Little Dragon: “Não se pode seguir sempre o guião”

[TEXTO] João Marques [FOTO] Direitos Reservados

Um dos nomes mais sonantes do ID, festival que decorre no Centro de Congressos do Estoril nos dias 29 e 30 de Março, é o da banda sueca Little Dragon.

Conhecidos pela sua abordagem singular à música pop, o grupo de Gotemburgo nunca se sentiu limitado pelo sítio onde nasceram: foram nomeados para os GRAMMYs com Nabuma Rubberband, o seu quarto disco de originais, imiscuíram-se nas tabelas de vendas norte-americanas e colaboraram com DJ Shadow, Kaytranada, BadBadNotGood, De La Soul, Flume, Mac Miller, SBTRKT e Gorillaz.

O ReB falou com a vocalista Yukimi Nagano e o baterista Erik Bodin, que manifestaram a sua admiração por Madlib e por quem se aventura no planeamento de um festival.



Vocês vão tocar em Portugal no ID, que se apresenta como um festival de música electrónica, mas o alinhamento fá-lo parecer mais do que apenas isso. Como acham que encaixam nas bandas que tocam antes e depois de vocês?

[Yukimi] Acho que encaixamos muito bem. Temos um som bastante vasto, às vezes não sei descrever muito bem o nosso género, mas é uma mistura com elementos electrónicos. Acredito que acrescentaremos alguma coisa ao festival.

[Erik] Faz parte, por exemplo, o Madlib, que para nós é uma referência. Sentimo-nos orgulhosos de fazer parte de um festival que representa este tipo de música electrónica. É verdade que temos “electricidade” envolvida no nosso espectáculo, mas não é exactamente a mesma coisa, é muito experimental. 

Conhecem a maioria dos artistas que fazem parte do cartaz ou são desconhecidos para vocês? 

[Erik] São sobretudo desconhecidos, para ser sincero. A maioria dos artistas que conheço são rappers que ouvia quando tinha 14 anos e por alguma razão a música que ouvia depois dos 21 anos não me consigo bem lembrar, tenho a memória meio distorcida desses tempos [risos]. Mas estou definitivamente entusiasmado para ver os concertos porque sinto que vai ser bastante ecléctico.

Aí está, vão ficar para ver os concertos e assistir ao festival?

[Erik] Acho que o dia em que chegamos, vindos directamente da Suécia, é na manhã do concerto e é o aniversário do Fredrik [baixista], por isso vai ser uma oportunidade para celebrar!

Isso é fantástico, que coincidência. Assim ficam em Lisboa por mais alguns dias ou vão se logo embora?

[Yukimi] Acho que nos vamos logo embora de Portugal, no dia a seguir.

É que já estiveram em Portugal pelo menos quatro vezes, certo?

[Erik] Na verdade acho que até já aí fomos mais vezes… Tocámos em dois Super Bock Super Rock e depois voltámos não há muito tempo para tocar num armazém velho. Mas há já muito tempo tocámos numa discoteca, pouco depois de lançarmos o nosso segundo álbum. Mas sim, já aí estivemos algumas vezes. 

E já sabem o que vão tocar ou é ainda demasiado cedo para dizer?

[Yukimi] Ainda não temos bem a certeza das músicas que vão constar no alinhamento, mas estamos a planear algo eléctrico. Vamos assegurar-nos que levamos a festa até aí.

[Erik] Sim sim, isso ainda é segredo [risos].  

É a primeira edição do festival. Qual é a sensação de estrear um festival que ainda não foi testado?

[Erik] Sempre admirei as pessoas que se atrevem a montar um festival, porque é um monte de imprevistos e uma grande dor de cabeça para tentar arranjar uma mistura de bons sons. Há tanto para fazer. Se é a primeira vez que vão fazer um festival, acho que têm de ser bastante ambiciosos e ter grandes sonhos, mas vamos dar o nosso melhor para que o festival corra bem.

O alinhamento é bastante forte. Falaste do Madlib, por exemplo. Acham que visitariam o festival enquanto fãs pelo cartaz?

[Erik] Claro! Eu ia, sem dúvida. Os festivais de que realmente gosto são aqueles em que podes ao mesmo tempo fazer a festa e ter os teus filhos, boa comida e talvez ver umas bandas de culto do Senegal ou assim. Adoro os festivais que são extremamente abertos a todo o tipo de coisas e claro que o Madlib abre as portas a quem também não gosta assim tanto de ir escutar bandas que nunca ouviu falar.

Agora sobre a banda. O ano acabou de começar: quais são os vossos objectivos para os próximos tempos? Vão entrar em estúdio, fazer-se à estrada…

[Yukimi] Agora mesmo estamos a escrever imenso material novo, e estamos muito entusiasmados. É aí que está o nosso foco.

Mas também têm alguns concertos marcados.

[Yukimi] Não muitos, não estamos com uma agenda maluca. 

[Erik] A Yukimi talvez consiga expressar isto melhor, mas acho que os Little Dragon chegaram a um estado espiritual espectacular. Cada um tem as suas metas e jornadas pessoais, mas já estamos a fazer isto há algum tempo e acho que regressámos à fase em que éramos miúdos a tocar, sem querer saber do futuro e realmente a desfrutar do que fazemos. Sinto que, à medida que envelhecemos, nos esquecemos de como é aproveitar o momento e sinto que isso é uma busca que todos tivemos de fazer. E por isso relaxámos e entrámos nesse estado de espírito.

E isso reflecte-se na vossa música nova? Afinal disseram que estão a escrever coisas novas…

[Erik] Sim, sim! É exactamente isso. Foi uma longa viagem e tentámos perseguir o sonho de [sermos] estrelas pop, mas agora não estamos a forçar nada. Estamos só a deixar as coisas fluir e ser como são. E estamos muito contentes com o que estamos a alcançar.

E acham que isso seria desapontante para alguns dos vossos fãs mais aguerridos? É que eles estão habituados a algo, e a vossa música pode seguir caminhos diferentes.

[Erik] Compreendo o que queres dizer, mas não concordo. Por mais engraçado que seja, acho que, quanto menos tentarmos, a nossa ideia vai passar e vai ser mais genuíno e verdadeiro. Acho mesmo que de uma certa maneira a nossa música vai ser mais poderosa e apanhar mais ouvintes. Eu, se fosse um ouvinte, prestaria mais atenção a algo assim: mais frágil e genuíno.

[Yukimi] Não se pode realmente pensar nesses termos quando se faz música. Pessoalmente sempre adorei artistas que tentam evoluir a sua música para um patamar seguinte. Pode ser algo menos popular, mas a longo prazo e a nível interno, enquanto artista, não te podes reger pelo que as outras pessoas possam dizer. Assim torna-se difícil fazer seja o que for. E tenho a certeza que seja o mesmo em qualquer campo criativo e artístico, até mesmo talvez no jornalismo. Não se pode seguir sempre o guião. 



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