MCK: “Participar no Vodafone Mexefest vai ser uma experiência única”


[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [VÍDEO] Luis Almeida [FOTO] Sebastião Santana

Faltam poucas horas para ouvirmos MCK no palco da Ciência Rítmica Avançada no Vodafone Mexefest. Às 22h10, o artista angolano arrancará para “50 minutos bem aproveitados”, como garante em entrevista ao Rimas e Batidas. Com um novo trabalho, V.A.L.O.R.E.S., previsto para sair em Março de 2018, o rapper traz ao festival, além dos três singles de avanço que já pudemos ouvir, um passeio pelos álbuns anteriores carregados de música empenhada na mudança. Aliás, a conversa com MCK não podia passar ao lado das notícias que nos vão chegando de Angola com ventos de abertura democrática por parte do novo Presidente da República, João Lourenço. O músico acredita que agora os angolanos têm “uma oportunidade ímpar de tirar a cidadania do modo vibração ou modo de voo para a exercerem de forma livre”.

 



O que significa na tua carreira estar no cartaz de um festival como o Mexefest?

Com essa dimensão é a primeira vez e para mim vai ser uma experiência boa. Estive anteriormente em outros festivais de uma natureza completamente diferente deste. Em 2008 estive no Festival Mestiço no Porto onde pude conhecer artistas como o Azagaia, com quem trabalho até hoje. Na altura esteve o Sam the Kid e o Marcelo D2, são as referências com quem me lembro de ter estado no Porto. Estive em 2009 no African Festival que realizavam no Teatro São Jorge, na Avenida da Liberdade, e que era um festival mais com artistas de língua oficial portuguesa e africanos. Havia artistas como a Sara Tavares que eu sempre respeitei e admirei muito. Por acaso participei numa actividade realizada pelo Ângelo Kalaf que juntou Ecos da Banda, o conjunto Ngonguenha, na altura com o Conductor, o Keita Mayanda, Leonardo Wawuti, o Ikonoklasta, o Nástio Mosquito e eu. Entretanto já fiz dois concertos cá em nome próprio no Musicbox, um na fase da detenção dos 15 (2015) com o Bonga, e em 2016 fiz o Ikonopongo com o Ikonoklasta. Mas pronto, participar no Vodafone Mexefest vai ser uma experiência única, completamente diferente porque é um festival que vai reunir várias vozes de músicos muito diferentes uns dos outros, de países diferentes, sonoridades diferentes e muito alternativos. Estou expectante para participar.

Achas que este convite para um festival mais abrangente, que não é só de música portuguesa, só de rap, só de lusofonia, é a prova de que o mundo está actualmente mais de olhos postos em Angola e na música feita em Angola?

Eu não diria que o convite vem por força de um olhar mais atento para Angola porque se repararmos a natureza do próprio festival é uma espécie de sondagem, é um festival em que os curadores são uma espécie de detectives de coisas alternativas produzidas em toda a parte do mundo, de coisas mais com um valor artístico acrescido do que com um valor comercial, do meu ponto de vista. Mas aquele exercício de pesquisa da diversidade artística, de pesquisa de coisas inusitadas, coisas mais experimentais, mais alternativas, nesse sentido se calhar não tem a ver com Angola, tem a ver com o facto talvez do valor representativo, do valor imaterial, do valor artístico que a minha música transporta, tanto a minha como a da Eva. Felizmente, o cartaz tem dois nomes de Angola, o meu e o da Eva RapDiva. Eu acho que é um bocadinho mais por conta do trabalho que a gente tem feito, por conta dos vídeos que lançamos com regularidade, da música que lançamos com alguma regularidade, por conta desses pesquisadores, dessas cabeças que cá existem em Portugal que têm uma cultura de pesquisa muito forte, de pesquisa do alternativo muito forte, daquelas coisas que têm um valor simbólico superior ao valor material das coisas mais mainstream, mais comerciais. Então eu acho que é mais nessa perspectiva, do que na de ser de Angola. Em Angola neste momento há muito talento, a minha geração está a produzir muita música alternativa, muita coisa diferenciada. Não é muito o país é mais a qualidade artística.

O que é que perspectivas deste concerto? Podes levantar um bocadinho o véu?

Eu estou por acaso com perspectivas elevadas porque sei que vou aprender muito nesse festival. Uma pena muito grande é no meu dia estarem a acontecer simultaneamente muitas coisas a que gostaria de assistir. Por exemplo, queria assistir à performance do Oddisee. Do pessoal mais ligado ao hip hop queria assistir ao Oddisee, quero coroar o regresso dos Micro que desaparecem durante 16 anos e voltam assim. Sempre acompanhei o trabalho deles com enorme atenção e somos mais ou menos contemporâneos, pertencemos à mesma geração, então ver esse regresso do D-Mars, do Sagaz e do Nel’Assassin, com quem trabalho com alguma regularidade para mim vai ser fantástico. Mas entretanto também quero assistir a artistas que nem sequer conheço porque em concerto é o outro lado da representação que o disco não nos oferece. Estou assim com a expectativa em correr, fazer o corredor da Avenida e experimentar um bocadinho de tudo.

 



E o que é que trazes a palco do teu álbum que está para sair, V.A.L.O.R.E.S.?

Do V.A.L.O.R.E.S. tenho três músicas para apresentar. Uma que é a “Problemas” que tem o refrão em cutz, scratch e voz do Mano Brown, com cutz e scratch do Nel’Assassin e uma produção do Boni Diferencial. Também tenho o “Ironizando a crise”, que é uma produção do Hell J Canislupus, em que eu gozo com a situação da Angola de há quatro anos que era um El Dourado, um país de sonho, uma economia que crescia com dois dígitos por ano, uma inflação controlada, uma taxa cambial estabilizada e de repente, passado três anos, mergulha numa crise que perdura há mais de dois anos. Enfim, gozo um bocadinho com essa situação. E há uma terceira faixa que é a “Chamada Grampeada”, que é uma homenagem ao Arsénio Sebastião Cherokee, que foi um jovem lavador de carros que foi morto por estar a ouvir a minha música. Do novo álbum tenho essas três a apresentar. Depois vou passear por temas soltos, vou passear pelo repertório dos álbuns anteriores, vamos ao Trincheira de Ideias, vamos ao Nutrição Espiritual e ao Proibido Ouvir Isso. Vão ser 50 minutos bem aproveitados.

Sobre o teu próximo álbum, reparei particularmente em duas participações que vais ter que é a Aline Frazão e a Mynda Guevara por serem mulheres, por estarem a aparecer mais agora. A Aline dá mais concertos fora de Portugal e a Mynda está agora a começar e é uma nova voz feminina no rap. Porquê estas escolhas?

Por várias razões. Nos meus álbuns os convites nunca são convencionais e do meu ponto de vista tem que haver sempre uma razão muito forte para convidar. Regra geral convido artistas que respeito e admiro muito, como é o caso da Mynda Guevara que eu conheci em Março deste ano em Coimbra. Alguns amigos sugeriram a música dela, depois o Valete também me mostrou e foi tiro e queda. Eu acho que é uma artista com muito talento apesar de ser de uma geração muito nova, eu acho que a Mynda deve ter 4 ou 5 anos de rap se tanto, mas traz uma sonoridade muito adulta e traz uma mensagem. Acho que tem uma beleza o facto de ela comunicar em crioulo, traz uma identidade cultural dos cabo-verdianos, e ser paralelamente a artista uma activista  muito preocupada com causas sociais. Isso chamou-me à atenção, o facto de ser muito nova e ter essa preocupação de fazer música engajada. Por outro lado a Aline Frazão é dos maiores orgulhos da minha geração, é muito mais nova que eu, deve ter menos 6, 7 anos do que eu, mas entretanto também traz uma maturidade artística muito forte. É dos poucos artistas da geração dela a fazer música engajada, a querer fazer algo mais do que música e acima de tudo porque também abraça o activismo, é daquelas pessoas que se bate muito em Angola com as questões da igualdade de género. Neste meu álbum também queria trazer essa preocupação da igualdade de tratamento entre os homens e as mulheres que, apesar de estar consagrado na nossa constituição, na vida real é completamente diferente. Sente-se claramente que a mulher, apesar de ser a maioria geograficamente, em Angola não tem poder, não tem muita participação. E a Aline Frazão por estar nessa luta, por ter uma voz doce, por ter uma produção extraordinária no meu ponto de vista e por comunicar Angola em ritmos completamente diferentes para mim é uma viagem que acaba enriquecendo o álbum. Repara, eu não consigo apontar um único estilo à Aline Frazão. Ela pode passear do kilapanga para bossa nova, para world music. É uma verdadeira artista, é um produto muito forte. Um outro nome que também está no álbum e com qualidade semelhante ao das duas anteriores, da Mynda Guevara e da Aline Frazão, é a Tássia Reis que é uma artista que eu conheci há dois anos no Brasil igualmente extraordinária então para mim colocar essas artistas que eu respeito e admiro muito, além do equilíbrio do género acho que é um valor agregado para o meu álbum.

Lançaste “Violência Simbólica” em Julho. A política em Angola já mudou nestes meses?

Não. De Julho para cá a política não mudou. A música “Violência Simbólica” que é inspirada na teoria do sociólogo Pierre Bourdieu, que é uma forma de coacção sem força física, por intermédio de ideias, de um grupo dominante que cria filosofias para construir ideias de massa e controlar o poder da população, na maior parte dos casos isso ainda vai viver. Essa violência simbólica existe em Angola, existe aqui em Portugal, existe no Brasil e vai perdurar no mundo durante muito tempo. Mais do que isso, os parcos sinais que estamos a ter de abertura democrática vão devolver nova actualidade às exigências democráticas que a gente sempre faz, ou seja, os activistas cívicos, o pessoal da música engajada, o pessoal da música de teor político e interventivo vai entrar na moda em Angola precisamente numa fase que começa a haver abertura para o exercício da cidadania por intermédio da arte. O país está a abrir-se para o pluralismo de expressão, para a possibilidade das pessoas poderem manifestar ideias diferentes que concorrem para o bem comum e os artistas do rap sempre fizeram isso. Por exemplo, o novo Presidente da República (João Lourenço) teve como tema de campanha eleitoral a corrupção. Eu rimo contra a corrupção desde 2002. Então ver um Presidente que manifesta abertura, que tem um comportamento que o demarca do anterior que era horrível, que não manifestava essa abertura para o diálogo, que não manifestava essa abertura para vozes contrárias, acho que é um espaço privilegiado e as nossas músicas vão ganhar nova actualidade nesse sentido. Então “Violência Simbólica” acaba ganhando um espaço de compreensão maior com esses sinais de abertura democrática.

E achas que é uma verdadeira abertura? O que é que pensas do João Lourenço?

Eu acho que é prematuro em 50 dias de governação fazer grandes avaliações, mas entretanto existem posturas comportamentais completamente diferentes de José Eduardo dos Santos que nos oferecem sinais de optimismo no que diz respeito às aberturas democráticas. Por exemplo, José Eduardo dos Santos em 38 anos no poder nunca passou uma noite numa província no interior de Angola. João Lourenço nesses 50 dias de governação  já passou a noite em duas províncias. Se aqui em Portugal o presidente Marcelo passasse a noite no Porto não seria motivo de notícia, é normal que um presidente tome contacto com as várias realidades do seu espaço geográfico, mas como o anterior nunca o fez então é quase que extraordinário para quem nunca viveu isso. Outro exemplo, Angola há mais de 15 anos pertence à região económica da SADC (Southern Africa Development Community) que a existência de livre circulação de pessoas e bens, mas entretanto no consulado anterior não conseguimos manifestar acordos que eliminassem os vistos de fronteira entre Angola e África do Sul. O português não só gira nos estados de Schengen, aqui no espaço da União Europeia, mas também entra para África do Sul, por exemplo, sem visto. O angolano passa a entrar agora para África do Sul sem visto, passa a entrar para Moçambique sem visto. Essa manifestação de maior aproximação do nosso grupo económico vai patrocinar outro tipo de intercâmbio na nossa região, intercâmbio cultural, artístico, económico. Esses sinais de abertura democrática, de abertura de fronteira, de abertura de diálogo que o João Lourenço dá pode ser uma oportunidade para os sectores mais críticos, para os activistas, para os músicos de intervenção social deixarem de ser porta-vozes da população e estimularem assim cada um de nós a exercer de forma livre a nossa cidadania. Temos uma oportunidade ímpar de tirar a nossa cidadania do modo vibração ou modo de voo para a exercer de forma livre. Melhoramos o nosso nível de crítica, melhoramos o nosso nível de participação activa, melhoramos acima de tudo o nosso nível de participação nas decisões que ditam o nosso futuro, isso é de lei, é a constituição que nos oferece essa possibilidade. Mas conforme fiz referência inicial, é prematuro fazer grandes avaliações, ele está a gozar dos seus cem dias de graça. Ainda assim, dá sinais de abertura democrática muito melhores que do anterior que foram horríveis.

 


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