LP / CD / Digital

Lido Pimienta

Miss Colombia

Anti / 2020

Texto de Miguel Santos

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Em 1960, Krzysztof Penderecki escreveu a assombrosa peça musical Threnody for the Victims of Hiroshima. A dilacerante composição para 52 cordas é uma “ode” ao terrível desfecho da Segunda Guerra Mundial que se abateu sob a cidade japonesa de Hiroshima, o caos e destruição da bomba atómica destilados em oito minutos de desconforto sonoro. É a arte a imitar a vida, a inspiração surge do horror real e alimenta o horror sonoro. Lido Pimienta dá um passo em frente e arte e vida são conceitos permutáveis e imprevisíveis.

A música da artista canadiana nascida na Colômbia é orgânica, natural, específica da experiência de Pimienta, e relata temas que são universais a todos nós. A sua voz de timbre agudo, não sendo brilhante, brilha, e os instrumentais complexos revelam uma união simbiótica entre tradicional e vanguardista. O seu começo no mundo da música remonta aos seus tempos na terra natal, Barranquilla, quando era a vocalista de uma banda de metal com apenas 11 anos de idade, impondo-se contra as políticas conservadoras do presidente Andrés Arango. 

Desde uma tenra idade que Pimienta tem muito para dizer, e com cada um dos seus álbuns parece mostrá-lo com mais convicção. Com La Papessa, a artista levou para casa o consagrado prémio Polaris, prestigiado galardão canadiano que a colocou no mapa e a adornou das credenciais aclamadas que a sua música já demonstrava. Miss Colombia é mais um passo em frente: Pimienta leva-nos numa espectacular viagem pelo seu universo musical, através da sua encantadora voz e melodias instantaneamente afáveis. 



Este álbum é uma continuação dos temas explorados em La Papessa, em que a consciência social da música é tão importante para a sua construção como os elementos sonoros que a compõem. Mas desta vez, Pimienta abraça ainda mais as raízes tradicionais da sua música: “Quiero Que Me Salves” conta com a participação do Sexteto Tabalá de San Basilio de Palenque, uma cidade fundada por escravos que escaparam às garras da tirania e habitada pelos seus descendentes directos. O simbolismo é claro neste tema que parece ter sido gravado nos sopés dos Montes de María, naquela que é a música mais em sintonia com as raízes colombianas da artista. 

Mas enquanto “Quiero Que Me Salves” é um clamor pela salvação, por uma cura para o ardor, “Pelo Cucu” é uma celebração da cultura negra, uma cor pela qual tantos sofreram e infelizmente ainda sofrem. “Resisto y Ya” aborda essa luta contra um sistema que muitas vezes é intolerante, e fá-lo de maneira agitada e incisiva. A sua marcha é de combate mas a rica instrumentação torna-a dançável, um regabofe revolucionário, e o refrão é explícito, uma mensagem incisiva e clara de uma artista que não vai cruzar os braços face às injustiças. 

A sua mensagem é transversal a muita gente, e de várias formas diferentes: há um lado humano e pessoal em temas como a doce e melancólica “Te Queria”, a erosão de uma relação que se acreditava ser incrível, enquanto “No Pude” responde a esse tema com tristeza entrelaçada no seu instrumental abrasivo e industrial. Há uma atenta introspecção, e até um perder total de esperança sob a forma de “Nada”, a excelente canção de embalar do zero absoluto que soa nos primeiros momentos do álbum. A ginga da cumbia colombiana está presente mas a roupagem electrónica deixa-nos um pé no presente. É sobre perder tudo, sim, mas também sobre resistir a tudo, seja no passado, presente ou futuro.

Essa resistência e esse combate incansável às adversidades estão presentes em todos os aspectos deste projecto. E mais do que isso, transparece a marca da artista, a sua individualidade e a sua abordagem específica à arte sonora. Há sempre algo de caloroso e vibrante na entrega de Lido Pimienta, e Miss Colombia mostra também que por trás das suas construções musicais há algo mais, que respira e sente, uma entidade melómana, o batimento cardíaco de notas e escalas que tomam forma física pela sua voz.


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