Lisb-On – Dia 1: Rave no Parque

[TEXTO] Diogo Pereira [FOTOS] Rodrigo Morais e Manuel Abelho

Paisagens verdejantes, copas de árvores a fazer sombra, piso de relva molhada, bancos de parque, puffs verdes e espreguiçadeiras, temperaturas amenas, uma brisa suave, toalhas de piquenique e formigas quase invisíveis a rastejar nas mochilas. Tudo isso contrasta com o sol escaldante, o piso de areia seca e a poeira levantada, presença habitual em tantos outros festivais de Verão, como o FORTE, que cobri recentemente.

Foi este o cenário que ontem acolheu centenas de lisboetas em pleno Parque Eduardo VII, no coração de Lisboa, entre dois hotéis de luxo e um restaurante de cinco estrelas. E o palco também teve os seus toques de originalidade, como o enorme arranjo de flores à frente dos decks dos DJs e a tela diáfana atrás dos mesmos através da qual foi possível ver, ao alto e ao longe, a estátua do Marquês de Pombal, bem como um efeito luminoso pitoresco que fez alguns dos arbustos parecerem pequenas alcachofras.

 


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Quanto ao público, foi possível ver famílias a fazerem piqueniques, alguns bebés embrulhados em mantas, crianças pequenas a colher malmequeres e gente de pés descalços a soprar bolhas de sabão. Um ambiente mais vespertino, descontraído, familiar e agradável, portanto, com mais gente sentada e deitada na relva do que em pé a dançar (pelo menos no início da tarde), e sem o habitual abuso descarado de estupefacientes.

Mas passemos à música. O primeiro dia começou com um showcase da Red Bull Music Academy. Oito artistas portugueses em palco (colectivo a que se chamou de Space Machine, em linha com as suas experimentações cósmico-electrónicas), em permanente colaboração, num constante entra e sai de palco. Cada concerto foi uma simbiose.

Ghost Wavvves abriu o festival, com ritmos mais downtempo e crocantes, a bater no ponto, e texturas ambient, mesclados com cut-ups vocais à velocidade da luz, a combinar o trabalho de pés de Dressin Red com os cut-ups de Prefuse 73. Uma bela forma de começar a tarde, altura em que se começaram a ver os primeiros moves do dia. E um momento delicioso em que nos ofereceu uma remistura de Modular Mix dos Air, com ritmos diferentes mas o mesmo sample de Gil Scott-Heron a derreter-se nos ouvidos.

Continuámos em modo chill-out com Rui Gato e Lunn e a ajuda de GPU Panic na voz.

Seguiram-se os :papercutz e a sua dream pop. Emmy Curl, com as suas calças vermelhas, top colorido e longos cabelos fulvos a dar um agradável e mui bem-vindo toque de cor, beleza e feminilidade ao palco, a par das flores, brindou-nos com a sua voz onírica e etérea, ecoada e processada por cima de batidas electrónicas hipnotizantes e o sintetizador de Bruno Miguel a disparar riffs para uma galáxia distante. E não esqueçamos a pandeireta de Emmy, a dar um toque mais folk.

 


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Contraste maior não poderia ser para com o reggae rap africano de Mushug e os seus mantras “Tenho o poder na mente, tenho o poder na palavra”. Mais uma vez a guitarra de Guilherme a ajudar com ritmos tropicais.

A ele juntou-se Jorge Caiado, que continuou o tom de dança com ritmos samba para gingar a anca, e momentos de jazz-house em território St. Germain, com improvisos de Fender em cima de batidas house.

GPU Panic e o seu techno agreste fecharam o showcase ao final da tarde com a sua combinação única de batidas insistentes, gritos xamânicos, estática, riffs analógicos e efeitos, incluindo uma miríade de bleeps e bloops, ondas de osciloscópio, ondas de dente de serra e sabe-se lá mais o quê.

Findo o showcase, seguiu-se Étienne Jaumet, metade dos Zombie Zombie, que nos ofereceu uma combinação deveras peculiar. Munido de um saxofone alto e um arsenal de sintetizadores, teclados e caixas de ritmos, incluindo uma 303, uma 808 e um theremin, foi disparando improvisos jazzísticos em cima de um riff de sintetizador e kick pulsante à Carpenter que fez o público dançar até a noite chegar. O realizador de Halloween ficaria orgulhoso.

 


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Kiasmos entraram ao pôr-do-sol com bastante fumo e jogos de luz branca a criar hype antes da sua entrada em palco. Um dos membros do dueto islandês permaneceu imóvel do lado direito em pose de sentinela, envolto em fumo, saindo pouco depois.

Janus Rasmussen, de cabelos esvoaçantes e mãos nas suas caixas de ritmos, disparava ritmos e baixos de abanar o chão, enquanto Ólafur Arnalds, nos teclados, lançava riffs oníricos de ambient. Uma dose de deep house de kicks e claps para dançar a noite toda, iluminada por um pó azul e verde que se dissolveu no ar e strobes brancos intensos, enquanto em cima de nós uma lua quase cheia nos observava.

Perto do final, e nada despiciendo, um bonito momento em que Janus saiu de palco, deixando apenas Ólafur a sós com o seu teclado, num jam à Tangerine Dream.

A noite fechou ao som de Sven Väth, que aumentou a parada com ritmos mais velozes e dançáveis, que transformaram o Parque Eduardo VII num autêntico Boiler Room. Curiosamente, não se muniu de caixas de ritmos e sintetizadores, mas um simples par de gira-discos. Quanto aos visuais, optou por raios de luz que saiam do centro do logótipo do festival na tela atrás de si, e que alternaram com ondas de osciloscópio.

 


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Papa Sven esteve em permanente contacto com o público, dançando de mãos no ar e ocasionalmente brandindo alguns dos seus vinis. E soube mantê-lo em alvoroço, emudecendo a batida por diversas vezes, apenas para a fazer regressar escassos segundos depois, ainda mais intensa. Um set que se manteve sempre entre o trance e o techno mais ácido e hardcore, sem nunca perder a energia e o foco no público. E guardou o uso de um curioso sample vocal para o fim, que curiosamente acabou por definir o ethos da noite, e exactamente o que o público queria: “Just a little bit louder, and clap your hands”.

Houve vários momentos caricatos no primeiro dia (como não podia deixar de ser), como a presença regular de um hype man que ia subindo ao palco entre os concertos com trajes cada vez mais exóticos, a começar por um roupão roxo de seda, seguido de um dashiki e um fato espacial prateado à Bowie.

Os próximos dias prometem algumas surpresas, como um toque de soul pelas mãos de Amp Fiddler ou o afrobeat de Tony Allen, sem descurar a música de dança no final de cada noite. Venham elas.

 


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