LINCE: “O álbum é como eu senti que devia ser”

[TEXTO] Miguel Alexandre [FOTO] Hugo Domingues

A presença é tímida, mas não é esguia. A voz é aguda, mas não treme. A música é algo permanente, mas pela primeira vez em nome próprio. A ideia do palco sempre foi uma constante na vida de Sofia Ribeiro. Natural de Guimarães, mas a residir actualmente na Cidade Invicta, a artista balançava-se entre o ballet e as artes plásticas, dando, ao mesmo tempo, um pezinho na dança contemporânea; no entanto, foi na música que encontrou a sua verdadeira forma de expressão: “Eu continuo ligada a várias áreas e a querer fazer parte delas. Acho que encontrei a melhor forma de me expressar através da música”, contou em entrevista ao Rimas e Batidas. A partir daí, o percurso foi moroso, mas progressivamente recompensador: de cover band de rock clássico nos tempos do Liceu à descoberta dos sintetizadores, lentamente trocou o piano por teclados e juntou-se em primeiro lugar aos There Must Be a Place, um consórcio que junta a banda de André Tentúgal com os Best Youth, para mais tarde se aliar ao projecto WE TRUST.

Mas não era suficiente. Havia mais para dar e ainda mais para aprender. Algum tempo depois, em 2016, Sofia estreou-se a solo e começou a responder por LINCE: um corpo de trabalho em que a cantora assume o controlo final das letras, da produção e da imagem em geral. Uma responsabilidade acrescida, diz a mesma, que lhe dá igualmente uma liberdade para exteriorizar todas as suas ideias, como também para se aventurar em algo novo: “É exigente e desgastante, mas a recompensa é maior”. De uma assentada, apresentou-nos os singles “Earth Space”, “Puzzles” e “Call Me Home”, os três retirados do EP de estreia, Drops — lançado no Verão do ano passado –, uma compilação de momentos serenos e introspectivos, que avaliam o tempo onde vivem as relações, acompanhada por uma forte componente electrónica.

Seguindo esta dicotomia entre sensação e produção, sempre coberta por um cariz fortemente emocional, LINCE edita agora o seu devido álbum de estreia: Hold To Gold. A abordagem é semelhante aos trabalhos anteriores, não dispersando muito daquilo a que o ouvinte está habituado: momentos íntimos, de estética delicada e limpa, com alguns ecos de registos musicais que roçam a dream pop e a electrónica de Sylvian Esso, Tennis ou até mesmo Charlift. Sofia recorre muito a composições clássicas para criar um elo de ligação entre o seu piano e as suas sensibilidades electrónicas. Na verdade, este novo disco é apaziguante, confortável, mas também intrinsecamente sincero. Há espaço para histórias pessoais, histórias de outrem e histórias do passado – tudo junto numa imensa vontade de viver o agora “mesmo com os seus dramas e tragédias”.

LINCE mostra-se segura da sua mestria e vai demonstrá-lo hoje, ao vivo, no Musicbox, em Lisboa.

 



O público poderá não estar tão familiarizado com a tua voz, mas sem dúvida já te ouviu anteriormente. Foste a teclista dos WE TRUST e dos There Must Be A Place, mas agora aventuras-te em nome próprio. Qual foi a necessidade de te afirmares enquanto LINCE?

Essa vontade já surgiu há muito. Eu comecei a compor antes de fazer parte desses projectos.

A minha história na música começa pela minha vontade de cantar. Não estudei música em pequena nem tinha ninguém próximo que estivesse ligado à área, mas o meu gosto crescente por música fez com que eu quisesse aprofundar as minhas capacidades vocais.  Depois disso veio a vontade de compor. Comprei um piano e comecei a juntar peças. Só depois disso me encontrei com pessoas que trabalhavam em música e surgiu a oportunidade de fazer parte de There Must Be A Place e WE TRUST.

Por isso, LINCE ia surgir mais tarde ou mais cedo. É o sítio onde as minhas músicas se fazem ouvir, e compor e tocar o que componho é o que mais prazer me dá.

 Grande parte das tuas músicas a solo foram feitas enquanto ainda estavas nas bandas. Achas que há uma influência directa dos teus colegas no teu trabalho ou querias, desde o início, distanciar-te do que compunha a música dos WE TRUST e There Must Be A Place?

Sinto que haja ou tenha havido influência directa. O que a Sofia faz é diferente e vem dela. O meu processo de composição é bastante solitário e nunca me vi a tentar fazer música a partir de uma ou outra influência. São coisas que surgem no meu espaço e manifestam o que vai em mim.

Uma coisa é o que eu componho e outra é partilhar o palco com amigos e tocar músicas deles.

Mas claro que as pessoas que te rodeiam te influenciam de alguma forma sempre. Acima de tudo, foram projectos que me fizeram crescer muito enquanto música, conhecer pessoas e chegar a palcos mais cedo do que esperava. E isso influencia sempre.

O interesse pela arte começou cedo: estudaste ballet e artes plásticas, mas ficaste pela música. Porquê? 

Não sei bem, na verdade. Eu continuo ligada a várias áreas e a querer fazer parte delas. Acho que encontrei a melhor forma de me expressar através da música. A dança também é extremamente poderosa para mim. As artes de palco em geral. Há uma força em estar em palco e te manifestares diante do público que é extraordinária.

A música tem um papel mais forte agora na minha vida porque acho que conjuga uma série de factores que a fazem ser perfeita para mim. A solidão da criação, a partilha com o público, expressar-me com a voz. O processo é incrível.

Qual é a tua primeira memória com música?

Lembro-me na infância, quando ainda era muito pequena, de cantar uma música e de ela me deixar a chorar depois de entender o seu significado. Era um galo cantor que nunca mais cantou.

É impossível, no entanto, negar a influência de várias expressões artistas nos teus vídeos, e nos teus visuais em geral. Parece que há uma correlação entre som, movimento e imagem. Gostas de ter esse controlo?

Gosto, sim. Eu acho importante que as diferentes áreas se respeitem, criando espaço entre cada uma delas, mas enriquecendo-se umas às outras. Uma coisa que gosto na música é que podemos envolver a imagem e o movimento com o som. E eu sou fascinada por essas áreas todas. Costumo ter ideias visuais para as minhas músicas e gosto, de vez em quando, de as realizar.

No entanto, adoro poder trabalhar com outras pessoas e que elas possam acrescentar algo à minha música. Quando o faço dou total liberdade para criarem. É muito bom haver cruzamento de áreas e artistas e o enriquecimento que isso traz ao trabalho.

Tiveste o controlo total em Hold To Gold, o teu álbum de estreia. Qual é a principal diferença em organizares um corpo de trabalho sozinha?

A principal diferença é a responsabilidade. As músicas foram compostas e inicialmente produzidas em casa, e com os sons, as partes e as palavras que desenvolvi.

A imagem do disco também esteve a meu cargo. Pensar em tudo o que envolve o projecto, como os concertos, a imagem, a produção e gravação das músicas.

Claro que isso traz uma responsabilidade acrescida e traz também dúvidas, incertezas mas grande satisfação e realização. É exigente e desgastante, mas a recompensa é maior.

O álbum é como eu senti que devia ser. Desde o início. Era o que eu precisava agora.

Acho que o principal é olhar agora para este disco e, aconteça o que acontecer, sentir que é o que tinha de ser neste momento e isso vai sempre deixar-me feliz.

O teu estilo varia muito entre uma electrónica, mas a tocar numa dream pop, ou talvez indie; contudo, vais ao mesmo tempo buscar influências em composições clássicas. Qual é o elemento principal que queres que as pessoas retirem da tua música?

Acho que é o que sentem com elas, onde é que a música as leva. É fácil sentirmos todos o que eu manifesto nas músicas e se as pessoas conseguirem sentir o que eu sinto com elas, é a melhor coisa.

Sempre foi difícil para mim definir o estilo da minha música e não acho que isso seja importante. A música é algo que chega às pessoas e mexe com elas de uma forma ou doutra. É isso que quero que aconteça com as minhas.

Há também uma grande nostalgia no teu trabalho. Em “Hold To Gold”, falas sobre envelhecer (“I’m becoming old”/”Fuck I’m old) e sobre este estado de incerteza do agora. Há para ti um medo do futuro ou uma insegurança do presente na tua música?

Há alguma, mas não sinto que esteja muito presente. Acho mais que há uma consciencialização do tempo, da fugacidade da vida e uma grande vontade de viver e de a aproveitar mesmo com os seus dramas e tragédias.

Na “Hold To Gold” há esse lado nostálgico que se transforma em força para viver no presente. “Hold To Gold” significa precisamente o dar valor ao que é valioso diariamente sem nos deixarmos levar pelo quão instável, fugaz e difícil é viver.

A tua composição acaba por ser autobiográfica. Qual é a importância para ti de partilhar algo tão próximo com a tua audiência?

Partilhar algo tão próximo é partilhar algo que é próximo a todos. Quando partilhamos algo íntimo com alguém criamos uma ligação forte com esse alguém. Falo de coisas pelas quais todos nós passamos, de uma forma ou de outra.

Além disso, a vida que eu partilho é aquela que me faz sentir e me faz querer criar. Depois uma coisa leva à outra e é inevitável partilhar isso com o público.

O que é, para ti, um “Overrated Love”? E já viveste algum?

Falo disso precisamente na música. Falo do que vivi e do que me fez sentir. É uma música calma, com um quê de irónico que fala da vulnerabilidade em que te encontras às vezes e, por isso, deixas os sentimentos crescerem uma enormidade. É o amor que colocamos num sítio maior do que lhe pertence. A música é suave, mas com intensidade e os acordes do fim são uma mistura de desilusão e esperança.

Vais apresentar este novo disco no Musicbox. O que se pode esperar do concerto?

Este concerto vai ser para apresentar o disco na plenitude. Vou tocar todos os temas, alguns deles nunca tocados ao vivo, e vou tentar criar um ambiente onde todos possam viver comigo as músicas.

Vou levar todo o meu set, com os meus synths e piano, mais umas novidades, e vou criar um espectáculo onde as músicas se unam ao movimento, à luz, e à partilha entre mim e o público.

Tens uma tournée mais extensa planeada? 

Há-de existir mas ainda está em construção.

 


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