LORD sobre Espinal Medula: “Andei muito tempo em baixo e este projecto foi como uma âncora para me manter minimamente alinhado”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Kianu Lima

Espinal Medula acaba de sair e marca a estreia de LORD nos álbuns de originais. YOUNGSTUD, Flash Gordon, Pilha e Sonnit Rijal são os colaboradores creditados no trabalho, que vem servido com uma capa assinada por O Carola e teve “NUNCAMESENTIASSIM” enquanto single.

Foi um trajecto longo até que LORD nos apresentasse estas novas faixas agora compiladas sob o mote de um disco de apresentação. O rapper e produtor de Alverca admitiu ao ReB que se tratou de “um processo demorado e caótico”, resultante de um período menos positivo que atravessou: “Andei muito tempo em baixo e este projecto foi como uma âncora para me manter minimamente alinhado, coisa que não se passava.”

Após os primeiros versos ensaiados em faixas avulso, a discografia do principal impulsionador do colectivo Nyxtreva foi inaugurada em 2015 com Isto Não É Uma Mixtape, tendo mais tarde nesse mesmo ano dado a conhecer a sua veia de produtor com a beat tape Qsa Foda o MC. Sangue Nos Dentes, a sua última obra, data de 2016, mas os três anos que nos separam dela não foram passados em silêncio, com LORD a amealhar mais de uma dezena de músicas soltas no seu canal no YouTube.



Temos falado várias vezes sobre o teu álbum de estreia e passas-me sempre a impressão que o tens estado a esculpir minuciosamente durante os últimos anos. Dado todo o teu percurso, o que significa para ti conseguir fazer com que este trabalho veja a luz do dia?

Mais ou menos. Foi um processo demorado e caótico. Estive muito on e off enquanto o estava a produzir e escrever, porque sentia mesmo que precisava de me afastar às vezes e trabalhar noutras coisas. É muito pessoal… Andei muito tempo em baixo e este projecto foi como uma âncora para me manter minimamente alinhado, coisa que não se passava. Agora quase parece um virar de página e tenho espaço para ir para próxima fase. É como um marco que representa o fim de uma era e o inicio de outra.

Gostava que me explicasses o título que escolheste. Que conceito é este de Espinal Medula?

Este álbum é primeiro uma dissecação das minhas bases. Aquilo que é o “LORD”. O que me formou primeiro e o que me manteve o corpo de pé e direito até agora, capaz de comunicar com o cérebro. Basicamente a minha espinha. Quando essas bases vão abaixo ou são afectadas, ficas sozinho contigo a questionar qual é o teu caminho e a tua posição e tens de construir novas bases para te aguentares. Senão conseguires cais no poço do vazio dos Homens. E embora o álbum seja praticamente só o desmoronamento e as consequências, é isso que abre as portas ao que vem a seguir.

Tu já lançaste uma mixtape, uma beat tape, um EP… Tentando traçar aqui uma linha cronológica dos acontecimentos, em que fase da tua carreira é que te começaste a focar neste disco? Houve algum “clique” que tenha despoletado tudo o que escreveste para o álbum?

Eu já tinha sons do álbum antes de sair o Isto Não É Uma Mixtape. Foi sendo escrito e produzido ao longo do tempo. Sabia que já tinha pelo menos uma sonoridade própria e que queria fazer um álbum a sério, como os que eu ouvia em miúdo, do principio ao fim, no escuro, com uns fones a tripar, e que basicamente me transformaram. O “clique” foi quando me deu o flash do conceito e depois tudo se foi ligando, ao longo do tempo, cada vez mais sólido.

Apesar da demora na preparação do Espinal Medula, tu nunca estiveste realmente parado e foste sempre apresentando uma ou outra faixa solta ou colaborado pontualmente com outros artistas. Do teu ponto de vista, o que é que separa todos esses trabalhos do material “adicional” que tens vindo a mostrar? Porque razão foste tão cuidadoso ao ponto de deixar o disco encubado por tanto tempo?

Eu senti-me bem parado, uma estátua até. Porque sabia que o que estava a sair não era o que podia fazer, comparado com o que tinha guardado no baú já há anos. Mas senti que tinha de ir lançando pouco a pouco algum material mais relaxado. A grande diferença está na intenção e na coerência dos sons, são coisas mais pensadas e elaboradas.

O que representam estas faixas para ti? Há alguma história que elas contem quando percorremos a obra do início ao fim?

Representam a ruína. Mas é majestosa e ainda não é total. Há esperança se não houver mais nada. O álbum não segue nenhuma narrativa explícita, mas são tudo partes de um todo.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira