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Texto: Paulo Pena

Este sábado, dia 26 de Setembro, o MC e o beatmaker apresentam o trabalho de originais no Centro Cultural Malaposta.

Lucy & Raze: “Fazer um álbum em conjunto foi a melhor aposta que fizemos”

Texto: Paulo Pena

Novo capítulo, novas histórias, o mesmo protagonista (com um novo parceiro). Aos 35 anos, Lucy abre o Capitulo Segundo da sua vida. Nessa jornada feita de encontros e desencontros, o rapper de Odivelas cruzou-se com Raze, o produtor das batidas com cafeína, que se propôs a amparar na íntegra o característico storytelling do MC. Ora nas rimas, ora nas batidas, a história ficou contada com todas as letras, todas as notas, todos os sons. Quase nada ficou por dizer.

Cada tema/episódio tem os seus encontros, as suas histórias, as suas vidas: a dupla fez-se acompanhar ainda por J Cap, Kinous, Mr. RazorRuze, Drunk Master, Scúru Fitchádu, Buts Mc, Black Bombayn, CambojaChapz e Lennox. Se Halloween cantava “ninguém ouve, irmão”, estas vozes fazem-se ouvir perpetuando o rap sem filtros, honesto e descomprometido. Do bairro para o mundo, a história continua a ser escrita. É importante continuar a lê-la (e ouvi-la).



Começando pelo início, como surgiu esta vossa parceria? Já tinham colaborado anteriormente?

[Raze] Eu já conhecia o trabalho do Lucy há muito, mas nunca tinha privado com ele. E acho que foi num concerto, em que o Halloween era o cabeça de cartaz, que o conheci e começámos a falar. É normal, eu sou produtor, ele é MC; há sempre aquela cena, e como há aquele respeito mútuo pelo trabalho um do outro… até nem foi propositado; começou por serem três ou quatro beats, porque nem era para ser um álbum no início, mas a cena começou a andar e formou-se o álbum muito rápido.

[Lucy] Eu já tinha ouvido as mixtapes do Raze, e ele tem aquele tipo de beat que tem mesmo a ver comigo; mantém sempre aquele formato old school, boom bap, de Nova Iorque e por aí… é o estilo de rap que um gajo faz. Esse concerto até foi em Leiria, no Texas Bar. Estávamos lá todos juntos, e eu já estava para lançar um álbum, mas a nossa ideia, no início, até era a de fazer um EP; fazermos uma cena de cinco ou seis beats e lançar no segundo semestre de 2020, que eventualmente acabou por sair, mas um álbum em vez de um EP. E pronto, estivemos ali a conversar, trocámos contactos, e, entretanto, ele mandou-me umas cenas. E eu comecei a ver que a cada beat que ele me mandava, eu tinha letra para aquilo. Vi que dava para trabalhar num álbum em conjunto, porque não havia beat que ele me enviasse que eu mandasse para trás. Na altura mandou-me oito ou nove beats, que eram para ficar cinco, e acabei por ficar com todos. São os beats do álbum.

Deu-te aquela fome para escrever em cima de todos esses beats

[Lucy] Sim, e uma das coisas que as pessoas têm estado a elogiar mais é mesmo a sonoridade dos beats. Por estarem bastante coesos com as letras, pela produção do Raze nesses beats e pelo meu estilo de cantar, com storytelling, faz com que isso funcione bem. Foi uma boa ideia, desde o momento em que percebemos que aquilo tinha pernas para ser algo melhor. Foi a melhor aposta que fizemos.

[Raze] E também houve aqui casos… eu nunca pensei que o Lucy fosse rimar em certos beats. Por exemplo, o “Quem Sou Eu”: há uns anos não imaginava o Lucy num beat jazzy, e ficou altamente.

Em relação à produção, Raze, tentaste encontrar um meio caminho entre os dois, ou já tinhas alguns instrumentais que achavas que podiam encaixar no Lucy?

[Raze] Sim, eu tinha alguns que já calculava que encaixavam, por exemplo a faixa com o J Cap. Há ali beats que são a cara do Lucy, como o “No Gang” ou o “100 Euros”, mas há outros que não, como é o caso do “Dois Mil e Vinte”; não estava a ver o Lucy nesse, e ficou um clássico.

[Lucy] E no meio disso tudo, os beats do Raze, de tanta sonoridade que eles têm, e o facto de eu ter vibrado imenso com eles, fez-me sair da minha zona de conforto, e escrever coisas que, se fosse num álbum produzido por várias pessoas, como os meus anteriores, não conseguiria escrever de uma forma mais pessoal, por me ter ligado tanto a estes, neste caso. Foi um desafio que correu muito bem, e que adorei, e o resultado é o que estamos a ver: considero que este ano não houve ainda nenhum álbum que esteja ao nível deste em termos de rap e lirismo. Mas foi necessário ele tirar-me daquela zona de conforto. E como o Raze estava a dizer, o “Dois Mil e Vinte” é um grande beat, eu escrevi por cima, mas não sabia até que ponto é que ia funcionar. Mas o resultado está à vista, tanto que esse som está na playlist Portugal Viral 50 do Spotify.

Foi uma boa aposta. Lucy, o que mudou do Capítulo I para o Capitulo Segundo?

[Lucy] No Capítulo I eu também mostrava uma parte de mim, mas uma parte que as pessoas conhecem da personagem Lucy, e não tanto eu, o Carlos Kangoma, que passou por isto e aquilo, que também tem os seus problemas ou situações mundanas que toda a gente passa, e que tem alguma coisa a dizer. Ou seja, foi uma transição de artista para pessoa, que cria empatia de forma a conhecerem-me de forma mais pessoal. E foi algo que aconteceu também fruto de uma introspecção na altura da quarentena. Nesse período, estava numa casa sozinho, e aqueles beats, da forma que os ouvia, levavam-me sempre a escrever coisas muito pessoais. E pronto, foi uma evolução e uma maturidade a nível de crescimento em termos de sonoridade, e acho que foi positivo; o resultado tem sido um feedback muito bom, e trabalhar com ele foi uma boa opção, como aliás já lhe disse, que havemos de trabalhar mais assim no futuro.

Relativamente a esse crescimento, e pegando na introdução do álbum, sentes que a vida que retratas na “Intro” fez de ti o tipo de rapper que és hoje em dia?

[Lucy] Sim, claro. Tanto que todos os títulos dos meus álbuns apontam para histórias da minha vida que são contadas na primeira pessoa. Situações que passei, situações que vi passar. E basicamente o que falei na “Intro” são coisas que aconteceram na minha vida, e que hoje em dia, sendo uma pessoa com 35 anos, muitas delas já não acontecem. Mas sim, nós parávamos no bairro, eu sou um gajo de bairro. Também tive uma série de situações menos boas: lidar com a polícia, confusões entre bairros, e coisas assim do género. E como tive um mentor, que é dos meus melhores amigos e que considero como um irmão, que foi o Allen [Halloween], quando percebi que havia a possibilidade de transmitirmos a nossa história através de música, foi nesse sentido que quis dar a conhecer às pessoas a minha vida e aquilo que eu passei nesse tempo, até agora.

Mas as coisas hoje em dia já não são como antigamente, e é óbvio que, de CD para CD, uma pessoa vai mostrando uma maturidade diferente. A transição em si foi o facto de neste álbum termos apostado numa produção única, mistura e masterização feitas pela mesma pessoa, em que o Raze pegou em tudo. Além disso, nota-se uma maturidade superior, porque já me senti mais à vontade para mostrar um lado mais pessoal e sensível. Nos outros álbuns notava-se mais aquela necessidade de mostrar um lado forte, mais “gangsta”, mais thug, mais cru, de bairro. Acredito que dos três trabalhos que tenho, este é o mais bem-conseguido de todos; é o melhor.

Sobre o Halloween, sentiste, de alguma forma, uma força extra para continuar depois da retirada dele?

[Lucy] Sim, claro. Sem sombra de dúvidas. Um músico como ele é um músico extraordinário; não deve existir mais nenhum como ele. De qualquer das formas, tomou a decisão dele, que como amigo apoio a 100%. É uma pessoa que deixou um grande contributo na música, e considero que tenha sido o meu mentor, ensinou-me muita coisa. Estivemos 10 anos na estrada, aprendi imenso, e ele sempre me aconselhou e foi dando umas luzes no caminho, ensinando-me como é que ele deve ser percorrido. Tanto eu, como o nosso grupo, não pensámos deixar o legado morrer, até porque ele não morre; a música é intemporal. Por isso senti que era a altura de dar o passo em frente, o step up, e fazer as coisas acontecer, para não deixar morrer o nosso estilo de rap. Ser a voz daqueles que não têm voz a nível musical. O facto de ele deixar já tudo encaminhado dá uma certa responsabilidade de tentar dar continuidade a uma coisa que foi feita por aquele que para mim é o melhor rapper português, não invalidando que hajam outros grandes rappers.

No “Quem Sou Eu”, aos vossos olhos, pode ser feito um paralelo com os vários tipos de rappers, na medida em que cada um tem as suas motivações para fazer música?

[Raze] Há uns anos era muito mais quadrado nesse aspecto. Eu respeito toda a música que se faz, e felizmente um gajo pode escolher o que vai ouvir. É a liberdade criativa: cada um faz o que quer. Acho que a faixa pode ser levada nesse caminho. O Lucy fê-la com outro sentido, mas sim, a questão é bem posta. Cada um no seu canto, não és obrigado a ouvir nada, e acho que o som também transmite um bocado isso, mas o Lucy é que pode responder a isso mais a fundo.

[Lucy] Sim, o que o Raze disse é basicamente a verdade. Na faixa “Quem Sou Eu”, quis fazer as pessoas verem como eu vejo as coisas do meu ponto de vista. Eu considero que a vida de uma pessoa é como se fosse uma maratona, onde cada um segue na sua pista, e normalmente quando olhamos para a pista do lado é que tropeçamos. A nível musical, para mim não existem barreiras ou sistemas impostos; cada um canta o que quer e da forma que consegue. Então, essa faixa entra logo a seguir à “Intro” para desmistificar a questão de que ninguém tem o direito de dizer às pessoas aquilo que vão fazer da vida; não posso obrigar ninguém a fazer ou ouvir o que seja. Mas posso dizer aquilo que, pela minha experiência, sei. Acho que as pessoas devem avaliar mais aquilo que são em si, e não seguirem tanto a pista dos outros.

Voltando ao “Dois Mil e Vinte”, este tema foi feito em que fase da quarentena? E em que espaço de tempo desenvolveram o disco?

[Lucy] O Raze mandou-me os beats em Dezembro, mas nessa altura estava em digressão (o meu último concerto até foi em Fevereiro). Já tinha começado a escrever algumas coisas, mas ainda não tinha nada em concreto. Depois, com o confinamento obrigatório, decidi pegar nisso mais a sério. E depois de dois ou três breakdowns, houve um dia em que acordei de ressaca, e nesse som retratei basicamente o que tinha acontecido nessa noite. A partir desse som a coisa começou a fluir rapidamente. Entretanto, a minha mãe faleceu em Dezembro, e esse era um dos tópicos que também queria abordar e, por isso, o álbum foi escrito em dois meses. Ainda falei com o Chapz, que mora ao pé de mim e que trabalha comigo, para me fazer a captação, que eu tinha o material em casa, mas deixo isso para quem percebe. Captei o álbum em quatro dias, os nove sons. Só a “Intro” é que demorou mais um bocado; enviei-a ao Raze em Agosto.

O instrumental da “Ajudas Do Estado” é divinal. Este é daqueles que foi feito em específico para o disco, ou foi uma ideia aproveitada?

[Raze] Isto é uma história engraçada; acontece sempre: os beats que eu menos gosto são os que o ouvinte vai gostar mais. Este beat tem 10 anos, acreditas?

Pois, exactamente. Quando ouvi o beat, pareceu-me logo o que menos encaixava aqui

[Raze] Este beat até foi feito com uma máquina que já não a tenho. Tem uma sonoridade diferente dos outros, exactamente; a máquina era outra. Isto é o estilo de beats que eu fazia há 10 anos. Tem um som mais analógico. E como o beat é mais antigo, se calhar é o que gosto menos do álbum, mas acho engraçado porque muita gente me fala dele; isto é sempre assim. Eu nunca deito um beat fora.

[Lucy] Esse som é dos que mais gosto do álbum.

Qual foi a faixa em que ambos ficaram mais satisfeitos com o resultado final?

[Raze] Começa tu, Lucy. Eu tenho várias…

[Lucy] É difícil dizer só uma faixa. Mas se tivesse de dizer só uma, aquela onde me senti mais satisfeito a escrever e gravar, é a “Dor”. É como se tivesse a dar o papo recto a alguém, um conselho a um young blood que está agora a aparecer, e que quer entrar numa cena que não é assim tão fixe para ele. Hoje em dia toda a gente quer ser alguma coisa; já ninguém quer ser o “João” ou o “Pedro”. Toda a gente bate mal, passa mal, toma más decisões, passa por situações que não devia passar, e é isso que nos faz crescer. Essa e o “Ilumina o Meu Caminho” são as faixas que têm mais de mim no álbum. Expus a minha vida toda na “Ilumina o Meu Caminho”, porque achei que era necessário fazer isso, não só para que as pessoas pudessem conhecer-me e ter uma maior empatia com o que eu passei na vida (porque por detrás das redes sociais, as coisas não são bem como parecem). No fim de contas, podemos ser músicos ou produtores, mas também temos uma vida muito real, também temos problemas. E, às vezes, as pessoas olham para os artistas como pessoas que não têm problemas.

[Raze] Sim, o beat da “Dor” é o que acho mais forte do álbum. A “Cidade Invisível” e a “100 Euros” são outras duas que eu gosto bastante.

Sei que vão tocar no Centro Cultural Malaposta, no próximo dia 26. Estão a planear uma actuação ao vivo a meias para este disco?

[Lucy] Sim, vamos ser nós os dois. O Raze vai ser o meu DJ. Melhor do que ninguém, ele é que conhece os beats que fez. Estamos a tentar ver se marcamos mais datas agora…

[Raze] Eu não me considero DJ. Às vezes passo som antes dos concertos, mas, para mim, um DJ tem de fazer scratch, e eu não faço. Mas acho importante um produtor estar atrás nos concertos. É uma parte que fizeste na produção; podes fazer várias sequências ao vivo. Quando são trabalhos deste género, em que se produz tudo, acho importante assumir esse papel.


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