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Fotografia: Vera Marmelo

Este domingo, a Festa do Jazz reúne a cantora ao contrabaixo de Carlos Bica. O novo álbum devolve-a à electrónica mais movediça.

Maria João: “Podia ter passado ao lado da música e nunca ter sabido que podia ser plenamente feliz”

Fotografia: Vera Marmelo

Para Cláudia e Marcos Valle, não era de confiança quem tivesse mais de 30 anos, cruzeiros ou vestidos. E quem tem mais de 30 discos, há mais de três décadas na proa do jazz nacional, também é persona non grata? Dentro e além-fronteiras, é seguro dizer que não. Já é supérfluo apresentar Maria… – “João! João! Não me tratem por Maria, pelo amor de Deus”, como nos roga entre risos e onomatopeias –, a cantora que extermina formalidades com a sua voz.

Dócil mas nunca soporífera, penetrante sem pegar no bisturi, o seu instrumento é uma âncora para o ouvinte mais receoso. Com Maria João, o jazz nunca é um papão: é um mundo para devorar. Crepitante, a flutuar, colado à terra suja, assumidamente mestiço, mil e uma variações onde a sua voz guia ao mesmo tempo que desbrava – e a desbravar é que se sente em casa. Hoje, João continua siderada pelo futuro, ao lado dos instrumentistas João Farinha e André Nascimento, nos OGRE Electric. Open Your Mouth, o terceiro disco (após Electrodoméstico de 2012 e Plástico de 2015) do colectivo, não só tenta uma osmose entre as sensibilidades do jazz, do hip hop e da electrónica: cristaliza-a com orgulho, tão próxima de Cibo Matto como de Dorian Concept, intimidante no tanto que atravessa. E ainda sobram a Maria João mais avenidas e colaborações.

Embora seja com o pianista Mário Laginha que tem a sua parceria mais emblemática, precede-lhe o seu primeiro encontro com o contrabaixista Carlos Bica. Depois dos discos Conversa (1986) e Sol (1991), cruzam-se num novo projecto que tem destaque na edição pandémica da Festa do Jazz. João e Bica encerram o segundo dia do festival que terá lugar no CCB a 13 de Setembro, pelas 22 horas e com transmissão em streaming pela plataforma RTP Palco. É o mote para uma conversa com o Rimas e Batidas, que só peca por não ser possível transcrever cada modulação de entusiasmo ou terror na voz de João – que até por telefone faz uma sala estremecer.



Pelos meus cálculos, já são 35 anos de carreira.

Oh, sim… Acho que sim, eu também já me perdi no meio das contas todas. É uma série de anos.

Acho que é compreensível perder-se no meio de tanta coisa.

[risos] É muita coisa! Às vezes pedem-me currículos e tenho sempre que mandar o mais curto, assim generalista, porque o mais comprido é tão grande [risos] que se calhar não dá! “Não tens um mais pequenito?”

Para compactar toda essa vida… Foram muitos anos, muitas experiências, mas talvez nenhum tenha sido tão atípico como este.

Bem, nós somos músicos, não é? Os músicos passam sempre o seu bocado, porque as coisas não são fáceis. Apesar de sempre se associar a um imenso glamour, a vida de artista tem um imenso trabalho, uma imensa insegurança e não é essa facilidade toda que se pensa. Há anos que fluem e são bons, há outros que não são assim – e eu já tive vários em que as coisas não correram tão bem assim. Mas tão diferente como este… realmente não. É puxar da nossa resiliência toda e fazer das tripas coração e seguir em frente. Mas altos e baixos todos temos.

Quer-me parecer que os baixos acabam por dar mais sabor aos altos…

Ah, não, não. Eu gostava muito de não os ter! [gargalhada] Os altos têm sempre imenso sabor, sabes? Eu não preciso dos baixos: são mesmo terríveis. [Durante a época de confinamento], as pessoas sentiram na pele aquilo que nós [artistas] sentimos pontualmente: estes baixos terríveis em que não sabemos o que vai acontecer, se vai haver ou não trabalho, se há dinheiro para nos pagarem, hmm hmm hmm!

Mas para sair desses cataclismos, a João não ganha uma força criativa sem precedentes, aquele remoinho e ímpeto que são quase um cliché?

Eu sinto sempre essa força criativa. Todos os nossos motivos, eu tenho todo o incentivo e inspiração para a música. As minhas energias estão voltadas a 100, a 1000 por cento para o acto de fazer música, de a escutar, de trabalhar e viver todos os dias. Nem sempre sinto essa necessidade, porque ela está sempre tão presente, mas eu gostava imenso de nunca termos baixos. Porque é horrível. As pessoas conseguiram compreender como é essa coisa de estar sempre na corda bamba, nunca sabemos. Se ficamos doentes, não podemos trabalhar; se não trabalhamos, não recebemos, porque não temos nenhum estatuto – o estatuto de intermitência que merecemos. Talvez com isto tudo algo aconteça, quero acreditar que sim.

Foi outro tipo de pausa que a levou à música, ao Hot Clube…

Exactamente. Eu dava aulas de natação a crianças autistas e adultos, quando a piscina mudou de dono e encerrou para obras. Fiquei sem trabalho e foi nessa altura que se abriu a possibilidade de eu ser música. Vê lá a sorte que eu tive! Eu não planeei isto ser nada! Eu andava a experimentar isto e aquilo: fazia artes marciais, fazia Aikido, era isso que eu me imaginava a fazer. De repente, descobri isto… olha a minha sorte, podia ter passado ao lado e nunca ter sabido que podia ser plenamente feliz.

Conseguiria ter sido feliz com outro rumo?

Não. Poderia ser também feliz, mas não a este nível. Porque este nível tem a ver com a criação, uma aventura que existe na arte.

Acaba por ser um conhecimento a posteriori. Nunca saberia se não tivesse tido a coragem para fazê-lo; ainda bem que a teve.

Pois [risos]. Eu sou uma pessoa corajosa, valente, tem que ser: sou música.

Pensando na sua cronologia, desse começo espontâneo até hoje, parece nunca ter havido um interregno para respirar entre digressões e discos… Esta foi a primeira pausa em algum tempo.

Estamos sempre muito activos. A minha cabeça não pára, o meu coração não pára, o meu intelecto não pára. Eu estou sempre a viver música: umas vezes com mais trabalho, outras vezes com menos – o mercado é estranho, não se percebe bem o que acontece. Esta pausa foi muito assustadora e assumiu uma escala mundial. Quando alguma coisa não corria bem aqui, eu podia sempre fugir para fora de Portugal, porque eu tenho essa sorte – de ter uma carreira fora de portas. Mas agora não há sítio para a gente ir, se esconder. Tem sido e continua a ser uma pausa extremamente assustadora, isto ainda não parou! Apesar de ter feito concertos este Verão, comparativamente com colegas meus fiz mais, não sabemos o que vai ser o futuro. Agora vai fechar outra vez? É, pá… E lá está, quem é que se lixa? Nós. A arte é a primeira a fechar, são os primeiros que se lixam.

Mas também os primeiros a quem é pedida ajuda.

Exactamente. No outro dia, pus-me a pensar realmente quantos concertos gratuitos eu já fiz, quantas vezes eu já trabalhei por causas… Muitas! Sempre que me pediam, eu fazia, achava que podia. Agora estou um pouquinho mais renitente a fazer isso. Penso que não estamos em tempo de andar a fazer borlas e a dar concertos gratuitos, acho que nos temos de focar mais no essencial: nós, artistas, sobrevivermos.

E uma altura de marcar posição, para não abrir o precedente da caridade eterna.

Isso é um perigo, tu já viste? Todas as coisas, todos os concertos que eu fiz foram gratuitos: não para mim, mas para as pessoas que estavam a ver. Com tanto streaming nas redes sociais, tanta música que passou gratuitamente, eu receio que as pessoas comecem mais ainda a considerar esta nossa forma de viver como uma coisa gratuita. Não é! É o nosso trabalho. É uma actividade magnífica que nos preenche e deixa felizes, mas é um trabalho, e é duro, muito duro! É com ele – eu não tenho outro, por exemplo – que eu pago as minhas contas, a faculdade do meu filho… As pessoas têm que ter essa atenção. Esta profissão é aquilo que nos sustenta, é o nosso trabalho e podem crer que dá imenso trabalho! Desculpem, mas quem carrega as minhas malas sou eu, quem faz as minhas coisas sou eu, sou eu que tenho que andar a viajar não sei quantas horas e chego lá e não vejo nada e vou directa… e não me queixo! Estou só a dizer como é.

Mais do que queixas, é justiça, mesmo que tenha que ser pedida.

Diariamente insistimos junto dos políticos, de quem decide e pode fazer diferença. Continuaremos a insistir, porque isto que se passa não está bem, não é justo.



Se essa primeira pausa levou-a ao Hot Clube, este intervalo forçado conduziu-a a alguma revelação?

Criativa não. Eu insisto muito na ideia de que o mais importante, acima de tudo, é usarmos a nossa criatividade o tempo todo; compreender esta aventura que é a música, mas percebi que é muito mais feliz e absolutamente bom vivermos com o essencial. Apercebi-me do imenso supérfluo que rodeia as nossas vidas e de que não precisamos de facto.

O [novo álbum] Open Your Mouth já estava concluído antes da pandemia?

Já estava, sim. Nestes meses de interregno, fiquei a dar aulas na Escola Superior de Música de Lisboa e também em regime particular: criei um grupo de alunos particulares, que reunia online, com uma cantora do Cazaquistão, outra de Buenos Aires, outro de Malta, outra de Moçambique [risos]… É muito bom! Dá para eu exercitar as línguas que vou sabendo e é sempre uma coisa boa. Eu gosto muito de dar aulas e não sou uma professora – nem cantora – nada convencional, acho eu. E também é uma aventura e um desafio para os alunos as aulas comigo. Não estive sozinha. Gosto de correr nos trilhos próximos de onde moro, todos os dias ia correr com os meus cães (a minha atleta Aurora e o Benjamim), uns 10 quilómetros cada dia e depois dava aulas. Ouvi muita música, vi muitos filmes, li livros… e fartei-me de limpar a casa [gargalhada]. Tem uma outra dimensão: puxa, nunca ela esteve tão limpa.

Identifico-me com isso.

Tenho uma amiga que diz imensos disparates: tem imensa conversa daquela, blá blá blá, não diz propriamente nada. Nós telefonávamos uma à outra quando íamos limpar a casa de banho, sempre [gargalhada]. “Quando é que vamos limpar a casa de banho?”

A casa de banho é um santuário, uma horinha a esfregar banheiras e sanitas, a meditar… Só conhecia a modalidade “enquanto se ouve música”, mas o telefone parece uma óptima companhia também.

Ai, é fantástico, passa a voar! Também tenho um amigo com quem me farto de discutir, por sermos tão diferentes… São os amigos das limpezas, das discussões… Telefonava para ele: “‘Bora discutir? Bora?” [gargalhada]. Aos berros! É salutar. Daqui a cinco minutos já não me lembro de nada.

Não me surpreendo nada se daqui a um ano tivermos um álbum Maria João meets as cantoras do Cazaquistão, Buenos Aires, Malta…

É uma ideia. Elas são todas incríveis. As aulas acabam por ser uma conversa: eu aprendo com elas e elas aprendam comigo, é assim que eu imagino essa troca de experiência. Eu tenho um pouco mais e consigo dizer algumas coisas, mas o caminho é de cada uma, cabe-lhes percorrê-lo; não posso fazer por elas, dizer tudo o que têm de fazer. Não é isso que eu acho! Ainda por cima nós, cantoras, que temos este instrumento aqui dentro… temos que ter consciência do nosso corpo, ora ora!

Neste momento, sinto que estou a falar com a Maria João professora… Esse tipo de diálogo criativo [com o colectivo OGRE Electric] foi também o que fez acontecer este Open Your Mouth?

Claro, foi sim. Eu tenho uma sorte incrível por ter esta parceria com o João Farinha: é pianista, teclista, compositor, arranja, e é um músico muito curioso com a electrónica. Percebe-a. Tinha há tanto tempo esta vontade de trabalhar sobre esse som, tanta tanta vontade. De repente, foi possível porque conheci o João, há quase 12 anos, que tornou isto possível. Foi acontecendo: já gravámos dois discos, sendo o Open Your Mouth o terceiro. O primeiro [Electrodoméstico de 2012] misturava os instrumentos acústicos – o Joel Silva na bateria, o Júlio Resende no piano mais nós os três [João, Farinha e André Nascimento]. Cada vez estamos mais fundamentalistas, queremos ir mais em direcção ao electrónico. O disco estava prontinho, ia sair em Março, e aconteceu isto [imita o som de uma bomba a explodir]. As pessoas nem pensam, se calhar, mas tudo o que foi investido a nível financeiro e emocional – tudo – de repente teve uma paragem abrupta. Com todo o dinheiro gasto, porque isto é um disco feito absoluta e completamente por nós, excepto o videoclipe realizado pelo Nuno Barbosa e o design gráfico do meu filho. Isto é tudo familiar.

Editamos pela Espuma Preta, uma espécie de editora que nós temos, e temos distribuição pela alemã The Orchard para o mundo todo. O mundo todo, imagina, que ideia incrível! O mundo todo! Mas uma coisa completamente caseira: eu gravei as vozes em minha casa, num anexo, no meu minúsculo e rudimentar estúdio; os teclados, incluindo os do André, foram gravados entre a minha casa e do João Farinha… A música que fizemos é sofisticada, muito atenta ao pormenor, com muitos detalhes que fazem a riqueza da música. Estamos felizes, as ideias são nossas para explorar, porque somos nós a pagar. Oh, Aurora! Desculpa, é a minha cadela. Oh, Aurora! Ah, sacana… Sacana!

Eu entendo que ela também queira um pouco de protagonismo.

Ela quer todo o protagonismo, sempre. Tudo para ela!

Tem que entrar num teledisco do álbum.

Era bom! [risos] Bolei a ideia do “Acute Angles” – e dos restantes vídeos – com o Nuno Barbosa, que é incrível, absolutamente. Foi muito caseiro e dá-me muito prazer pensar em como isto foi, mas foi um esforço! Ficámos nas lonas depois disto tudo. Depois fechou tudo, quando iríamos repor… “Sim, senhor. Muito bem”, pensámos nós. É uma frustração sem medida, mas não aconteceu apenas a nós. [grito] Oh, Aurora, por amor de Deus! [risos]

O que está a Aurora a fazer?

Deitou abaixo um cacto e anda à volta do vaso. Aurora! Por amor de Deus! Não era bem um cacto, mas era uma couve que eu tinha aqui, já seca… com uns talos apetitosos para ela comer. Deu cabo daquilo.

Nem de propósito, o álbum abre com “Open Your Mouth” e uma mensagem que tem ecoado: “Just to be alive is a political statement, wouldn’t you agree?” E não esperava ouvir a declaração vegana em que a canção se torna. Não é uma missão ambígua, vagamente política.

A minha declaração de princípios. Relata algo que me aconteceu, uma espécie de exorcizar, de falar daquilo e andar para a frente. É uma letra muito pessoal. Eu disse “just to be alive is a political statement” porque era assim que o John F. Kennedy falava [risos]. Estava a ver um documentário em que ele aparece a falar, justamente quando eu estava a pensar na letra, e gosto muito daquela forma de ele falar [faz uma imitação nasal e irrompe numa gargalhada].

Esta foi a canção que deu o propósito ao disco?

Já havia outras. O primeiro tema foi o “Say Something”, que aconteceu porque estávamos a tocar em casa e eu tinha um livro do [José] Craveirinha perto de mim, A Menina e Outros Contos. Peguei num texto de que gosto e comecei a cantar em cima; depois foi o “It Works”, que resulta quase de uma jam, a experimentar o que vamos fazer.

Parece o culminar do longo percurso da João, de se libertar dos standards – também voltou a eles, é certo – e viajar sem reservas pelo free jazz. As estruturas são muito ténues, não que seja difícil guiar-se pelo trilho do álbum, mas é igualmente fácil uma pessoa perder-se nele.

Eu também acho, sabes? É uma mais-valia, juro que acho [risos]. Mas sabes que nós não planeámos fazer assim ou assado, com este ou aquele. Apenas fizemos a música que nos ocorria. Apenas queríamos tocar com o Silvan Strauss, um baterista jovem – tem 39 anos, OK, já não é um bebé, mas quando eu o conheci ele era muito novinho! Ele, um baterista de hip hop, um som que queríamos explorar, também queria estar connosco. O resto foi andando.



Falta uma semana para sair o disco. A João ainda sente aquela corrente nervosa?

Sempre! Antes de cada concerto, há um total pânico. Continua a haver este frenesim e eu gosto que seja assim. Lembro-me uma vez de ter feito um concerto no CCB e eu estava a pontos de ter um treco, quase a desfalecer de nervoso. Alguém me disse: “Olha, a cantora tal toma um ansiolítico tal, que é muito inócuo, antes de cada concerto. Queres que eu te arranje?” Eu fiquei assim a olhar, a pensar na coisa… Pensei, pensei, pensei, e depois percebi mesmo: não quero, não quero nunca, nada disso! Isto faz parte, este frenesim, este nervoso, tudo faz parte. Quero continuar a sentir isso antes de cada concerto, estas borboletas na barriga.

Confirmam que está viva. 

Não quero ir confortável para as coisas, quero ir acordada e desperta. É isso que eu pretendo.

Nunca se notou o contrário, um imobilismo em nada que a João tenha feito.

Esse é o maior elogio que me podes fazer. Já fiz um disco de rock’n’roll blues com os Buddha Power Blues, o Nuno Côrte-Real já me propôs fazer um projecto de música contemporânea – e um pouco de ópera! Eu amei fazer isso, amei, amei, amei!

O projeto com os Buddha Power Blues levou-a ao Bons Sons. Um amigo meu apanhou-a nos bastidores: viu-a numa polvorosa e disse que nunca havia presenciado um artista com tanta excitação a entrar e a sair do palco.

É verdade. Continua, continua, é sempre aquela… ‘bora, ‘bora, ‘bora! ‘Bora, ‘bora, ‘bora, ‘bora, ‘bora, ‘bora! ‘BORA! VAMOS LÁ! ‘BORA ‘BORA! [gargalhada]

Isso está de mãos dadas com o título do álbum [Open Your Mouth], o modus operandi da Maria João.

Open your mouth, diz o que tens de dizer, canta o que tens de cantar. Diz muitas vezes “eu amo-te”, é uma coisa absolutamente necessária que não dizemos… Façam comentários uns aos outros, digam… Eu estou num lugar e vejo que uma pessoa tem um corte de cabelo giro: eu digo! Ou se tem umas sandálias bonitas, eu digo! A maior parte das vezes as pessoas ficam tão felizes… Há pessoas que me olham com muita estranheza [gargalhada]. “O que é que esta agora quer?” Mas as pessoas ficam tão felizes, sabes? E eu também gosto que me digam essas coisas. Pessoas desconhecidas que me interpelem e digas coisas.

Quando andar na rua, vou passar a pensar “o que faria a Maria João?”

[gargalhada] Se eu vejo uma coisa que gosto, eu digo. Open your mouth!

And say something…

Say something. Say something! Say! Digam coisas! Abram a boca! ‘Bora comunicar, vamos comunicar, dizer o que nos vai no coração, não ficar mudo e quieto no lugar.

A maior parte desta conversa foi centrada no Open Your Mouth, mas não é esse o projecto que a leva à Festa do Jazz.

Mas eu tenho outro concerto no dia 18 – Junta-te ao Jazz, Palácio Baldaya, dia do lançamento do disco, Open Your Mouth vai ser metade, 2/3. 

Vai ser um projecto que é novo – penso que já fizemos quatro concertos, incluindo um em Badajoz – com o Carlos Bica, o meu compadre [risos]. Cada um tem os seus projectos, mas juntamo-nos pontualmente.

Poderá dar um disco novo?

Ainda não sabemos… Sim. Talvez. Sim. Muito provavelmente. Estamos a gravar, pelo menos, já gravámos em Badajoz – se calhar um disco ao vivo.

Quando se alcança o 30º disco e troca o passo, já tem tudo para ser uma dependência.

É um vício… Já não sei quantos discos eu fiz… 20 e tal, 30?

O que esperar dessa noite que se avizinha?

Nem a gente sabe o que esperar deste concerto. Nem nós sabemos exactamente [risos]. Está tudo muito fresco, mas vai ser aventura, a aventura da música, e o prazer de tocar ao fim destes anos, de cantar com o Bica. Vai ser um prazer, porque ele é um dos meus amigos mais queridos. Até fomos namorados e tudo [gargalhada], somos compadres e tudo. É toda uma história: estivemos 25 anos em que não fizemos nada.

É agora o tempo certo.

Espero bem que sim. Será que é? Espero bem que sim, oh, Covid, por amor de Deus…

O Covid não tem cabedal para parar esse comboio.

Nós temos que, como diz uma amiga minha, reforçar o nosso exército interior: comermos bem, dormirmos bem, tratarmos de nós, não fazer asneiras. Temos que aprender a viver com estes milhares de vírus que andam à volta de nós e dentro de nós: esta é a melhor prevenção que podemos ter. Isto não se vai embora, acho eu, veio para ficar. Máscaras e distanciamento físico ajudam, a hiper-higienização [também], mas a verdadeira luta é mesmo as pessoas olharem para o seu corpo como um templo sagrado. Só temos este! Então, ‘bora tratá-lo bem, tratar bem o próximo, o meio ambiente, os animais…

Elogiar um estranho na rua…

[gargalhada] Exacto!

Conversar também ajuda a combater a apatia – e a João vai conversar com a Selma Uamusse e o Mamadou Ba na Festa de Jazz. Sem abrir totalmente o jogo, qual é o quadro clínico para este debate sobre “Portugal, o jazz e a questão racial”?

Eu não faço ideia. Eu conheço a Selma, não conheço o Mamadou, então vai ser uma conversa com essas pessoas. Não estou a pensar, na realidade, porque estou um bocadinho aflita e preocupada [risos]. Não sei se tenho muito jeito para este tipo de debates ou qualquer debate em geral, mas vou dar o meu melhor. E tentar mudar um bocadinho, se for possível.

O móbil da conversa é algo familiar à João, algo em que esteve um pouco à frente do seu tempo. Toda a sua carreira primou pela miscigenação de sons, cores, culturas.

Já viste? Esta coisa da raça, a raça branca, a raça negra… Isso não existe, existe a raça humana! Na sua maravilhosa diversidade. Eu considero uma estupidez… O racismo é realmente uma prova do mais burro que se pode imaginar. Como é que é possível? Uma raça, uma raça tão diversa, tão incrível: como não curtir? Como não se vive bem com isto?

Nem sei o que se poderia acrescentar.

É tão evidente, não é?

Deveria ser, pelo menos.

Como é que não podemos usufruir dessa incrível diversidade que somos nós todos? A minha mãe é de Moçambique e o meu pai é português, então eu também sou um resultado dessa mistura. Eu vou falar disso lá [na Festa do Jazz], depois tens que ver [risos].


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