LEFT.: “Quero absorver o máximo de perspectivas neste momento”

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Direitos Reservados

Fixar uma palavra até que, inadvertidamente, por segundos, perdemos o seu significado: já todos sentimos o fenómeno que, em tradução livre, se pode chamar saciedade semântica. Considerando a centralidade da palavra “perspectiva” (em português e inglês) na nova fase da sua carreira, e as vezes que a menciona, é possível que António Graça esteja mais que saciado — mas o músico de 24 anos está só a começar a digerir tudo.

Como líder do quarteto Antony Left, venceu o Concurso Nacional de Bandas da Antena 3 em 2016 e fez-se a próxima grande cena do indie folk com o disco Influence. Agora com o nome LEFT., assume-se independente, não só como artista e a nível editorial, como também de expectativas e rótulos armadilhados. Como na geometria, a sua perspectiva requer três elementos: um observador, e é claro quem desempenha esse papel aqui; um plano de projecção, que conheceremos no lançamento iminente (do qual já se conhece o single “Indigo”); finalmente, um objecto, musical e pessoal, que tanto é produto de filtrar conhecimentos anteriores como de aumentar conscientemente a sua amplitude. E quantos mais pontos de fuga, melhor.

O Rimas e Batidas conversou com o artista no Cais do Sodré, entre humor auto-depreciativo e trauteios de SZA ou Nao. Enquanto LEFT., é feitor de pop fresca e fragmentada, trabalhando estruturas simples que se encruzilham em desafios melódicos e pessoais. São certeiras cartadas de um artista ainda em crescimento — travado pela incerteza, mas movido pelo instinto, e que na sobreposição de pulsões e tribulações encontra um bom miradouro para a pop nacional. O EP Perspective é o resultado, a ouvir em primeira mão no próximo dia 29 de Março, no Centro Cultural de Belém, como parte da programação do CCBeat.



António Graça, Antony Left, LEFT. — pouco tempo passou desde que te apresentaste pela última vez em forma de quarteto; chegaste a actuar no Super Bock Super Rock e gravaste o disco Influence. Como recordas essa fase?

Tudo começou numa altura em que andava a ouvir muito indie folk e [cantautores] como o Ben Howard — e levei logo essa dica de chapada, porque é um facto — e estava a sentir uma necessidade muito grande de me exprimir dessa forma, [pelo que] comecei a fazer essas músicas. Conheci através de um festival de música clássica para adolescentes [a minha banda] e inscrevemo-nos no concurso, assim a ver “bora lá, como é que corre”; correu muito bem, ganhámos, e foi assim um buzz que eu não esperava, foi um começo muito fixe. Até acho que, de certa forma, me levou um bocado para um sítio que eu não estava…

Não te sentias preparado?

Estava bastante verde — e ainda estou. Mas foi um princípio, uma oportunidade muito fixe, tocar com a banda foi muito bom. De qualquer forma, os membros começaram a separar-se por algumas razões mais laterais: o violoncelista foi para fora, a minha violinista também teve de sair… Como os temas sempre foram meus, a sonoridade era minha, e sempre tive um lado de produção muito forte, estar em casa a fazer beats no [FruityLoops]…

Portanto, eras tu que compunhas as músicas e só depois se juntavam para a interpretação ao vivo.

Exactamente. E como sempre fiz drum’n bass e electrónica desde o princípio, comecei a juntar os dois mundos e a perceber que podia fazer isto sozinho. Decidi fazer esta adaptação do projecto, em que LEFT. sou só eu, assumidamente, e em que puxo mais influências do que estou a ouvir agora.

Voltas a dar passos na indústria com um EP que se chama Perspective. De que perspectiva te vês, de que ângulo te queres mostrar neste disco?

Para mim, isso tem significado dentro e fora da música. Neste momento estou a trabalhar num estúdio de produção profissional, a Great Dune Studios, e lá faço tudo, acordo um dia e vou fazer música popular brasileira, no outro dia bandas sonoras para filmes ou anúncios, faço tudo e enquanto no início estava de nariz torcido…

Como me apercebi de que gosto de fazer tanta coisa diferente — ou seja, posso ouvir um kizomba e dantes ficava ew, hoje em dia penso “o que é que atrai as pessoas [a isto]”? Há aqui qualquer coisa: a sensualidade, a sequência da batida — há aqui algo que funciona. É nesta tecla que estou a bater no EP, eu quero absorver o máximo de perspectivas neste momento e fazer a minha própria, sinto que o EP espelha isso. Sinto que tem coisas de indie folk que eu trazia, cenas de r&b novas, coisas meio dark. Sobretudo, é uma recusa das caixas, do género.

Parece-me um projeto mais dinâmico, experimental — certo é que a escrita ainda se afigura melódica, ainda enraizada no pop, mas a execução musical é mais modular, como em “Velvet Gun” ou “Confident”, faixas do novo EP. Foi de propósito para tirar o tapete a quem te proclamava como o Ben Howard português?

Sem dúvida. Queria afastar-me dessa etiqueta e de outras, de forma geral. E também para fazer uma renovação: eu sou isto, quero afirmar-me mais como produtor, gostava de me começar a colaborar mais com pessoal do hip hop, fazer mais beats, que é algo de que gosto muito. E senti que este era o próximo passo.

Houve um momento particular em que sentiste essa mudança de perspectiva do mundo, da música?

Um momento é difícil dizer-te, mas uma coisa que eu senti bastante, por exemplo, foi a dar concertos. A minha música no Influence era uma onda muito “eu, as minhas músicas, os meus sentimentos” e nos concertos era muito assim. Às vezes sentia que havia uma barreira, queria estar a falar mais com as pessoas, a expandir-me mais — que eu fazia na mesma —, mas gostava de ter uma coisa mais uplifting, e estava um bocado preso pelo meu registo.

O teu material era o teu limite.

Exactamente. Então, decidi, “vou-me expandir”. E isso assustou-me um bocadinho ao princípio, até porque as pessoas ouvem música numa de identidade, [pode não ajudar] ser all over the place e fazer tudo.

O processo de composição foi algo solitário?

Fui eu e mais eu. O Miguel Ferrador ajudou como coordenador artístico e foi dando um feedback importante, mas a base criativa veio de um processo solitário. Até agora estou a transformar isto em banda para tocar ao vivo e é meio bizarro porque eu passei horas com estas músicas a por aquele pormenor ali, aquela cena ali, aquela intenção ali. Agora estou a passar isto para outras pessoas e é um pouco “não, não é assim! Não faças isso assim! Isso não!” É meio estranho. Mas sim, fui eu e mais eu. É uma cena que eu gosto e trabalho assim, e tem a ver com a minha personalidade, mas gostava também— até agora, sinto que ainda não me encaixei em Lisboa, já deves ter sentido a onda das [editoras], a Xita Records, etc. — há esses grupinhos, e sinto que nunca me encaixei muito num.

Até porque estás independente.

Sim. Tenho uma equipa que trabalha comigo, de destacar o Miguel Ferrador, o Pedro Valente (Azáfama) e a minha banda, mas não tenho editora, e gostava de me afiliar um bocado mais com o pessoal. A música é uma coisa comunitária e estou a perder esse lado. Por um lado, ainda não me encaixei num núcleo musical, mas sinto que estou a criar o meu. O pessoal da minha banda– todos são músicos, todos têm projectos, e acho que se está ali a formar uma comunidade musical de partilha de ideias, e sinto-me no princípio de algo novo, um colectivo.

Ainda sobre este EP, que concebeste de forma solitária — encontras-te a traduzi-lo para os palcos, com mais pessoas envolvidas; em simultâneo, estás a finalizar o disco. Tens de coordenar as manobras dos dois lados, é confuso?

É bué, é bué [risos] e mexe imenso comigo. Uma das músicas, “Confident”, fala muito sobre esta minha oscilação: um dia acordo, estou a fazer a minha cena, “bora lá”; noutro dia, “o que é que estou a fazer com a minha vida?” [risos]

Dá para sentir essa incerteza no ritmo soluçante da música.

Era a minha intenção, esses solavancos, é fixe, esse feedback é bom. Todo este processo tem sido assim, confiança e não confiança, mas faz parte. Acho que é uma coisa fixe de se explorar artisticamente— a vulnerabilidade, por exemplo no hip hop, em vez de ser só gajas e guito.

Mas o hip hop está a ter um ponto de viragem.

Sim, por exemplo o Slow J: “Às vezes dói, mas eu escondo”. Há tantos discursos, para quê insistir no fuck bitches, get money?

Estás a ir para um formato de banda, obviamente já experimentaste muitos formatos, mas sentes-te mais confortável ao vivo com uma banda? Por acaso pensava que seria um formato mais solitário, mais máquina e voz.

Idealmente, na verdade, eu gostava— isto é chato, porque o pessoal da banda vai ler [risos] — acho eu, se calhar não querem saber. É lixado, porque eu gostava de ser [só] eu e uma série de máquinas e a cena fazia-se, mas tinha que estar a investir tanto tempo e tanto material, que eu acho que esta solução a curto-médio prazo é mais fixe. Além de que é bom partilhar música; gosto de estar com a banda, sabe muito bem, mas eu acho que para este projecto faria mais sentido estar sozinho. Ainda assim, acho que ao vivo vai ganhar, até pela comunicação entre o pessoal.

Frequentemente dizes que “a música ter de ser trabalho de casa não é fixe” — como é que isso se coaduna com a tua evolução enquanto artista, até chegares a esta nova fase? É sempre algo espontâneo?

Inicialmente, era muito espontâneo, numa de ter uns acordes, colocar uma melodia por cima, [ser levado pela] inspiração, “vomitar” músicas. Agora, com esta experiência que tenho ganho em estúdio, percebi que fazer música, a certo ponto, é como outro trabalho qualquer. Há ferramentas que podes usar para fazeres música — eu chego ao estúdio e não estou constantemente inspirado, ou com o melhor mood de sempre, portanto há ferramentas a usar.

Houve uma entrevista que falavas de frustração, comichãozinha com a indústria portuguesa. Agora que estás a entrar num novo projecto, como é trabalhar independente mas apoiado por uma equipa, mas como andas essa linha?

Acho que estou menos [frustrado], menos complexado, menos eu contra o mundo. As coisas são o que são, a indústria portuguesa é como é; acho que não está muito virada para aquilo que estou a fazer agora. É tranquilo. Estou a cantar em inglês e agora houve uma mudança mais para o português — o que eu acho super bem, a nossa língua é muito bonita, há muito para explorar nisso, e há pessoal que está a fazer isso de forma exemplar, especialmente no rap. Artistas a quebrar barreiras, como Mike El Nite, ProfJam, Slow J. Sinto outros géneros algo estagnados, mas há aí cenas muito boas e eu quero cantar em português eventualmente, só sinto que ainda estou muito foleiro, preciso de trabalhar nisso.

Não estou zangado com a indústria portuguesa. As coisas vêm naturalmente: se eu chegar às pessoas, que isso é o lixado hoje em dia — há tanto “ruído”, tanta música a ser lançada todos os dias, que é difícil chegar às pessoas. Como eu estou a trabalhar num estúdio por causa do meu primeiro álbum, acho que as coisas vão ao sítio.

Ainda estás numa nova fase, de transição. É sempre significativo lançar um EP e não logo um álbum.

É uma renovação, como uma foto, um snapshot — isto sou eu, agora.

Como foi filmar o teledisco para a “Indigo”?

Foi porreiro. Falei logo com o Ricardo Leite, um realizador que, além de videoclipes, faz muito cinema (especialmente curtas), mega talentoso, muito bom. Disse-lhe que queria um videoclipe de mood, nada muito narrativo, umas imagens fixes e que acompanhassem bem o [tema]. Gostava de o fazer para mais músicas, dado que acho muitas músicas muito visuais — por exemplo, a “Confident”, gostava de arranjar uma narrativa à volta daquilo, mas também é preciso dinheiro [risos]. Tenho que ir gerindo isso.

E esse vídeo já é ilustrativo: mais desenvolto, com uns passos de dança.

O vídeo da “Evil” foi um processo muito interessante, completamente diferente.. Fizemo-lo em duas ou três semanas, várias localizações, ajudei muito na realização. Este foi um dia que fomos para uma piscina abandonada.

É isso, epá, agora que estou a falar contigo e paro e vejo the whole picture, fixe, é um processo giro, interessante e de auto-conhecimento.

Se bem que na altura se calhar não é sempre assim tão fácil.

Era o que ia dizer. Nesse clipe, também senti oscilações — estava uma câmara à minha frente e eu a dançar e eu ‘tava a pensar “the fuck, isto não sou eu, eu sou o gajo do Young Souls, devia estar no quarto a jogar”. Mas faz parte. É meio lixado, mas é um vício, não consigo parar de fazer música, portanto isto é o que vem com a cena.

O espetáculo no CCB será já um ensaio para outras apresentações em 2019?

Não quero dar muitos concertos, porque a fase em que estou é mais de produção, não tanto de tocar ao vivo, mas aqueles que forem fixes quero fazer. Essencialmente, quero trabalhar com mais gente.

Já estás a pensar num álbum?

Já. Por acaso queria fazer um outro [trabalho], que vai depender da quantidade de pessoas com quem trabalhar. Mas queria puxar os artistas na indústria portuguesa cujo trabalho curto bué, e tentar fazer uma coisa fora da caixa em que as puxe para fora de pé.

Como fizeste a ti mesmo.

Exacto, vai ser um convite. Eu colaborar com um artista por faixa em que tentamos fazer uma cena meio fora do que se está à espera. Ainda tenho que magicar isto tudo, entretanto vou tendo cada vez mais contactos e dá para chegar a mais pessoas.


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