Lójico: “Espero cumprir os meus objectivos e corresponder às expectativas dos meus ouvintes”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] eyeknow47

Lójico lançou hoje o seu EP de estreia. AMOR&ARTE é composto por sete temas e foi editado com o apoio da Big Bit Música.

João Correia representa a cidade de Gaia e escreve as suas próprias rimas desde o ensino básico, maioritariamente influenciado pelo movimento do hip hop nacional com Sam The Kid, Regula ou Valete à cabeça, embora destaque Virtus enquanto principal referência. Kap é também um dos nomes que maior destaque merecem dentro das bases para formar o projecto Lójico, ele que foi o motor para que as suas letras passassem do papel para o áudio, creditado com frequência nas fichas técnicas dos primeiros temas do rapper.

Apesar de já poucos temas restarem na Internet, Lójicamente foi a primeira mixtape que o MC deu a conhecer ao público, numa fase em que ainda procurava pelo seu próprio lugar dentro do alargado espectro do hip hop. Desde 2016 que Lójico tem apalpado novos terrenos com várias canções soltas. Algumas delas chegaram aos ouvidos de Lince, o CEO dos míticos estúdios Big Bit, que recentemente arrancaram também com o seu próprio selo discográfico. “Eu lembro-me que estava a voltar a casa quando vi a mensagem do Lince no Instagram e fiquei um bocado espantado com isso”, revelou ao Rimas e Batidas, mostrando-se “feliz” e “grato” pela oportunidade de desenvolver o seu primeiro trabalho de originais de forma tão profissional.

Amor & Arte nasce desta parceria entre Lójico e a Big Bit, um trabalho com sete faixas. Holly, Sien, joão tamura, Kap e Lazuli estão entre os colaboradores creditados no projecto de apresentação.

 



Fala-me um pouco sobre ti. Quem és e de onde vens?

A pessoa que está por detrás do Lójico chama-se João Correia. Eu nasci na margem oposta à que vivo mas toda a vida vivi na que estou: Gaia. É aqui que o Lójico nasce (e quase todas as letras também). Eu sou um gajo normal, estudo marketing e faço rimas basicamente desde a altura em que a única arte que a maior parte do pessoal da minha idade  “estudava” era Educação Visual, para aí no meu 7º ano. A minha Educação Visual sempre foi outra.

No YouTube encontrei faixas tuas de 2015. Já fazias rap antes disso? Lembras-te de como tudo começou?

Fazia, mas nada oficial. Eu comecei a gravar, aliás, no início desse ano. Demorei cerca de 2/3 anos para gravar a primeira música. Considero que fui suficientemente paciente para só dar origem ao alter-ego assim que tivesse certezas da minha qualidade, dentro dos possíveis. Escrevia letras em tudo o que era ocasião: aulas, intervalos, noites, madrugadas. Qualquer momento e qualquer vivência eram um motivo para uma dica nova. E o amor foi crescendo.

Quem tiveste como principais influências nessa altura? Ouvias mais rap nacional ou internacional?

Ouvia um pouco de tudo. A minha maior influência cá dentro sempre foi, sem qualquer dúvida, o Virtus. Mas ouvia um pouco de tudo. Lembro-me de ouvir muito STK, o Deau, o Dillaz, Don Gula, o Kap (que me ajudou em todo o processo até chegar aqui), o Minus, NGA e muitos outros nomes, mas essencialmente estes. É uma escola de disciplinas muito diferentes, mas ouvir um pouco de tudo permitiu-me estimular um pouco de tudo também.

Contudo, lá fora também tive grandes pontos de referência, que embora com menos nomes talvez até tivessem maior consumo da minha parte. Falo de rappers como J. Cole, Drake, K.Dot… Mais recentemente, as minhas maiores influências lá fora são gajos como o Post Malone, o 6lack e o Tory Lanez.

Como surgiu a oportunidade de trabalhar num espaço tão emblemático para o hip hop português como é a BigBit?

Foi inesperado. Eu lembro-me que estava a voltar a casa quando vi a mensagem do Lince no Instagram e fiquei um bocado espantado com isso. Conseguimos estabelecer contacto rapidamente e, depois de finalmente ter um diálogo com ele, percebemo-nos bem e chegámos rapidamente à conclusão que as coisas podiam ter andamento. Fiquei sem dúvida muito feliz e estou grato pela oportunidade.

Editas hoje um EP do qual já revelaste alguns temas, lançados com suporte vídeo no YouTube. As músicas tiveram um alcance considerável e aposto que até já te abriram algumas portas. Como está a correr esta nova aventura?

Saíram cinco faixas, contudo uma delas já saiu no início de 2017 e teve um menor alcance, o “Tar na Minha”. Depois de lançar esse som, eu fiz a “1 Minuto” e criei um hype grande à volta desse som, as pessoas partilharam muito e ganhei público. Depois comecei a soltar as faixas do EP. A faixa com maior alcance, “O que era Amor”, teve mais de 200 mil views em menos de 2 meses e foi uma sensação incrível mas estranha. Ainda estou numa fase em que acredito que as coisas podem crescer muito mais, portanto estou muito feliz pelas portas que já abri e a visibilidade que deram, mas vou transformar essa felicidade em motivação para o próximo projecto.

Tens a participação do Kap, com quem trabalhas há alguns anos, bem como do João Tamura e Sien. Como é que se deram estas colaborações, vindas de planetas tão distintos dentro do universo das palavras?

O Kap foi um processo muito natural. Estávamos em estúdio e essa participação não estava prevista na faixa. Mas a musicalidade e genialidade dele fizeram com que ele, ao tratar da faixa, acrescentasse o seu toque, que acabou por dar o nome à música. O Sien é um amigo de há alguns anos e uma das pessoas que mais admiro dentro deste universo musical. Muito talentoso. E fiz questão que ele fosse parte do projecto, uma vez que tem tudo a ver com uma mensagem que ambos passamos nas músicas, muito pacífica e com muito amor envolvente. E com amor não me refiro só a love songs.  O Tamura é outro génio. Ouvi muita música dele nos últimos dois anos e tive de o convidar. O beat é do Holly. Na altura que o convidei eles já estavam a fazer várias colaborações e eu pensei logo nele. Essa faixa é, na minha opinião, a melhor do EP, mas sou suspeito porque gosto de todas.

Planos para o futuro?

Eu tenho poucas certezas sobre o próximo projecto. Mas posso dar uma grande certeza: quem de facto reconhece algum tipo de qualidade em mim, pode esperar os meus melhores trabalhos nos próximos tempos. Por outro lado, quem me ouve há muito tempo e me associa a um tipo de música específico, lamento muito e espero que se consiga adaptar a uma nova fase! Mas espero cumprir os meus objectivos e corresponder às expectativas dos meus ouvintes (actuais e futuros).

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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