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Fotografia: Direitos Reservados

O músico construiu uma extensa obra, tendo gravado vários clássicos como parte de um dos mais reverenciados quartetos de sempre e assinado também uma vasta discografia a solo.

McCoy Tyner, pianista do quarteto clássico de John Coltrane, morre aos 81 anos

Fotografia: Direitos Reservados
McCoy Tyner faleceu ontem, aos 81 anos. A família do grande pianista de jazz comunicou o sucedido através das plataformas sociais oficiais do artista: “É com corações pesados que anunciamos o falecimento da lenda do jazz Alfred “McCoy” Tyner. McCoy”, prossegue o comunicado, “era um músico inspirado que devotou a sua vida à sua arte, à sua família e à sua espiritualidade”. A espiritualidade de Tyner foi, aliás, o que o levou ao encontro de John Coltrane. Ashley Kahn escreve em A Love Supreme – The Story of John Coltrane’s Signature Album (Penguin, 2002) que eles “eram ambos tranquilamente intensos e musicalmente focados. Ambos eram igualmente atraídos para caminhos religiosos, com o pianista a converter-se ao islamismo, como Naima, a mulher de John Coltrane. Tyner falava igualmente de música nos mesmos termos espirituais que Coltrane: “Quando a fé de um homem não é questionada, não penso que ele alguma vez aprenda alguma coisa. Há que enfrentar tribulações e julgamentos senão o que há para aprender? Há que existir alguma adversidade para que uma pessoa descubra que tem as ferramentas necessárias e que está equipada para vencer”. McCoy Tyner estava, de facto, equipado para vencer. Tyner nasceu a 11 de Dezembro de 1938, em Filadélfia, na Pensilvânia. Mais velho de três filhos, o pequeno Alfred viu-se encorajado a aprender piano pela sua mãe. As lições começaram quando tinha 13 anos e aos 15 a música era central na sua vida. Três anos depois converteu-se ao Islão assumindo o nome muçulmano de Sulieman Salud. “A minha fé”, contou Tyner ao jornalista Nat Hentoff, “ensina a paz, o amor de Deus e a união da humanidade. Esta mensagem de unidade tem sido a coisa mais importante da minha vida e, naturalmente, marcou a minha música”. Benny Golson e Art Pepper deram-lhe o primeiro emprego sério em 1960, no seu Jazztet, mas muito pouco tempo depois John Coltrane convidou-o a integrar o seu quarteto clássico ao lado do baterista Elvin Jones e do contrabaixista Jimmy Garrison. Tinha nascido aí uma das mais reverenciadas formações da história do jazz. Tyner era o último sobrevivente desse quarteto, depois dos falecimentos de Coltrane em 1967, Garrison em 1976 e Jones em 2004.

O saxofonista começou por resistir aos apelos de Tyner para tocarem juntos. “Lembro-me quando ele estava a escrever ‘Giant Steps’ e ‘Countdown’, recordou Tyner a Ashley Khan, referindo-se a temas do disco que o saxofonista editou na Atlantic em Fevereiro de 1960. “Ele estava a mostrar-me o que estava a fazer e eu queria gravar com ele, mas ele disse-me, ‘eu sei que consegues tocar, mas és muito novo’”. O saxofonista tinha mais 12 anos do que o jovem pianista. Ainda assim, escreve Kahn, Tyner estava confiante: “tínhamos uma espécie de acordo verbal de que se ele alguma vez criasse o seu próprio grupo, seria eu a tocar piano”. E depois da experiência que Tyner adquiriu ao lado de Golson e Farmer, Coltrane convenceu-se e decidiu despedir Steve Kuhn e contratar o jovem pianista, que não tinha quaisquer dúvidas: “o meu lugar era no grupo de John”. O saxofonista também tinha idênticas certezas: “Conheço-o há muito tempo e sempre senti que queria tocar com ele. As nossas ideias”, rematou a dada altura Coltrane, “encontram-se e combinam-se. Trabalhar com o McCoy é como usar uma boa e perfeitamente ajustada luva”. A imagem não podia ser mais correcta. Ao lado de John Coltrane, McCoy Tyner gravou abundantemente, começando logo por participar em algumas sessões de 1960 (para material só editado algum tempo depois). Mas foi com a edição de My Favorite Things, em 1961, que primeiro se fez notar o seu discreto, mas sólido génio. O pianista gravaria depois Africa/Brass, Live! At The Village Vanguard, Coltrane, Olé Coltrane, Coltrane Plays The Blues, Ballads, Impressions, Live At Birdland, Afro Blue Impressions, Crescent ou a obra-prima de 1964 A Love Supreme. McCoy Tyner manteve-se ao lado de Coltrane até 1965, gravando ainda importantes obras como Ascension ou New Thing at Newport, Meditations e Om. Coltrane referiu, em entrevista de 1961, que o trabalho de Tyner foi crucial para a sua expressão: “O meu pianista actual, McCoy Tyner, segura as harmonias e isso permite-me esquecê-las. Ele é, de certa maneira, aquele que me dá asas e que me permite arrancar do chão e voar de vez em quando”. Depois de 1965, com Coltrane a prosseguir uma via cada vez mais abstracta, atonal e livre e voando, portanto, cada vez mais alto, Tyner seguiu outro caminho: “Não estava a ver a fazer nenhuma contribuição para aquela música… Tudo o que eu conseguia ouvir era barulho, não estava a sentir a música e quando eu não sinto, eu não toco”, contou ele a Porter Lewis, biógrafo de Coltrane. A Blue Note foi a paragem seguinte de Tyner que nessa casa gravou uma série de discos entre 1967 e 1970, incluindo The Real McCoy ou Expansions e Extensions. A etapa seguinte levou-o até à Milestone, editora com que trabalhou até ao início dos anos 80. McCoy Tyner manteve-se activo praticamente até ao fim e gravou abundantemente nos anos 80 e 90 do século passado para selos como a Blue Note, Enja, Palo Alto, Impulse e Telarc, tendo deixado mais de sete dezenas de registos como líder, o último dos quais, Solo: Live From San Francisco, editado em 2009. Ben Ratliff, na notícia de falecimento no New York Times, escrevia ontem que “juntamente com Bill Evans, Herbie Hancock, Chick Corea e apenas mais alguns, Mr. Tyner foi um dos principais canais de expressão do moderno piano jazz”. O crítico americano descreve ainda o som do pianista como “rico, percussivo e sério”. De facto, das mãos de Tyner – uma esquerda assertiva com que gerava vívidos acordes e uma direita inventiva, capaz de nos surpreender permanentemente com o seu lirismo e imaginação – nasceu uma obra imensa que guiou pianistas e outros músicos durante décadas. A McCoy Tyner sobrevivem a sua mulher, Aisha Tyner, o seu filho, Nurudeen, o seu irmão Jarvis, a sua irmã Gwendolyn-Yvette e ainda três netos.

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