Marcos Valle: “Não me importo de ser ‘The Boy from Ipanema’, mas eu sei que a minha música é muito mais ampla do que isso”

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Pedro Ladeira

Já se deu o solstício e formalizou-se o Verão. Mas se o céu fica nublado ou nos corre o suor nas costas, um perene jovem carioca está sempre por perto — modesto, nunca altivo, sem chamar atenção para si. Em nacos monumentais de cera, guarda-nos ouro plástico e aural, sentido e físico — o vinil da memória, que haveria de ter riscos calcados e recalcados, continua a propiciar o bálsamo que procuramos ou o grito de encorajamento para a última flexão. Voz, instrumentista, compositor, produtor, lenda: desde 1963 que Marcos Valle se encontra em construção de um faustoso legado que atravessa décadas e países, castrações da censura e colaborações em chama, regressos e novos arcos de criatividade. 

Experimentar a sua discografia, exercício essencial (pelo menos) uma vez na vida, é um bom exercício de construção de mundos. O ponto de partida é a bossa nova que sublimou primeiro em Samba “Demais” e raramente se volta a depurar da galáxia de influências que se revela na fileira mais popular do seu trabalho — os amados Vontade de Rever Você ou Marcos Valle de 1983 —  e os registos de culto, na década anterior, como o “álbum da cama” (1970), Previsão do Tempo ou Garra, com uma voracidade mais jazzística e viperina — recuperada ao longo da sua mais recente parceria com a londrina Far Out Recordings.

O que dá, então, a combinatória dos impulsos mais gingantes com o pendor mais vanguardista de Valle? Não é surpresa, somente a sua natureza, que a trajectória de discos luxuriantemente vegetados — o Estática de 2010 é exemplo — com a Far Out se leve agora por um desvio. Devedor da música disco e do boogie, mas com um vértice temático deliberadamente por limar, Sempre é arquitectado como um documento amplo daquilo que Valle é enquanto artista — e é um disco quintessencial de Verão, curiosamente editado quando o Brasil recebe a energia de Inverno.

O Rimas e Batidas telefonou ao ícone da música brasileira numa tarde cheia de sol, para discutir o novo álbum e o percurso de uma carreira memorável, partilhando interpretações e histórias de vida (e com Tom Misch) pelo caminho — antes do seu concerto esta noite, no Estúdio Time Out, em Lisboa.



Alô, Marcos!

Alô, Pedro! Que bom que conseguimos falar. [risos]

Finalmente. [Risos] Como está por aí o tempo?

Aqui ‘tá bem, ‘tá o tempo assim — o que chamamos de um Inverno do Rio de Janeiro, que não é o da Europa: é mais quentinho, está uma época boa, ‘tá com Sol, tempo aberto, ‘tá bonito.

Ainda bem, eu se calhar não devia confessar isto: estava a sentir um pouco de nervosismo pré-entrevista.

Não precisa não!

Pensei no que é que o Marcos Valle faria: como estou de férias, subi as escadas, fui até à piscina, coloquei a “Filhos de Abraão” e mergulhei. Acho que estou mais bem equipado.

[risos] Na verdade, eu gosto muito de trabalhar, para te falar– fazer shows, gravar discos, isso é a minha vida. Mas quando tenho tempo, gosto muito da natureza, da água, que me traz sempre boas energias, o sol, e aí esse é um lado que eu acho espiritual, em que sinto muito a presença de Deus — nas coisas naturais, isso faz-me muito bem.

Essa descrição relembra-me uma música que não consigo parar de ouvir: a “Tapa no Real”. Lembra-me um pouco isso. Mesmo o refrão: “Eu viajo dentro da cabeça/ Para onde o sonho me levar” — é engraçado, não sei se tenho de fazer alguma psicanálise, mas só há uns dias descobri que o verso não é “Eu mergulho dentro da cabeça”.

Na verdade, Pedro, eu acho que a vida— cada vez mais aprendo, com o tempo, e com as experiências de vida, e tem uma coisa muito importante, que é o silêncio. O silêncio é uma coisa vital na vida porque, quando você tem um silêncio, é o tipo de silêncio tanto de ouvir a opinião das outras pessoas como a sua própria opinião. Quando você fala demais, você é uma pessoa que não ouve o que existe de novo acontecendo, você começa a se prender muito às suas convicções do passado. Isso não é legal nem em termos de vida nem em termos profissionais, porque é muito bom quando o artista pode estar-se comunicando com novas gerações e novos artistas, e o silêncio também faz você ouvir sua voz interior, também por isso que eu [estou] falando “dentro da cabeça”. O silêncio é bom para se ouvir bastante, conversar consigo mesmo — fazer mesmo um mergulho dentro da sua cabeça, eu acho que essas duas coisas são absolutamente importantes para você trabalhar, continuar fazendo coisas novas. Então, a música “Tapa no Real” também fala da fantasia, o artista vive muito em sonho, eu vivo, lógico, das coisas materiais que tem que tomar conta e tal, mas eu vivo muito no mundo da música, mesmo, do sonho, da fantasia, eu acho isso muito bom para mim. Então, “Tapa no Real” também fala dessa história deixar sua cabeça flutuar, né? Deixá-la fantasiar, criar coisas, trazer mais coisas dentro de você.

E isso é um instinto que em 2019 continua a fazer muito sentido para si.

Sim, não tenha dúvida. Esse disco novo agora, ele me traz a continuação: eu botei o nome de Sempre no disco, não só porque tem uma música que eu falo do “Sempre” (“faço, refaço/ digo, redigo/ penso, repenso”) de uma maneira que eu acho que é legal na vida, é bom — você disse uma coisa que agora você já não acha tão certo, então tudo bem, corrija; se pensei de uma forma mas tem coisas novas acontecendo no mundo, tem que repensar. É uma coisa que você ‘tá sempre renovando, e o nome Sempre, nesse disco, eu botei por isso que te falei: eu acho que a vida é muito presente. Lógico que o passado é importante no que eu fiz, valorizo e agradeço muito, e tem um futuro que, enquanto eu puder, fazer muita música. Agora, o importante mesmo é o presente, porque se você fizer uma coisa boa hoje, amanhã isso tem um bom efeito. Não é dizer assim: é o seu tempo, ou o tempo dos filhos — eu digo não! Tudo é uma coisa só, é uma coisa que vai-se indo, a vida segue sempre. Então, esse disco me traz essa noção do sempre e eu quis trazer esse lado importante da minha música, que é o lado do ritmo, o lado pop — os últimos discos que eu tinha feito estavam mais do lado do MPB ou então da bossa nova, e esse disco não, traz meu lado do ritmo, da alegria. É uma renovação também, uma outra história que ‘tá acontecendo.

É muito engraçado: eu estava na praia e a alternar entre o Sempre e o disco de 1970, o da cama, e estava a pensar em algo. O Equador divide-nos, então você vai lançar um álbum extremamente estival — que escorre puro sol e o calor da noite — no solstício, mas enquanto Portugal se abre ao Verão, o Brasil vai abrir-se lentamente ao Inverno.

Existe essa diferença. Como eu falei para você, o nosso Inverno é como um Outono de outros países, então a gente continua aqui, eu estou aqui olhando da minha janela, falando com você, e ‘tá esse sol, tem gente indo pra praia, apenas está um pouco mais frio.

Estamos a ter a mesma vista.

O Rio não tem essa mudança de clima, como tem fora do Brasil, ele é mais uma coisa só. Mas eu entendo o que você tá falando, são visões diferentes. Quando eu fiz o disco da cama [Marcos Valle, 1970], era uma época — foi em 1970, você deve saber melhor que eu, não me lembro exactamente.

1970, precisamente.

Eu quando olho todos esses discos que eu fiz até hoje, Pedro, eles para mim têm muito em comum. Logicamente, pela minha música ser muito versátil, ecléctica, eu tive uma influência muito ecléctica na minha criação de música, porque eu adoro música disco desde os cinco/seis anos de idade, então eu ouvia muita música, desde a clássica que eu estudei até à popular — eu ouvia de tudo, samba, baião, jazz, black music, música pop, rock, isso tudo eu guardava dentro da minha cabeça e acabou me influenciando e formando esse meu estilo, que de vez em quando cai para o lado da melodia, de vez em quando para o lado da agonia, ou do ritmo, da dança, da alegria, mas eu vejo uma coerência. Quando eu faço esse disco agora, o Sempre, eu vejo coisas que eu fiz nos anos 80, lá do disco Vontade de Rever Você ou no outro Estrelar, mas também vejo coisas do disco da cama, do lado pop misturado com a bossa, é tanta coisa. É uma mistura, a minha música é uma grande mistura. Só que em alguns momentos, a minha emoção, ela me leva para um lado — a música é feita de emoção, de alegria, de amor, social, decepção de vez em quando. A minha inspiração emocional me leva por um caminho diferente.

É facto que o Marcos é dos mais artistas complexos e fascinantes do Brasil — não lho digo só por estar a falar consigo, acho mesmo — e a sua discografia é uma boa forma de cartografar isso. Como estava a dizer, muito ecléctica, porque nos anos 60 em termos latos tem um samba mais clássico, nos anos 70 tem uma vertente mais vanguardista, nos 80 algo mais boogie, disco, funk, e vai continuando a evoluir até ao Sempre, um disco mais moderno, mas que estabelece ligações com a sua obra prévia. Gostava de perceber que posição é que este disco novo ocupa nesse percurso, ou que espaço quer firmar por si.

Eu vejo esse disco, aliás, para te falar a verdade, também muito pela repercussão que ‘tá tendo muito boa, não só pelas críticas, mas dos shows — eu fiz há pouco tempo uma tournée grande pela Europa, de oito países, e botei cinco músicas do disco novo, e a receptividade foi absolutamente maravilhosa, porque as músicas já estavam tocando nas rádios, e o público já as conhecia, então eu pude ver que as pessoas receberam esse disco de uma maneira muito moderna, como ‘cê falou — lógico que tem a ver com o que eu falei para você, o meu estilo, mas receberam [bem] essa nova linguagem. Uma coisa que também aconteceu nesse disco foi que eu fiz todas as letras: em cada música eu falo muito de mim, aquilo que eu estou vivendo hoje, por exemplo. A “Alma” do disco é uma música que eu falo de um amor, um encontro num bar, e porque é que eu falo nisso? Hoje em dia, pela facilidade — eu tenho dois filhos de 25 anos e de 26, e principalmente o de 26, o Daniel, e é sobre como são tão fáceis os encontros hoje em dia, tão rápidos que chegam e vão embora. Eu quis falar nesse “encontro num bar”, um outro encontro, que passa a ser a sua alma, querer ver outra vez, você fica com essa pessoa, acaba namorando ou seja lá, seja a tua companhia. Tem outra música, a “Olha Quem Está Chegando”, que eu falo um pouco da corrupção…

Ah! Bingo!

Oi?

Desculpe interromper, eu suspeitava que essa música tinha algo mais, porque parece primeiro que é apenas uma música de grande regresso — uma declaração de comeback, mas tem outra substância menos visível. Ia tocar nisso também.

Exactamente, por trás do ritmo dançante, existe uma crítica de alguns empresários, alguns políticos — que a gente sabe que acontece no Brasil, da corrupção, da nossa decepção de ver aquilo repetido, cada dia chega um. É por isso que eu falo “olha quem tá chegando/ de olho no seu…”: eu quero dizer que as pessoas enriquecem com o dinheiro do povo. Essa letra é muito social, com sarcasmo, humor, mas eu estou falando muito da corrupção. Já te falei, na letra do “Sempre”, eu vou dizendo “‘pera aí, eu posso fazer, querer fazer, pensar diferente de você, mas deixa eu ver, entender o que você ‘tá dizendo”, é uma música de tirar seus preconceitos, joga fora esses preconceitos raciais, sexuais, é uma liberdade que eu falo nessa música. Existe uma outra, “Vou Amanhã Saber”, é o lado positivo da vida que eu falo nessa música, isso tem tudo a ver comigo, sabe? É a maneira que eu penso. Vamos viver, vamos ser felizes, vamos valorizar o que nós temos — lógico que vamos ter problemas, dificuldades, mas vamos agradecer pelas coisas que a gente tem, coisas menores possíveis, pela comida de hoje, pelo seu animal, pela sua casa, pelo que ‘cê tem, amanhã a gente vai saber o que vai rolar, hoje eu não quero saber… Quem vai ser o corrupto de amanhã? Não sei. Quem vai jogar ou ganhar no futebol amanhã? Não sei, amanhã vou saber. Tem uma outra música que eu fiz com a minha mulher, a Patrícia: “É Você”, eu fiz para ela, do nosso relacionamento, companheirismo. Esse disco, as letras falam muito do que eu estou sentindo no momento, abrangem diversas coisas, então ele se encaixa bem com o público, que vê que o Marcos de hoje está pensando nisso. Eu vejo que as pessoas estão gostando, então fico muito feliz com isso.

Essa música, “É Você”, destaca-se muito pelo som meio Nile Rodgers.

Sim, sim. Ela é uma música disco e ao mesmo tempo em tons menores, tem uma certa tensão — eu inclusive no arranjo criei uma tensão em torno dela, ela tem uma sonoridade, é dançante, mas tem essa sonoridade meia tensa, porque como eu estou falando da minha mulher, do quanto eu gosto dela, então estou mostrando que é uma coisa intensa, não é simples. Você quando gosta de uma pessoa, ela vem com força, vem com intensidade, então eu criei essa atmosfera meia pesada, mas pesada no sentido do arranjo, mas o ritmo joga ela para as pistas.

É interessante que abordado essas questões de preconceitos raciais e sexuais e de dissecar aqui a corrupção, porque o Marcos foi afectado pela ditadura e que nos anos 70, como se sabe, foi para Nova Iorque depois da subjugação política — foi mesmo preso, até, por causa da polémica do Festival da Canção. Já viu as nuvens a abaterem-se sobre o Brasil e aquilo em que acreditava, e hoje em dia o Brasil volta a viver uma situação conturbada e que suponho que seja complicado para o Marcos ver.

Não tenha dúvida. Aquela época foi realmente terrível: a censura, além de uma censura de pensamento, era policial, com as letras que eram censuradas, e que você tinha que ir lá na agência de censura para explicar, às vezes aceitavam, às vezes não, enfim era uma coisa muito pesada que era muito difícil de conviver. O que nós vamos vivendo hoje é uma situação ruim, diferente, mas ruim. Eu digo ruim pelo seguinte: eu acho uma instabilidade muito grande e não existe essa censura ostensiva, não existe, mas uma censura contra os artistas, de uma certa maneira. Porquê? Porque esse governo é de direita e acho que todos os artistas sempre foram de esquerda, então por isso existe uma antipatia quanto aos artistas. Na verdade, eu acho que isso é uma grande besteira, porque afinal de contas, tudo bem, você tem que respeitar sempre quem venceu, lógico, existe uma votação e uma pessoa ganha com a maioria, você tem de aceitar e saber que durante quatro anos provavelmente esse governo estará mandando no Brasil e depende do que ele vai fazer com isso, se vai haver uma conciliação… mas não tem jeito, você tem que esperar quatro anos, e se você quiser, fazer a sua posição da forma certa. O único problema de hoje que eu vejo muito acontecendo é a instabilidade, porque todo dia tem uma tensão, não existe uma calma, uma tranquilidade. Porque parece que é um governo que busca muito o conflito, eu não sei se é uma táctica, ou que é que é, e isso causa uma instabilidade muito grande. Sai um ministro hoje, amanhã sai outro, amanhã vem uma notícia que era uma coisa e há pouco era outra — a gente precisa de uma estabilidade. No momento, eu acho que o problema é diferente, obviamente, do daquela época, mas é um momento de instabilidade muito grande. Todo mundo ‘tá sem saber para onde o Brasil se ‘tá dirigindo.

A política teve influência no modo de conceber um álbum agora? Nos anos 70, o seu output artístico teve algum peso mais intervencionista, apesar de não guerrilheiro; na década seguinte, foi para algo mais suave e ritmado.

O Sempre acaba por ser uma mistura das duas coisas: tem o lado dançante e alegre como eu o vejo, eu sou muito optimista e positivista, mas ao mesmo tempo, ela tem censuras (“Olha Quem Está Chegando”, da corrupção). Esse disco, em termos de concepção, foi o seguinte também: pelo lado musical, Pedro, os últimos discos que eu tinham feito eram bem MPB — a gente mergulhou muito nos anos mais para trás, fiquei muito feliz com isso. Fiz um disco com a Stacey Kent, que é um disco com músicas minhas, onde a gente mergulha muito no jazz, junto com a música brasileira, é um disco acústico gravado ao vivo. Teve o disco com os Bossa Nova, com [João] Donato, [Roberto] Menescal e Carlos Lyra. Eram discos mais ligados ao lado mais melódico e harmónico da minha música, então eu estava pensando em fazer um disco — musicalmente, não politicamente — mais do lado do ritmo e por uma coincidência, a Far Out Recordings, para quem eu gravei esse disco, que é o Joe Davis [fundador da gravadora], ele estava me cobrando esse disco há muito tempo. “Vamos gravar outro disco”, que o último disco que eu tinha gravado para eles havia sido há 10 anos, com o Estática. Mas eu não podia gravar, porque eu estava envolvido com outros projectos. Quando chegou na hora que eu finalmente disse que faria, ele me falou “poxa, Marcos, eu pensei em trazer exactamente esse teu lado do ritmo, alegre” e eu falei para ele “então estamos pensando exactamente da mesma maneira”. E foi assim que a gente dirigiu musicalmente esse disco, porque foi uma ideia minha e dele. Além disso, como naquele disco Estática quem havia produzido o disco era o Daniel Maunick (filho do Bluey, do Incógnito) e eu tinha tido uma experiência óptima com ele no estúdio. Foi ideia do Joe Davis nos juntar. É um cara que conhece profundamente minha música, é muito talentoso, tem ideias óptimas, tecnicamente ele conhece a mesa, mixing, sintetizadores, então ele tinha toda a gente com esse disco. Então, foram três pessoas em torno de uma mesma meta, um mesmo objectivo, o de fazer um disco que realmente tivesse grooves, esse lado do boogie que deu o “Estrelar”. Foi por aí que musicalmente pensámos na mesma ideia. Mas ao fazer as letras, porque eu falei, “vou fazer todas as letras”, aí eu comecei a falar nas coisas que eu sinto hoje. [E ao fazer isso], em toda a experiência que eu já vivi e do que estou a viver agora, como é que eu vejo o mundo hoje… Esse disco acabou por ganhar o lado dançante que a gente queria, mas com as letras eu trouxe o momento que eu estou vivendo: de amor, de positivismo, mas deu uma certa misturada nisso.

O Marcos voltou a ter para a gravação o Alex Malheiros.

É. O Alex é o meu grande amigo há muitos anos, ele e o [Roberto] Bertrami (que infelizmente já se foi) e o [Ivan Conti] “Mamão”, nós temos uma ligação imensa, né, você sabe disso, dos Azymuth, cujo nome vem de uma música minha. Existe todo um carinho, de admiração mútua, artística, existe um carinho muito grande entre nós, então temos feito shows juntos, no Japão, em Outubro novamente no Japão, no Brasil, na Europa fizemos uma tour maravilhosa. O Alex é um baixista fantástico, fantástico. Temos tido pessoal autêntico e que se casa extremamente bem com a minha música, esse lado da sonoridade, do ritmo. O Daniel [Maurick], ele adora o Alex também. Mais uma vez, foi uma ideia que veio junto: “Quem será o baixista?” Eu acho que poderia usar inclusive o baixista Alberto Continentino, que toca muito comigo, mas naquela sonoridade desse disco, a gente pensou exactamente em ter o Alex, que reúne as mesmas características que eu tenho da harmonia e do ritmo, e que tem uma vivência musical comigo há muitos anos. A presença dele foi absolutamente maravilhosa.

Ainda a falar desse registo sonoro do disco, aquilo que me parece mais aproximável é mesmo o disco do “Estrelar”, seja na versão modernizada do “Samba de Verão” ou do “Naturalmente”. Algo que me deixa muito curioso sobre isso, mesmo sobre o marketing do álbum que nos remete para essa altura, é que às vezes parece-me que falar em Marcos Valle traz sempre a memória do Marcos Valle da musculação, do “Estrelar”, a conduzir o descapotável. Alguma vez se sentiu saturado dessa imagem ou que o tentam cristalizar nessa imagem?

Entendo o que ‘cê fala. Eu acho o seguinte, Pedro, eu tenho uma maneira de ver também na vida o seguinte: as coisas acontecem como as coisas acontecem. Às vezes, você planeja algumas coisas que não acontecem, e às vezes tem umas outras coisas que você não tinha planejado que acontecem acabando por serem bem melhores. Então não dá muito para você dirigir ou reclamar do que vem. Logicamente, a minha música por ter atingido muitas gerações — afinal de contas eu estou aí há 55 anos de carreira — e logicamente durante esses anos todos a música vai atingindo gerações diferentes, culturas diferentes, e você vai vendo. Se a minha música fosse, digamos assim, uma coisa só, quer dizer, se tivesse um estilo só, seria mais fácil de todas as gerações terem todas a mesma ideia e você ser conhecida por aquele estilo. Não é o que acontece. A minha música, por ser variada, não só as gerações vão mudando, mas a minha música também vai acrescentando coisas, de vez em quando caminha para o lado, caminha para o outro e tal. Existe uma geração que me conheceu muito nos anos 80, foi uma época, como você falou, depois de vir de Los Angeles, e venho aqui e gravo dois discos: primeiro, a Vontade de Rever Você e de seguida o que contém a música “Estrelar”. Ora, existe uma geração que me conheceu naquele momento e foi muito marcado porque essa canção foi um sucesso muito grande, a letra falava daquele tema do cuidar do corpo para brilhar na praia, no final de semana e tal, cuidar da sua saúde. Foi muito forte. Essa música até hoje ela entra em filme e documentário, em montes de coisas, então se tornou muito longa. Existe um público que foi muito marcado por ela, agora a melhor coisa que eu vejo na minha carreira é o seguinte: alguém me conheceu pelo “Estrelar”, e através do “Estrelar”, vai acabar se interessando pelas outras coisas que eu fiz no passado, ou ‘tou fazendo no presente. Pessoas que me conheceram no disco da cama, que você fala, depois foram ouvir outras coisas. São pessoas que te conhecem atraídas por certo disco, canção ou época, mas acabam tendo conhecimento das outras. A pouco e a pouco, seja atraída pelo “Estrelar”, pelo disco da cama, seja pelo LP Sempre, essas pessoas acabam tendo uma noção do geral, principalmente, e agora a Internet permite muito isso, que você se comunique muito e tome conhecimento. Eu acho isso interessante. Eu não me importo ser, é engraçado ler essas coisas — “The Boy from Ipanema”, aquele negócio da Estrela da Saúde, é engraçado, porque eu sei que a minha música é muito mais ampla do que isso.

Exacto.

Mas eu entendo o que você tá dizendo. Existe uma geração que foi marcada por aquilo ali, em algum momento ou época de Brasil. Mas eu acho que é assim mesmo, e cabe a mim continuar fazendo coisas e cada vez atraindo [mais]. Acho que a música é muito sedução: você gosta da minha música, o que é que eu tenho de fazer com você? Seduzir você com a minha música. Essa sedução é com o que eu vou fazer, com o que eu estou fazendo, e procurar trazer um show, por exemplo como eu vou fazer, com músicas de imensas eras: “isso aí que ‘cê gosta, eu fiz dessa época, mas desse foi dessa aí…” e com o meu trabalho eu vou dando às pessoas uma noção maior do geral, de tudo o que eu fiz. É dessa maneira que vejo.

Acho isso perfeito, porque todo o tempo que eu estive a processar e a descobrir a sua discografia, acho que não é possível compactar aquilo que o Marcos fez ao longo das décadas. E não é possível caricaturar o seu trabalho, porque de um ano para um ano, de um álbum para o outro, mesmo de uma faixa para faixa, ou de lado A para o B, há sempre uma mudança constante, uma volatilidade de sons e de sentimentos e ritmos. É dessa forma que eu vejo e que o Marcos deveria sempre ser pensado. Mas, de facto, a questão vem-me à cabeça: se a preocupação de ter medo de ser cristalizado ou caricaturado num só momento existia. E tornaria curioso fazer um álbum que pende exactamente para esse momento do boogie, aquela reminiscência do “Estrelar” que teve bastante longevidade e da qual este álbum novo não está longe.

Entendi o que você falou. Aí, você vê o seguinte: existe, nesse disco, essa mistura e é lógica a presença do “Estrelar” — a coisa do groove — nesse disco. Mostra como eu gosto, na verdade… Eu sou grato a essa música. Eu sou muito grato às músicas que eu fiz — “Samba de Verão”, “Estrelar”, “Os Grilos” —, foram músicas que afinal de contas percorreram o mundo. Com “Estrelar”, eu gosto muito do ritmo dela, do groove. Ao revisitar esse aspecto da minha música, com esse disco Sempre, ela vai ali mas a letra já vai para o outro lado, é como utilizar aquela parte musicalmente mas as letras já visitam o que eu vivo agora. Em primeiro lugar, sabe, Pedro, também tem essa coisa que eu te falei: eu nunca reclamo, acho que tudo que ‘cê faz na vida, seja na vida pessoal ou trabalho, é uma consequência do que você mesmo criou, então você tem um caminho que vai seguindo. O “Estrelar” entra ali numa hora que é importante. Se de repente ela pode significar isso para algumas pessoas (“Então, mas essa é a música dele”), tudo bem, eu entendo, não reclamo. E tanto não reclamo que eu trago elementos desse “Estrelar” — que é uma mistura rítmica de samba com paião com funk. As pessoas perguntam “Mas que ritmo é esse?” Eu digo, “Não sei!” [risos] Eu não tenho nome, é uma mistura. O “Estrelar” é isso, é uma mistura de ritmos na minha cabeça, e esse disco novo também tem isso. Mas às vezes que eu caminho para outro momento, então eu não me preocupo com isso não. Eu deixo a vida seguir.

Gostei dessa parte de não saber designar bem, ou enfiar numa caixa, o que era aquele ritmo ou som — não sente ainda alguma influência da relação profissional que teve com o Leon Ware?

Não tenho dúvidas, tanto que o “Estrelar” é uma parceria minha com o Leon, você sabe disso, quando eu morei em Los Angeles de 1975 a 1980. Como eu já falei pra você, já tinha essa influência muito grande quando era garoto, entre outras coisas que eu gostava, estava a black music — o Marvin Gaye e tal. O Ware era parceiro da maioria daquelas músicas que eu ouvia e gostava do Gaye, sem eu saber. Quando eu tive a oportunidade de conhecer o Leon — porque eu estava em Los Angeles a gravar com a Sarah Vaughan, e aí eu me lembro que Chicago tinha gravado uma música minha, e eu tinha feito uma música chamada “Love Is a Simple Thing”, e a letra do Robert Lamm, um dos criadores do grupo Chicago — eu fiz um demo assim caseiro e foi parar às mãos do Leon Ware, que eu não conhecia. Adorou a música, fez uma gravação, e me chamou para ir no estúdio; disse que me queria muito conhecer. Quando eu ouvi o Ware, e eu ouvi a gravação dele num disco chamado Inside is Love, eu adorei a gravação: que maravilha de gravação. A partir dali, a gente teve que compor juntos, temos que virar parceiros. Passámos a fazer uma série de músicas, incluindo a Rockin You Eternal, uma das músicas mais fortes dele. Ali existe uma mistura do soul, do blues, do samba, da bossa, da coisa do Brasil que no fundo tem as mesmas raízes negras, né? A minha música tem muita influência negra no ritmo, e a gente ali estabeleceu uma parceria perfeita — para nós, como funcionava aquilo. Aquela influência toda do Leon Ware e da black music cresceu, fizemos um monte de coisas, e o “Estrelar” foi das últimas músicas que fiz com o Leon, e estourou. Ele chegou a fazer uma letra em inglês, [mas não houve tempo]. Foi um sucesso muito grande no Brasil que eu tive, mas também com a parceria do meu querido Leon Ware, que infelizmente se foi embora há uns bons anos.

No artigo da Wax Poetics sobre a sua relação com o Leon Ware, ou até na “Black Is Beautiful”, a sua posição sempre me pareceu à frente do seu tempo: reconhecer que todas as raízes eram negras, reconhecer a história e a sua influência na música.

Eu sempre tive essa noção, é uma mistura. Uma coisa é você saber racionalmente e outra é sentir — eu sempre senti essa coisa da música negra muito cedo, por exemplo, vou-te falar uma coisa: na época do rock, o cara que me interessava mesmo era o Little Richard, ele tocava aquele piano, tão fantástico, tem um nervoso, muitas vezes [também presente] no piano que eu toco ritmicamente. Então, eu sempre tive essa noção cultural, não só cultural, de saber das raízes, mas eu sentia dentro de mim — não só o ritmo, a melodia também, mas aquela coisa que mexe com o corpo, que faz com que os negros balancem, mesmo cantando na igreja, sempre me marcou muito. Quando eu faço a “Black Is Beautiful”, já soma a questão do preconceito que a gente queria botar abaixo, do negro assumindo as suas características. Eu estava em Los Angeles na época, o meu irmão me tinha ido a visitar, e a gente presenciou nas ruas exactamente esse movimento, a gente emocionalmente se tocou profundamente com aquilo, e eu resolvi fazer aquela melodia que no fundo começa com o blues, e acabou se tornando um sucesso. São coisas somadas: culturalmente, a coisa do preconceito que eu sou completamente contrário; e o sentimento interno de ter um relacionamento total com a música negra — ela realmente me fala a minha emoção.

Anos depois, houve toda aquela situação do Jay-Z e do Kanye West. Como foi isso?

Exacto, exactamente, isso foi muito interessante. Eu não conhecia o nome Jay-Z, e me lembro que os meus filhos eram pequenos naquela época, de repente recebi um telefonema no celular, que uma música minha tinha sido gravada por um artista norte-americano e tal. Eu estava jogando ténis, tal, tal, não sei quê e Jay-Z — aí quando eu falei Jay-Z alto, os meus filhos falaram “pai, você tá falando de quem?” Eu falei “Jay-Z gravou uma música minha”. “Pai, você tem que ouvir!” Eu fui para a editora e realmente aí eu ouvi a gravação do Jay-Z com a produção do Kanye West e adorei, principalmente que eles pegaram no meu fonograma do “Ele e Ela” e criaram todo o trabalho deles. De seguida, o Kanye West pegou noutra música minha chamada “Bodas de Sangue” e fez a mesma coisa. Eu acho isso, mais uma vez, extremamente interessante, por dois lados: primeiro, pelas novas parcerias e combinações musicais, aqui você não espera, como eu te falei, você não planeja, mas as coisas chegam e são óptimas. Quer dizer, o que foi Jay-Z ou Kanye West pegar no disco lá de 1970, pegar numa música que não é das mais conhecidas no Brasil, e o West pegar outra…? Eu não sei te dizer, mas eu acho óptimo. Você pega um outro público, os [ouvintes] do Jay-Z e do Kanye West, eles vão querer saber quem foi que fez essa música e foi sampleada por eles. Você vai juntando várias coisas, vai-se actualizando e vendo a tua música caminhar por outras gerações. Eu adorei, viu, Pedro? Todas essas coisas novas, parcerias inusitadas, me trazem só alegria, pode ter a certeza.

É fascinante ouvir o resultado, e como ele transformou aquele compasso do 6/8…

Exactamente! É incrível o que ele fez, ele mantém a base que é um 6/8 e ele põe um 2/4, é incrível, exactamente. Eu adorei aquilo, não sei como ele criou aquilo, mas manteve o 2/4 para swingar mais, para poder fazer o rap dele, ele é muito interessante, né?

É mesmo fantástico. Também é uma daquelas histórias que surgem espontaneamente. Imagino que tenha vindo também quando teve de revisitar todos os álbuns quando, em 2011, houve o trabalho de compilação e remasterização para reeditar os álbuns de 1963 a 1973 na caixa Valle Tudo.

É verdade, ela aconteceu na mesma época.

Numa entrevista ao canal de YouTube Alta Fidelidade, quando discutiu os álbuns individualmente, mencionou o momento de chegar a casa com a primeira tiragem da caixa. Como foi o momento de ouvir tudo de novo?

É o melhor momento. Quando você acabou de gravar um disco, durante algum tempo, você fica totalmente envolvido num fogo crítico, porque você fica ouvindo, e até à mixagem final, você ‘tá ouvindo, e pensa ‘podia botar aquilo, ter colocado aquilo’, você fica meio crítico em relação à história. Mas depois você se distancia…

[chamada interrompida… uma hora depois]

Alô, Marcos?

Sim, Pedro? ‘Tá me ouvindo? O meu telefone deu um problema naquela hora e eu não conseguia mais atender telefonema nenhuma depois disso, por isso que não consegui falar mais com você.

Tudo bem, até vim para um sítio com mais sol a bater. Isto foi há algum tempo… penso que estávamos a falar da box, da caixa com os álbuns todos.

Ah, sim, sim. Eu estava falando ali o seguinte: uma das melhores coisas é quando você ouve o teu disco, é como se já não fosse seu, você sabe que já não pode mexer mais nele, porque já está pronto. Eu hoje olho muito assim dessa maneira, eu acho que cada disco, ele é feito não só com a sua visão musical do momento como também a sua visão de vida, você ‘tá com uma certa idade, você ‘tá vivendo uma situação política diferente, numa casa diferente — cada coisa é uma coisa. Eu não ouvia esses discos antigos há bastante tempo; quando eu fiz a caixa, que foi um processo demorado, nós passámos — para falar a verdade, dois anos montando isso com o Charles Gavin, e ele é muito minucioso e detalhista. A gente queria achar a sonoridade certa, você tinha que fazer remasterização e essas coisas todas, e saber se tinha algum trabalho inédito por lançar. Quando finalmente me foi entregue a primeira caixa pronta, aí eu digo “bom, agora eu vou ouvir isso aqui despreocupadamente”. Aí, tomei meu vinhozinho, abri minha garrafa de vinho, e fui entrando pela madrugada escutando disco por disco, e graças a Deus, fui gostando de cada disco — “é muito bom, é muito bom”. Eu satisfeito com cada momento e sonoridade, cada arranjo, cada música, aquilo foi muito importante, porque eu estava a ouvir uma coisa pronta, feita. Quando tudo acabou, fui dormir extremamente feliz, “que bom, graças a Deus gostei da caixa inteira”. Foi um dos melhores momentos para ouvir de novo a minha obra.

Essa caixa foi editada em 2011, um ano depois do Estática, o brilhante disco que precede o Sempre. Lá para a segunda parte, constam três quase-interlúdios, instrumentais com títulos separados por décadas: “1995”, “1985” e “1975”.

O Estática, a ideia que eu tinha era fazer um disco bem rico em harmonia e composição, não exactamente de ser rebuscado, mas de ser rico, ritmado, que tivesse características de alguns discos diferentes meus, mas alguma coisa do disco Viola Enluarada com a música “Tião Braço Forte”, eu queria buscar assim. E essa coisa do 75-85-95, em que cada pedaço de música simboliza uma época, é exactamente porque todas essas épocas para mim foram importantes. ’75 foi uma época tão importante que eu tinha feito tantos discos nos anos 70, e quando eu saio no Brasil e resolvi ir para os EUA lá por causa da censura. 85 já ‘tá falando da minha volta, depois de eu ter gravado Vontade de Rever Você e [o disco do] “Estrelar”, e passo a ter uma nova geração também me conhecendo. Em ’95, também muito importante, começo a gravar novamente discos para esse público, para a gravadora Far Out, é quando eu gravo o meu primeiro disco [para eles]: é onde consolido essa geração nova que eu comecei a ter na Europa. Por isso eu botei esses nomes, porque de maneiras diferentes, foram [anos] muito importantes na minha carreira.

E tudo conflui no novo Sempre. Se tivesse escolher um momento particular de cada década simbolizada por esse 75-85-95, o que é que guarda de cada ano?

Em ’75, por exemplo… fica até um pouco difícil escolher algum disco ou momento, todos eles, o disco da cama — o Previsão do Tempo me agrada muito, porque ele reúne o meu balanço musical, instrumental, os grooves ao lado político, porque era uma época difícil. Aquele disco é muito especial de mim, e sei que tem um público jovem agora muito grande, é um dos preferidos.

Totalmente, e tem edições em vinil muito procuradas.

Exactamente. Então em ’75, para pegar uma coisa boa, eu pego muito esse Previsão do Tempo, e quem gravou comigo, que é a minha banda Azymuth, ainda tenho a ligação com eles. De ’85, da década de 80, pessoalmente eu gosto muito de ’81, do disco Vontade de Rever Você, porque estou voltando dos EUA e gravo aquele primeiro disco — e inclusive duas faixas com o grupo Chicago e a participação do Leon Ware, aí eu depois coloquei Sivuka, Laudir de Oliveira, Airto Moreira… enfim, é uma mistura desde músicos que eu coloquei e muitas parcerias novas com Ware. Em ’81, foi muito importante eu ter gravado aquele disco na volta, realmente com uma vontade de rever você — o Rio, o Brasil, outra vez, muita saudade. Logicamente, depois chega o “Estrelar” em 1983, um sucesso que fortalece. Mas eu destaco muito essa chegada em ’81. Na década de 90, gravo para a Far Out aquele disco Nova Bossa Nova, é um momento que eu vejo aquele novo público de DJs e da Europa já gostando muito da minha música, já comprando meus discos antigos e de repente eu vou e gravo um disco novo, que tem uma óptima repercussão. Nos anos 90, eu destacaria o Nova Bossa Nova.

É muito ilustrativo, porque esse primeiro disco com a Far Out encaminha-o para um lado quase mais vanguardista, mais no sentido da Previsão do Tempo, dos anos 70, e que agora balança com o Sempre. Outra coisa muito interessante é que quando grava um disco novo, o que é notável quando se mergulha na discografia inteira, há canções que surgem num álbum (pode ser, por exemplo, a “Samba de Verão”) e que no álbum a seguir ou daqui a três surge de faixa completamente regenerada, modernizada, com nova instrumentação. Esses clássicos não morrem, ganham uma roupagem nova, que podia ser uma coisa só de performance — o público quer ouvir os clássicos, mas o Marcos dá-lhes também uma vida nova nos discos.

Eu tenho essa vontade, por isso que eu faço isso: você pega, por exemplo, a “Samba de Verão” ou “Os Grilos” — as músicas são gravadas e regravadas, e aí tem várias versões, várias leituras diferentes que me chegam, desde a mais jazzística à mais pop e mais diferentes, e eu fico muito fascinado por essas interpretações, porque eu vejo como que as pessoas pegam a música e colocam uma coisa pessoal. Eu, ao ver isso, também tenho vontade de mexer nelas — “Samba de Verão”, por exemplo, eu já gravei várias vezes; cada vez que eu gravo, é de forma realmente diferente, porque eu gosto muito [dessa música], mas gosto de mexer e brincar com ele. Os meus músicos, a minha banda, eles já brincam comigo: “Marcos, eu acho que você já fez uns 200 arranjos diferentes de ‘Samba de Verão’, qual vai ser o de hoje?” Eu gosto de ouvir as versões que as outras pessoas fazem, como eu gosto de mexer com elas, e isso me dá muito prazer estar tocando. Ainda tem isso, quer dizer, eu vou tocar diferente, eu não quero mexer muito com as características originais mas eu mexo, então isso me dá uma coisa prazerosa de regravar, mas de uma maneira diferente, uma outra visão, com outro olhar, um olhar diferente.

E é esse parte do nexo desta digressão, que vai parar em Lisboa?

Ah, sim, não tenha dúvida nenhuma. Eu vou trazer várias músicas mais… vai ter umas novidades. Logicamente, existe uma parte que eu chamo a “alma” da música — afinal de contas, a música é aquilo —, mas dentro disso você pode mexer com ela. Pode ter a certeza que nessa apresentação que eu vou fazer, tem muito essa visão de hoje, de ontem, especialmente de hoje, dos arranjos, não tenha dúvida.

Daqui a uns anos, quem sabe as músicas do Sempre já poderão a ter outra roupagem, a “Olha Quem Está Chegando” estará a ter uma versão jazz. É muito bom esse dinamismo.

Não tenha dúvida, olha, vou ter de falar uma coisa engraçada, Pedro — sobre uma música no disco, o instrumental “Odisseia”. Eu estava na Europa agora fazendo uma turnê com os meus músicos, e num dos lugares que eu toquei, em Londres, tinha um piano dentro do camarim. Eram duas apresentações, e entre uma e outra, a gente ficava descansando durante uns 30 ou 40 minutos. Eu fui para o piano e comecei a tocar a “Odisseia” de uma outra maneira, bem jazzística; os músicos adoraram — “Rapaz! Tem de fazer uma gravação assim também”. Já li eu tocando uma música nova pela primeira vez, mas eu já no camarim já estava inventando alguma coisa diferente, então é sempre assim. Você vai embora, vai criando.

Vai continuar a recriar — quais as diferenças entre o concerto no Estúdio Time Out e o outro no Espinho, com a orquestra de jazz.

Isso vai ser muito legal. É uma outra experiência maravilhosa que eu quero ter. Eu tive, entre outros, assim: toquei com a Orquestra Sinfónica de Moscovo algumas vezes, aí era outra coisa, outra ambientação e sonoridade; toquei com a Orquestra de Copenhaga de Jazz — foi outra sonoridade e sempre muito estimulante, porque tem sempre que se arriscar um pouco; não arriscar pensando que vai dar errado, não! Tem de sair da zona de conforto. Agora, essa Orquestra de Espinho, também de jazz, que eu não conheço, e lá vamos nós fazer outra coisa. É tudo muito bom, fico muito ansioso, no bom sentido para essas coisas.

O convite surgiu da orquestra?

A orquestra procurou o meu empresário, sabendo que eu estaria novamente voltando para a Europa, então eles fizeram esse contato com ele, me mostrou esse projeto e eu achei muito interessante — desculpa o som da minha cachorrinha latindo. Aí, eu resolvi fazer, já tenho os arranjos preparados, principalmente para esta apresentação com a Orquestra de Espinho.

Isso é óptimo, evidencia que o seu repertório está sempre a ser estudado. Gostava de perguntar qual o impacto mais material, mais visível que o poderá fazer ou continuar a ser lembrado?

Eu vou falar uma coisa para você: as pessoas me cobram um livro, um filme sobre a minha vida. Eu não quis fazer isso até agora pelo seguinte: eu ainda tenho muita coisa para fazer. Eu sou optimista, eu estou bem de saúde, minha cabeça está extremamente com ideias, o tempo inteiro. Então, eu prefiro esperar, porque eu não quero contar a minha história — não está contada, vai ser contada depois. Acho que serei lembrado por tudo o que eu fiz, e foram não sei quantos anos de carreira, eu acho que será isso: somando tudo, não vai ser apenas uma coisa, isso ou aquilo — acho que vai ser o conjunto de obras — “puxa, Marcos Valle é isso tudo” —, lembrado pela abertura, mistura, pelo não-preconceito musical, pela versatilidade. Eu ficaria muito satisfeito se fosse lembrado por si.

E quem diz ser lembrado diz ser pensado agora: o Marcos ainda tem para fazer, gravar, viajar.

Eu penso assim. Enquanto eu tiver cheio de ideias, eu não posso parar de fazer música; o dia que eu não tiver mais ideias, eu digo “tudo bem, então acabou, esgotou”, mas não, é o tempo inteiro. Eu não posso parar e não posso falar de um livro ou de um filme agora, porque ainda faltam uns capítulos. [risos] Eu tenho de esperar!

Totalmente, e estamos aqui para ver, aplaudir, pensar.

Obrigado, Pedro, obrigado.

Obrigado nós por tudo. Se tivesse à sua frente o rapaz, o Marcos que fez o Samba “Demais”, como lhe descreveria este Sempre?

Eu acho que ele diria para mim: “Marcos, você realmente deixou todas suas influências aparecerem”. Eu vou-te dizer porquê: quando eu fiz o Samba “Demais”, que foi 1963, eu já vinha acumulando uma série de influências da minha música. Só que quando chega perto do Samba “Demais”, eu recebo o impacto da bossa nova, principalmente do primeiro disco do João Gilberto (onde canta com o seu violão e Tom Jobim toca o piano, e inclui músicas do Tom, do Carlos, do Menescal). Quando eu ouvi aquilo, foi um impacto, não tenha a menor dúvida — foi inclusive num momento em que aprendi a tocar violão, que eu não tocava, só sabia piano e acordeão. Ao ter aquele impacto da bossa nova, quando eu fui gravar esse primeiro álbum, o bossa nova tinha tirado o espaço para as restantes influências que eu tinha, mas que naquele momento ficaram guardadas por causa da força da bossa nova. Só que depois do Samba “Demais”, com o tempo passando e os outros discos, aí a bossa nova foi abrindo campo, deixando aparecer as outras coisas — continua como influência, mas eu abri o leque. O Marcos Valle de Samba “Demais” diria: “puxa, que legal, você deixou manter nesse disco aquele impacto, mas depois deixou aquelas coisas que você já sabia tanto, você deixou aparecer, até chegar nesse Sempre”. Ele aplaudiria, a dizer “que bom, você ‘tá mostrando exactamente quem você é, toda a tua personalidade, todo o teu estilo”.

Queria ser um pouco chato e tirar algumas curiosidades enquanto fã. Ando a ouvir o disco do “Estrelar”, por ser Verão, e há uma música lá que me intriga particularmente: nunca vi o Marcos falar dela…

Qual música?

“Tapetes, Guardanapos, Cetins”.

Ah, sim, sim, sim.

Gostava muito que me falasse um pouco dessa música, que eu acho fascinante mas penso não perceber totalmente.

Essa é uma música que ela tem uma crítica social, uma sátira em torno de um lugar que você entra, de uma riqueza muito grande — é a diferença de situações de ricos e pobres, e que o Brasil tem muito forte, até hoje. Seria uma pessoa que entra num local sumptuoso, que pode ser numa casa, e você vai ser recebido por alguém, conversar com alguém da casa, ou você é amigo de alguém, você chega lá a casa dele e tem uma situação social e financeira muito menor. Você segue esperando esse teu amigo para conversar, mas enquanto isso você vê todo esse aparato: tapetes, guardanapos, cetins. As pessoas estão jantando, até chegar ao ponto que termina aquilo tudo e o teu amigo vem para conversarem — é a primeira vez que você foi naquela casa e você detecta a grande diferença social que tem entre você e a outra pessoa. Por isso, eu canto numa voz engraçada. Quando eu fui gravar, eu queria dar um tom jocoso àquilo, como se fosse uma crónica, um filme — para acentuar isso, eu coloquei aquela voz, mas basicamente a música é isso, é mostrar uma diferença social entre dois amigos.

Não tinha pensado nessa situação entre amigos, mas isso é muito real. Outro aspecto que é muito interessante da sua discografia é a evolução gráfica de uma capa para a outra, e são artefactos sempre tão ilustrativos. Já se falou muito da capa do “álbum da cama”, mas há duas que eu gostava muito de revisitar: a da Garra, e a do álbum de 1983 — o contraste é engraçado, entre a primeira, que é algo heróico e epopeico, enquanto a segunda é casual, com os copos. E qual a diferença entre fazer uma capa nesses tempos e agora para o Sempre, que merece um retrato bem-parecido mas simples?

Essas capas dessa época da Odeon — hoje já é Sony, ou não sei mais o que é [risos] —, um dos produtores musicais era o Mariozinho Rocha. Sempre que chegava nas capas, a gente trocava ideias, porque o Mariozinho por saber que as minhas músicas eram muito diferentes e versáteis, e que o disco também mostravam essa diferença de um para o outro, ele achava que as capas tinham de trazer também esse impacto, não só serem capas normais, ou simplesmente uma foto minha, porque não traria o conteúdo, o que cada disco significava. Ele me trazia ideias. Quando ele me trouxe a ideia do Garra — por causa da música, que traz uma questão social, do cara que tanto pensa em dinheiro que não curte a vida, morre e fica por ali mesmo — : o agarrar a uma coisa, o poder que não é nada. Mariozinho disse: “vamos exagerar essa garra e botar um pássaro” e eu: “Será que não é demais?” “Não é demais, a sua música traz isso!” Tem muitas músicas que têm esse cunho social lá. Gostei de saber que causou muita surpresa — mas era a ideia: se os meus discos e músicas trazem surpresas, porque não a capa acompanhar isso graficamente? Por isso partimos para essa capa do Garra. Qual foi a outra que você falou?

Do álbum homónimo de 1983, com o “Estrelar”.

Ah, sim, essa capa já nasce de forma diferente, ouviu, Pedro? O disco estava todo gravado, menos a música “Estrelar”, porque eu tinha enviado a base instrumental do “Estrelar”, mas a letra não tinha sido feita. O disco já estava inteiramente pronto, tanto que o “Estrelar” não ia entrar porque não havia mais tempo de esperar pela letra, mas eu achava a música tão instrumentalmente forte que eu falei, “não, essa música não pode ficar de fora, tem de entrar no disco”. O produtor musical da gravadora disse que a letra teria de ser terminada agora, hoje, ou para o dia de amanhã, porque esse disco tinha de ter o lançamento. Eu fui para o estúdio de gravação com o meu irmão e começamos a ouvir a música alto mesmo, sentimos só a energia daquele groove que mescla o baião com o funk, que a gente começou a pensar no que a música estava pedindo: energia. De uma energia, foi um pulo para a gente falar do “tem que correr, tem que suar” — o exercício, o movimentar o corpo, o fazer tudo como se o brilhar ao sol fosse a grande coisa do mundo. Ao mesmo tempo que acabou alimentando as pessoas a se movimentarem, e jovens e velhos me agradeciam na rua, mas no fundo também era “a vida não é só isso, mas tudo bem, existe essa parte”. Aí, o que aconteceu, Pedro? Essa música quase sai o disco quando o produtor chamou outros directores musicais, que reconheceram ali um sucesso. Antes do LP, lançámos um compacto, com uma capa completamente diferente, ainda com o cabelo comprido e roupa de ginástica. Do outro lado, colocámos a “Fogo do Sol”, que deu origem à música do Tom Misch — adoro ele, ele sampleou numa música nova. Quando lançaram o compacto, a música estourou. Eles esperaram o vinil, e decidiram fazer uma capa, mudaram a capa do LP que ia ser uma fotografia minha normal, mas quando viram o sucesso da música, eles resolveram trazer para a capa do disco o clima do “Estrelar”, por isso que a capa tem sucos, que simbolizam saúde, sensibilidade—essa capa foi feita em função do sucesso que o “Estrelar” estava tendo como single. Já o disco novo é o seguinte: começámos pensar como é que vai ser a concepção dessa capa — existe essa parte mais natural, palmeiras, etc — mas esse disco vai para além disso, tem uma ousadia, caminha do lado das pistas de dança. Começamos a pensar como fazer isso, resolvemos juntar a ideia das palmeiras (bem típicas do clima tropical, que fazem parte da minha vida) com um toque de néon, a gente avermelhou as cores. Aí você tem as minhas origens, mas também a ousadia das mudanças — a ideia do Sempre, de crescer nisso, mas olha aí, eu estou aí partindo para outro: ousadia, seguindo em frente, é uma capa que é muito importante a meu ver, que as capas simbolizem o que você quis dizer com um disco. Para mim, eu gosto de quando a capa já te diga alguma coisa do que está lá dentro.

Exacto, é como a Previsão do Tempo: uma pessoa olha para a fachada e sente já algum ar de desconforto, afogamento.

A ideia do Previsão era mesmo isso: debaixo de água, desconforto, sabe lá se você se ‘tá afogando, sendo torturado. Já mexe com você desde o início, é como o trailer do filme que você vê antes.

Principalmente numa era em que as pessoas tinham de ser cativadas pelas cores e formas na capa do vinil, para serem convencidas: a capa interessa, é um móbil para comprar ou não.

O vinil tinha essa importância imensa pelo tamanho e aí você podia colocar detalhes não só da capa, mas informações na contracapa, os textos em que você falava pouco — era vital no vinil, que permite que a gente fale disso, logicamente já perdeu muito espaço no CD.

Ainda sobre o Tom Misch: a foto de perfil dele no Twitter é a capa do álbum do “Estrelar”.

Exactamente, é muito interessante. O Tom Misch, ele começou a botar no Facebook a minha foto, e aí eu comecei a fazer o contacto com ele, eu mandei alguma mensagem a algum momento e ele ficou tão feliz com isso — ele tinha sampleado “Samba de Verão”, e agora pegou a “Fogo de Sol” no “Angel”, com o Loyle Carner. Eu adorei essa gravação. Aí o que aconteceu? Quando fizemos o contacto, tivemos a ideia de ir para o estúdio. Eu fiz um show numa cidade na Suécia, ele veio de Londres para me encontrar, só que ele pensou que o show era no dia seguinte. Resultado: a gente ficou se comunicando para se conhecer naquele dia e o Tom acabou chegando atrasado, não me conseguiu ver e ficámos com uma pena muito grande. Acabou o show, olha só: eu vou para o hotel, já era tarde, e eu falei “poxa, mas eu ‘tou com fome, não queria dormir agora não”, aí eu e minha mulher decidimos ir sair com o pessoal da banda, fomos caminhando e não tinha nada aberto. O meu baterista disse que tinha um lugar de kebab, a 10 minutos do hotel, entrámos, e de repente quem entra pela porta?

Não é possível.

É incrível! [risos] Quando olhei o Tom, a gente se riu, você pode imaginar o abraço que a gente deu. Eu digo “não é possível, que coincidência” — ele tinha chegado tarde, foi para um outro hotel, estava com a mochila e também queria comer [risos] e não tinha nada para comer, e acabou indo para o mesmo local. Ali nós nos conhecemos no kebab, ficámos conversando, e ali nós combinamos que realmente em Agosto ele vem para o Brasil, vamos para um estúdio, eu vou fazer um jantar para ele com a minha família. Ou seja, juntou tudo de uma maneira totalmente inesperada — mais uma vez, aquilo que eu falo para você, o que você planeja não acontece, e o que não planeja acontece muito melhor. O Misch ficou tão feliz por saber que eu gostava muito da música dele — e ele é muito jovem, ele tem 23 anos — foi com essa idade que eu fiz o “Samba de Verão”. ‘Tá tudo certo, ele fazendo as coisas dele.

E isso abre tantas possibilidades de combinação. Tom Misch x Marcos Valle…

Exactamente, mais coisas pela frente, isso que eu digo para você. Outras coisas, o livro está aberto — não posso escrever livro agora não, tem muita coisa para acontecer.


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