Mark Stewart: “Continuo a experimentar e a tentar comunicar ideias importantes”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Beezer

The Pop Group, Mark Stewart and the Maffia, New Age Steppers. Punk, pós-punk, dub, hip hop, electrónica industrial. Agit-prop, activismo político… Mark Stewart é um intrigante criador, um agitador que entende a arte como uma ferramenta para transformar o mundo.

Conversei longamente com Mark Stewart a propósito da reedição pela Mute do clássico Learning to Cope with Cowardice, álbum atribuído ao projecto The Maffia, que o músico de Bristol criou logo após a primeira fase dos The Pop Group. Lançado através da incontornável On-U Sound de Adrian Sherwood em 1983, este álbum é um repositório de ideias radicais erguidas a partir das estratégias de desconstrução rock operadas a partir dos The Pop Group em colisão com os estímulos captados nas rádios de Nova Iorque que acompanhavam de perto o nascimento do hip hop nos alvores da década de 80 e com tudo isso a ser processado, mastigado e deglutido pelo triturador criativo de Sherwood no estúdio da On-U Sound.

Mark Stewart é alguém cujo cérebro parece funcionar a uma velocidade diferente da do comum dos mortais e o seu discurso soa muitas vezes a uma das suas caóticas colagens sonoras, com as palavras a serem liberalmente atiradas umas contra as outras, com frases que surgem do nada como se fossem o resultado de um cut-up burroughsiano. Mas há um claro método na sua loucura, uma fé inabalável no poder libertador da arte, e um sentido de propósito que torna o seu discurso absolutamente hipnótico.



Gostava que começasse por falar sobre o fim dos The Pop Group, sendo que este álbum agora reeditado representa o passo que se segue. Diria que, em retrospectiva, foi o que ditou o fim do grupo nessa altura?

É muito estranho para mim porque eu não vejo as coisas tão definitivas assim, porque basicamente The Pop Group cresceu como um grupo de amigos em Bristol, alguns de nós aprenderam a tocar instrumentos, outros tornaram-se DJs, outros eram canalizadores, outros trabalhavam em lojas, ou cafés ou onde fosse, por isso continuámos a ser amigos. O Simon Underwood, baixista de Pop Group, era o meu melhor amigo. Íamos para o centro da cidade, para discotecas, clubes de reggae… Eu conheci-o ainda antes do punk acontecer! Quando apareceu, quem quer que fosse que estivesse à volta da mesa num bar, se tivesse sapatos pontiagudos, alguém diria logo: “consegues tocar bateria?”. Tinha mais a ver com roupas, sabe? Mas com o desenvolvimento dos The Pop Group, todos aprenderam a tocar os seus instrumentos, e eles ficaram muito interessados numa espécie de free jazz, que eu descobri ser muito difícil de cantar, porque não consigo improvisar. Não consigo fazer vozes como aquele tipo dos Can, ou algo assim. Não consigo fazer “goobly goobly”, tipo improvisação de jazz, liricamente. Mas eu adoro jazz…

Portanto tudo puxava para diferentes direcções, nós continuávamos a ser amigos, mas o mais engraçado foi: o último concerto dos The Pop Group e o primeiro concerto dos Maffia aconteceram no mesmo dia, certo? Eu estava a trabalhar com uma organização chamada “A Campaign For Nuclear Disarmament”, e um dia no escritório organizámo-nos nesta aventura que se tornou na maior manifestação do pós-Guerra em Inglaterra, em que meio milhão de pessoas fizeram o centro de Londres parar. O tipo responsável que liderava esta campanha para desarmamento nuclear um dia disse algo como “seria bom ter alguma música!”, ao que eu respondi: “bem, eu tenho uma banda”. Portanto voluntariei os The Pop Group, os Killing Joke tocaram e mais algumas pessoas também. Tudo isto no meio de aguerridos discursos.

Eu queria mesmo muito tocar uma música que toda a gente, nova ou velha, conhecesse como uma espécie de grito de guerra socialista. Da mesma estirpe da “We Shall Overcome” que teve enorme significado para o movimento de direitos civis negros na América. E a canção em que eu pensei mesmo… sabe, em Inglaterra é muito importante estas palavras do William Blake, “Jerusalem”, que é mesmo um hino socialista por toda a Inglaterra, e toda a gente as conhece, por isso achei que talvez pudesse fazer uma versão disso, e a malta mais velha no público deveria conhecer, certo? De qualquer forma, não a tocamos com os The Pop Group, mas sim após o concerto da banda. Umas horas depois, eu voltei ao palco com os músicos que se tornariam os The Maffia e juntos tocámos “Jerusalem” e mais umas músicas. E a cena é, como dizia, nos The Pop Group éramos todos amigos, ainda, toda a gente se conhecia e quando voltas para casa no Natal são eles que encontramos no pub, por isso sempre pensei que seria muito fácil voltar uns anos depois também. Como tal mantenho tudo em aberto, não sou uma drama queen, não sou o Elton John. Não saio a dizer “vão-se foder”, sabe? Não temos esses tipos de egos.

Entendo. Se calhar vê tudo isto basicamente como diferentes capítulos no mesmo livro!

[Risos] É mesmo um escritor!

Vou tentando… [risos].

Já tem o título para o artigo [risos]. São diferentes capítulos, ok, mas num livro feito de colagens, com tudo ao contrário, como se fosse escrito pelo William Burroughs. O que acaba por acontecer é que até parece que os jornalistas nos explicam porque tomamos determinadas decisões na vida. Anos depois leio num livro qualquer algo que interpreta o que eu possa ter feito e penso “o que raio?”

[Risos] “Descubro o significado do que ando a fazer quando ler sobre isso nalgum lado”… vejo bem o que quer dizer.

Sou muito taoísta, tenho esta coisa da parte das mãos abertas, sabe? Não sei, ontem a minha namorada estava a dizer algo sobre santos, deuses, o que fosse, e eu tento manter uma mente muito aberta e não pensar… não colocar estruturas nas coisas, entende?

Quando diria que começou a ouvir o som que exploraria a seguir, nomeadamente com o álbum que se está a reeditar agora?

A faixa “Learning to Cope With Cowardice”, a primeira, o que estava a acontecer era, com os The Pop Group eu passei muito tempo em Nova Iorque na altura da No Wave. Porque os The Pop Group e os Gang Of Four estavam na moda, e tocávamos muito nestes espaços underground, no Danceteria e outros lugares assim em Nova Iorque, com o Keith Haring e o Basquiat e pessoas assim, toda a gente a conviver, tal como o tipo dos Sonic Youth, que disse que formou uma banda depois de nos ver ao vivo em clubes pequenos. Era uma cena muito boa com montes de artistas e foi também esse o momento de início do rap! Ouvi o princípio do rap nestas estações de rádio underground em Nova Iorque, WBLS e a Kiss FM, e foi então que ouvi este scratching doentio. Pensei: “o que vem a ser isto?”, depois ouvi aquelas baterias que soavam como explosões e achei aquilo extraordinário. Lembrava-me coisas tipo Pierre Henry ou música concreta ou até o Metal Machine Music do Lou Reed. Eu sempre me interessei pelo ruído desde cedo, sabe? Mesmo em criança tínhamos estes brinquedos chamados Action Men. Vinham com um pequeno disco com explosões e barulhos de helicópteros, acho que foi esse o problema. E o facto da minha mãe pôr alguma coisa no meu chá [risos]. Assim, basicamente, comecei a trabalhar com o Adrian Sherwood no estúdio dos Crass. Comecei por mostrar-lhe estas cassetes estranhas que andava a copiar e a distribuir por Bristol já que tínhamos estas double cassette machines. Copiávamos as cassetes se alguém apanhasse alguma coisa boa de Nova Iorque ou de cassetes de reggae, o que fosse. Era só copiar cassetes nestas aparelhagens com duplo deck . E isso de certa maneira impulsionou a cena do hip hop e dos Massive Attack e tudo mais em Bristol, sabe a história, decerto. Bem, esse período em Bristol foi muito, muito interessante… Alguém me disse há dias que a banda sonora desse tempo daria o disco favorito do Banksy, porque nalguns dos concertos que lá fazíamos eu misturava coisas jamaicanas e electro, pós punk, funk, hip hop, já toda a gente sabe a história…

Como tal, eu trouxe as cassetes da estação de rádio de Nova Iorque para o estúdio com o Adrian, que eu sabia que era uma pessoa com a mente muito aberta, capaz de encaixar tudo – eu conhecia bem as suas coisas malucas de dub com o Prince Far I e com as Slits – e pensei que seria a pessoa certa, e era um bom amigo também. Nós ficámos acordados a noite toda e ele fez uns 87 edits, juntámos estes pedaços de fita na parede, mas obviamente pervertemos aquilo para uma coisa completamente diferente. Não sei o que é, as pessoas dizem que ali inventou-se a música industrial, eu não sei, quer dizer… o pior é quando as pessoas dizem “tu inventaste este género e este género” e eu odeio esses géneros, sabes? Se calhar quando experimentamos – e eu ainda estou a experimentar – as pessoas ficam com ideias malucas, salta-lhes a tampa da cabeça e elas sentem-se livres para experimentar a partir destas ideias.

Por isso, para mim, tirando os soundsystems de reggae, a verdadeira experimentação veio de ouvir estas batalhas de scratch no hip hop. Era um DJ chamado Red Alert, ele fazia parte dos Zulu Nation. Ele era maluco! Era surpreendente, mas era rítmico. Nós não tínhamos tanto ritmo e mais tarde, no álbum seguinte, começámos a trabalhar com o Keith LeBlanc porque efectivamente procurámos músicos de hip hop para tocarem na segunda versão de Maffia, e aperfeiçoámos um bocado o ritmo, mas eram merdas malucas, sabe? Para mim toda essa mistura é um bocado como a dream machine, é um bocado tripante e pode fazer as pessoas entrar num estado hipnótico.

Bem, estava a dizer que não estava alinhado com o free jazz, que gostava de jazz mas não conseguia ver-se a improvisar, mas isso não o impediu também de escapar às normas, de fazer algo bastante livre…

Claro, eu amo free jazz! Adoro totalmente. Quero dizer, adoro Tristan Honsinger, Han Bennink, gente assim. Lembro-me de ouvir Sun Ra quando era… eu gosto de música maluca, daquela que nos explode a mente. Mas como cantor, não consigo improvisar por cima dessas coisas.

Certo…

Como cantor preciso de estrutura, preciso de estrofe-refrão-estrofe-refrão, e corto tudo depois, improviso mais tarde com uma lâmina na fita, fazendo edits malucos, ou hoje em dia com o Pro Tools ou o que seja. Eu tenho de cantar e faço canções pop boas para começar que soam como T-Rex ou algo assim, mas no momento em que as misturamos, remisturamos ou lixamos ou assim, tudo se transforma. Lembro-me de ter pessoas a dizer-me “isto é louco, estás a deitar fora uma excelente carreira!” Podia ter sido algo como os ABC.

[Risos] Não perdeu muito…

Foi engraçado. Nesses dias em Inglaterra não se passava nada, era como o fim do punk, e toda esta cena neo romântica estava a começar. Era uma treta para mim e depois, graças a Deus, começou o hip hop a mexer em Bristol e em todo o mundo. E na Europa era onde estava toda a música fixe. Lembro-me de ir à Bélgica e de ouvir a cena New Beat quando estava em digressão por aí e também na Holanda. Havia melhor música a sair da Europa. No início dos 80s em Inglaterra tinha tudo a ver com maquilhagem e penteados, eram os tempos dos Culture Club…

O punk sempre foi muito sobre estar em palco e tocar dois acordes. Mas ir para o estúdio com o Adrian Sherwood e, como explicou, lixar tudo na mesa de mistura, experimentar com efeitos, cortes na fita, era algo de muito diferente. Diria que estava a tentar fugir para tão longe quanto possível da ideia clássica de rock?

Tinha mais a ver com desafiar a vida e com política, sabe? Estávamos constantemente inseridos em mudança social radical. E eu pensava que se nos desafiássemos, estaria a desafiar-me a mim mesmo e a desprogramar-me, para largar estes absurdos que aprendemos na escola, má história, preconceitos, normas. Portanto, pensei em desafiar-me e à minha vida politicamente, radicalmente, e assim devia também desafiar a arte. Para mim foi… sabe, eu gosto de performances de arte estranhas, do tipo Kurt Schwiters ou Dada… mas de qualquer forma, até certo ponto, eu pensava que estava a ser “funky”, semelhante aos The Pop Group. As pessoas, anos depois, os jornalistas muito intelectuais, disseram “vocês estavam a fazer música completamente fora, tipo Captain Beefheart!”. Nós odiávamos Captain Beefheart [risos]. Não ponha isto na entrevista [mais risos]. Era mais tipo… nós pensávamos que éramos fixes, que estávamos a tocar músicas pop, mas porque não as conseguíamos tocar, estávamos todos a tocar fora de tom/desafinados e éramos tão ingénuos, soava totalmente estranho. E ficámos calados enquanto estes jornalistas artsy tentavam encontrar aí um significado, entende o que quero dizer? Há muita ingenuidade à qual tento agarrar-me. Tem de ser um prazer.. Alguém chamou ao que fazíamos “plunderphonics” alguns anos mais tarde. Não sei como as coisas acontecem… É só o que eu gosto! Gosto de brincar com as coisas. Quando era miúdo cortava a cabeça duma aranha e punha-a no corpo dum Action Man, e pegava-lhe fogo! Tipo os filmes em que os brinquedos todos ganham vida.

Para este álbum trabalhou com muitos músicos vindos do mundo do reggae. Quando eles ouviram as versões finais, como foram as reacções?

Nem foi quando eles ouviram as versões finais! Muito antes, quando me conheceram, normalmente com uma grande garrafa de cidra nas mãos [risos], a falar com sotaque de Bristol sobre a Jamaica e a sua história… quero dizer, sou um bocado maluco [risos]. Portanto não me parece que eles esperassem alguma coisa normal, sabe? Mas esses tipos são tão livres! Por exemplo o saxofonista Deadly Headly, ele vem da Alpha Boys School da Jamaica, que é um orfanato. Mas eles ensinam os órfãos a tocar instrumentos e alguns dos melhores músicos de metais, vieram de lá. E as histórias deles, de crescerem no gueto, a forma como toda a história da Jamaica nos anos 70 os marcou, história de que eu sabia muito de qualquer maneira porque a minha mãe cresceu na zona de Bristol que se tornou a parte jamaicana. Por isso eu conheço essas coisas de trás para a frente e eu não vejo nenhuma diferença, mas não sei… eles achavam que eu era estranho, mas eu achava que eles eram estranhos [riso]). Sou mais estranho agora, se calhar, mas teria de lhes perguntar o que eles acharam… Os melhores músicos são as pessoas que são abertas, e eles eram muito abertos.

Isso é verdade!

E eu estou a aprender, até certo ponto, a dar algo a alguém sem ideias preconcebidas, e eles podem cortar, colar e transformar o que lhes dou como quiserem porque é a visão deles. Neste momento estou a trabalhar com um tipo de Manchester, o Eric Random, e com o Richard H. Kirk dos Cabaret Voltaire, e estou mesmo a tentar… trabalhar numa equipa, sabe? É estranho mas é importante ser receptivo, aberto, generoso… eu entendo a coisa pela cena budista, como um sentido de graça…

E harmonia?…

Não sei quanto a isso, não se encontra muita harmonia neste álbum, Learning to Cope With Cowardice. Não é exactamente musical, ou é? A minha mãe diz que soa como burros a zurrarem.

O álbum soa disruptivo, mesmo agora. Houve algum momento durante as misturas em que possa ter pensado algo como “se calhar estamos a ir longe demais”?

Eu faço-o a mim mesmo, como estou a dizer, desde novo quando brincava com as tape machines e a fazer compilações, e gosto de merdas esquisitas. Vou do Lou Reed aos Pearls Before Swine e daí para os White Noise, para os Lostprophets, até aos The Last Poets, está a ver? Tento apenas comunicar alguma coisa. Para mim é como uma carta. Quero tentar comunicar e pôr a maior quantidade de ideias numa coisa que vai ser lançada. Sinto uma certa responsabilidade de pelo menos mexer comigo, entende o que quero dizer? Não consigo estar envolvido em coisas que não mexam dessa forma comigo… foi por isso que desapareci por uns anos. Não me importo mesmo que esteja sem dinheiro. Não posso estar envolvido, não posso lançar coisas que não sejam 100% correctas no meu mundo louco. Mas o álbum é interessante porque não me parece datado, também tem algumas coisas mais próximas das baladas, há algumas coisas mais cantaroláveis por lá. “The Paranoia Power” e o clássico de reggae “Lay Down Your Arms”. Não sei, uma vez mais é como se não tivesse nada de diferente, estou sempre a cortar e a colar as coisas, sabe? Vai até àquela cena punk de cortar e colar, como quando Jamie Reid pôs um alfinete no nariz da rainha no poster dos Sex Pistols, ou montagem e colagens de Rauschenberg, sabe? O John Heartfield é o meu favorito nessa área. Há também um tipo em Inglaterra chamado Peter Kent… Mas as montagens do Heartfield… Esse tipo de coisas comunica comigo, mexe comigo, faz sentido pleno…

Pode falar um pouco sobre o material extra, o material das cassetes perdidas que foi adicionado à edição especial?

O Adrian Sherwood estava a viver em Muswel Hill e um dia, estava a chover, e quando cheguei lá a casa vi várias caixas de discos e de master tapes cá fora no alpendre à chuva, certo? Eu não fazia ideia… nunca se tem ideia sobre o futuro ou sobre a história ou o que seja e de como estes registos poderão ser importantes daqui a alguns anos. Pensei: “o que vais a fazer com essas fitas?”, porque me passou pela cabeça que se calhar poderíamos reutilizá-las, como o Lee Perry que usava a mesma fita vezes sem conta. Ele respondeu algo como: “não há espaço suficiente cá em casa, vamos ter outro filho, preciso do quarto”. Já não me lembro bem, mas por alguma razão estavam a deitá-las fora.

Fico tão satisfeito por a Mute estar de novo na jogada. A política de editoras independentes em Inglaterra é muito muito importante para mim. Vai de mãos dadas com as políticas da música, da estética DIY. Assim, estávamos a falar sobre esta reedição, as pessoas diziam “vamos pôr o álbum cá fora outra vez”. O Adrian tinha essa vontade e depois a Mute disse que estava interessada em reeditar, e é adorável… a Mute é uma empresa incrível, a liberdade que se tem na companhia é real.

Bem, mas a história mais esquisita aconteceu. Eu passava muito tempo na Europa em digressão e convivia com pessoas muito diferentes, fiz amigos incríveis pelo mundo, sempre através da música. Um dos meus melhores amigos na Holanda, que gosta muito de novos sons e música, costumava dizer coisas como “vou arranjar estas fitas todas e vamos meter estas fitas no forno para as recuperarmos e remasterizá-las” e eu nem percebia do que ele falava. E a dada altura estava eu a viver em Berlim e lembrei-me de perguntar ao Patrick se alguma das fitas que ele tinha arranjado e metido no forno era relativa ao período do Learning To Cope With Cowardice e ele respondeu que sim, que montes delas tinham coisas incríveis. Perguntei-lhe de onde tinham vindo as fitas, lembrei-me da história das fitas à porta da casa do Adrian, e ele contou-me que, de alguma maneira, essas fitas acabaram por ir para Portugal…

Uau…

Incrível, não é?… Há gente que discute estas coisas em grupos privados na Internet, grupos de gente interessada em novos sons, em música diferente e também no meu trabalho. E nesses grupos privados trocavam-se bootlegs, gravações nunca editadas, esse tipo de coisa. E o Patrick, o meu amigo holandês, tinha conhecido um tipo de Portugal que também estava muito por dentro do meu trabalho, ambos eram fãs das minhas coisa. E o Patrick ficou a saber que aquelas fitas de quarto de polegada de alguma maneira acabaram em Portugal. Através dele acabei por receber montes de coisas, de gravações, horas e horas de experiências. E eu e o Adrian passámos muito tempo a copiar todo aquele material, fitas que durante horas poderiam ter só um hi-hat a passar por uma câmara de eco. Éramos assim loucos quando nos enfiávamos no laboratório, gravávamos tudo, porque podia sempre surgir dali alguma ideia. E cada música acabava sempre com umas 20 versões dub, portanto havia muita coisa naquelas fitas, muita dela sem qualquer interesse. Por isso eu e o Adrian passámos muito tempo a escutar todo aquele material. Fizemos alguns edits, cortámos coisas que depois juntámos. Não há tecnologia moderna ou mistura, e as coisas estavam já misturadas, basicamente nós só cortámos os silêncios e eu compilei tudo numa pequena “viagem”, está a ver? Para mim é um pouco como um programa de rádio, o que fizemos com as fitas perdidas, e eu estava impressionado, estava chocado. Nem sabia que havia várias versões da “Jerusalem”, nem sabia que estas coisas existiam.

História incrível…

Estou muito entusiasmado. Pessoalmente não ligo muito a estas coisas mais nostálgicas, de revisitar o passado, mas percebo que as pessoas gostem deste tipo de documentos, que queiram substituir discos que foram importantes para si. E como tem havido este revival post-punk, com miúdos novos a fazerem as mesmas experiências que nós fazíamos quando éramos novos, miúdos que me referenciam ou aos Throbbing Gristle e outros nomes assim, talvez faça sentido.

Por isso, se o disco vai sair outra vez, eu queria que saísse com uma boa distribuição independente, uma editora independente que me permitisse supervisionar o artwork e a masterização, garantir que tudo fica bem feito. E estou contente, sabes? De certa forma reproduz o que aconteceu porque depois de alguns anos da reunião dos The Pop Group estou também a reestabelecer a cena Mark Stewart outra vez. Por exemplo, o Adrian está a fazer uma nova Pay It All Back, que foi uma série de compilações que ele criou com material da On-U Sound, e ele vai pôr cá fora esta compilação de todas as novidades ou coisas de novos sons, o que é incrível. Comigo, uma faixa de Lee Perry, uma do Horace Andy, por isso estou só a ver como este mês há uma coisa velha e estamos a fazer entrevistas e no mês que se segue há uma faixa nova, por isso tudo… se alimenta, percebe? E espero que possamos fazer alguns concertos, espero ir a Portugal.

O Adrian está com um bom espírito e tem feito muitas reedições, mas está no controlo das suas coisas. Mas estamos todos cheios de vontade de fazer coisas novas também! Não queremos ficar presos a estas reedições, como um absurdo sobre a herança, a nostalgia, o passado.

Mas há algo de pertinente nesta reedição do álbum Learning to Cope with Cowardice , porque a dimensão política dele ainda ressoa neste mundo, com o Brexit, o Trumo, o Putin e o Bolsonaro… É como se o mundo continuasse a rodar, mas acabamos sempre no mesmo sítio.

Oh, eu quero dizer que… para fazer um comentário sobre o que disse, é um tópico tão grande, não é? E para mim há muitas distracções neste momento… há muitos cabecilhas e distracções e… no que toca o Brexit, o que quer que isso signifique… como nessas letras eu estava a dizer que as multinacionais são maiores que qualquer estado nação, sabe? A ideia de estado nação desapareceu de certa maneira, mesmo logo a seguir à Segunda Guerra Mundial… e eu não sou um pessimista, porque se há mudança, também há oportunidade. Acredito que podemos olhar constantemente para o futuro, não ficar deprimidos quanto ao que se passa agora, porque estivemos deprimidos na Idade Média, mas ainda havia alquimistas, e ainda havia pessoas a observar-te e a atirar ideias doidas para o futuro, gente como o Isaac Newton, sabe?

O meu pai morreu recentemente, e ele era um tipo de pai meio maluco, interessava-se muito pela paraciência ou pelo paranormal e esse tipo conceitos estranhos. Ele estudou-as um bocado e eu acho que estou um bocado zangado porque o meu Facebook – tu sabes que tenho Facebook pessoal, em que tenho tipo 5000 amigos e colegas ou o que seja, espalhados pelo mundo – e há pessoas muito inteligentes que conheço que vêm da ciência, ou escritores ou artistas, e eu fico um pouco… sabe, se alguma coisa que não gosta acontece, temos um ditado em Inglaterra que é “não faz sentido chorar sobre o leite derramado”. Temos que arregaçar as mangas e preparar as próximas eleições daqui a cinco anos. Ou semear para o futuro. Não lamentar constantemente o que aconteceu ontem, porque o que acontece, supostamente, é que a política pode ser uma enorme distracção para fazer as pessoas sentirem-se pequenas, quando têm tanto poder nelas! Não sei como explicar melhor, mas enquanto as pessoas se lamentam sobre o estado das coisas não estão a fazer nada. Percebe?

Sim, perfeitamente.

E não estou a dizer que estou a fazer alguma coisa! Quero dizer, e eu tento comunicar isso na minha música, estou constantemente em busca de algo… Por exemplo eu e o Daniel Miller (NR: patrão da Mute) tivemos uma ideia sobre “tecnologias de libertação”. E há tanta coisas loucas! Estava a ver um documentário na televisão belga sobre como a ameixa chinesa era usada na medicina chinesa durante milhares de anos, um fruto perfeito para combater a malária em África. Mas grandes agricultores começaram a controlar isso.

As pessoas têm-me como alguém muito “eles e nós”, dizem que sou um crítico, alguém a fazer um comentário sobre o mundo. Na verdade, sou muito esperançoso com as coisas, não sou anti. Mas às vezes é importante… não sei como explicar. Eu mudo todos os dias! Feliz e triste, mas… eu acho que há coisas incríveis a acontecer… quero dizer, o potencial da Internet, por exemplo, o potencial que as ideias de Tim Berners-Lee podem ter para mudar o mundo. Esses idealistas com sonhos loucos estão normalmente na fronteira da electrónica, das novas tecnologias. Entende o que quero dizer? Muitas pessoas anseiam, olhando para o passado para o que aconteceu nos anos 60 ou nos anos 70, politicamente, emocionalmente, musicalmente ou assim… Mas esse tempo está morto! Percebe? Temos de ir para a frente. Lembro-me do início do filme 2001: Odisseia no Espaço, quando os macacos pegam nas ferramentas pela primeira vez. Primeiro pegam nas pedras e começam a construir as ferramentas a partir delas, certo? Temos de olhar para o mundo, olhar para as coisas de que somos capazes neste momento, todas estas novas invenções, e olhar para a frente! E estas coisas têm de mudar nas políticas… Se as nossas ideias têm de mudar, o mais difícil é não nos condicionarmos e perdermos estas ideias, falando religiosamente, politicamente, emocionalmente, sexualmente… Estas ideias, que vêm a nós duma maneira estranha, mas só vêm da sociedade, não são nossas. Não sei como explicá-lo, mas tento constantemente ser aberto e optimista. Eternamente optimista, não é?

Estou a escrever uma música neste momento chamada “Wonderlust”, que é só… o sentido de maravilhamento para mim é fantástico. Mesmo nas coisas mais pequenas, sabe?

Uma última questão. O álbum vai ser tocado ao vivo de alguma forma nos próximos meses?

Estamos a falar sobre isso porque há muitas outras coisas a acontecer e eu estou muito interessado em… não sei. Há muitas ideias malucas que podem ser postas de pé… fizemos o vídeo para a “Liberty City” com o meu amigo Mehmet Sander, um coreógrafo que trabalha com danças anti-gravidade e assim. Não sei ainda muito bem o que iremos fazer, estamos envolvidos em algumas plataformas de activismo, mas se tudo correr bem poderei colocar em marcha o que eu vejo como provocações através da arte. Actos de guerrilha artística, para abanar consciências. Mas não sei bem ainda o que será. E o Adrian costuma fazer umas noites em que fica atrás da mesa de mistura, com umas colunas gigantes, e vai misturando coisas. Por isso vamos ver o que podemos fazer. A ideia será sempre agitar, usar a nossa plataforma para provocar coisas, acções, pensamentos… É esse o meu papel.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu