Little Simz // GREY Area

[TEXTO] Rui Correia

Dê entrada na zona cinzenta. Cuidado onde pisa. Há aqui um coro de raparigas pronto a ofendê-lo, caso goste ou não. Não há desculpas nesta zona. Tem problemas com liberdade de expressão? Pode ser pura ilusão. Mas agora já não pode voltar atrás. Não se acanhe, as dificuldades existem para serem ultrapassadas. Seja patrão de si próprio, avance. Vá lá. Mas peço-lhe: pelo caminho, não se enamore ao espelho por muito tempo, não vá ficar demasiado admirado consigo (está num ponto sem retorno, eu disse). Ficará magoado com o impacto do estilhaço, mas a dor faz parte do percurso. E o sangue irá escorrer. Vai, vai. Todo o veneno vai-lhe sair do corpo. Todo o mal, todo o ódio (que ÓDIO!) reduzido a uma jaula. Solte-se também. Deve expor o que lhe vai dentro. A sério, não está só na zona cinzenta. Agora, quem quer ficar nela? Talvez os mais sábios desafiadores do seu ego.

Vou-lhe contar um segredo: que DISCO! Pára, pára!.. [clico backforward para ouvir o tema “Wounds”]. É fácil prender-se no sofrimento, mas tem de sentir realmente o lado catártico. Impasse, impasse, mais um impasse. Sei onde isto acaba. Eu, outra vez, no início. A repetir um sentimento. Egoístas tipo Brexit, falsos como russos ao almoço. São outras formas de dizer o mesmo em mais uma crítica. Porra, pá! Este álbum merece mais de mim, mas não se querem juntar [a mim] a apreciar a zona cinzenta?

Estou a encontrar cada vez mais espaço aqui dentro. A Little Simz não está sozinha, isso é óbvio. A amizade, a família (o amor, parvo!) fazem milagres. Sinta-se em casa, mesmo que com estranhos. Há música e as histórias no palco são infinitamente iguais. A perspectiva muda, tudo bem (a luz? o contraste?). De bairro, para bairro. De Queensbridge, Nova Iorque, a Islington, Londres. Ou seja, de Illmatic a GREY Area, o espaço é relativo (não, juro que não inventei isso). A humanidade está cá, infiltrada na zona cinzenta. Aqui há coragem, e perseverança, mesmo que a pressão seja alta, é capaz. Você é capaz. O brilho no fim do percurso é imenso. 25 anos de profundo conhecimento libertado pelo génio de Simbiatu Ajikawo no ano 2019. As palavras podem magoar, podem amar, podem tudo. O rap mora aqui, na zona cinzenta, e um “jovem Quincy Jones” — o produtor londrino Influ – orquestrou-a para Little Simz crescer e oferecer o álbum mais honesto e coeso da sua ainda curta carreira. E cabemos lá todos.


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