MAL ‘19: em Vendas Novas, o mal está em mim, em ti e em todos nós

[TEXTO] Miguel Alexandre [FOTOS] Direitos Reservados

Em “Woodstock”, Joni Mitchell falava sobre uma terra prometida a todos os filhos da música; um sítio onde se festejava as diferenças de cada um, mas também o sentimento de união e confraternidade. Cada pessoa tinha um lugar proposto e um trabalho específico. No final do dia, todos ajudavam, pois todos trabalhavam para o mesmo bem comum. Em 1970, este estado de mente era desenhado por uma geração que encarava a música como algo social e político. Os descendentes do “Summer of Love” uniam as diferentes manifestações de um exercício musical para o plano principal de uma linha de pensamento que ainda hoje deixa influências. Em Portugal, este processo foi moroso, difícil, e ainda está em desenvolvimento. Não há uma grande facção política nem uma agenda por detrás; por cá, o foco continua a ser o poder da música em unir as pessoas e trazê-las dos mais diversos pontos do país a um só sítio. Em Vendas Novas, sub-região do Alentejo Central, tal manifestação deu os primeiros passos. No dia 31 de Agosto, a edição deste ano do Música ao Lago, tal como as anteriores, é feita pela comunidade e para a comunidade. Aqui, todos dão uma mão de ajuda, quer seja para apertar as porcas ainda soltas, para montar a estrutura do recinto ou para simplesmente servir um copo de água a quem trabalha ao sol. Mas ainda há tempo: o dia começou há pouco e o ritmo passa lentamente. O cartaz é pequeno, o espaço também, mas o entusiasmo de todos os habitantes ouve-se bem alto, mesmo horas antes do início da festa.  

O festival entra na sua sexta edição, quarta com o nome MAL, ao abrigo de apoios e iniciativas do Teatro das Artes da região e do Município de Vendas Novas. Todos os anos, apresenta-se como uma boa opção para ouvir música entre os largos espaços verdes do Jardim Municipal e do lago que o circunda. A entrada é grátis – e assim se pretende que permaneça – e o cartaz dá a conhecer bandas que, segundo a organização, são das “mais alternativas” do cenário português.

Gonçalo Nunes, membro da organização e grande impulsionador do MAL, refere que este não é um evento para as massas, e não foi criado para receber uma grande mediatização: “Aqui a ideia não é tornarmo-nos populares, queremos é mostrar coisas novas à população, daí às vezes haver uma certa resistência por parte das pessoas. Existem projectos novos, e se não formos nós a trazê-los essa resistência acaba por ganhar”. Passa por um processo de educação, uma maneira de mostrar à população que a música não é só de um tipo, mas que se alarga por uma “palete de cores” ainda por descobrir. “Nós em Vendas Novas somos mais do que bifanas. E aqui queremos continuar com este tipo de projectos para que, no futuro, haja mais cultura”, diz Gonçalo.

A verdade é que basta uma olhadela rápida pelo cartaz deste ano para perceber que as escolhas são eclécticas e consistentes: Royal Bermuda, G-Combo, Cristovon Colombia, Brazil Dub, They Must Be Crazy e Scúru Fitchádu. O salto entre a pop Latina, o indie rock e o folk é presente ao longo dos diversos nomes, algo que é entusiasmante quer para quem vê da plateia com uma cerveja fria na mão, como para quem prefere beber em palco. Marcus Veiga não liga muito ao ambiente familiar e aprazível que o festival proporciona, pois está aqui com uma única missão: “Estamos aqui para dar porrada na hora que for e é o que é, as pessoas estão ali para aquilo. Scúru Fitchádu é porrada, não há hipóteses”. Já para Hugo Guerreiro, voz principal dos Cristovon Colombia, o MAL é sinónimo de festa em família: “Somos de Vendas Novas e todos os anos ajudamos a construir este festival. Para nós, este festival é bastante importante e tocar perante os nossos amigos e familiares é ainda mais especial”. E é esta variada forma que torna o MAL numa escapatória tão única. Há casais deitados na relva, crianças que brincam até às longas horas da noite, amigos que brindam e trocam mortalhas; bifanas e doçarias a serem fabricadas em tempo recorde, pais que apoiam os filhos nas bandas, insufláveis, um rio que separa o palco da relva: tudo isto era facilmente avistado numa festa de bairro, mas aqui a força de vontade de quem está por detrás do evento, a mixórdia musical dos vários artistas e a hospitalidade dos habitantes dão uma nova vida a Vendas Novas, tornando-a num pequeno oásis perdido entre as agitações turísticas e geográficas do distrito de Évora. 

Mas o festival tem ganho uma notoriedade crescente e como Beatriz Ferreira, também da organização, diz, as pessoas têm descoberto que algo mais se passa nesta terra: “há vida em Vendas Novas. Não digo isto por ser de onde sou, mas as pessoas têm descoberto o MAL e têm-se rendido àquilo que o torna tão especial. Não quero dizer que a adesão tem sido significativa, mas tem aumentado nestes últimos anos e nem que seja pelas bifanas ou pela música, há sempre algo que prende as pessoas a ficarem”. Neste caso, foi a combinação de vários factores: o bom tempo, a promessa de boa música portuguesa, a bifana barata, entre outros vários. O tempo aqui não avança com pressa e quem relaxa deitado na relva sabe-o melhor. Às 17 horas da tarde, ainda o jardim estava a ser preenchido, mas não faz mal: uma longa noite estava para vir. 

Por volta das 17h30, a primeira proposta sobe ao palco: Royal Bermuda. O duo de guitarra e guitarra composto André Parafina e Diogo Esparteiro traz o cânone da saudade lírica nacional, mas com um toque exótico — tal como se Rodrigo y Gabriela estivessem a fazer uma pausa e a tocar somente pela diversão. Revisitaram Paraíso Cafajeste, o primeiro EP editado este ano, e entre “Gagícã Dance” e a faixa-título, a festa foi deles. Houve tempo para conversas com o público, sair rapidamente para buscar uma cerveja, e de decidir, em último instante, qual seria a próxima música. Os ritmos fizeram o sol aguentar e ficou ainda para a banda seguinte: G-Combo.

Estes três amigos são uma mistura de culturas: Cuba, Colômbia, Brasil, Espanha; rumba, salsa, música latina e dub; o pequeno município rendeu-se aos ritmos cálidos da banda que assinou possivelmente o momento mais energético e desprevenido do festival. São uma verdadeira parede de som e o mais pequeno passo de dança é difícil de evitar. Com eles, a festa poderia durar horas. 



Se nos focarmos ainda na tradição Jamaicana dos anos 60 e 70, os Brazil Dub pegaram bem nesses ensinamentos e aplicaram a sua própria interpretação. Aqui já há solos de guitarras e percussões possantes. Vieram para apresentar os trabalhos mais recentes, como Pt.1 e o single “Débil”, e ainda levaram um bom número de pés descalços e cigarros na mão. Ao meu lado, um rapaz tenta puxar a namorada para se juntar àqueles perto do lago; ela fica tímida e relutantemente puxa-o para junto dela na toalha, mas ele facilmente a convence quando diz, “amor, não te lembras desta música? Lembras-te quando a dançámos? Anda comigo!”. Foi bonito de se ver, e desta maneira pares formavam-se rapidamente à beira da água, nem que fosse para molharem um pouco os pés. A partir daqui a música tornava-se como uma banda sonora para acompanhar as actividades dos espectadores. Havia tempo para estar na fila da frente a ver de forma atenta os concertos – claro; aliás, o próprio recinto proporcionava uma amplitude agradável para que se conseguisse ver de qualquer lado do Jardim. No entanto, havia quem preferisse estar deitado numa toalha a falar com os amigos, dançar com os filhos, tratar do jantar – por aqui, o relógio já batia as nove e meia e as várias barraquinhas de comida tinham muito que fazer.

O típico ambiente festivaleiro instalou-se mais com a actuação dos Cristovon Colombia. Afinal, eles são uma banda especial do MAL: naturais de Vendas Novas, todos os anos dão uma mãozinha na organização do festival. Hugo conhece bem os cantos da casa e para ele falar do Música Ao Lago é falar na primeira pessoa do plural: “Somos sempre muito acarinhados pelo pessoal. As nossas famílias também estão cá, é sempre uma óptima experiência. Estar no MAL é estar em casa e como se nunca saíssemos da nossa própria zona”. Todos os membros conhecem-se há pelo menos 15 anos e esta quase irmandade entre eles e entre os restantes amigos que ansiosamente esperavam pelo concerto que os tornou num ato divertido de assistir. É claro que enquanto banda – e performers, no geral – há ainda um crescimento a fazer, mas a energia contagiante que traziam não se ensina: de um indie rock escarafunchado, esta foi a actuação que trouxe os telemóveis bem alto. 

As onze da noite chegaram sem que ninguém desse conta. Por esta hora, já uma boa amostra dos festivaleiros se tinham ido embora, mas aqueles que ficaram efectivamente tinham intenções de chegar a casa só no dia seguinte. A esta altura, faltavam só duas bandas: They They Must Be Crazy e Scúru Fitchádu, os momentos mais experimentais da noite. Os primeiros chegaram ao palco bem compostos: um rasgo de afrobeat que se fez sentir bem forte e firme pela cidade. Eram mais de 12 músicos em cena, tocando e saltando de vários instrumentos musicais e produções vocais ao vivo, que nos remetiam para Terrakota ou até mesmo Tinariwen. Estamos a falar de um conjunto de músicos maioritariamente brancos que conduzem os ritmos de África de maneira respeitosa e fidedigna, misturando à superfície tons únicos de free jazz, adoço e samba. Como acontece habitualmente num evento que tenta relacionar a cultura local com quem a visita e com outros artistas que lhe acrescentam variedade, havia pessoas que estranharam ou nunca tinham sido expostas a este tipo de sonoridade. Não é que este factor seja um aspecto negativo, muito pelo contrário: com ajuda do álcool e do calor da noite, They Must Be Crazy foi marcado maioritariamente na água, já com as pessoas a despirem-se e a fumarem.

Contudo, a mentalidade “primeiro estranha-se, depois entranha-se” foi vivida ao rigor em Scúru Fitchádu. Já era pouco depois da uma da manhã e o parque contava já com menos pessoas. Marcus conta, horas antes de entrar em cena, que tem consciência de que a sua música não é a mais comercial, nem a mais aprazível ao ouvido. Mas para o vocalista, isso não é importante: “Penso que nos puseram no cartaz àquela hora por uma razão. Sabemos que o nosso estilo não é para famílias, por isso vamos ver como é que se cruza. Mas não tenho muitas pretensões sobre o que possa ser, é mesmo dar tudo”. A banda joga uma atitude punk e assertiva com compassos cabo-verdianos do funaná, mediados pelas técnicas do noise e da electrónica. O trabalho, quer o fora ou dentro do palco, é uma constante luta contra o mundo em geral, como contra as inquietações que pairam sobre cada membro do grupo. Desta vez, o mote foi o disco de estreia homónimo lançado há quase dois anos. Contou-se com “Lobus”, “Ravoluçan Ketu” e ainda espaço para “Ken Ki Frâ”. Aliás, houve espaço para tudo: num set justo para aqueles que, àquelas horas da noite – “as horas dos malditos”, como Marcus diz –, ainda se atreviam a movimentar o corpo. Scúru Fitchádu foi agressivo, foi pungente, foi veemente: foi tudo e mais alguma coisa para uma banda que parece tem potencial para ser ainda maior.

Ao falar de todas as actuações, chegaram as duas da manhã. Aqueles que decidiram ficar mostram-se ainda com energia de sobra, mas grande parte já está cansada, especialmente a organização. O festival dá-se como encerrado assim que o último parafuso estiver arrumado na respectiva caixa. E de modo que a população ajudou a preparar este dia, os mesmos ajudam a desmontar tudo. Já a fumar um cigarro, Gonçalo sorriu de satisfeito e responde-me: “isto é um cansaço, mas dá um gozo tremendo”. Dá facilmente para perceber ao que se está a referir e o mesmo sentimento é partilhado por quem está a varrer o chão e a desligar as lâmpadas. Há que fazer, mas amanhã é outro dia e com o aumento progressivo do MAL, agora mais vale marcar férias todos os anos para Vendas Novas.


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