pub

Fotografia: Guilherme Cabral
Publicado a: 27/03/2026

Uma verdade musical universal.

MARO no Coliseu dos Recreios: tão nossa, tão do mundo

Fotografia: Guilherme Cabral
Publicado a: 27/03/2026

O que mudou em MARO? A afirmação está nas paredes. SO MUCH HAS CHANGED, em letras grandes num Coliseu esgotado, que já por si diz alguma coisa sobre o que aconteceu nos últimos anos. Entrámos na sala à procura da resposta. Saímos sem ela — e completamente satisfeitos com isso.

Há concertos que são espetáculo. Outros que refletem verdade pela música. O de MARO é do segundo tipo — e percebe-se logo, antes sequer de ela aparecer. A abertura é entregue aos membros da banda, cada um com o seu projeto, a sua voz, o seu mundo. É uma escolha que quase pede outra noite só com eles. Ainda bem que os íamos ouvir tocar no resto do serão.

Quando MARO finalmente diz “boa noite”, reconhece-se a voz. Tem uma das presenças vocais mais singulares da música atual, e ao falar percebemos que não há distância entre essa voz e a que canta. Numa fase em que grande parte da arte começa a tornar difícil rastrear a sua origem, isto ganha uma importância adicional, e reforça a necessidade de cada vez mais sairmos de casa para desfrutar da música onde ela merece ser desfrutada.

A sala percebe esta verdade e responde. Mas responde em grande parte com um silêncio perfeitamente sintonizado com cada pausa de MARO, tanto que se torna possível alguém gritar “linda” da outra ponta do Coliseu e ouvir-se no palco (aconteceu mesmo). Este silêncio é identidade, e prova da conexão que MARO construiu com esta sala, desta intimidade que foi das características mais marcantes da noite de ontem, 26 de Março.

Atrás do palco, um semicírculo permanentemente iluminado a tons quentes que lembra constantemente um pôr do sol. Faz pensar que este concerto seria absolutamente perfeito numa entrada de verão, ao fim do dia, a acompanhar o recolher do astro-rei. A plateia, em boa parte, não fala português. MARO junta-se àquele conjunto de símbolos que Portugal tem de partilhar orgulhosamente com o mundo.

O concerto move-se numa montanha-russa deliberada, entre a energia da banda, e momentos em que apenas brilha a voz da cantautora, isolada, só para nós. São esses contrastes que mantêm a audiência acordada e conectada, que fazem o tempo passar sem se dar conta.

É nessa respiração que EU.CLIDES entra. Quem estava do lado de fora do Coliseu naquele momento certamente conseguia jurar que o concerto acabou. O som muda (ou quase que desaparece), e é preciso estar lá dentro para perceber que ainda há música a ecoar por entre aquelas paredes. Duas guitarras, dois músicos, e os milhares de pessoas que lá estavam passam a sentir que estão numa sala pequena, em privado, com MARO e EU.CLIDES a cantar exclusivamente para cada um deles. Puro privilégio.

Regressa a banda ao palco — energia renovada. MARO pega nas baquetas e salta para a bateria num momento leve e de humor. A plateia alinha sempre — é daqueles concertos em que parece que o público é mais afinado do que o habitual, mais atento, mais capaz de ouvir, à semelhança dos concertos de Jacob Collier (e talvez emprestado das tantas vezes que partilharam palco).

O que mudou em MARO? Talvez tenha sido o mundo a mudar — e ao mudar, aprendeu a ouvi-la a uma escala que a torna uma das artistas nacionais com maior sucesso internacional. Talvez por ter reconhecido a verdade que MARO carrega na voz. Numa noite assim, com um Coliseu cheio e a jorrar pura musicalidade do palco, isso chega.


pub

Últimos da categoria: Reportagem

RBTV

Últimos artigos