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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 04/03/2026

Novo disco a caminho com um quarteto reformulado.

Mário Barreiros sobre Na Pele da Terra: “É dedicado a quem cuida e a toda a gente que faz o seu pequeno nada”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 04/03/2026

Está a caminho o segundo trabalho do Quarteto Mário Barreiros. Depois de Dois Quartetos Sobre o Mar em 2022, segue-se Na Pele da Terra, que mantém a missiva ecológica e o alerta para a fragilidade do nosso microcosmos. Assente no consistente diálogo acústico entre Ricardo Toscano, Carlos Barretto e Mário Barreiros, este novo trabalho traz também Leonardo Pinto à conversa que foi alargada às maquinas. É a primeira vez que o quarteto interage com as infindáveis possibilidades da eletrónica e da tecnologia digital — e esta é a grande novidade. Na Pele da Terra começa numa tese de Mestrado de Barreiros, na ESMAE, em 2023, e percorre o Mar, a Terra e o Solo até fazer capa do débil habitat da espécie humana. 

O concerto de pré-lançamento acontece já amanhã no Festival Multiverso na Covilhã, a 5 de Março, enquanto o lançamento da obra projeta-se apenas para depois do verão. Além deste, há outro concerto agendado para São João da Madeira a 27 de Novembro. No total, são sete os temas do espetáculo,  embora apenas quatro foram gravados no vinil. Cinco são composições originais, a que se juntam uma peça de John Coltrane e outra de Wayne Shorter. Uma certa influência minimalista conecta os temas a um tempo presente onde sobressaem sonoridades do pop, trap e hip hop. O disco foi gravado ao vivo num concerto que aconteceu em Estarreja em outubro do ano passado, aproveitando a reconhecida experiência e talento de Nélson Carvalho no som. 

Mário Barreiros concedeu uma entrevista ao Rimas e Batidas, e revelou ideias e palavras por trás das melodias e harmonias. A preocupação com a deterioração dos solos, com a destruição da floresta e a poluição dos oceanos são o centro em torno do qual gravita a música original criada com um propósito: recordar a fragilidade humana ante a força de um planeta, ou até mesmo de um cosmos, que se rege por leis próprias. Recusando a ideia de que o Homem é o centro do Universo, sendo aliás dispensável ao seu funcionamento, o músico disse-nos que “a parte central deste trabalho é, no fundo, tomarmos consciência de que somos muito mais minúsculos do que aquilo que achamos que somos.”



Na Pele da Terra só vai sair em vinil? 

Só. Haverá um pré-lançamento a 5 de Março na Covilhã num festival de música eletrónica e vamos fazer lá uma venda. O lançamento será feito depois do verão, talvez em Setembro ou Outubro. Nessa altura faremos a promoção. 

Contém cinco temas originas. Quem compôs? 

São quase tudo coisas minhas. Uma delas é do Leonardo. Outra é minha e do Toscano. Depois tocamos o “Fall” do Wayne Shorter e o “Naima” do John Coltrane. O “Naima” está no disco. Portanto, nós tocamos no concerto sete temas e no disco aparecem quatro: “Goal 14”, “Na Pele da Terra”, “Sol” e o “Naima”.

Como é que surgiram? Foi na guitarra? 

Ora bem, isto é um prolongamento do meu mestrado. Sim, também toco guitarra acústica. Algumas surgiram na guitarra, outras no computador: loops. Aquilo tem eletrónica, portanto, há sequencias feitas no computador através de samples que eu e o Leonardo fizemos a partir do contrabaixo e do saxofone. Eu samplei a escala toda dos dois instrumentos (o saxofone e o contrabaixo) e depois fiz umas brincadeiras. Um dos temas é no computador, um bocado influenciado pelo minimalismo. Tem alguns acordes parecidos com os que o Steve Ray usava em algumas composições dele. O tema do Leonardo tem uma guitarra e partiu de uma melodia dele. 

Já tinha usado samples num álbum seu?

Os samples são uma novidade e este projeto tem essa particularidade. Os outros grupos de jazz em que participei são tudo instrumentos acústicos. Este não. Este junta a eletrónica.

Podemos considerar essa novidade um corte com o que havia feito, por exemplo, no Dois Quartetos Sobre o Mar? 

Sim. É muito diferente. Tem mais pop. É um disco um bocado mais contemporâneo. Tem a ver com estas correntes pop, mas não é bem pop. Pode ter a ver com o minimalismo que falei. Mas depois também tem alguma influência do trap e uma batida do hip hop recente. Tem essa particularidade. E quando tocado ao vivo é imersivo. Usamos as colunas surround que normalmente estão nos teatros. Nós estreámos isto em Estarreja e lá usámos colunas laterais. Portanto, os efeitos não são apenas em stereo mas vão para a sala. 

Já estrearam este concerto ao vivo? 

Sim, no passado dia 8 de outubro em Estarreja. Aliás, este disco é ao vivo e foi gravado lá. O Nélson Carvalho, que trabalha connosco no som, gravou o multipista e entregou-nos. Eu gostei da gravação, o concerto correu bem e escolhi quatro temas para fazer o disco. E gostei muito do resultado. Normalmente, os concertos ao vivo saem com muitas fífias, mas este por acaso saiu bem. 

É, portanto, o Leonardo Pinto, o novo elemento do quarteto que traz a novidade?

Sim. Nós temos três temas que têm coisas pré-gravadas — loops e samples. Mas em todos os temas, mesmo nos do Coltrane e do Wayne Shorter, ele recebe o som da bateria, do contrabaixo e do saxofone e em tempo real altera com efeitos esquisitos, fragmentos e síntese granular. Umas coisas esquisitas que ele lá sabe dessas novas tecnologias. E nós somos também influenciados por isso, sobretudo em introduções que os temas têm. O Toscano toca e ouve o que ele faz. Tem que fazer algumas pausas para deixar respirar. É um jogo engraçado. 

Será, por isso, um álbum mais ligado ao presente ou a um tempo abstrato? 

É presente. É o mais presente de todos até. De todos os trabalhos que fiz até agora, este é o mais presente. 

Como foram as decisões musicais? Como chegaram aqui? 

Portanto, há uma estrutura do espetáculo, uma serie de coisas delineadas e uma sequência. Depois há 70% de improvisação. 70% das coisas acontecem no momento. Embora haja esse planeamento, nós vamos sempre partir para o risco e para o desconhecido. O jazz é assim. 

Quer dizer que quem ouvir o álbum, quando o ouvir ao vivo, não ouvirá a mesma coisa?

Pois, não vai ouvir a mesma coisa, vai ser diferente. Por exemplo, o tema que abre o álbum é uma música minha e do Ricardo Toscano. Tem uma introdução grande dele com a eletrónica. A entrada dele agora na Covilhã vai ser completamente diferente. Outras notas. Depois dessa introdução o Carlos Barretto entra com uma linha de baixo que faz parte do tema. E essa linha de baixo está escrita, será pelo menos idêntica. O meu ritmo base na bateria também será idêntico. Há uma melodia que o Ricardo Toscano compôs em que entra o baixo, depois entro eu, e a seguir novamente o saxofone com a melodia. Depois há um pouco de improvisação e vamos para o final onde é feita a melodia também. A estrutura do tema é normal como os temas de jazz. Expostos no inicio. Improvisação. Re-exposição. Portanto, há muitas coisas que vão ser parecidas com o que está no disco, mas depois os solos são sempre diferentes. E a maneira como nós reagimos aos solos também. No caso dos solos de saxofone, há sempre uma grande interação com a bateria. E agora também com a eletrónica. O Leonardo dispara para lá umas coisas malucas que às vezes até nos assustámos [risos].

Como se trabalha essa espontaneidade para os momentos de improvisação? 

Ora bem, na improvisação nós vamos fazer o que já fizemos. O que há de mais engraçado na improvisação é como as coisas são encadeadas. É como a linguagem, como conversar. A gente já aprendeu a gramática, temos vocabulário, e depois usamos. Construímos frases e conversamos. É exatamente igual. Nem sempre dizemos a mesma coisa. Ás vezes até nos esquecemos de dizer coisas importantes. Há enganos, obviamente. 

Isso trabalha-se nos ensaios? 

Sim… nos ensaios, mas individualmente também. É como escrever. Se quiseres ser escritor, tens que ler e escrever muito. 

É preciso conhecer muito bem os músicos com quem está a tocar para conseguir essa espontaneidade? 

Mais ao menos. O que é preciso é conhecer a linguagem. Depois, se estiveres com músicos bons na linguagem jazzistica a coisa funciona. Por vezes, até sem ensaios é possível. 

O Leonardo enquanto elemento novo teve que adaptar-se à linguagem da vossa conversa? 

Sim, embora a parte dele seja transformativa. Ele não tem propriamente uma intervenção direta connosco, embora o que ele faz influencia-nos. Mas aí não existe a tal conversa com a mesma linguagem. O que nós estamos a “dizer” é transformado e há, depois, uma relação com a sala, normalmente em surround, ou quadrifonia. “Som imersivo”, como agora se diz. 

Diria que no jazz — e ainda mais no improviso — tocam mais uns para os outros primeiro, e só depois para o público?

É sempre assim. Em todos os tipos de música, nós temos primeiro que tocar uns com os outros. Um bom grupo de música clássica tem que tocar junto. Às vezes, há elementos que entram e não se ajustam. Há quartetos clássicos de cordas famosíssimos porque eles tem precisamente uma afinação, uma ligação especial. O Opus Ensemble, por exemplo, um grupo famoso em Portugal, eram sempre os mesmos. O grupo do Astor Piazzolla, que era um quinteto incrível também. No rock ou no jazz, é a mesma coisa. Em todos os géneros existem grupos que funcionam de um forma mágica, quase. Porque são aqueles elementos a tocar juntos. No jazz há mais improvisação, há mais risco. 

Num álbum em que tanto a improvisação como a originalidade das composições assumem um papel central, porquê escolher dois temas — um do Wayne Shorter e outro do Coltrane — para fazerem parte do espetáculo?  

Porque são muito bonitos. São temas que eu sempre gostei desde os meus 17 anos. No final dos anos 70 conheci o Nefertiti onde está o “Fall”, tema do Wayne Shorter num disco do Miles Davis, de 1968. O “Naima” está no Giant Steps de 1960, um disco que já conheço há muitos anos também. Nós tocamos sem piano, apesar de na versão original ambos são tocados com piano. Aqui não. É o trio e depois o Leonardo faz uns acordes de sintetizador. Uma coisa muito contemporânea e que ficou muito bem. No fundo, são temas muito bonitos e jogam bem com o resto. É curioso porque são coisas muito antigas mas ficam bem ali. É uma reinterpretação, apesar de não estar muito longe do que está nos discos. 

De onde veio a inspiração para uma coisa destas? 

Eu concluí o meu mestrado em interpretação artística — Bateria de Jazz — na ESMAE em 2023. É a partir daí. Há uma tese com quinze mil palavras e meia hora de música composta, toda ela por mim nesse caso. Agora foi fazer mais meia hora. Criámos o espetáculo a partir daí e temos agora uma hora. Eu achei piada àquilo na altura e decidi fazer. 

Mas há alguma referência, alguém a fazer algo parecido que o tenha inspirado?

Não sei. Há muita coisa eletrónica mas a maior parte das coisas eletrónicas que existem são mais esquisitas. São mais experimentais, mais atonais e mais dissonantes. A nossa é um bocadinho mais popular, no sentido em que tem algumas influencias da música popular contemporânea. Do hip hop, do pop de um certo de ponto de vista, e da música minimal também. Portanto, não é assim tão abstrato como a maior parte das coisas que usam música eletrónica. 

Porque faz sentido juntar a eletrónica ao jazz e o que traz de diferente? 

A diferença é muita. São outras possibilidades. Logo que se coloca a eletrónica na equação começamos a pensar de forma diferente. Vamos logo buscar ideias diferentes. Cria um objeto novo. 

Será mais desafiante para os músicos? 

É capaz de ser mais desafiante. Eu tenho que tocar com in-ears, acho que só em dois temas, porque há clique. E o baixo também. Eu tenho que ouvir o clique porque há uma série de sequências que estão compostas, que são rígidas, e nós temos que acertar sempre por elas. É uma coisa que se usa no pop-rock. Eu toco com os The Gift há 20 anos, todas as músicas têm clique e máquinas também. Neste caso, fizemos isso em dois temas. Eu e o contrabaixo temos os in-ears e o Ricardo vai atrás. Nós, como somos secção rítmica, temos que acertar com as máquinas. 

Já toca com máquinas há 20 anos no pop-rock, no jazz é a primeira vez?

No jazz é o primeiro projeto que toco com máquinas e com clique. 

É curioso ser o seu primeiro álbum de jazz com máquinas num álbum intitulado Na Pele da Terra, que parece remeter para o mundo natural…

Na Pele da Terra é uma ideia muito fora. O nosso habitat na Terra… é como se fossemos os micróbios na nossa pele — ninguém nos vê. Há uns anos que associo nós, humanos, não como centro da Terra, longe disso, mas como micróbios que habitam um organismo que é a Terra. Imagina que a minha mão é a Terra e nós estamos aqui na superfície, invisíveis do espaço. Dez mil metros, que é a altitude a que voa um avião, quando traduzidos para um daqueles globos que temos em casa equivale dois décimos de milímetro. Já viste o que é? E, no entanto, quando era puto achava a Terra enorme. Mas se a virmos a 10 ou 15 mil quilómetros a Terra é uma esfera lisinha e nós estamos ali algures como se fossemos os micróbios. Portanto, o que nós estamos a fazer com o efeito de estufa e as emissões de CO2 é a aquecer a atmosfera que nos protege. Estamos a dar cabo da vida que se criou nessa pele da Terra. Os animais também são micróbios. Nada disto se vê a 10 ou 15 mil quilómetros. Quem viajar pelo espaço, mesmo que passe perto da Terra, não nos vê. Não se vê nada. O que nós somos não é visível. Por isso é que eu digo que é na pele da terra que nós habitamos. Nós somos micróbios que vivem na pele da Terra. Aquilo que andamos a fazer é a dar cabo da Terra, coitadinha. Um dia ela sacode e lá vamos nós. 

Somos então muito pequeninos neste universo… 

Somos insignificantes. O que nós andamos a fazer é a destruir o nosso habitat. Este telescópio, o James Webb, trouxe uma série de imagens que nos permite ver a dark matter, que é 95% do universo. O quarto estado da matéria, o plasma. As forças cósmicas e interplanetárias dessa ordem por aí. São tudo forças e coisas que desconhecemos quase em absoluto. Sabemos muito pouco. Portanto, este título parte dessa ideia de que nós somos realmente muito pequenos. Por muitas tropelias, por muitos químicos que a gente misture, só servirá para nos envenenarmos a nós, à fauna e à flora. De qualquer forma, e muito provavelmente, nós iremos desaparecer antes e a fauna irá reorganizar-se a uma velocidade impressionante. Por muito mal que a gente faça nessa tal pele, por maior que seja a inflamação que a gente crie, não vamos matar toda a gente. Temos extinguido milhares de espécies, mas também ficarão muitas. Quando caiu o meteorito que acabou com os dinossauros não desapareceu tudo. Não estamos livres de que algo semelhante aconteça. 

Mas de que maneira estas questões se relacionam com a música? 

Já o disco anterior, o Dois Quartetos Sobre o Mar, foi dedicado ao mar e a quem cuida dele. É o  segundo trabalho que é dedicado a quem cuida e a toda a gente que faz o seu pequeno nada. E que, de algum modo, contribui para que a gente não acabe por dar cabo de nós próprios. O primeiro era dedicado ao mar. Este tem vários assuntos, um dos temas é também sobre o mar. Mas a parte central deste trabalho é, no fundo, tomarmos consciência de que somos muito mais minúsculos do que aquilo que achamos que somos. Às vezes ouvimos dizer que vamos dar cabo da Terra, mas a Terra é muito mais forte que nós. E esta ideia incrível que é: o ambiente em que nós andamos é um ambiente microscópico. Não se vê.  

Quais os temas que gravaram no disco?

Ora bem, no lado A, temos o “Goal 14” que é meu e do Toscano e o “Na Pele da Terra” do Leonardo. No lado B, há um tema meu que se chama “Sol” e o “Naima” do Coltrane.

No espétaculo ao vivo há mais três… 

Sim. São o “Solo”, o “One Billion Trees”, que é inspirado num evento promovido pela ONU e pelo António Guterres em 2022, que tem o mesmo nome e trata-se de uma campanha para plantar mil milhões de árvores. O outro tema é o “Fall” do Wayne Shorter.


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