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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 16/03/2026

Mãos que agarram a vida e a morte.

Mário Laginha no Auditório de Espinho: entre a água e o fogo

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 16/03/2026

Mário Laginha apresentou Retorno, o seu regresso ao piano solo, em dois concertos esgotados no Auditório de Espinho. Vinte anos depois de Canções e Fugas, surge no auge da maturidade artística. Frutos livres que amadureceram ao longo da relação com Camané e com a queda de alguns muros que o separavam do fado, como o próprio assinalou. Mas não só. Em duas décadas o mundo transformou-se de tal forma que é improvável reconhecer, sequer, a face de quem as atravessou. Quanto mais a obra, o espírito ou a arte. Ninguém é o mesmo após vinte anos. As ruas não são as mesmas. As causas são outras. Nada é eterno mas nem tudo é efémero. A maior parte dos artistas morre à procura da própria voz. Liberta-se para se amarrar de novo a gramáticas novas enquanto à sua volta tudo se transforma. E morre, sem que se repare. Retorno é sobre um pianista que abraça o piano todo como quem abraça a própria existência com a vontade de que nada caia no esquecimento. Um abraço completo. Nele cabe o mundo inteiro, com as graças e desgraças dos deuses, com a comédia e a tragédia do homem livre. O Rimas e Batidas assistiu ao primeiro concerto na sexta-feira, 13 de Março.

O piano sozinho ocupa o centro do palco. Escuta a sala. Há conversas cruzadas, fechos de casacos, o rumor de uma plateia que se prepara. O piano assiste. Está pronto. As luzes apagam, trazem o silêncio. O artista entra e senta-se ao piano, fascinado, como revela na folha de sala: “Fascina-me esta possibilidade de me sentar ao piano sem fazer ideia nenhuma do que irei tocar.” Abre com um improviso. Pousa os dedos no piano como quem caminha sobre a água. Apesar de profundamente melódico, o improviso mostra a matriz jazzística de Mário Laginha: frases que parecem conversar umas com as outras. Ideias que vão e voltam.

Com “Mãos abertas”, Laginha agarra-nos para o mergulho na melodia infinita. “… entra-se pelo mar dentro, perde-se pouco a pouco o andar seguro sobre o fundo e, por fim, a pessoa entrega-se incondicionalmente ao elemento líquido: há que nadar” — Nietzsche descrevia assim a música moderna. Nademos, então. 

“A música aparece sempre primeiro. Depois tento arranjar um nome,” disse o pianista antes de nos explicar como surgiu. Tentou compor no primeiro dia do ano, mas como a inspiração só chegou no dia seguinte, nomeou-a “No Segundo Dia”. Sente-se o embalo do oceano na mão esquerda. A melodia vem pela outra. Sublime. A mão esquerda cria um movimento ondulante, próprio de um barco, enquanto a direita desenha uma melodia simples, mas carregada de pequenas variações harmónicas que vão abrindo espaço e tensão. É na melodia que ora mergulhamos, ora respiramos à superfície. Laginha balouça no banco. Aproxima-se e afasta-se do piano. Desenvolve um diálogo íntimo com expressões que o piano parece conhecer. A plateia adora e, além das palmas, vocaliza os primeiros suspiros. 

Entre músicas, o pianista foi comentando os títulos. Explicando inspirações com um humor elegante e afável. Assim ficámos a saber que Retorno foi escrito para o filme Campo de Sangue, de João Mário Grilo, inspirado no livro O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. A faixa que dá nome ao álbum parece ser mais fogo do que água. Ecos de um fado. Guitarra e dor, talvez. Não a dor que nos faz melhores, mas mais profundos. É feita de arpejos e acordes em espiral. Uma espécie de escada. De seguida, sem pausa e sem palavras pelo meio, Mário Laginha arranca para um improviso. De mãos cruzadas sobre as teclas, permanece na zona dos graves. Os acordes criam um ritmo melódico que faz balançar cabeças e bater os pés. Quando termina surgem os mais efusivos aplausos e uivos da plateia. No fim ironiza: estava tudo escrito. E encheu a sala de gargalhadas.

A viagem vai a meio quando surge a fuga que atravessa o Atlântico. Começa no centro e vai crescendo em densidade e dinâmica até ocupar todo o teclado. “Fugato Baião” leva-nos até ao nordeste brasileiro pelo ritmo. O fogo toma conta da sala. Laginha bate nas teclas como se queimassem. Os pés não param. Sambam. Acaba em pianíssimo.  

“A Rotina Tem Qualquer Coisa de Eternidade” é uma frase de Alberto Manguel que Mário Laginha resgatou de uma entrevista do escritor argentino. Este tema foi criado originalmente para uma proposta do designer João Borges, que desafiou o compositor a escrever para imagens. A música será, talvez, a par da poesia, a arte que mais aparenta essa ideia de efemeridade. Poucos sabem que é na memória que ela se aloja e permanece, tal como a poesia. É exatamente sobre a memória que pende a maturidade dos seus frutos. 

Voltando à água atlântica, Mário Laginha atraca na ilha do Pico, nos Açores, para dedicar o tema “Santo Amaro” ao lugar e à comunidade com esse nome. Ao vivo, torna-se um dos temas mais luminosos, mais belos e sugestivos do álbum, que revela a maturidade das suas memórias. Regressa a água com melodias quase minimalistas. É hipnótica. A graciosidade dos acordes, a dinâmica suave do toque, levam-nos a nadar num sossego azul, com a montanha no horizonte. As ideias regressam, transformam-se e reaparecem como pequenas âncoras melódicas. 

A próxima paragem é a última antes do encore. É nas ilhas de Cabo Verde que Laginha remete para as batucadeiras. O piano vira instrumento de percussão. Padrões rítmicos repetitivos atravessam os corpos da plateia como um vírus imparável. Passa de acordes secos e percussivos para explosões de energia que se expandem pelo espaço sideral. As próprias pernas do pianista estão em sobressalto. O tema acaba em crescendo e leva a plateia a aplaudir em pé. Mário Laginha sai e regressa para mais dois temas. Um é dedicado a Carlos Paredes: “Mãos na Parede”. Fecha o concerto com um tema anterior, composto para se relacionar com a arquitetura. Desta vez é mesmo o fim. O público aplaude em pé.

O espetáculo revelou um artista que carrega a experiência da existência, sem artificialidade ou disfarces. No fim, encontrou-se com o seu público. Disponível e amável no rosto e nos gestos. Assinou discos e livros de pautas que voaram da sua mesa de venda. Aceitou todos os pedidos para fotografias. Foi acarinhado. E, apaziguado, apaziguou.

Retorno é um exercício de liberdade quase absoluta. Convoca o lirismo das flores ao desabrochar. Compete com o canto dos pássaros e com o despertar da primavera. Encontra-se com a água e o fogo ao mesmo tempo que carrega o sofrimento e o amor humano. Pode embalar e pode despertar. Faz-se de memórias maduras e influências que vão do jazz ao fado. Nunca preso a semântica alguma. Simplesmente mãos livres que obedecem a uma cabeça criativa e balançam na tensão entre a água e o fogo. Mãos que agarram a vida e a morte. Por vezes é longa a espera, mas valeu a pena.


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