Lonnie Holley no Theatro Circo: fora da norma, fora do tempo, fora de série

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Paulo Nogueira

O mais recente álbum de Lonnie Holley, Mith, que foi o ano passado lançado pela Jagjaguwar, serviu de base à sua apresentação ontem à noite no âmbito do Respira, ciclo de concertos no Theatro Circo, em Braga, que hoje chegará ao fim com as performances de Kathryn Joseph e Lubomyr Melnyk.

A noite arrancou com Rami Khalifé, pianista e compositor franco-libanês que estudou na prestigiada Julliard e que assinou há uns anos um muito bem recebido Requiem inspirado na Primavera Árabe. Ao vivo, neste formato de piano solo, Khalifé procura equilibrar o seu virtuosismo, que exige da sua audiência uma postura mais intelectual, com a sua própria história pessoal — a palavra “guerra” surge, compreensivelmente, no seu discurso como um gancho na sua busca de empatia por parte da plateia — que lhe garante uma mais evidente entrega emocional do público. E talvez na tentativa de compatibilizar essas duas esferas de envolvimento — a intelectual e a emocional — a sua música se perca um pouco.

Tecnicamente, Khalifé é de facto um prodígio que não se coíbe de exibir abordagens de “encher o olho”, desde tocar de mãos cruzadas, entregando à direita a parte do teclado normalmente tocada pela mão esquerda e vice-versa, até tocar dedilhando directamente as cordas do piano ou abafando-as com um feltro aproximando o timbre do piano do de instrumentos de cordas orientais. A sua tendência para os crescendos e os seus abruptos silêncios também servem para exacerbar a componente “dramática” das suas peças. Em conjunto, todas essas marcas resultam em momentos que exaltam audiências, que arrancam “bravos” às plateias — e tal foi certamente verdade ontem — mas que são musicalmente previsíveis e por isso mesmo menos interessantes. O público, que ontem acorreu em menor número do que na primeira noite de Respira carimbada por Alfa Mist, parece, no entanto, ter gostado, ovacionando de pé o pianista após cerca de uma hora de concerto fisicamente intenso.



A segunda parte, no entanto, foi bastante diferente e, de certa forma, isso manifestou-se no público: houve gente que assistiu à primeira parte que saiu, outra ainda que não estava na plateia e entretanto chegou. Faz pleno sentido.

Lonnie Holley é um artista especial cuja história de vida é igualmente marcante e essencial para se entender a sua arte. Khalifé, vindo de uma reconhecida linhagem de músicos, evoca a guerra e chora Beirute, mas usa a educação obtida em Julliard para se expressar (nada de errado nisso, obviamente), ao passo que Holley parece vir das margens da própria civilização, das franjas da sociedade, posicionando-se fora do tempo e das normas para erguer uma cosmologia muito particular. Ou um “mito” se quisermos, tão pessoal que, como nos revela o título do seu último álbum, até surge grafado de forma alternativa. Porque tudo em Lonnie Holley é construção e artifício, uma fuga a uma normalização que lhe foi negada pela História (essa mesmo, com H maiúsculo, a dos barcos negreiros e plantações de algodão, da Industrialização, das guerras e do racismo endémico, de Martin Luther King, Jr. e de Donald Trump), pela sociedade e pela vida.

Em conversa informal antes do concerto, Lonnie Holley saúda-nos como na capa do seu disco, levantando os polegares e dizendo “thumbs up for mother nature”, frase que traduz a sua peculiar, mas honesta e nobre mundividência. O discurso de Holley é depois muito obtuso, fala de anjos e de sonhos, de uma era digital e de matemáticas avançadas, de encontrar os seus próprios mestres dentro da sua cabeça, da importância do cérebro e da necessidade de salvar o planeta e da sua vida, um autêntico filme tamanhas as peripécias que contém. Nascido em 1950 em Birmingham, Alabama, no epicentro de um sul repressor, foi um de 27 filhos, abandonado, criado por uma bailarina de burlesco, primeiro, pela avó, mais tarde, conhecedor da tragédia que encontrou um veículo para a expressão da dor quando, no início dos anos 80, fez duas lápides para as crianças da sua irmã, mortas durante um fogo em casa. A arte de Holley faz hoje parte de uma série de importantes museus americanos que resguardam a expressão funda de identidades “mágicas” criadas por “outsiders” que são, afinal, agudos observadores da História (a mesma referida anteriormente) a partir das margens. As suas esculturas, criadas com objectos encontrados, com detritos da civilização, muitas vezes unidos por arame farpado, não são metáforas, antes cruas e comoventes amostras do que significa ser uma vítima numa sociedade cruel.

A música de Lonnie Holley vem de um lugar idêntico e insere-se numa longa tradição de visionários que na América aprenderam a funcionar fora das esferas académicas ou industriais, de Sun Ra a Rammellzee, de Moodymann a MF Doom. Holley só começou a editar música em 2012, depois de encontrar um velho teclado Casio numa loja de segunda mão que, como nos explicou a pessoa que veio ao palco fazer uma longa apresentação do músico — conhecer o seu contexto é, afinal, crucial para se entender a sua arte — abriu e reparou, ligando-o depois a uma velha máquina de karaoke para conseguir gravar as suas canções. Dessa forma criou música que a Dust-to-Digital apresentou ao mundo em dois álbuns, de 2012 e 2013, que agora culminaram num mais ambicioso trabalho lançado pela Jagjaguwar e que já resulta de um reconhecimento da qualidade da obra de Holley por parte de pares como Bill Callahan, Deerhunter ou Bon Iver, artistas que acolheram o autor de Mith nos seus estúdios ou em digressões.



Ao vivo, Lonnie Holley tem algo de Gil Scott-Heron e de Terry Callier na forma como gere a voz, mas a sua utilização de inflexões particulares, de pequenos gritos ou repetições, é genuína e original, dando razão à sua ideia de que a sua música resulta muito mais de uma procura interior do que da escuta de uma mais vasta cultura em que Holley pudesse de alguma forma ter mergulhado em busca de guias.

Acompanhado de forma brilhante por Dave Nelson, em trombone e electrónica, e por Marlon Patton, bateria e baixo de pedais Moog, Lonnie Holley sentou-se ao piano acústico apenas na primeira canção posicionando-se depois no centro do palco, supostamente com o seu velho Casio, embora não se percebesse exactamente qual o instrumento que usou por estar num suporte embrulhado com o que presumivelmente será uma das suas pinturas, dois rostos de perfil, um negro e outro branco, numa clara representação de dualidade na boa tradição afro-americana.

A moldura oferecida por Nelson e Patton a Holley é absolutamente determinante para a elevadíssima qualidade do concerto. Claro que Lonnie é o centro, com a sua voz a concentrar boa parte do poder encantatório da sua música, mas o trombone altamente processado de Dave Nelson, e os seus apontamentos electrónicos, expandem a paleta tímbrica e harmónica da música, conferindo-lhe uma bem mais notória profundidade. E Marlon Patton poderá muito bem ser um dos mais notáveis, se não mesmo o mais notável, baterista que já vi neste registo. Ritmicamente preciso e ultra-sofisticado nos detalhes, Patton soa como uma perfeita caixa de ritmos, metronómico e matematicamente belo, com o seu trabalho no baixo de pedais da Moog a dar uma dimensão electrónica extra à sua fundação rítmica. Funky até mais não, Patton é um baterista que pagaria para ver em solo absoluto, tão rico o seu discurso naquele instrumento.

Juntos, Holley e Nelson e Patton, estes três artistas soam muito maiores do que a soma das suas consideráveis partes faria supor e canções como “I Snuck Off The Slave Ship” ou, sobretudo “I Woke Up in a Fucked America”, verdadeiro tour de force desta performance, assumem a dimensão de urgentes mantras políticos, manifestações com um toque de desespero no seu fundo apelo à elevação, à mudança e à transformação. Não são lamentos — a música de Lonnie Holley tem muito menos de blues (que tanto marcava a obra de Scott-Heron) do que de gospel. É música de engajamento espiritual, de consciencialização política, que exige atenção e abertura, mas que não faz compromissos: “se acharem que estou mal aqui, apupem-me que eu saio do palco”, assegurou a dada altura. Também cuida de nos alertar que não veio aqui para nos “fazer chorar”, mas o que é comovente na sua arte, na sua música, não é o drama pessoal da sua História (a mesma que o fez escapar-se do navio negreiro, como diz a canção…), mas a sua aparentemente infinita capacidade de nos confrontar com a nossa própria humanidade. “Quantas vezes me vi neste espelho?”, pergunta ele noutra canção. E nós? Quantas vezes nos olhámos no espelho que uma obra como a de Lonnie Holley nos oferece? É que aquilo que ele sente e canta, aquilo que ele esculpe e toca, não é algo de exterior à nossa própria esfera. Holley não nos conta a história do “outro”, como Khalifé. Holley é a nossa própria história. Chorar, a dado momento da sua apresentação, é, portanto, necessário e inevitável porque representa o descobrir de que afinal até somos nós, um bocadinho pelo menos, que estamos ali expostos, senão no palco, pelo menos nas entrelinhas das canções.

Absolutamente a não perder por quem possa estar hoje à noite em Lisboa em busca de si mesmo: Lonnie Holley apresenta-se mais logo no Bairro Alto, na Galeria Zé dos Bois.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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