Madlib no mic: das cinzas também nascem rimas

[TEXTO] Moisés Regalado [FOTO] Scott Dukes

“I remember Ultramagnetic and Stetsasonic
Afrika Bambaataa and the Soul Sonic
MC Shy D, Public Enemy
Boogie Down, MC Shan, MC Ren”

Se um MC vive das suas influências, um produtor e DJ também nasce da terra que outros cultivaram. Numa das tantas versões que existem para a sua “Rappcats“, a homenagem a Bambaataa ou Public Enemy até pode parecer, de repente, própria do mais comum dos intérpretes, só que adjectivos como “transcendente” ou “genial”, tantas vezes utilizados como meros sinónimos de “excelente”, “muito bom” ou simplesmente “porreiro, pá”, aplicam-se MESMO a Madlib.

Alterar a voz com um efeito semelhante ao provocado pela inalação de hélio, como em Quasimoto, pode nem parecer suficiente, mas na verdade até é meio caminho andado. Com Madlib ao barulho, a erva ainda é um objecto de culto alheio à popularização da coisa (ou aceitação pública, vá, porque popular sempre foi) e os flows que saem à primeira ainda são melhores que os segundos ou terceiros takes. E costuma ser assim: depois de lhe encomendarem uma mixtape feita a partir dos catálogos das britânicas Trojan e Greensleeves, viradas para o reggae, dub e dancehall, e de se passarem meses sem que mexesse nas agulhas, bastou-lhe um par de directas no seu estúdio caseiro para acabar o que prometera. E, reza a lenda, assim nasceu Blunted in the Bomb Shelter.



Nos versos não costuma ser muito diferente. “Greenery” tem tudo aquilo que os ouvintes e fumadores mais curiosos realmente querem — novos sabores mas, já agora, novas mocas, enquanto “America’s Most Blunted” acaba por ser um dos poucos momentos de Madvillainy, ao lado de DOOM, com direito a rimas de Otis Jackson Jr.. O alter-ego que utiliza como rapper não tem assim tanto mais por onde explorar, mas alegrem-se os recém-chegados porque Quasimoto continua a ser um dos poços sem fundo mais entusiasmantes do rap contemporâneo (e não vale dormir no que Madlib já fez enquanto produtor!). Yessir Whatever, não sendo um álbum de culto, representa tudo o que Quasimoto trouxe para o tabuleiro do jogo, e que em 2013, ano de lançamento, fazia tanta falta ao movimento como em 2005.



Só que foi há mais ou menos 14 anos que saiu The Further Adventures of Lord Quas, peça imprescindível na colecção de qualquer apaixonado pelas diversas formas de ser do hip hop. Na altura, a Pitchfork deu-lhe um sete (o que para a época, e para a relação que a revista digital então mantinha com o rap, não terá sido nada mau), mas Adam Webb, da BBC, referiu-se a Quasimoto como “nothing more than a Mini-Me Eminem toking on Northern Lights”. Percebe-se a comparação, mas nem por isso faz sentido, mais que não seja porque não há maneira de comparar um MC sobredotado que nunca deu grande produtor, apesar do esforço, com um arquitecto das batidas de outro planeta que de vez em quando gosta de brincar às rimas, como Madlib.


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