”, “Suge”, “Sicko Mode”, “m.A.A.d city”, “I Like It” e “Thotiana”. À semelhança de muito dos seus conterrâneos rappers, 6LACK, “a R&B nigga with a hip-hop core”, apostou em hits saídos directamente da playlist Rap Caviar, uma manobra arriscada tendo em conta o carácter menos festivo de muitas das suas próprias canções, mas que funcionou na mesma.

O artista de Atlanta estava talhado para vencer na Herdade da Casa Branca, e nem precisou de focar a setlist no disco que lhe valeu duas nomeações para os GRAMMYs, atirando-se maioritariamente a East Atlanta Love Letter, o seu mais recente álbum. “Unfair”, “Loaded Gun”, “Nonchalant”, a faixa homónima, “Disconnect”, “Switch” e “Pretty Little Fears” — tema em que cantou o verso de J. Cole — levaram-nos até ao grand finale: três anos depois do seu lançamento, “PRBLMS” ainda contém todas as propriedades que a tornaram altamente viciante, resumindo, naquele momento, o resto do espectáculo: os graves a saltarem com força do sistema de som; a voz com a mesma autoridade que ouvimos nas versões de estúdio; as palavras, completamente perceptíveis, a traçarem-nos retratos de relações complicadas através de uma sensibilidade invulgar.

“Equipado” com um chapéu da Balenciaga e rodeado por baterista, teclista e DJ, 6LACK mostrou-se comunicativo e trabalhou a audiência com particular à-vontade. “Esta é a minha primeira vez em Portugal, mas parece-me que vou voltar mais vezes. Que público”, exclamou o autor de FREE 6LACK. Para alguém que percebe tão bem a complexidade dos relacionamentos, esperemos que não nos esteja a atirar areia para os olhos. Não pode ser apenas uma one-night stand



Nas horas antes, o hip hop português tomou conta de tudo. Spliff representou a crew M75 (e não se cansou de reforçá-lo) e reuniu um grupo de fiéis e curiosos à frente do Palco LG By Mega Hits, refugiando-se no seu álbum de estreia (e também aproveitou para tocar a recente “Ninguém luta por ti”).

Antes da subida a palco de X-Tense, ainda deu para vermos um pouco da actuação de Uzzy, que não veio sozinho: o seu Gangarve e DOMI apareceram para mostrar que “85 é o estilo”, deixando poucas dúvidas: existem mesmo pequenos fenómenos de popularidade que se fazem fora dos circuitos tradicionais.

Tal como aconteceu com aqueles que lhe antecederam, o autor de Rosa Dragão tinha muitas pessoas à espera da sua apresentação. Acompanhado por Hype Myke e três hype man (e um deles é, provavelmente, um dos mais entusiasmados que vimos nos últimos tempos), Nuno Barreiros tentou mesclar as canções com um lado mais humorístico (que não resultaram tão bem como o que vimos na web-série PABLO), e, pelas reacções efusivas, tem uma série de hits nas mãos. De “NARCOS” a “TT”, passando por “#PIXAGRANDE” e o inevitável “Bolero”, X-Tense apareceu na Zambujeira do Mar para confirmar o que o próprio já deve saber: acertou na fórmula e “esta coca e esta viola vão dar notas até já só pensares em guito para elásticos”.

Pela quarta vez no MEO Sudoeste, Jimmy P abriu a festa no palco principal e não se cansou de reforçar que se deve valorizar a música portuguesa, algo que o festival tem feito — basta olhar para os nomes no cartaz deste ano –, passeando pelas músicas mais celebradas da sua carreira. Quase em simultâneo, Mike Lyte, YouTuber tornado rapper, demonstrou que é diferente da comunidade que se anda a aproveitar do género musical: existe skill e um grupo de devotos que levantaram pó no Palco LG by Mega Hits.

Phoenix RDC foi o sacrificado na pausa para jantar, mas a potência sentia-se de longe. Com o passar das horas, as movimentações da multidão davam a entender que Post Malone era mesmo um dos nomes mais esperados desta edição, um regresso com uma tarimba diferente após a passagem pelo Sumol Summer Fest, em 2017. Muitos milhares de plays e visualizações depois, Austin Richard Post formalizou a sua candidatura solitária a momentos mais recordado pelos festivaleiros, ancorando a sua actuação (que é tão cantada como “rappada”) em temas como “Too Young”, “Better Now”, “I Fall Apart” ou “rockstar.

Hoje, o cenário é o mesmo: muitas rimas e batidas com Russ, Wet Bed Gang, Sippinpurpp, Lon3r Johny, Chong Kwong, Timor YSF, Baby Dog e Guetto Roots.