Mayra Andrade: “Estou num momento mais lusófono da minha vida”

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] OJOZ

Mayra Andrade não sabe responder à nossa última questão; podíamos atribuir isto ao quão cedo se realiza a entrevista, mas, reconhecemo-lo, não facilitámos. Apesar das dificuldades técnicas nos obrigarem a esquecer boa parte da conversa com a cabo-verdiana que editou Manga em Janeiro, não precisamos de aceder à gravação para nos lembrarmos do que nos conta acerca da sua voz: vê-a como um instrumento, como os demais que a acompanham em estúdio ou ao vivo. O Auto-Tune que lhe foi aplicado na canção “Pull Up” é obra sua e obrigou a um jogo de cintura com os seus produtores — se tudo correr bem, ouviremos Andrade em novas formas, talvez mais manipulável, recortada, reverberante. E de forma menos literal. O que lhe falta fazer, dizer, expressar com a voz?

É natural que ainda não saiba. Talvez seja melhor abrandar um pouco, embora seja verdade que, se estamos a pensar no que ainda ouviremos de Mayra Andrade, é porque lhe estamos a prestar a devida atenção. Apesar do seu quinto álbum Manga — uma colecção personalizada de luz sonora, som orgânico, vital — só nos ter chegado há cerca de meio ano, o sabor do sumo é forte o suficiente para nos deliciar no presente, continuar a mapear a Nova Lisboa e servir ainda de barómetro para as potencialidades de uma artista revigorada. A sua mudança para a capital portuguesa inspirou um estado de espírito “solar” e deu-lhe segurança para tomar riscos, expor-se mais (o que se verifica também na capa e nos telediscos do álbum, em que Andrade diz ter estado minuciosamente envolvida) e ameaçar expectativas — o que, à data, parece ter sido só pessimismo. Manga é o motor de mais uma digressão que começou na cidade que inspirou o longa-duração, e já se prolonga até 2020, com um rol de datas por Itália e França (no caso de aborrecimento, o que não deverá acontecer nos próximos dois anos, Andrade mostra-se interessada em “criar bolhas de oxigénio” através de “outras formas de fazer música”). Antes disso, Andrade é um dos destaques no festival Sou Quarteira, ao lado de Allen Halloween, Eva Rap Diva, Branko ou PEDRO.

O Rimas e Batidas acordou cedo para falar com a cabo-verdiana cuja voz ainda nos dirá muito — demasiado cedo para pensar nisso; ainda é altura de colher (e saborear) os frutos desta era.



Como estás neste momento?

Estou meio a dormir. [Risos]

Partilho desse sentimento. Entrevistas marcadas para muito cedo… Estás em Portugal?

Não, estou em Toulouse. Eu vou actuar hoje [a entrevista aconteceu na passada terça-feira] com o Roberto Fonseca e a Omara Portuondo no festival Jazz in Marciac.

Muito bem. Vamos começar já pelo novo álbum, porque ainda não pudemos conversar sobre ele. Há uma faixa que me marca em particular, a “Vapor di Imigrason” — há um verso nessa música que quase poderia resumir o teu percurso, de uma forma simplista, ou a tua vida: não sei se fiz bem a tradução, mas algo como “Ó mar, recebe esta morna e leva-a até eles”. É uma boa frase para resumir o que já conseguiste até agora, ou pelo menos o ponto de partida para seguires essa vida?

Sim, de alguma forma, porque eu devo a Cabo Verde construir, digamos, o meu percurso, a minha carreira de fora, como muitos artistas cabo-verdianos. É um bocado a nossa sina ter que ir para o mundo para poder investir, para o mundo, mas também para Cabo Verde. De certa forma, tudo o que fazemos é para eles, é para os nossos, mas é sempre um envio a longa distância.

Houve algum momento em que, ao longo da tua carreira — se calhar no início —, não te sentisses tão pronta ou orgulhosa para abraçar essas raízes musicais de Cabo Verde?

Quando comecei a minha carreira, eu sabia que queria começar por Cabo Verde e orgulho de Cabo Verde, da música de Cabo Verde, da minha cultura, sempre tive imenso, na verdade. É muito fácil perceber isso quando se conversa comigo. Eu sabia que queria começar por aí, porque queria que os créditos fossem a Cabo Verde. Era muito fácil eu cantar em francês e ter uma carreira mais rápida a ser construída, nomeadamente em França, o país onde eu fui viver, ou fazer coisas mais tradicionais; muita gente me dizia, “podes fazer discos em francês, não sei quê”, e não era interessante para mim. Ser identificada como artista cabo-verdiana primeiro, mas com desejos próprios, com uma vontade de fazer o que lhe dá na gana, na verdade — mesmo do primeiro disco, que é um disco mais, digamos, tradicional, mas eu estive sempre um bocado à margem, nas fronteiras do tradicional.

Como estás a falar da facilidade que terias a cantar em francês, isso é um ponto interessante, boa parte da tua agenda continua a ter a seta apontada para França, que é um território em que ascendeste muito naturalmente, mas não é um sucesso esporádico. Foste nomeada pelo Lovely Difficult no Victoires de La Musique e és um nome sólido a teu próprio jeito. A verdade é que tinhas aqui um clima muito favorável a uma ascensão se calhar ainda maior, e já falaste sobre o facto de não teres falado temas em francês para este Manga. Foi difícil agarrares-te a este instinto artístico ou houve uma tentação, um encaminhamento exterior para essa vocação mais comercial?

Foi difícil convencer as pessoas que trabalhavam comigo de que não era necessário gravar uma música, duas ou três em francês. Foi pura convicção — não só artística, mas também pessoal. Talvez seja um medo do ponto de vista comercial, mas era a melhor forma de não me arrepender: eu não faço essas escolhas racionalmente. As músicas que eu cantei em francês, apaixonei-me por essas que me estavam a ser dispostas. Neste disco, havia uma vontade de cantar apenas em crioulo e mais em português do que eu tinha cantado até aí, porque estou num momento mais lusófono da minha vida, mudei-me para Lisboa, e não me apetecia mesmo cantar em francês, nem inglês, nem coisíssima nenhuma. A minha negociação com eles foi [nos termos de] “se vocês me propuserem uma música que me abalar a cabeça e entrar perfeitamente neste projecto, quem sabe? Até lá, eu não vou procurar, e vocês continuem a mandar-me coisas que façam sentido, porque enquanto isso, não…”

Pode ser que se tu tiveres feito uma música em francês, poderia facilitar-lhes alguma coisa em termos de promoção, porque existem as quotas, como sabes — mas eu não me arrependo de não ter gravado noutras línguas, porque não tenho sentido… Acho que este disco me tem aberto mais portas, se calhar, que os outros, portanto… Mesmo ao vivo, as pessoas recebem e percebem este disco de uma forma muito orgânica, e isso tem a ver com a música, não com o entendimento das letras. As músicas em francês nos discos anteriores, ok, há muita gente que gosta em França, percebem a letra, e tudo isso, mas não me faz uma diferença assim tão grande, muito sinceramente.

Que história é que contarias no Manga se não tivesses vindo para Lisboa?

Eu acho que não se teria chamado Manga, ter-se-ia chamado outra coisa, mas seria um disco muito diferente. Não sei. Não quero pensar que isso não existiu [risos], mas é claramente um disco de uma fase muito mais solar que eu tenho vivido mais recentemente, desde que vim para Lisboa, desde uma viagem em que me deparei com o afrobeat e como isso me entrou para a cabeça e o tempo, o processo foi muito longo de encontrar o som para este disco. Acho que tudo isso contribuiu.

Em conversa com o Gonçalo Frota no Público dizias que estavas a sentir-te enquadrada numa Lisboa com “cena musical contemporânea, alternativa e mestiça” — como é que a vires para aqui te situaste nessa rosa dos ventos? Quais foram os teus pontos cardeais para te orientares pelo espaço musical de Lisboa?

Tudo aconteceu de uma forma muito natural, eu acho que fui mais acolhida por Lisboa e não senti propriamente a necessidade de me orientar. Cheguei, fui recebida por pessoas que falavam comigo e diziam na rua: “Lisboa está mais bonita contigo aqui”. Lisboa, há quatro anos, já respirava esse ar de… uma coisa muito especial, e sobretudo uma coisa de que eu estava a precisar muito naquele momento, e que me continua a fazer bem, portanto eu fiz uma colaboração com o Branko antes de me mudar para Portugal, ainda nem pensava mudar-me para Portugal — foi a “Reserva Para Dois”.

Já conhecia alguns artistas em Lisboa, como a Sara Tavares, conheci o Dino [D’ Santiago], mas tornámo-nos mais amigos depois quando eu cheguei, conheci uma série de pessoas também da música portuguesa, do fado… tanta gente do hip hop, do rap… depois, esses nomes desses movimentos, vocês é que os criam. Eu só digo que me sinto enquadrada nele, porque a música que eu faço e a vibração do que eu faço está alinhada com uma parte do que se faz em Lisboa. Seremos nós, será a cidade, será o conjunto, não sei. O que eu quero dizer é que não foi preciso orientar-me, aconteceu simplesmente.

Vais actuar no Sou Quarteira brevemente. Como surgiu o convite e o que esperas dessa performance?

Surgiu do Dino, porque ele é, além de um amigo e super artista, é fã do que eu faço e acompanha há imensos anos o que eu faço, ele adora [o meu] espectáculo, já foi ver o concerto e queria muito que eu estivesse no Sou Quarteira. Tenho acompanhado o que ele tem feito neste festival, acho que tem uma onda super boa pelos vídeos que eu vi, e tinha muita vontade de estar no line-up deste ano.


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