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Fotografia: Júlia Oliveira
Publicado a: 02/03/2026

Triunfo absoluto.

Luca Argel no Theatro Circo: Homem com H

Fotografia: Júlia Oliveira
Publicado a: 02/03/2026

Hoje à noite, Luca Argel subirá ao palco do Teatro Maria Matos para o segundo espectáculo de apresentação de O Homem Triste em que contará com a colaboração próxima de Moreno Veloso, o cantautor que assumiu a produção deste mais recente registo daquele que é agora, muito provavelmente, o mais português dos cantores brasileiros. Mas o primeiro concerto de O Homem Triste teve lugar no Theatro Circo, em Braga, no último sábado. E foi um absoluto triunfo.

As portas daquela que é, certamente, uma das mais belas salas de espectáculo portuguesas abriram-se à hora marcada e Luca lá estava, sentado no centro do palco, exibindo um amplo sorriso, cumprimentando amigos, no seu elegante fato cor-de-rosa, como quem recebe na sua própria casa. Um aparato técnico de câmaras, gruas e cabos suspensos deixava perceber que este espectáculo estava a ser registado pela RTP para posterior transmissão, o que é obviamente uma óptima notícia, não só para quem é fã e marcou presença, mas também para quem não consiga apanhar uma das datas da presente digressão.

Já se recorreu por aqui três vezes à palavra “espectáculo”, mas é importante desde já frisar que bem mais do que mero gesto de entretenimento, o que Luca Argel assinou em Braga — e certamente repetirá esta noite em Lisboa — foi antes de mais uma lição necessária e urgente sobre o que significa ser homem, um gigantesco espelho em que ele mesmo se observou, convidando-nos a todos nós, os homens que assistiram à sua performance, a fazerem o mesmo. O Homem Triste é, portanto, uma obra com força suficiente para ser transformativa, pelo menos para quem nela mergulhe de ouvidos bem abertos e com os filtros defensivos do ego desligados. Claro que ninguém é excluído deste processo. Todas as pessoas cabem dentro d’O Homem Triste, porque esta é uma obra sobre o mundo e a vida e a construção. Como explicou a actriz Viola Davis no seu discurso recente perante a National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), que lhe atribuiu um galardão de Excelência, “a definição de inferno é, no nosso último dia na Terra, a pessoa que nos tornámos conhecer a pessoa que poderíamos ter sido”. Luca fala de crescimento, de apaziguamento, de evolução e transformação. É disso que este Homem Triste trata. Para bem de todos nós. Para que possamos vir a ser o melhor que poderíamos ter sido.

À entrada no Theatro Circo o público foi preparado para o que se seguiria com uma banda sonora pré-concerto elaborada com cuidado e bom gosto: escutaram-se temas como “Homem com H” de Ney Matogrosso, “Homens Temporariamente Sós” dos GNR ou “Um Homem Também Chora” de Gonzaguinha, uma inteligente introdução para a viagem densa que O Homem Triste propõe. E depois, Luca assomou ao microfone, deixando logo claro que este era um concerto para toda a gente: “Bem vindos, bem vindas, bem vindes!”

E as histórias começaram imediatamente a desenrolar-se, como se a sua vida fosse um grande novelo. Luca Argel recordou em primeiro lugar os seus dias de escola, na infância, quando conheceu o Juliano, um menino gay que lia Harry Potter no original, que era alvo de micro-agressões, na sala e no recreio, ou seja, o seu primeiro confronto com o que significa cair fora das normas estabelecidas e não se encaixar naquilo que se entende ser a normalidade. Mais tarde, num momento de teatral e deliberada pedagogia, leu uma lista contendo coisas que “o homem não pode…”. A lista era longa, e o rolo caiu no palco, causando o riso geral: “O homem não pode chorar, não pode não gostar de futebol, não pode fazer xixi sentado, não pode usar cor-de-rosa…”. Depois citou a feminista bell hooks, que dizia “que nos vamos amputando” enquanto crescemos. Essa densidade, poética e teórica, humana e crítica, está presente ao longo de toda a prestação e exige concentração do público — há muito que não via tão poucos telemóveis a registarem imagens num concerto…

Musicalmente, o concerto foi tão sólido quanto conceptualmente ambicioso. Ladeado por Pri Azevedo (teclados e acordeão), Cláudio César Ribeiro (guitarra), Júnior Castanheira (baixo), Carlos César Motta (bateria) e Neném do Chalé (percussão), Luca conduziu-nos durante quase duas horas por um repertório que, como se percebe pelo alinhamento cuidadosamente desenhado, foi pensado como percurso dramático: começa na sugestiva “Quando a Cura Começa”, mergulha no manifesto “O Homem Triste”, inclui uma comovente dedicatória fraterna em “Meu Irmão”, atravessa memórias fundas, confrontos e genealogias complexas e termina num afirmativo “Um Passo à Frente”.

Pri Azevedo foi um dos elementos mais luminosos dessa travessia. O seu acordeão, longe de qualquer folclorismo superficial, manteve uma ligação profunda às raízes da MPB, com um toque fluído, elástico, “suingado”, que respirava com as canções e lhes acrescentava uma camada de humanidade orgânica. Havia ali memória de forró, de samba-canção, de tradição, mas também uma leveza contemporânea que impedia a música de se desviar para um qualquer mimetismo artificial. Do outro lado do espectro rítmico, Neném do Chalé mostrou ser pilar essencial. Com um kit reduzido, feito de congas, pandeireta e pouco mais, construiu um balanço que ora evocava o carnaval, ora sublinhava com extrema elegância o tempo marcado pela bateria. Nada sobrava e cada acento parecia colocado com consciência narrativa, como se a percussão fosse uma outra “voz” num afinado conjunto.

A meio da viagem, entrou em cena Moreno Veloso. Fê-lo com discrição, aplaudindo antes de mais “o trabalho de consciência do Luca”, expressão feliz que sintetiza o núcleo do projecto. Moreno recordou depois que fora desafiado a revisitar uma canção lançada há 26 anos, “Eu Sou Melhor Que Você”, tema de Music Typewriter que, deslocado para este contexto, ganhou uma ironia crítica renovada. Aquilo que noutro tempo poderia soar como afirmação provocatória, aqui funcionou como espelho das armadilhas competitivas da masculinidade. E fez tudo isso enquanto dançava como se fosse dia de festa. E a verdade é que era mesmo.

O alinhamento — que incluiu ainda “O Vencedor”, de Marcelo Camelo, e “Lenço Enxuto”, de Samuel Úria — revelou a inteligência curatorial de Luca. Ao interpretar outros autores que também problematizam, à sua maneira, os papéis masculinos, inscreveu o seu próprio trabalho numa linhagem crítica mais vasta. Não se tratou de simples homenagem, mas de diálogo: canções que conversam entre si, que ampliam o campo de reflexão, que mostram que esta inquietação é partilhada e transgeracional.

Houve pequenas falhas na interpretação das letras, tanto de Luca como de Moreno, mas longe de comprometerem o momento, acabaram por humanizar ainda mais a performance, com ambos os artistas a lidarem com o esquecimento pontual com humor e verdadeira showmanship. Num espectáculo que fala de vulnerabilidade e desmonta a exigência de perfeição associada ao “ser homem”, esses lapsos funcionaram quase como sublinhado involuntário do argumento central. A imperfeição como sinalética da verdade.

O concerto terminou de forma apoteótica, com a sala completamente rendida e uma execução musical soberba. O som cristalino, equilibrado, respeitando dinâmicas e silêncios, foi irrepreensível, permitindo que cada palavra e cada nuance instrumental encontrassem o seu lugar exacto no espaço. Numa sala como o Theatro Circo, onde a arquitectura já convida à escuta, esse cuidado técnico foi decisivo. No final, mais do que aplausos prolongados, ficou uma sensação de comunidade temporária construída em torno de uma pergunta difícil: que homens estamos a ser e que homens poderíamos vir a ser? O Homem Triste não oferece respostas fechadas. Oferece canções, histórias, mapas e espelhos. E, numa noite de sábado em Braga, isso foi mais do que suficiente. No final, os abraços trocados com os fãs à frente de uma mesa de merch com quase toda a discografia de Luca disponível, foi a recompensa que todos/todas/todes mereciam, público e artistas.


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