pub

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 07/04/2026

Joaquim Albergaria, André Henriques, Ricardo Martins e Pedro Cobrado uniram esforços num disco que agitou o arranque de 2026.

Mães Solteiras: como ser punk, eis a questão

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 07/04/2026

O adjectivo “punk” é arremessado levianamente à mínima aproximação estética à sua sonoridade matriz, por vezes por falta de imaginação dos críticos, e noutras pela procura de street cred por parte dos músicos, não obstante carecerem de qualquer afinidade, e mesmo de anseio, pelo género.

Não é possível inscrever qualquer banda no cânone punk em 2026 sem repensar os limites do género, particularmente quando a margem do alternativo é terrivelmente curta perante o aglutinar de todos os fenómenos de resistência e posterior esvaziamento, pelo mercado, a quem Mães Solteiras dão um espirituoso baile (na sala de espera, eu vi um liberal a passar mal). Sobretudo quando o alternativo é cada vez menos a mera existência nesse reduzido espaço — nem anti, nem pré-mainstream, mas numa esfera onde os termos são decididos pelos activistas — e cada vez mais navegar elegantemente pelas contradições do meio com obrigatórios pontos de contacto com a tal mão invisível do mercado, numa carícia permanente.

As tendências mudam, mas a questão mantém-se ainda sem resposta, possivelmente como forma de permanecer relevante: pregar aos convertidos versus levar a procissão para outros voos e arriscar o rótulo de vendido.

Mães Solteiras surgem, pelo mesmo motivo, simultaneamente em vantagem e desvantagem quando o discurso ao seu redor é, não mitológico, mas meritocrático, apresentando-os como superbanda, ideia rejeitada por Joaquim Albergaria quando o questiono: “Superbanda parece-me um atalho simples para uma lista longa de trabalho feito por estes 4 músicos. Idos vão os tempos onde esse autocolante vendia mais CDs. Esta banda é super porque nos faz muito felizes tocar música juntos.” Será sem dúvida um atalho simples para estratégias de marketing datadas que a própria banda, de Joaquim Albergaria (Vicious 5, Paus, Bateu Matou), André Henriques (Linda Martini), Ricardo Martins (Pop Dell’Arte, Lobster, etc.) e Pedro Cobrado (Besta, Men Eater, If Lucy Fell) rejeita.

Este é o ponto mais interessante na narrativa de Mães Solteiras e constitui a sua força e o seu calcanhar de Aquiles. A primeira, graças ao estatuto de supergrupo, chegam com um longo CV, podendo puxar dos galões para evitar partir do mesmo sítio onde partiria um grupo de putos de 20 anos a tocar numa garagem, atalhando em direcção a uma base de público que acompanha a carreira dos músicos nas últimas duas décadas. A segunda, precisamente por não começarem do zero, fintam dificuldades de base como conseguir um palco ou uma editora — e neste contexto, supergrupo é um handicap num género tão avesso à hierarquização como o punk.

A ideia de supergrupo serve o trabalho dos meios de comunicação e também confere uma aceitação mais imediata junto do público menos familiarizado com o género que Mães Solteiras reclama como seu. Nos antípodas, a mesma ideia esbarra com vários anticorpos na comunidade punk onde o DIY é estandarte, conduzindo a uma encruzilhada estimulante, onde as várias expressões do punk entram em confronto consigo próprias.

Aí está a dificuldade do punk em aceitar a sua própria multiculturalidade e diferentes materializações, condição anexa à sua interpretação como manifestação artística ultrapassada de uma classe média branca e masculina. Esse conceito tem vindo a ser corrigido nos últimos anos, ao repensar a história do género com a inclusão de protagonistas como Death, banda dos anos 70 com elementos afroamericanos, e Alice Bag, mulher latina de LA nos anos 80, ou reclamando Los Saicos, banda peruana contemporânea de Sonics, como fundadores do punk, num alívio do seu carácter colonialista.

Esta releitura, e não reescrita, aliada a fenómenos que catapultam o género para outras esferas, como aconteceu com Refused ou At The Drive In no virar do século, tem ajudado a evitar a sua queda numa tendência monista, à mercê de um ideal de pureza inatingível, tanto autofágico como canibalizante, ao mesmo tempo que sofre, a espaços, consequências dessa abertura, obrigando-o a renovar-se a partir do interior, gesto claramente preferível à sua cristalização e canonização.

Mães Solteiras, cujo mérito começa de imediato no nome, suscitando dúvidas sobre se o artigo a ser empregue é “as” ou “os”, num gesto possivelmente calculado para romper as barreiras do género, podem ser encarados como os Turnstile, na medida em que carregam consigo a possibilidade e o estigma de ser uma porta de entrada do mainstream para géneros mais marginais, sejam o punk ou o hardcore, tal como os X-acto o foram em tempos no nosso país. Nessa lógica, é interessante e provavelmente optimista, ou até mesmo utópico, pensar nas infinitas possibilidades de conversão de uma percentagem do público para outros projectos na mesma linha, a habitar efectivamente as franjas do underground, sem qualquer promoção além da interna, como The Youths, Ideal Victim ou Nagasaki Sunrise.

Subscrevendo a tese supergrupo, The Youths teriam tanto direito ao adjectivo como Mães Solteiras, contando com os ex-membros Bruno Cardoso (aka Xinobi) ou Rui Mata (ex-Vicious 5), e com membros actuais como Nuno Sota, figura histórica do punk hardcore nacional e pioneiro do sxe da segunda vaga, ou João Vairinhos, ex-Day of the Dead desdobrado em inúmeros projectos de música independente. Também os Ideal Victim, na lista de melhores de 2025 para o site The Quietus, ou os Nagasaki Sunrise, com um split editado com a banda de culto Oi! Battlescars, deveriam receber igual atenção.

Mesmo atribuindo apenas o valor nominal a Mães Solteiras, além de um híbrido punk garage orelhudo em diálogo com linguagens menos óbvias, é inquestionável o mérito de trazer para a discussão, não só o lugar do punk em 2026, mas também temas socialmente emergentes, conferindo voz a uma geração para quem a música existe como ruído de fundo e chamando a si a qualidade politizada do punk com o extra mile do factor cool do indie, demitindo-se de ser mero exercício estético vazio, como quaisquer Offspring de pacotilha.

Resta pensar o lugar do punk, e de Mães Solteiras, na colectivização, característica definitiva e definidora, cujos círculos proporcionaram a sobrevivência de um género, conferindo-lhe mais corpo do que o estético, além e aquém dos ardis do mercado, onde as pontes devem destruir os altares, de forma estrondosa e estilosa.


pub

Últimos da categoria: Ensaios

RBTV

Últimos artigos