LP / CD / Digital

Logic

No Pressure

Def Jam / 2020

Texto de Paulo Pena

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De Under Pressure No Pressure: Logic começou com o peso do mundo às costas e, seis anos depois, terminou mais leve do que nunca. Há novo álbum do rapper americano, que promete ser o último no que toca a discos em nome próprio. Que jornada esta de um miúdo com tudo para dar errado, que chegou mais longe que os próprios sonhos, culminando neste há muito projectado No Pressure. Terá sido esta uma saída à altura do seu percurso? 

Depois de uma primeira audição completa do LP, a longa entrevista à Hard Knock TV (dividida em segmentos) destaca-se como o principal complemento a este disco e revela-se indispensável à desconstrução do mesmo e das respectivas motivações. Ao fim de aproximadamente uma década de uma constante escalada, Robert Bryson Hall II reflectiu sobre tudo aquilo que o levou a subir a montanha do sucesso e questionou-se acerca de todas as suas conquistas e o valor que verdadeiramente têm (ou não, em certos casos).  

No seguimento do nascimento do seu primeiro filho, Bobby decidiu terminar a sua extensa carreira discográfica com No Pressure, que, acima de tudo, é um regresso às origens, ao rap pelo rap, pela diversão de juntar palavras num puzzle métrico, de construir rimas sobre batidas. É que se Logic começou “sob pressão”, o seu caminho traçou uma linha inversamente proporcional às expectativas da opinião pública. Quanto maiores os palcos, as arenas, as filas de espera em cada concerto, mais o público cibernético criticava o rapper de Maryland, álbum após álbum. Se a sua legião de fãs devotos crescia exponencialmente, a bola de neve da crítica descia montanha abaixo em direcção ao artista, que, apesar das forças contrárias, subia a pulso rumo ao topo da serra. Cada álbum novo era, por muitos, considerado pior que o anterior, e, na referida entrevista, o rapper confessa que sentia sistematicamente uma sensação amarga ao subir a cada arena esgotada; como se não passasse de uma fraude diante de um público em delírio perante a sua presença; como se não fosse suficientemente bom, apesar de todas as evidências palpáveis no sentido oposto dessa percepção. 

Acusado de falta de identidade, e de se inspirar (em demasia) noutros artistas, o que é facto é que Logic coleccionou múltiplos êxitos discográficos ao longo da carreira, e No Pressure marca o seu sexto projecto a chegar aos primeiros lugares da Billboard 200. As suas inspirações são assumidas pelo próprio, orgulhosamente evidenciadas até. Em No Pressure, Bobby homenageia algumas a terminar “Perfect” – “Logic cites Nujabes, MF Doom, RZA, and Kanye West as key inspirations behind his production style”. Não se cansa de falar dos seus mestres, e daqueles que admira, tendo recebido ainda a benção directamente de Erykah Badu sobre a faixa “man i is” (por “samplar” “Dreamflower” de Tarika Blue). É como se a música de Logic compilasse uma série de influências que se vão revelando naturalmente. E, no caso desta obra, a mistura dessas figuras marcantes é assumidamente celebrada. Aqui, sim, é caso para se dizer, sem ironia subentendida, “não é byte, é influência”. 



Em relação ao rap propriamente dito, Logic propôs-se a entrar com tudo; a focar-se na ginástica da caneta. Além disso, e apesar de se caracterizar como um artista que se abre na sua música, desta vez o auto-intitulado Bobby Tarantino abdicou de uma abordagem conceptual (como é recorrente nos seus projectos) para falar connosco directamente, dirigindo-se, de forma mais frontal que nunca, aos seus fãs, a quem conta o que se tem passado nos últimos tempos na sua vida. Desde o carrossel em torno da saúde mental (que sempre pautou os seus trabalhos), passando inevitavelmente pelo iniciar de uma nova fase com a paternidade, até às razões pelas quais estamos nesta volta final. Valores mais altos se levantam, e Logic já não conta os cêntimos atirados para a fonte das redes sociais. Parece finalmente resolvido consigo mesmo, com a gestão das expectativas que facilmente assombram qualquer estrela do mundo mediático, e, sobretudo, acerca das razões que o levaram a entrar neste jogo labiríntico. 

Assim, esta soa efectivamente a uma volta final. Bobby flui descomprometido ao longo das faixas, com algo a provar, mas sem essa pretensão, havendo ainda espaço para uns quantos trunfos largados sobre a mesa – “Never scared to do it different, no two albums sound the same/ I got tracks with Wu-Tang and 2 Chainz, Killer Mike and Gucci Mane/ Rap shit, trap shit, you know I do it with no shame”. Mostra que continua capaz de elaborar punchlines cheias de camadas, mas procura batalhar nesse processo por puro prazer e diversão. Ainda sobre a entrevista mencionada, são desmontadas rimas que se revelam quebra-cabeças encriptados pelo próprio autor, não com o intuito de esconder mensagens, mas simplesmente pelo exercício artístico, como acontece, a título de exemplo, em “GP4” (faixa esta cuja introdução acende as luzes de Kendrick Lamar no painel das influências) –  “And on that note, I keep it G/ Like track four, ‘Kick in the Door’ by Notorious B.I.G. / Don’t believe me, look that shit up, I promise you’ll find the key/ To that punchline, feelin’ just fine”. Como um lutador que treina nos limites das suas capacidades, ignorando quem possa estar à sua volta a observá-lo.  

Aliado aos companheiros do costume na produção – 6ix e No I.D. –, Logic completa assim a volta da consagração. As grandes maratonas já foram percorridas, e, neste sentido, No Pressure não integra o rol de melhores álbuns do rapper da Def Jam. À sua frente posicionam-se projectos como a saga de Bobby TarantinoThe Incredible True StoryYSIV ou Supermarket (talvez o melhor disco concebido por Logic e, simultaneamente, o mais distante do registo rap).  

O balanço que se faz deste álbum, e consequentemente de toda a carreira, resume-se num factor-chave que diferencia Logic da maioria dos rappers: construiu um legado com base na honestidade pessoal, artística e intelectual, sempre ciente do seu papel e das suas missões. Quando assim é, não há como não ter mares de gente a segurar este navio destinado a afundar. Felizmente, chegou a bom porto. Porém, já não se alimenta do espírito aventureiro com o qual embarcou nesta frutífera travessia. Ainda assim, prometeu-nos voltar para mais concertos e digressões, e que isso nos sirva de consolo. Foi uma viagem em cheio, mesmo. E se quiseres voltar, Bobby, cá estaremos… Sem pressão. 


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