Luca Argel editou O Homem Triste em finais de janeiro, um trabalho em que reflecte sobre as masculinidades que suportam — ou esmagam — o homem moderno. Este processo de análise do peso da masculinidade tradicional não é novo para o artista luso-brasileiro que ainda o ano passado editou Meigo Energúmeno – Notas Para Uma Leitura Antimachista de Vinicius de Moraes (Margem da Palavra), um livro que, aliás, o levou até ao programa O Papel da Música que o autor destas linhas assina na Antena 1. Nessa ocasião a conversa foi directa, cara a cara, franca e descontraída, uma análise sincera de Luca Argel da sua relação com um autor reverenciado. E, claro, aí se abordou igualmente o conteúdo do livro que resultou de uma dissertação académica e, indo mais além, o que significa para si ser homem neste mundo actual.
O Homem Triste, álbum que foi produzido por Moreno Veloso, é um projecto especial e complexo que — como Luca nos tem habituado desde pelo menos Samba de Guerrilha, trabalho que fisicamente também assumiu a forma de um jornal — cruza dimensões: é disco e é mapa, forma eleita pelo artista para cartografar afinal as diferentes “regiões” que compõem esse universo particular da masculinidade. Luca Argel, já há muito se percebeu, é um artista de muitas camadas, um pensador sério que coloca na sua arte e expressão muita reflexão e estudo, e este registo é talvez o mais elaborado que apresentou até hoje.
Argel tem vindo a tocar O Homem Triste ao vivo desde finais de janeiro, já tendo passado pela Covilhã, Amarante, Viseu e Matosinhos, e agora prepara-se para dois espectáculos especiais em que contará com a presença de Moreno Veloso em palco: já no dia 28 em Braga, no Theatro Circo, e no dia 2 de Março, em Lisboa, no Teatro Maria Matos, pretexto mais do que indicado para voltarmos à fala consigo.
Uma nota especial sobre as entrevistas: nesta década (e mais qualquer coisa…) de Rimas e Batidas, desenvolvemos por aqui um estilo muito particular de entrevistas, até porque acompanhamos o percurso e o crescimento de diferentes criativos ao longo do tempo. Nessas entrevistas adoptamos muitas vezes um registo muito conversacional — “estivemos à conversa com…”, costumamos escrever nas redes sociais, quando comunicamos o nosso trabalho à comunidade que nos segue. Por isso mesmo, preferimos quase sempre as conversas presenciais, descontraídas, sem limite de tempo. Mas tal nem sempre é possível. Na verdade, já raramente é possível, e por isso mesmo vamos usando as alternativas ao nosso dispor: videochamadas, sobretudo, mas também chamadas telefónicas ou email, quando necessário. Esta última opção de entrevista é usada, sobretudo, quando os artistas andam em digressão e compatibilizar agendas — algo por vezes dificultado por diferentes fusos horários — se revela equação de difícil resolução. Essa foi a opção usada para auscultarmos Luca Argel sobre O Homem Triste.
Enviámos um conjunto de perguntas a Luca. Perguntas como “’Foi na TV que aprendi a ser homem’. O disco abre com esta frase quase programática. Que pedagogia da masculinidade é esta que a canção identifica?” ou “Em várias canções parece surgir a ideia de que os homens não têm vocabulário emocional suficiente. Podemos escutar em O Homem Triste um exercício de criação desse vocabulário?” ou ainda, já a propósito do mapa, onde podemos encontrar um “Parque da Virilidade”, “A virilidade é aqui vista como uma prisão?”
Mas, como Luca Argel é Luca Argel, as coisas nas suas mãos podem sempre ser abordadas de um novo ângulo e esta entrevista por email não foi diferente. O artista decidiu condensar as suas respostas num texto com registo epistolar e íntimo, o que, de certa forma, é até muito condizente com o tal tom conversacional de muitas das nossas entrevistas. Ainda ponderámos diferentes formas de apresentar esta “entrevista” e no final decidimos que o melhor seria respeitar integralmente a missiva que Luca Argel nos enviou e que é bastante esclarecedora de todas as questões que lhe endereçámos e de muitas outras que se calhar até nem nos ocorreram.
“Olá, Rui!
Espero que estejas bem. Obrigado pelas tuas perguntas, e pela escuta atenta d’O Homem Triste. Vou te responder assim em formato carta, porque me parece que o texto vai ficar mais fluido, e talvez as minhas respostas contemplem ao mesmo tempo perguntas diferentes. Mas depois fica à vontade para recortar os trechos que achar mais interessantes. A edição é contigo.
Gostei da tua expressão “pedagogia da masculinidade”, porque é isso mesmo. Embora o grande objetivo deste projecto seja a proposição e visibilização de outras masculinidades possíveis, e não simplesmente denunciar a que se critica. Essa que nos é ensinada (pela TV, escola, cinema, igreja, futebol…) e que algumas pessoas chamam de “tóxica” e a sociologia de “hegemónica”. Eu não gosto de nenhuma dessas expressões. Por outro lado, também não gosto daquele chavão do homem “desconstruído”. Acho que o que faz mais falta é construir, imaginar, inventar masculinidades diferentes. Se a gente só desconstrói e desconstrói, não sobra nada. Nada pra pôr no lugar daquilo que se quer eliminar. Acho que muitos homens sentem isso quando ouvem críticas à sua masculinidade. Podem até compreender as críticas, mas sentem que sem ela, não lhes sobra nada. E agarram-se ainda mais.
Por isso, sim, esse disco nasce muito mais de um desejo de reconciliação do que de raiva. Sempre quis que ele fosse mais positivo do que negativo. De busca por vocabulário, como você diz. É isso mesmo. E justamente porque a parte negativa da masculinidade já está bem identificada e nomeada. Mas a contraparte, a alternativa a ela, ainda me parece difusa. Até me faltam palavras para substituir o “tóxico”, o “desconstruído”, o “hegemónico”, em conversas que tenho. Nem sei se essas novas palavras já existem. É um campo de estudo e de militância com muita estrada pela frente. O feminismo levou mais de um século para disseminar novos conceitos e um novo léxico sobre o que é e o que pode ser uma mulher. Suspeito que os homens vão levar ainda mais tempo para fazer a sua própria revolução.
Mas foi por aí, pelos estudos feministas, que eu comecei a perceber como essa pedagogia da masculinidade funcionava, os gestos e silêncios que ela impunha. Foi durante a escrita da minha tese de mestrado Meigo Energúmeno – Notas para uma leitura anti-machista de Vinicius de Moraes. Ela foi publicada em livro no ano passado, mas foi escrita muito antes, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde estudei. Havia uma cadeira dada pela professora Ana Luísa Amaral, de Estudos Feministas, que foi muito importante para mim. Foi onde me ocorreu, pela primeira vez, que a famosa frase da Simone de Beauvoir “não se nasce mulher, torna-se mulher” também poderia se aplicar a homens.
Um dos livros mais importantes sobre esse tema é o Vontade de mudar, da bell hooks. Não está traduzido em Portugal, mas está no Brasil, e encontra-se por aqui. Em alguns momentos ela se refere a uma etapa do desenvolvimento dos meninos onde surge a necessidade de ruptura com o feminino. Em parte, me parece um momento natural da infância, mas ainda assim há muito da pressão social pela definição de um género na criança. E essa pressão é sentida desde muito, muito cedo. Como uma das premissas básicas da masculinidade é negar o feminino, é apagar todo traço de personalidade associado ao feminino (ou melhor, àquilo que nos ensinam que é o feminino), o que acontece é uma tentativa de afastamento da grande referência feminina na vida de todos nós: a mãe. O querer deixar de ser um “menino da mamãe”, porque ao contrário não nos tornamos homens. “Primeiro Mar”, na minha opinião, fala um pouco desse momento, que é sempre traumático. E fala também, indiretamente, sobre a manutenção do trabalho do cuidado como um monopólio feminino.
“Cuidado” é uma palavra importante nessa conversa. Entre outras coisas, porque os homens costumam confundi-la com “proteção”, o que não é igual. Em “Tive de Mentir” não me parece que seja o cuidado o que está em causa, mas sim a incapacidade de dizer a verdade, como você colocou. Então, mente-se (para os outros, mas também para nós próprios) como uma forma de não encarar uma realidade e suas consequências. Essa interpretação conduz a um assunto que ecoa em algumas outras canções do álbum, que é uma dificuldade particularmente masculina de expressar abertamente suas emoções e sentimentos mais íntimos, por entender que isso nos coloca em posição de vulnerabilidade perante o outro. E não há nada menos masculino que vulnerabilidade — ou assim nos ensina aquela pedagogia…“É Pedir Demais” é precisamente sobre isso, para mim. Sobre um cantor que na sua profissão canta o amor, mas na vida é incapaz de expressá-lo abertamente, de se abrir à tal vulnerabilidade que as ligações afetivas mais profundas demandam. É bem sacado por ti que a letra ganha uma camada metalinguística porque, apesar de ser o próprio cantor a dar voz a essa demanda, quem fala no texto não é ele, mas sim a outra pessoa, a que está do outro lado demandando essa abertura.
“Arqueologia de Armário” pode ter uma leitura semelhante, porém já num momento posterior da vida (e sem a metalinguagem). Um crítico no Brasil classificou esse tema como “CSI íntimo”, eu achei perfeito. É só uma enumeração de objetos, pistas, sobre coisas de um passado que, na história pregressa que eu imagino, poderiam ter acontecido, mas não aconteceram. É o retrato de uma solidão de fim de vida, resultado dessa incapacidade de estabelecer e manter laços afetivos fortes e duradouros, porque eles exigem um nível alto de entrega, de abertura, de disponibilidade para o outro. Para usar aquela palavra, de cuidado, se quisermos. Uma competência para a qual nós não somos muito educados, e podemos descobrir tarde demais a sua importância. E não estou falando apenas de relações amorosas. Também entram nessa conta as amizades, a família. “Meu Irmão”, por exemplo, é uma música que fala sobre amor fraterno. Foi a forma que eu encontrei de superar a minha própria dificuldade de expressar esse amor ao meu irmão. Lateralmente ela pode também ilustrar como as tragédias causadas pelo homem (refiro-me não ao ser humano, mas especificamente aos homens que têm estado à frente do mundo), [como] guerra, alterações climáticas, etc., são o extremo oposto do caminho do amor e do cuidado — um caminho que parece incompatível com a ideia de virilidade almejado por esses homens, mas que não deveria ser.
“Homem (A Canção)” é provavelmente o tema que mais explicitamente se debruça sobre essa tentativa de conciliação entre a masculinidade e delicadeza, ou sensibilidade, usando o corpo como ponto de partida. Por isso ela abre o lado B do disco, é literalmente o outro lado da moeda d’O Homem Triste. Lá predomina a ideia de que o corpo masculino deve ser uma infalível máquina de performance: no trabalho, na guerra, no desporto, no sexo. É uma ferramenta a serviço do poder, da conquista, da produção. Ela se impõe ao que está fora dela. Aqui, a lógica se inverte. O corpo deixa de ser uma máquina e se transforma em uma fonte de prazer, de autoconhecimento, de libertação. Também é preciso alguma leveza para transitar por esse universo tão duro, onde eu resolvi me meter. “Se Acabou” é outro tema que ajuda a dar essa leveza ao álbum. É uma letra não só cósmica, mas cómica, e propositadamente infantil no refrão. A gente se levar demasiado a sério também pode ser um problema!
“Quando a Cura Começa” foi a última música a surgir, e surgiu pela necessidade de fazer esse “diagnóstico” no final do percurso do álbum. E ela vem no final afirmando que na verdade estamos no começo. É como se o verdadeiro trabalho do álbum só começasse quando ele termina. Por isso eu não diria que este disco é propriamente um processo terapêutico. Pode até ser, quando muito, uma parte bem limitada desse processo. A parte onde eu, como criador, estou em um ambiente mais ou menos controlado, estou montando um puzzle onde se encaixam as ideias musicais, poéticas e conceptuais. Ele me ajudou a compreender, racionalmente, alguns fenômenos, me encorajou a investigar mais sobre os assuntos que eu queria abordar. Inclusive me encorajou a retornar à terapia, o que tem sido ótimo. Mas o trabalho terapêutico de verdade eu faço é com a minha terapeuta, não na música.
Sobre o mapa! Ele surgiu depois de o disco já estar todo gravado, em processo de mistura. E sim, ele é completamente interpretativo. Ele sugere leituras, sugere saídas, mas não tem lá nenhum X marcado onde está o tesouro. Eu acho que a consciência do labirinto é a primeira condição para se encontrar a saída. O mapa traz isso, mas o resto é apenas sugerido mesmo, cada pessoa precisa inventar o seu percurso até lá. O “Parque da Virilidade”, por exemplo, tem as marcas de alguém que conseguiu escapar de lá. Ele foi desenhado para ter uma dupla interpretação: ele pode tanto ser uma fortaleza onde apenas alguns poucos conseguem ser admitidos; mas também pode ser uma prisão, de onde é muito difícil escapar uma vez dentro. Mas não impossível. Tanto que existe um buraco cavado por baixo do muro, por onde alguém passou. Na primeira versão do desenho, a Mariana Popovic (que fez toda a identidade visual do álbum) havia deixado a pá usada pra cavar esse buraco do lado de dentro do parque. Eu pedi pra ela trocar para o lado de fora, justamente pra deixar claro que a pessoa que a usou estava cavando para sair, e não para entrar.
A produção do Moreno foi muito orgânica, é até difícil de explicar. Foi sobretudo uma escolha humana: quem vai tocar, quem vai gravar, e em que ambiente. Ele arquitetou o cenário e o ambiente, e depois simplesmente deixou a magia acontecer. E aconteceu. Quando nós entramos em estúdio, só eu e Moreno conhecíamos as músicas. Os músicos e os técnicos conheceram ali, na hora, e foram obedecendo não tanto a nós, mas sobretudo ao que as próprias músicas pediam. A única coisa que foi realmente mais premeditada foi a participação da orquestra de cordas, porque não tem como fazer esse tipo de gravação sem bastante planeamento prévio. Eu sempre tive esse sonho de trabalhar com um naipe grande de cordas, e esse foi o primeiro álbum em que esteticamente fazia sentido conjurar esse corpo sonoro mais massivo, mais dramático. Você disse muito bem, a orquestra expande o disco emocionalmente. Nos momentos em que o assunto das canções encostava nas dificuldades ou necessidades de mais conexão emocional, foi onde convocamos a orquestra.
Agora, trabalhar com músicos de universos distintos, ou transitar entre geografias diferentes, isso não é propriamente um elemento pensado para este disco, é só um elemento da vida de um imigrante. É como tem sido a minha vida, e é inevitável que contamine todos os meus trabalhos.
Todos os meus concertos são, de certa forma, uma experiência narrativa, porque apenas a música não me basta, eu sempre tenho vontade de criar arcos narrativos, dar contexto, encadear ideias e histórias… É a minha forma de pensar um alinhamento. Mas nesses concertos d’O Homem Triste acho que o guião narrativo está especialmente integrado com a parte musical. E o mapa também entra em cena nos concertos, claro. Primeiro, porque eu falo sobre ele e o abro em palco, para as pessoas o conhecerem. Mas sobretudo porque um dos elementos do mapa foi a grande inspiração para o cenário. É tudo bastante explícito, não preciso nem explicar. Quem assistir o concerto vai perceber imediatamente.
E o concerto é emocionalmente exigente, sim. Partilhar as canções e as histórias sempre aumenta a carga emocional. Está tudo desenhado para potencializar isso: a luz, os arranjos, a ordem. Mas a presença do público é o que mais aumenta, porque se cria uma conexão humana. Há pelo menos 2 canções no alinhamento em que sempre temo ficar com a voz um pouco embargada pela emoção. Mas no primeiro concerto não aconteceu. Vamos ver nos próximos. Uma delas é “Meu Irmão”. A outra não está no álbum.
Quando estivermos com o Moreno em palco o concerto vai ser um pouco diferente, é claro. Vamos tocar músicas dele que não estão no alinhamento dos outros concertos, por exemplo. Mas não vai ser diferente no sentido de nos aproximar mais do estúdio de gravação. Pelo contrário. Se bem conheço o Moreno, ele vai nos trazer mais para um clima de espontaneidade, informalidade e improviso. Tenho certeza que vai haver boas surpresas. Para o público, e para nós em palco.
A tristeza continua fundamental, assim como o amor e a felicidade. O diabo mora é nos porquês. No fim do disco o meu desejo é que o homem não deixe de ser feliz simplesmente por ser homem. Que esse horizonte se expanda e haja espaço para a tristeza, mas também para sair dela e desfrutar de todas as outras emoções.
Um abraço, e nos vemos em Braga!
Luca”