Marcos Valle no Estúdio Time Out: a vontade de continuar na luta

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTOS] Luís Luz

Discrepância entre a convicção que escrevemos com paixão e a realidade que se materializa? É mais comum do que se possa pensar. Quando se pensa que um artista com décadas de uma reverenciada carreira lotará o Estúdio Time Out (ou mais) até às costuras, vêem-se umas dezenas encostadas às margens e uma ou duas alocadas à fila da frente. Parece lamentável — e é depois que o relógio nos conta as 21h50. Apenas agora entrámos em contagem decrescente para Marcos Valle.

Dez minutos depois do início previsto, a fila de admissão no Estúdio Time Out prolonga-se — é a pontualidade portuguesa a funcionar — e já se encurta a distância corporal o bastante para que a primeira rajada de Valle se precipite em copiosas gotículas de suor. Isto é, se o público dançar, o que é uma aposta ganha, ou não fosse também essa outra propriedade dos portugueses em concerto. A brisa nocturna de sexta-feira embala o Cais do Sodré, sem pressas para entrar ou fanatismos de bradar; sintomático do burguês Mercado da Ribeira e do presumido tipo de audiência, quase se adivinham o copo de vinho na mão, a outra a pentear a madeixa, e o sorriso a decorar um passinho de dança. Tudo isto se plasmará em todos os cantos de uma (agora sim) esgotadíssima sala, com ressalva para a heterogeneidade demográfica: alimentada de casais adultos e sub-21s q.b., dividida entre seguidores de longa data e gente que (dispensavelmente) grita “Estrelar” quando nem dez minutos correram. E porque não?

O espectáculo rouba o título ao canónico “Samba de Verão” e difunde a imagem que Valle consubstanciou nos anos 70 e 80: a fita atlética a tentar domar os longos cabelos loiros de um homem pacífico, sem par na produção artística. Faz-se também sob o signo da apresentação do novo disco Sempre, uma reconciliação do seu boogie virtuoso, reactivado dos seus anos 80, com o sarcasmo e a denúncia política que fizeram discos como Previsão do Tempo — ao mesmo tempo que é uma noite casual e sem grandes demandas de nenhuma das partes. Dele só se ouvirão os orelhudos singles “Alma” e “Olha Quem Está Chegando”, a que a instrumentação ao vivo dá mais espaço para respirar. Atestam à qualidade de Valle hoje e fazem-nos testemunhas do poderio performático deste senhor de uns inenarráveis 75 anos — se há alguém que me pode vender cogumelos do tempo, é Marcos Valle — ao lado de Jesse Sadoc no trompete, John Copland no baixo e Renato Massa na bateria.



Palmas em admiração que Valle agradece, mas apazigua sempre os ânimos ao alertar para a iminência dos clássicos. Não há só um novo longa-duração para promover (tarefa de que se parece esquecer e que se incumbe a sua parceira e duetista Patrícia Alvi), há que revisitar um portefólio riquíssimo. Vêm em catadupa: o imperioso instrumental “Azimuth” (cujo impacto nominal conhecemos também, no incontornável quarteto que Valle ajudou a formar, e com o qual parou no B.leza em 2018) é a única extracção de Mustang Côr de Sangue de 1969, seguida de “Com Mais de 30” e a faixa-título do grandioso Garra de 1971. Em proporção, é Previsão do Tempo que sai vitorioso, com auge na cantoria de “Nem Paletó Nem Gravata” e “Mentira”. Vontade de Rever Você oferece “A Paraíba Não É Chicago”; Contrasts (o falso final de “Parabéns”) e Estática (“Papo de Maluco” e a divertida “Arranca-Toco”), discos mais recentes, com a Far Out Recordings, também têm lugar e aplausos.

É este portefólio que o leva à posição de, lê-se em texto promocional, “referência discreta da música brasileira”. Sem dúvida que tem um legado, tem uma caixa-forte de monólitos do samba-baião-jazz-MBP, é uma referência saliente, mas não ascendeu meteoricamente: manteve-se ligado à terra, bem timbrado, sedento de colaboração e inspiração, sem vedetismos ou condecorações ostensivas que lhe poderiam ter truncado o ímpeto criativo. Em vez disso, continua firme na canalização dos seus instintos para obras vitais, frescas.

O concerto no Estúdio Time Out não se deu a indulgências terminantes, não se apoiou na lenda de Marcos Valle ou na nostalgia (mostram-no as reconstruções de “Samba de Verão” ou “Estrelar”, tão impossivelmente urgente e sensual quanto em 1983 provavelmente soou). Como alicerces, usam-se a vitalidade do material e o gosto com que Valle e banda, que desconhecem o piloto automático, actuam, tratando esta data como uma prova a superar e subvertendo o peso da sua bagagem colossal.

Tendemos a querer a maior vindicação para aqueles que achamos merecê-la: se gostaríamos de ver Valle em apoteose num Coliseu? Indubitavelmente. Mas não vale a pena fantasiar, se a realidade que nos é apresentada — apesar de ter uma ou outra aresta por limar — tem tanto de bom a acontecer. Marcos Valle não está aqui para consagrações, está aqui para se continuar a fazer valer, continuar na luta. E está pronto para acolher qualquer ouvinte, velho ou novo, que se mostre aberto e descomplexado para tal — mesmo que cheguem com um ligeiro atraso.


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