Leak e like não são a mesma coisa: Dr. Dre e o novo Compton: A Soundtrack

Ao navegar hoje pelo feed do Facebook deparei-me com uma notícia do nosso “vizinho” Rap Notícias a apontar para um leak do álbum de Dr. Dre, gesto que levanta muitas questões de natureza ética. A primeira e mais premente pergunta que se deve colocar prende-se com a diferença entre Dr. Dre e, por exemplo, Sam The Kid ou Mundo: seria legítimo um site que se afirma como portal noticioso contribuir para a disseminação ilegal da música de artistas que lhe são geograficamente próximos? E é essa a distinção que se deve fazer? Okay noticiar leaks de artistas americanos, nada cool fazê-lo em relação a artistas nacionais?

Num momento em que as alternativas aos media tradicionais se procuram afirmar jogando trunfos óbvios como a versatilidade, adopção de plataformas multimédia e, claro, rapidez no fluxo de informação, este tipo de gesto editorial assume-se como um travão ao reconhecimento por parte da indústria mais vasta da validade de propostas de comunicação como a que queremos fazer vingar e como uma mancha na seriedade ética que deveremos obrigatoriamente impor nos nossos trabalhos.

Claro que, jornalisticamente falando, não deveremos ignorar o mundo em que vivemos. E neste universo, os leaks – como de resto os likes – são uma realidade quase incontornável. E a verdade é que apontar caminho para uma forma ilegal de ouvir um disco quando ele está legalmente disponível com igual facilidade parece infantil, gesto só justificado com a vontade de afirmar “cheguei primeiro”. Não se trata de chegar primeiro, no entanto, mas de chegar bem.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu