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Fotografia: Emily Dennison
Publicado a: 09/11/2021

Saudação ao sol com o trompete.

Matthew Halsall: “Há uma dimensão meditativa no meu trabalho, uma profundidade espiritual”

Fotografia: Emily Dennison
Publicado a: 09/11/2021

Não é de Londres, é de Manchester. Não beneficiou de educação musical convencional, antes procurou, à sua maneira, todo o conhecimento que hoje lhe alimenta a visão musical. Não se revelou agora ou no último par de anos, tendo já atrás de si quase década e meia de edições e perto de uma dezena de projectos de longa duração. Não lança em selo alheio, antes orienta a sua própria Gondwana Records, importante casa do mais moderno pulsar jazz de Manchester onde se abrigam também os significativos talentos de Portico Quartet, Mammal Hands, Nat Birchall ou GoGo Penguin. Todos eles nomes bem importantes no mapa mais vasto do jazz britânico contemporâneo. O seu nome é Matthew Halsall, trompetista que se apresenta amanhã em Coimbra, no Convento de São Francisco, na quinta feira, dia 11, em Lisboa, no Museu do Oriente, e, finalmente, em Espinho, dia 14, no Auditório de Espinho Academia.

Sinal inequívoco do alcance da obra que construiu, tem sido o chamamento de Matthew Halsall ao alinhamento de alguns importantes retratos contemporâneos de um jazz moderno e voltado para o futuro, como aconteceu, por exemplo, em Kaleidoscope (New Spirits Known & Unknown), projecto lançado o ano passado na Soul Jazz. A música de Halsall bebe directamente na fonte criada pela visão de Alice Coltrane ou Pharoah Sanders, como ele próprio admite na entrevista que nos concedeu, mas vive igualmente de um sentido exploratório contemporâneo, de uma procura comunal de uma vibração mais profunda ou elevada.

Antes da tripla passagem por Portugal, Matthew Halsall traça o seu próprio caminho numa conversa descontraída e reveladora que bem poderá servir de mapa para a descoberta de uma discografia que tem em Salute to the Sun a sua mais recente entrada.



Cresceste no seio de uma família criativa. Isso teve algum peso na decisão de te tornares músico ou essa foi uma opção que tomaste sozinho?

Acho que sempre tomei atenção à energia e ao interesse dos meus pais pelo mundo das artes e da música. O meu pai era um professor de arte e a minha mãe tinha lojas ligadas ao design de interiores, sendo que também seguia o mundo da moda e da música. Ambos tinham uma paixão enorme pela música e uma grande colecção de discos. Não diria que existia muito jazz na colecção deles, era mais à volta da música soul dos 60s e 70s, rock and roll e cenas assim. Obviamente que tinham para lá os Beatles, os Rolling Stones, o Jimi Hendrix, Pink Floyd… O meu pai tinha um amigo pintor e ele costumava pintar retratos enquanto os músicos tocavam ao vivo num clube de jazz. Então nós íamos com ele a esse sítio, isto quando eu tinha uns seis anos de idade. Uma vez vimos uma grande banda de jazz que fazia covers do “Milestones”, do Miles Davis, ou do “Night In Tunisia”, do Dizzy Gillespie… Muitas coisas que provocavam uma grande dose de energia e entusiasmo quando se tem seis anos. Foi muito inspirador. Eu lembro-me de, a certa altura, estar tão amarrado a esse tipo de música, àquele lado da improvisação e da liberdade daqueles músicos. A partir desse momento eu passei a ir lá sempre que podia e cada vez ficava mais e mais entusiasmado pelo jazz, ao ponto de querer aprender a tocar um instrumento que me permitisse fazer aquelas coisas. Eu era mesmo muito novo, mas amei toda essa experiência.

Nessa big band que te impressionou haveria certamente muitos instrumentos para escolher. O que é que te levou particularmente ao trompete?

A cena do trompete, naquela altura, foi mesmo pelo entusiasmo que sentia ao ver a pessoa que fazia os solos. Como eles tocavam temas do Miles Davis e do Dizzy Gillespie, obviamente que havia muitos solos de trompete. Mas eu também aprendi a tocar bateria quando era mais novo. A bateria e o trompete eram mesmo os instrumentos que mais me prendiam a atenção. Só que sinto que estabeleci uma ligação mais natural com o trompete.

Diria que foi uma escolha muito perspicaz. Mais facilmente consegues transportar um trompete numa viagem de metro do que um contrabaixo, por exemplo.

Sem dúvida [risos].

Quando estudaste música, dirias que essa aprendizagem foi mais ou menos formal? Andaste em alguma escola em particular?

Eu aprendi em escolas normais. Depois estudei Engenharia de Som na universidade. Todos os meus estudos de jazz foram feitos através de lições que eu tinha nos meus tempos livres. Eu tocava em muitas big bands, orquestras e assim. Os meus pais ajudaram-me a envolver-me em muitas bandas e projectos comunitários quando eu era novo. Por isso eu estava sempre a tocar e a aprender com as pessoas com quem me cruzava desde muito cedo. Depois, quando foi altura de me poder inscrever na faculdade, estava mais interessado nas questões do som, da produção, da gravação e da componente electrónica. Fiquei meio obcecado com isso. Aquilo que eu mais queria enquanto artista era saber como produzir e gravar.

Então tinhas interesse tanto na arte do Miles Davis como na do Teo Macero. Aprendeste a fazer tu mesmo os dois trabalhos.

Sim [risos].

Outra coisa que eu li sobre ti, estava relacionada com uma certa dificuldade com que te deparaste na escola devido à tua dislexia. Dirias que a música te ajudou a ultrapassar esse obstáculo?

Acho que muitas coisas ajudaram. Mas houve ali uma altura, por volta dos meus 14 anos, em que mudámos de casa e eu tive a oportunidade de ir para uma escola maravilhosa noutro lado, que estava ligada à cena do Maharishi e combinava o ensino tradicional com a meditação transcendental. Além de fazermos o programa curricular normal em Inglaterra, também estudávamos meditação, filosofia oriental, budismo… Também fazíamos ioga, entre outras coisas. Estudei lá durante cerca de dois anos e meio e isso teve um grande impacto em mim. Eles ajudaram-me a pensar nas coisas de maneira diferente. A música, evidentemente, e mesmo a arte no geral — eu também adoro desenhar e pintar — ensinaram-me a não me sentir um estranho dentro do contexto educativo, porque me sentia livre para poder expressar tudo aquilo que eu quisesse. Eu tive dificuldades em algumas áreas, mas dava-me bem com matemática ou escrita criativa. Outras áreas tornavam-se mais difíceis para a minha dislexia.

Quando é que fizeste a ligação entre esses ensinamentos orientais — o ioga, a meditação transcendental, as filosofias de pensamento — e a música?

A minha mãe sempre foi muito espiritual e estudou muito sobre essas coisas que vinham do oriente. Sempre senti que ela me encorajava a ouvir música devido às suas qualidades meditativas. Ela era uma grande fã dos Beatles e de como a meditação influenciava o George Harrison, em particular. Isso era muito interessante. Eu tive muita sorte, porque o pai de um dos meus amigos na Maharishi School era um grande coleccionador de discos e ele gostava de ir ver DJs, de toda a cultura de clube. Ele levou-nos a ver o Mr. Scruff em Manchester, por exemplo. Foi através do Mr. Scruff que eu ouvi Pharoah Sanders pela primeira vez e fiquei perplexo com toda aquela liberdade na música dele. Lembro-me de ir para casa e de ir ouvir tudo o que consegui encontrar do Pharoah Sanders. Depois descobri a Alice Coltrane, porque o Pharoah Sanders tocava com ela no Journey in Satchidananda. Em termos daquilo que era o que eu andava à procura dentro do jazz, acho que esse momento de descoberta da Alice Coltrane foi um ponto muito importante e especial na minha vida. Porque isso me permitiu ver e pensar na música não apenas como um conjunto de sons, mas sim como uma forma de incorporar os meus sentimentos e as minhas filosofias sobre a vida. Eu conseguia sentir tudo isso na música dela e isso inspirou-me. Por volta da mesma altura eu também ouvia The Cinematic Orchestra e apercebi-me de que eles samplavam a música da Alice Coltrane e lhe davam uma outra abordagem. Tudo o que eu procurava apontava numa certa direcção e eu senti uma grande ligação a estes dois movimentos muito específicos — o dos anos 60/70, em que entra a Alice Coltrane, e o dos The Cinematic Orchestra, especialmente no álbum Every Day, que era muito contemporâneo e refrescante. Tudo isso teve influência decisiva na música que faço hoje.

Pegando em todos estes pedaços de informação que me estás a transmitir, eu consigo imaginar uma mente muito determinada e resoluta. Isto é: tu descobres o jazz, aprendes a tocar um instrumento, tens aulas fora do circuito convencional académico, estudas produção e gravação para criares as tuas coisas e ainda montas a tua própria editora. Parece que andaste à procura de nunca depender de ninguém.

Eu gosto muito de ser independente. Gosto da liberdade que vem com a independência. Também gosto de andar por aí com outros músicos, artistas e designers gráficos. Aquilo que sempre me moveu foi essa cena de estar sempre rodeado de pessoas desse género. Dirigir a minha própria editora é uma honra, porque isso permite-me cruzar-me com diferentes músicos cujos trabalhos eu gosto muito, de designers que concebem capas fantásticas, de gente que faz videoclipes, engenheiros de som… Tudo aquilo que eu amo na vida está dentro desta universo que eu criei através da editora. E eu estimo-a muito. Não é algo que eu possa dar como garantido. Tenho muita sorte e é de facto muito especial poder estar envolvido nisto.

Para muita gente, essa questão de conseguir gerir o lado empresarial de uma editora e ainda tratar da vertente musical, enquanto artista, é algo difícil de equilibrar. Tu arranjaste forma de desempenhar essas duas funções com sucesso.

Eu creio que tive alguma sorte por ter conhecido gente muito boa ao longo do caminho. Eu hoje tenho uma equipa que gere a editora e eu, nos últimos dois ou três anos, apenas me tenho concentrado nos lançamentos junto dos artistas, a fazer o trabalho de A&R. No início era apenas eu e o meu irmão. Ele fazia os artworks e eu geria a coisa. Estivemos assim durante uns três ou quatro anos, até termos conseguido trazer também o meu manager para o projecto. Sempre que chegávamos ao ponto de ter dinheiro suficiente para trazer mais gente para trabalhar connosco, nós fazíamo-lo. Preferimos isso do que estar a pôr mais dinheiro nos nossos bolsos. Decidimos que iríamos estar a investir no projecto sempre que possível. À medida que o tempo passa, temos conseguido empregar cada vez mais e mais pessoas. As pessoas que entrevistamos para trabalhar são mesmo apaixonadas pela editora e a energia vai ficando cada vez mais forte entre a equipa. Eu tenho andado muito na estrada recentemente, dentro do Reino Unido, e toda a equipa vai aos espectáculos e depois petiscamos e tomamos uns copos juntos. Há um ambiente muito familiar dentro da editora.



A Gondwana Records já tem 13 anos de existência e o jazz está agora novamente sob a atenção dos media e até mesmo de festivais que antes nem incluíam projectos de jazz nas suas programações. Quando criaste a editora as coisas não estavam assim neste ponto. O que é que te manteve concentrado nessa tua direcção, numa altura em que o mundo parecia não estar disposto a prestar atenção?

Acho que eu também não estava a prestar atenção ao mundo [risos]. Estava apenas a fazer aquilo que eu queria fazer e nunca entrei nisso numa de fazer dinheiro. Ainda hoje não me importo com tendências ou coisas do género. Acho que dirigir uma editora, principalmente quando és um criativo, é tudo sobre conseguires expor coisas que as pessoas desconhecem e criar algum entusiasmo em torno disso. Para mim, essa cena de “é isto que está a bater agora, vamos lá assinar um artista dentro deste registo” nunca esteve presente. Eu sou muito apaixonado por trabalhar com músicos locais, dentro da cidade de Manchester. Muita da nossa música é feita por artistas da cidade e amigos. Tens o caso dos Portico Quartet: um amigo meu convidou-me para ir vê-los ao vivo mesmo no início da carreira deles, eu fiquei fã da música deles e demorei dez anos a assiná-los para a minha editora. Ou seja, eu tenho de gostar mesmo muito de algo para avançar com uma proposta em nome da Gondwana.

Talvez seja isso que faz com que o ambiente dentro da Gondwana, tal como me descrevias há pouco, seja bastante familiar, cooperativo. Essa é também a imagem que passa cá para fora, deixa-me dizer-te.

Nós divertimo-nos mesmo muito a falar uns com os outros. Mais recentemente, começaram a existir no catálogo artistas que querem colaborar uns com os outros, como os Portico Quartet e a Hania Rani, que remisturaram faixas uns dos outros num especial 12″. Isso é algo que eu quero que aconteça mais à medida que a editora vai crescendo. Faz sentido que se comece a trabalhar também internamente, que a malta remisture a música e entrem nos discos uns dos outros. Isso seria algo muito bom, porque demonstra que estão todos interessados e que se conseguem complementar. No outro dia estava a tocar em Manchester e uns quatro ou cinco artistas da editora estavam presentes. Foi muito fixe vê-los juntos a trocar impressões. Também recentemente, numa outra ocasião, aconteceu o mesmo em Londres. Isso é bonito, teres um concerto de alguém da editora e todos os outros querem ir assistir. Isso faz-me sentir bem. Eu próprio vou a muitos desses concertos. Temos muito gosto em ver-nos uns aos outros a tocar. Neste momento sinto-me extremamente inspirado pelos Portico Quartet. Eles estão numa forma muito interessante e é realmente inspirador falar com eles após um concerto. Sem dúvida que existe esse clima familiar dentro da editora. Em 2023 celebramos o nosso 15º aniversário. Quando celebrámos o 10º, em 2018, nós fizemos dez concertos em dez cidades à volta do globo — Tóquio, Londres, Bruxelas, Berlim… Por isso, vamos tentar fazer uma celebração dentro desses moldes também para o 15º aniversário e isso vai ser muito fixe, porque normalmente são eventos para os quais levamos o máximo de artistas que conseguimos. Já pensamos em tentar fazer com que Lisboa seja uma dessas cidades.

Espero que sim! Seria lindo que Lisboa ou até mesmo outra cidade portuguesa qualquer pudesse estar inserida nesse roteiro. Estava aqui a olhar para a tua discografia através do Discogs e estranhei os cinco anos que separam o teu último disco e o anterior. O que aconteceu aí?

Foram várias coisas que aconteceram, na verdade. Obviamente, era a editora que estava a crescer e eu estava interessado em trazer mais gente para o projecto e assim. A somar a isso, eu tenho vários problemas auditivos, principalmente no meu ouvido direito. Tive de encontrar forma de conseguir tocar trompete sem que isso me faça perder a audição. Tive de fazer imensos testes e de repensar a minha abordagem para com a música, o meu estilo de vida no geral… Agora toco trompete com headphones. Foi um período de adaptação muito difícil mas agora encontrei uma forma para conseguir praticar arduamente o suficiente para sentir que estou a progredir na minha habilidade sem que isso me cause mais danos. Foi uma jornada dificílima. Cheguei a pensar que ia ter de deixar de tocar, algo que seria muito duro de enfrentar.

O trompete é um instrumento muito barulhento, não é?

É sim. E, infelizmente, não existem muitos sítios onde possas tocar trompete sem que o som reflicta. É um pouco como a bateria. Todos os meus amigos bateristas acabam por lidar com problemas de audição.

E aproveitaste esse tempo também para formar uma nova banda.

É verdade. Isso começou a ser desenvolvido nos últimos dois desses cinco anos. Eu toquei com muita gente nos últimos 10/15 anos e senti que tinha chegado a um ponto em que essas pessoas já não estavam tão focadas no tipo de música que eu estava a querer fazer. Então decidi começar de novo, com uma nova banda. Isso trouxe frescura e mais energia. Estes músicos são novos e estão cheios de fome e entusiasmados. Continuo um grande amigo de todos os outros músicos com quem vinha a trabalhar até então, obviamente. Não existiu qualquer tipo de amargura. Era importante que eles se sentissem valorizados e respeitados. Com esta nova banda, nós praticamos e gravamos todas as semanas. Eu tenho um estúdio em casa e nós estamos lá a criar música nova e a gravar todas as semanas. Posso dizer-te que tenho uma carrada de material por editar neste momento. Tenho conteúdo para três ou quatro álbuns só em música ainda por editar. E isso é maravilhoso, porque todas as semanas eu tenho de escrever música nova e se eu não o fizer os músicos chegam cá e não temos nada para praticar e gravar [risos]. É de loucos, ter de compor três ou quatro temas novos por semana. Agora estamos naquela fase em que nos apercebemos que muito desse material é bom e funciona bem compilado de certa forma.

Falaste em músicos novos: o que é que é preciso para que um artista conquiste os teus ouvidos, ao ponto de pensares “quero mesmo ter esta pessoa na minha banda”?

Para mim, não tem de ser necessariamente apenas uma coisa. Creio que a personalidade é importante. É importante que essa pessoa tenha “alma”, bem como o respeito e a admiração por este tipo de música. Deixa-me ver…

Já me mencionaste quatro qualidades e nenhuma se foca em aspectos mais técnicos…

Eu já trabalhei com pessoas incríveis do ponto-de-vista técnico no passado. Alguns dos melhores do mundo, como o Luke Flowers dos The Cinematic Orchestra ou o Rob Turner dos GoGo Penguin. Às vezes [para eu querer trabalhar com um determinado músico] tem mais a ver com o respeito e a ligação entre as duas personalidades. O meu baterista actual, o Alan Taylor, nós damo-nos muito bem. Ele ouve-me e entende o que eu quero fazer. Ajuda-me a conseguir o som que eu idealizo para as coisas. E ele é também um óptimo baterista do ponto-de-vista técnico. Eu conheço-o há muito tempo só que tem tudo de bater certo para se poder trabalhar em conjunto — tem de haver respeito mútuo, temos de desfrutar de tocar juntos e temos de estar comprometidos com o projecto em questão. Há muitos músicos que mostram interesse e que querem fazer parte da banda, mas depois há ali um certo concerto ao qual não podem ir… Isso, para mim, é um sinal. As pessoas tentam enrolar-te a partir daí. Eu procuro uma banda leal e respeitadora, em que toda a gente se sinta família. E tem sido fixe. Temos feito muitos concertos ultimamente e toda a gente se dá bem com a digressão. Comemos juntos, vamos beber copos juntos, relaxamos… Para mim, este é o sentimento certo que um compositor e líder de banda tem de sentir. Eu confio nestes músicos. Em Londres, tocámos para duas mil pessoas e eu senti que cada um daqueles músicos deu o seu melhor. Tocaram com paixão. Tem sido bom e eu sinto-me muito feliz com esta banda e estes músicos.

E em relação às tuas composições? Sentes que esse período que tiveste sem lançar música te permitiu explorar novas direcções?

Diria que sim, que foi como que o ponto de partida para um novo som e uma nova direcção. Tenho um novo álbum praticamente terminado, que é uma espécie de versão melhorada do Salute to the Sun. Tem mais camadas e é mais colorido, de alguma forma. Está mais composto. Mas eu creio que mesmo o Salute to the Sun me soube diferente do que tinha feito anteriormente. E é um álbum que sabe muito bem tocar ao vivo. Diria que é o meu disco favorito para tocar ao vivo. Particularmente os temas “Harmony with Nature” e “Joyful Spirits of the Universe”. Essas duas faixas — e talvez também a faixa-título, “Salute to the Sun” — soam muito bem ao vivo. São muito bonitas e especiais. Mas mal posso esperar por começar a tocar material novo algures nos próximos seis meses. Sinto que esses temas já estão num outro nível acima. Mas acho que é sempre assim, que tudo o que fazemos hoje nos sabe melhor do que o que já fizemos antes [risos].

De certa forma, parece que o mundo se alinhou com aquilo que tu fazes. Há bocado dizia que, nos últimos dez anos, nunca se prestou tanta atenção ao jazz moderno como agora. E mais: não me lembro de ter lido tantas menções ao jazz espiritual como leio agora. Não sei se terá alguma coisa a ver com esta fase que atravessamos, destes últimos dois anos, e se as pessoas sentem a necessidade de se ligarem a uma qualquer energia superior. Quando alguém te fala nesse conceito de jazz espiritual, qual é a primeira coisa que te vem à cabeça?

Acho que li muitas vezes essa descrição nos sítios errados. Consigo entender o porquê de se usar com a minha música, porque eu estudei muito sobre meditação e os títulos das minhas canções são uma referência a esse estilo de vida e ideias. Existe de facto uma dimensão meditativa no meu trabalho. Há uma profundidade espiritual. Depois, toda a instrumentação que é utilizada, como a tambura indiana ou os sinos de percussão. São tudo sons que “levitam”. A própria harpa é um instrumento muito meditativo e está presente na minha música. Mas eu acho que catalogar qualquer género pode ser algo confuso. Enquanto DJ — e eu sou DJ desde os 14 anos — sempre encontrei inúmeros géneros e sub-géneros. É curioso, porque eu acho que isso às vezes até te distrai daquilo que é a própria música. O que eu comecei a fazer, já uns anos depois de me ter assumido também enquanto DJ, foi começar a usar não apenas vinil mas também material digital e arranjei a minha própria forma de dar nomes às coisas, de descrever os diferentes tipos de música. Só no jazz devo ter atribuído uns 15 sub-géneros diferentes da minha própria autoria [risos]. É interessante. Mas quando falas no jazz espiritual, faz sentido se o aplicares a uma Alice Coltrane, a um Pharoah Sanders ou um John Coltrane, porque eles referenciavam imenso todas essas coisas da meditação, das “jornadas”… Mas é uma tarefa difícil. Na imprensa britânica, há quem descreva a minha música como “jazz chuvo espiritual de Manchester” [risos]. Cada um tem a sua forma de a descrever. Mas, acima de tudo, acho que os géneros podem “assustar” as pessoas. Creio haver boa música dentro de qualquer género. Por exemplo, quando vou a uma loja de discos, dirijo-me instantaneamente à secção onde estão expostos os meus géneros favoritos, aqueles com os quais me sinto mais confortável. Mas se eu for a uma zona diferente da loja e procurar por coisas diferentes, também consigo encontrar peças de música belíssimas de cuja existência eu nunca me tinha apercebido.

Antes de terminarmos — e já que me falavas há pouco de ter o equivalente a três ou quatro álbuns em música ainda por editar — que planos traçaste para o ano que vem?

Espero, se tudo correr bem, ter o meu próximo álbum misturado ainda durante o mês de Dezembro. Há um EP a ser preparado e do qual tenho já começado a tocar uma das faixas ao vivo nos meus últimos concertos, chamada “The Temple Within”. O plano é lançar o EP antes do álbum. Diria que esse EP é uma espécie de versão em bruto do When The World Was One. É uma série de três ou quatro composições que eu gravei e das quais gosto muito. Elas soam muito bem em conjunto. Já o próximo álbum, diria que é uma coisa muito fresca e diferente mas que também consegue andar de mãos dadas com o Salute to the Sun. Eu ainda não tenho ideia de quando é que esses lançamentos vão acontecer, até por causa de todos estes atrasos que têm existido na fábricas à escala global. Mesmo que eu termine o álbum em Dezembro, como te dizia, não sei se não vou ter de esperar pelo menos uns seis meses até que consiga as prensagens em vinil. Do ponto-de-vista editorial, neste momento as coisas já não saem quando tu queres, mas sim quando o fabrico das edições físicas to permitir. Há que ser paciente. Depois, obviamente, tens ainda a cena do Brexit, que dificulta o acesso às fábricas da Alemanha, por exemplo. É tudo muito lento agora [risos]. Mas lá chegaremos.


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