MASSIVE ATTACK // Ritual Spirit

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[TEXTO] Sidónio Teixeira

 

Avaliar Massive Attack numa plataforma dedicada à essência do hip hop. Isso faz sentido? Talvez não se a resposta tiver de ser imediata, mas uma análise mais profunda permitirá perceber que as ligações entre a dupla britânica e o movimento nascido na América existem, mesmo que se aparentem pouco óbvias. Quando Robert Del Naja aka 3D e Grant ‘Daddy G’ Marshall deram vida e alma a um movimento independente como o trip hop, deixaram clara a vontade em manter uma correlação com o movimento que nascera no Bronx ainda na década de 80, apenas transformando-o.

Em nome do trip hop, movimento do qual se tornaram fundadores e impulsionadores, a dupla Massive deixou cair o beat enloopado e apostou nas baterias pesadas e devidamente calculadas. Transformou a rima de intervenção ou de ostentação em monólogos instrospetivos ou claustrofóbicos. Do hip nasceu o trip e o hop manteve-se como sempre foi. Ainda assim, o propósito inicial continua lá: a conjugação exacta entre cada sílaba e cada compasso rítmico feito pelos sintetizadores, aquela que sempre foi a assinatura da dupla de Bristol. Prova disso é o facto de o seu mais reconhecido e melancólico tema, o memorável “Teardrop“, ser uma dissertação sobre a fragilidade do amor, acompanhado por uma batida antagonicamente calma e irrequieta.

Sobre o EP, o sucessor de Heligoland, marca um regresso ao registo definido ao longo da primeira década de existência da dupla. Serve-se (e bem) dos convidados que acolhe para cada tema. Tricky (rosto conhecido das muitas participações que fez com Naja e Marshal, algumas delas marcantes); o rapper Roots Manuva (com rimas em catadupa e sincronizadas com os sintetizadores); Young Fathers (“currently the best fucking band in the world”, segundo Naja) e ainda Azekel – novato nas andanças de Massive, xamã em “Ritual Spirit”. Todos eles alinhados com os comandos da produção de Naja.

Entre os temas, são fáceis as anotações em Ritual Spirit, que recupera as aberturas longas e crescentes do experimental 100th Window. Azekel segreda ao som do instrumental e a produção cumpre promessa de Marshall aquando do seu regresso ao projecto, em 2010: “Bring the black back to Massive Attack”. Essa é de facto uma intervenção transversal às quatro componentes do EP – todos os participantes serem negros e transmissores da arte dos seus conterrâneos. Em sentido oposto ao de Azekel, Manuva luta contra os sintetizadores pelo protagonismo ao longo dos minutos. “Voodoo In My Blood” é também um hino à participação negra, com o coro e os ritmos de inspirações indígenas. A obra acaba com “Take It There”, possivelmente o epítome daquilo que sempre foi a alma Massive: as teclas sincronizadas com a batida lenta, a voz esfumada e gasta num processo de hipnotismo que, à semelhança do videoclipe, narra um delírio em decadência, como sempre nos habituou a dupla de Bristol.

 

Sidónio Teixeira

Sidónio Teixeira

Fã incondicional do mundo artístico. Acredita que a Arte, seja ela qual for, é um mundo de universos paralelos que se cruzam. Tem especial admiração pelas ideologias e conceitos asiáticos, mais especificamente os nipónicos. Estudou literatura e jornalismo na Nova de Lisboa.
Sidónio Teixeira