Malibu Ken // Malibu Ken

[TEXTO] Moisés Regalado

Se metade de Malibu Ken é tabaco, Aesop Rock será uma das melhores strains já criadas. Nada contra as Girl Scout Cookies ou as versões frutadas de Kush que vão inundado o mercado, mas Aesop estará mais para os lados de uma Super Skunk ou Amnesia Haze, perfeitamente equilibradas entre os padrões clássicos e os apelos recentes de uma cultura que já não caminha para nova. Afinal, trata-se do homem dos Hail Mary Mallon que, ainda antes dos Run The Jewels de El-P, fez emergir um ícone do indie até ao mundo mais catchy — e sub-grave — da música.

Aqui há outro homem do leme (ou, pelo menos, das máquinas) e Tobacco foi mesmo o grabba de que os jamaicanos falam (ou a blunt que os norte-americanos tanto apreciam) e, depois de uma passagem pela Anticon entre 2008 e 2010, voltou finalmente aos radares da cena hip hop — e logo ao lado do senhor de Bazooka Tooth ou None Shall Pass. Talvez o hábito faça realmente o monge e talvez seja por isso que, por paradoxal que pareça, Aesop Rock chega aos dias de hoje como que vestido à civil, com os seus jeans e t-shirt da Levis.

Mas atenção: Ian Bavitz continua a pausar a batina de sempre — com o colarinho desalinhado e nem sempre engomada, é certo — e não há quem ensine a missa a este padre. Não há exactamente como saber se alguém esteve de facto “à frente do seu tempo” mas este é um daqueles militantes que, pelo menos, nunca cedeu ao conforto das vitórias presentes, pessoais ou colectivas. Mas há, em 2019, como soar a novo ou inventar a roda? Se há, a verdade é que a resposta não está em Malibu Ken — nem será esse o objectivo.

 



O disco que junta Aesop a Tobacco serve essencialmente para provar, como a esmagadora maioria dos discos de rap, que o histórico MC de Nova Iorque é hoje melhor rapper do que em 2016, data em que lançou The Impossible Kid — ou, vá lá, melhor rapper do que a maioria dos seus pares. E embora raramente haja quem lhe reserve um espacinho no seu top pessoal, não é complicado encontrar uns valentes pares de apontamentos que ilustrem semelhante génio.

Algumas das melhores coisas da vida, além de gratuitas, são milagres quase imperceptíveis, como a pausa com que Aesop Rock quebra o verso de “Sword Box” (“Pull a quarter out his ear in a recession/Pull a rabbit from a Stetson as a rapper/Though it’s basically the same exact profession”. Só ouvindo…). Mesmo nos momentos menos inspirados do produtor de serviço, como “Dog Years” ou “Acid King”, não há como evitar as pérolas que vão abundado em Malibu Ken:

“I wonder if some dude was sad because his cat had run away
And thought, ‘Maybe I’ll load these eagles up to feel connected’
Then got to watch his little Fluffy torn to pieces by the very nature
He had sought to ease him through his deep depression”

Ainda assim, ao terceiro álbum pela Rhymesayers, um nadinha menos indie do que a “sua” Definitive Jux, continua a parecer que Aesop Rock ainda não está realmente em casa. A força de um ciclone como era a extinta Def Jux, (ainda) mais forte do que a competência independente proposta pela Rhymesayers, parece ser o ingrediente em falta para que o amadurecimento de Aesop Rock avance triunfante pela história dentro. Mas o melhor da vida continua a ser quase imperceptível e, contando que “just another Tuesday” continua a ser, para Aesop, sinónimo de “mushroom growing in the car”, não há motivos para pedir mais ou melhor.

 


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