O dia de ontem foi o culminar de um longo caminho. Dizemos isto porque “CHAMPAIN”, a faixa de CUÍCA que mais cedo viu a luz do dia, foi lançada no ano de 2023. Dizemo-lo, também, porque entre a faixa e a edição do disco existiram muitas horas de estúdio, muita tinta gasta, muito conteúdo audiovisual produzido e lançado… enfim, muito universo criado. Mas, acima de tudo, dizemo-lo porque CUÍCA começou a acontecer ao mesmo tempo que cresceu a menina na sua capa — é esta a história de MAR que o seu primeiro álbum carrega.
Na sua estreia no formato de longa-duração, a MC e cantora apresenta-se num registo autobiográfico e real, ao longo de 22 faixas que navegam entre géneros e correntes diferentes, sempre com a honestidade ao leme. Ao Rimas e Batidas, a artista de Monte Gordo abriu a escotilha ao processo criativo da obra, detalhando todo o processo que nos trouxe até ao registo que fica hoje disponível nas habituais plataformas de streaming.
Qual é o significado da palavra “cuíca”, que dá título a este disco?
Cuíca é o nome que é dado às mulheres de Monte Gordo, isto porque os habitantes de Monte Gordo são os cuícos. Não é aquele nome oficial, isso se calhar é tipo montegordense [risos], mas é assim que nos identificamos. É uma cena muito de nicho e muito regional. Muitas vezes perguntam-me se este nome está relacionado com o instrumento de percussão com o mesmo nome, mas é mesmo por ser uma mulher de Monte Gordo. É de lá a minha raiz, foi lá onde eu cresci e, por isso, decidi batizar assim este primeiro grande projeto.
E qual é a história por detrás da fotografia que serve de capa para o disco? Porque é que a escolheste?
Estive algum tempo sem saber o que iria ser a capa deste projeto. Entretanto, estava eu em estúdio quando, do nada, recebo uma mensagem da minha irmã com um par de fotos antigas minhas. Tinham-lhe sido enviadas por uma prima nossa e ya, lá no meio vinha esta foto. Nunca a tínhamos visto, não fazíamos ideia que existia. Foi automático: olhei para a foto e senti que a energia da foto, aquela “pausa”, aquilo sou eu [risos]. Mostrei logo à malta que estava comigo no estúdio e foi unânime: era mesmo esta a capa! Depois foi todo aquele processo de obter a foto com qualidade [risos]. Mas valeu a pena.
Como é que este aspeto tão pessoal da identidade do disco — tanto pela foto que dá vida à capa, como pelo próprio nome CUÍCA — se reflete na música do disco?
Tal como a foto e o nome são coisas muito pessoais e intimas, as canções também o são. Eu só escrevo sobre aquilo que eu vivo, aquilo que eu sinto, aquilo que eu observo e aquilo que eu penso. Só dessa maneira é que posso usar as minhas palavras com mais propriedade. Não sou artista de criar situações na minha cabeça, de cenários hipotéticos, ou de escrever algo que não seja mesmo meu. Acho que o consigo fazer, mas não é a maneira como crio. E este álbum, do início ao fim, é uma viagem por tudo aquilo que eu aprendi desde o princípio disto tudo até à última barra da última canção que escrevi.
Já cantaste em inglês e espanhol noutra fase da tua carreira. Que diferença é que faz, para ti, usar o português quando escreves? É mais fácil?
Isto é engraçado porque, há algum tempo, nem teria uma referência para te dar sobre como é escrever em português. Sempre me dei muito à escrita em inglês e em espanhol — também porque sou espanhola — e então quando pensei em escrever no meu idioma materno pensei mais no espanhol do que no português. Mas sempre foi um bichinho que tive e existiam, também, pessoas à minha volta que me incentivavam a escrever em português. Sendo sincera, sempre tive um bocado de receio por achar que o português era muito mais complexo e que escrever bem em português seria infinitamente mais difícil do que em qualquer idioma em que o tenha feito anteriormente. Agora que sinto que tenho controlo sob a minha caneta, percebo que escrever uma boa canção é algo universal. Ainda assim, acho que não é uma língua fácil e é relativamente fácil cairmos numa vulgaridade ou, por outro lado, entrarmos aqui por uma coisa excessivamente poética e que soa quase forçada. Mas olha, é giro porque sinto que descobri a minha verdadeira paixão. Nunca gostei tanto de escrever. Eu dantes considerava-me um Pokémon de flow [risos]. Eu chegava ao microfone and I flow, I flow, I flow. Sinto que voltei à minha criança porque, antes de fazer música e quando era mais pequena, eu escrevia poemas. Redescobri esse lado, redescobri o poema.
Valorizas a palavra, mas não é a tua única linguagem, porque também és produtora. Quando crias, o que é que costuma aparecer primeiro: a palavra ou a música?
Tanto o começar a escrever em português como o produzir foram cenas que aconteceram mais ou menos simultaneamente e que mudaram completamente a minha carreira. Consigo ser muito mais eu própria. E, acima de tudo, hoje em dia eu não escrevo à toa, não vou estar a escrever só porque sim; ou eu sinto que tenho algo para dizer, ou então não digo nada. Então, às vezes, acabo por produzir como expressão artística e não junto a palavra porque não tenho nada para dizer. Mas também me acontece o oposto e sentir que tenho algo de muito importante para dizer e, nesses caso, começo pela palavra. É relativo e depende do som, mas o facto de ter as ferramentas necessárias para fazer esses dois aspetos, dá-me essa liberdade de poder criar de qualquer uma das formas.
Este é um álbum que já está a ser criado há algum tempo, pelo menos desde 2023 e do lançamento da “CHAMPAIN“, faixa que saiu nesse ano e faz parte deste disco. Como foram este três anos de criação? Esta “demora”, chamemos-lhe assim, é intencional?
Quando escrevi as primeiras canções e tinha ali um grupo de músicas, a minha intenção era lançar um EP e chamar-lhe CUÍCA. Depois, no processo de criar isto, estava a produzir muito, estava a escrever muito e estava aqui num processo de aprendizagem e criação muito acelerado, o que levou a que surgissem muitas faixas que me pareciam ainda mais reais e que encaixavam neste conceito. Como também ja tinha as faixas e a ideia para o BADDIEFEST, Vol. 1, decidi lançar esse projeto e guardar o CUÍCA para torná-lo um álbum. Guardei duas canções — a “CHAMPAIN” e a “ENTRE NÓS” — lancei o BADDIEFEST e ao longo de todo esse tempo estive a criar e a trabalhar em nova música para este disco. ‘Tás a ver quando uma criança aprende a andar, começa a andar e entretanto ‘tá só a correr dum lado para o outro porque descobriu que pode? Era um bocado eu nesta altura. O disco é longo e vasto porque eu era uma criança a correr dum lado para o outro, sempre a escrever, a produzir e a trabalhar em nova música.
Como é, para ti, o processo de agarrar nessas faixas criadas em estúdio e perceber que podia ser o momento de transformá-las num disco coeso?
Eu já faço música há algum tempo, mas nunca cheguei a sentar-me e a fazer um álbum até agora. Essa linha condutora que transforma várias canções num disco, para mim, é fácil: é a verdade com que estou a criar. Este não é um álbum de mood, não é um álbum de um género, o meu conceito é a intimidade e a honestidade de todas as histórias que te estou a contar e que são minhas. Tive só que juntar todas as histórias e tudo aquilo que vivi e colocá-las no mesmo sítio. Claro que depois de teres todas as canções tu pensas no todo e tens um olhar global, há sempre canções que ficam de fora, mas isso faz parte. Dei-me só à sinceridade das coisas.
Um aspeto interessante é a lista de participações deste disco. Tens feats. do Agir, da Carolina Deslandes, Real GUNS, Kasha, SleepyThePrince e da Diana Lima. Como é que surgiram essas participações? Surgiram depois de já teres as faixas feitas, foram feitas à medida e já com o artista em mente?
Normalmente gosto de fazer uma cena orgânica e criar algo de raiz. As pessoas que estão neste disco, só estão lá porque fazem parte da minha vida criativa e são artistas que eu adoro e respeito. As músicas com a Carolina, com o Kasha e com o Sleepy, por exemplo, foram assim. Estávamos em estúdio e criámos de raiz. No caso do GUNS, eu já tinha o som e já sabia que lhe ia pedir para entrar. O Agir é uma cena gira. Estava aqui no estúdio, mostrei-lhe o som e ele pediu se podia meter ali uma cena. Eu disse que estava aberto [risos]. Mas, na verdade, já era a terceira pessoa que queria meter ali barras e, por isso, não prometi nada. Se ele “matasse”, era dele, e ele efetivamente matou a cena. A Diana é alguém que já conheço há imenso tempo e que é uma amiga. Aquele som eu sabia que estava a pedir pela Diana. É um mix, mas o que une esta lista é o facto de fazerem parte da minha vida e de os respeitar enquanto pessoas e artistas.
Musicalmente, os universos destes convidados têm interceção, mas acabam por ser um bocado diferentes em alguns casos. Como é que é trabalhar com artistas tão diferentes? Sendo tu também produtora, como é criar música que assente nos diferentes espectros?
Apesar de parecerem artistas de universos completamente opostos, há um fio que os une a todos que é, para mim, o facto de serem grandes poetas. Todos eles têm esse lado e essa preocupação com a escrita, todos contam as suas histórias e as suas realidades na sua música e é isso que os une não só entre eles, mas também comigo.
Ouvindo este disco, também percebemos que molhas o pé em águas muito diferentes. Quais são as tuas principais referências musicais?
Erykah Badu e Lauryn Hill são mulheres que eu respeito muito. São minhas tias mesmo (risos). Mas depois também tenho o meu tio Timbaland, por exemplo. Este álbum tem muitas cores, tem muitas histórias minhas e para eu tas poder contar todas tive de ser o mais eclética possível. Assim posso ir para qualquer lado, posso ser genre bending, posso-me expressar de uma maneira muito mais alargada.
Ao longo deste tempo de criação do álbum, também temos tido uma componente audiovisual muito forte com projetos como o MAR ADENTRO.
Ya, esse projeto tem o objetivo de mostrar mesmo o backstage da minha vida artística. Ficas a saber cenas que só saberias se fosses amigo do artista, ‘tás a ver? Gosto de dar essa oportunidade aos meus ouvintes, quis mesmo abrir essa cortina. Se tiverem paciência para me ouvir, eu tenho cenas para vos contar. Todos os episódios falam de singles deste álbum.
É um disco com uma componente visual bem vincada.
Até agora, todos os singles que saíram, têm videoclipe. Em conjunto com o lançamento do álbum, vão sair dois sons juntos com um visual que os une. Ainda vou fazer mais MAR ADENTRO, também. Gosto de usar esta componente vídeo para reforçar a narrativa do CUÍCA. E posso dizer que gostava de fazer um episódio especial com todas as pessoas que fizeram parte da criação deste universo vídeográfico. É muito importante para mim dar a conhecer ao mundo esta equipa de mulheres incríveis que trabalhou comigo para construir este processo visual.
Já falámos sobre o estúdio e sobre o vídeo, falta falar sobre o palco. O que é que tens planeado? Já há alguma data que possas adiantar para o concerto de apresentação?
Ainda não posso adiantar muita coisa. Sei que vou querer fazer coisas dedicadas ao álbum, mas são coisas que vão ter que ser organizadas agora. Tivemos uma listening party no dia 10, mas é tudo o que posso dizer para já. Estamos a trabalhar nisso! Tenho uma data que posso adiantar que é em Barcelona. Vou atuar na Sala Apollo lá, os bilhetes já estão disponíveis e podem comprar. Vai ser giro, não vou levar banda nenhuma, vai ser um one woman show. Vai ser algo que vou estar a preparar ao longo deste próximo mês.