Le Parole Sono Importanti!

[TEXTO] Francisco Noronha [FOTO] Direitos Reservados

 

Quando Nanni Moretti filmou “a” cena de Palombella Rossa (1989) – uma das mais icónicas de toda a sua filmografia –, estava certamente longe de imaginar que as suas palavras (precisamente) ecoariam com uma urgência ainda maior – muito maior – em 2016 do que em 1989. No filme (o diálogo completo aqui), Moretti exaspera-se com uma jornalista que, na sua boçalidade e ânsia “noticiosa” (e estávamos, à época, ainda tão longe dos canais televisivos, sites e páginas de Facebook dedicados exclusivamente a “notícias”…), se serve das palavras sem critério, banalizando-as, vulgarizando-as, violando a sua lídima dignidade. “LE PAROLE SONO IMPORTANTI!!” (“As palavras são importantes!!”), explodia Moretti – já depois das “dores de coração” sentidas ao ouvir expressões como “kitsch” – , e nós, espectadores (os de 1984 como os dos anos 2000), compreendendo a sua angústia, afundávamo-nos na cadeira.

 


Come parla?! Come parla?! Le parole sono importanti!! Come parlaaaaaaaaaa?!

 


Isso era em 1989; em 2016, já não nos afundamos, porque agora estamos debaixo da cadeira, escondidos, assustados, confrangidos com o modo como as palavras são, nos dias que correm, ruído, saliva, movimento bocal e pouco mais. Perderam a sua substância, o seu peso, a sua carne, a sua verdade. Sim, verdade – a era da “pós-verdade” na qual todos descobriram agora que vivemos não é de 2016, já vem de há uns anos (o termo em si remonta aos anos 90), mas foi preciso um mentecapto como Donald Trump chegar à presidência do (ainda) mais poderoso país do mundo para “analistas” e “comentadores” – justamente um dos grupos responsáveis pela vulgarização da Palavra no século XXI – encherem a boca com a sua suposta e iluminada descoberta. Trump é esse candidato à presidência dos EUA que afirma, na televisão e para milhões de pessoas, que fugiu aos impostos e que é esperto (“smart“) por isso. Consequências para uma afirmação deste calibre? Nenhumas, a não ser a sua… eleição. Porque é que isto acontece?

 



Por numerosos motivos, um dos quais sendo, e para o que aqui interessa, o caos informacional em que vivemos: depois de vermos essa afirmação partilhada por algum amigo no Facebook e abrirmos a boca de espanto (e, quiçá, de colocarmos o emoji respetivo), o dedo faz scroll up e já os cães da vizinha se passeiam na praia, já o gato de uma amiga com a pata em cima do comando da televisão nos entrou pelo ecrã adentro; logo acima, mais uma acéfala laracha do Bruno de Carvalho sobre os 350 títulos nacionais em crochet que são injustamente devidos ao Sporting; um bocadinho acima ainda e o top 10 de 2016 dos Cahiers du Cinéma e respectivos indignados de serviço a comentar; e eis que, notícia de última hora, Britney Spears morreu; logo, logo a seguir, o enésimo gag de uma fulana chamada Maria Leal; senão quando… notícia a desmentir a notícia da morte de Britney Spears, seguida de artigo de opinião sobre a pandemia das notícias falsas a circular no Facebook e, ainda, de uma “última hora” sobre a possibilidade de os países começarem a aplicarem multas ao Facebook por causa dessa mesma pandemia… E por aí fora, entre cultura highbrow, lowbrow e muitos, muitos fait divers.

Terminado tudo (mas nunca termina…), não houve tempo para nos indignarmos, com uma réstia de seriedade, sobre aquela primeira afirmação de Trump e, mais importante, para reflectirmos com pés e cabeça e formarmos uma opinião longe das palpitantes “caixas de comentários”. Até podemos memorizar (alguma coisa, enfim, há-de ficar), mas não processamos, não assimilamos. À míngua de tempo para reflectirmos sobre os dados que nos chegam e consolidarmos um pensamento próprio, passamos “à frente de” (pós-, justamente), “saltamos” a verdade, os factos, as palavras. Pós-verdade, pós-factos. É que há mais feed para consultar, senhores! Por amor de Mark Zuckerberg! E se isto é assim com posts do Facebook, pergunto-me quantos serão os que ainda lerão artigos do princípio ao fim ou, insânia das insânias, um livro.

Paradoxalmente, porém, é neste mesmo caos informacional que não deixa tempo para pensar que todos querem ter uma “opinião” sobre tudo, que todos desejam “achar” algo sobre alguma coisa (como se sabe, desde os primeiros hominídeos que a propensão para falar sempre se superiorizou à de ouvir). Tempo do “achismo” que se sintetiza num episódio que relato na primeira pessoa: quando a “questão Dylan” rebentou (bocejo), uma colega de trabalho, nervosíssima, confidenciou-me do outro lado da mesa: “Ó pá! Estava aqui há séculos no Facebook a ler opiniões a favor e contra, e estava tão ansiosa por não saber que posição eu própria tenho para poder manifestá-la… E depois pensei: «Porra, mas eu não tenho que ter opinião nenhuma sobre isto!!» E foi tão libertador!”. Eis o curioso e perverso efeito no final do dia: no prometido Eldorado da liberdade de opinião e informação que são as “redes”, os próprios utilizadores acabam constrangidos, sem vontade de se exprimir e, pior, sem conseguir formar, no meio do turbilhão, uma opinião sólida sobre coisa nenhuma.

 



Aos recém-iluminados acima referidos importará lembrar que a “pós-verdade” se liga, obviamente, a um fenómeno maior chamado pós-modernismo, o qual tem declinado em múltiplos termos cujo prefixo pós- (ou post-) é, muitas vezes, um umbrella concept para muita coisa e coisa nenhuma, sobretudo quando não se sabe como enquadrar determinados movimentos ou correntes (até na música: “post-rock”, “post-punk”, etc.). A pós-verdade pode, por isso, ser vista como mais um “trend” do pós-modernismo (com toda a flutuação e, por vezes, vacuidade própria dos “trends“), e a ela (pós-verdade) também pode ser associada uma outra “era” em que vivemos: a da pós-palavra. Isto Anda (mesmo) Tudo Ligado, como cantava o Sérgio Godinho…

Pós-palavra, então. Há algumas semanas atrás, perante uma difícil sequência de resultados e exibições, Nuno Espírito Santo, treinador do F.C.P., proferiu a sentença que alguns, como eu, remoíam na cabeça há muito tempo: “As palavras já não têm significado”. Não é figura de estilo, a frase foi dita textualmente assim. A afirmação de Trump que sublinhei acima e as “redes sociais” são o confrangedor  e fiel espelho disso mesmo. Todos os dias, milhões de Facebookianos, dos mais aos menos eruditos, “postam”, por exemplo, uma fotografia do vidro de carro com gotas de chuva acompanhada das palavras “raining” ou “chove”, ou uma “selfie” no elevador acompanhada da palavra “elevator” – com ou sem cardinal antes, conforme a maior ou menor voracidade na subordinação aos códigos das “redes”, numa demonstração de como a construção – frásica, até! – de um discurso (e este termo ser-nos-á fundamental para o que refiro mais abaixo) está de tal modo desprezada que tudo se pode escrever em meia dúzia de “hashtags” (espécie de palavras-interjeições) e emojis, no que se revela, além do mais, uma confrangedora infantilização desse mesmo discurso. Todos os dias, milhões de pessoas não se importam – pelo contrário, sentem-se motivadas, entusiasmadas, compelidas (obrigadas?) – de utilizar palavras que os seus contactos acabaram de utilizar no minuto imediatamente anterior: “about last night”, “só que não”, “top”, “room with a view”, “throwback”, etc., etc.. Paradoxal e esquizofrenicamente, esta absoluta banalidade e redundância de expressão é acompanhada de um desejo em permanecer “original” ou “diferente” no oceano da uniformidade. Há uma consciência generalizada e, até, uma certa vontade em contrariar a massificação na qual se vive submergido, mas todos acabam a falar, a expressar-se, a comportar-se exactamente da mesma forma. E as palavras, as desgraçadas, são as primeiras achas que vão para a fogueira cujo resultado final é, no fim da noite, a cinza das ideias e do pensamento.

Tempos houve em que o pensamento crítico confrontava estas tendências de massa banalizantes e vazias de sentido – mas hoje, onde está esse pensamento? Não está, porque todos – tirando algumas excepções, que só confirmam a regra – foram absorvidos pela forma de estar das redes sociais e ninguém parece importado com isso, das correntes neo-marxistas às difusas e politicamente desalinhadas correntes do pensamento alternativo e contra-cultural. Da mesma forma que ninguém parece importado com esta nunca vista invasão à privacidade que as “apps” constituem. Na realidade, não conheço ninguém que verdadeiramente se incomode com o facto de, através de uma app como a Uber, os seus passos estarem permanentemente monitorizados, nem com a circunstância de, ligando-se ao wi-fi das suas empresas, os dados trocados com os seus amigos (mensagens, fotografias, vídeos, etc.) passarem a ser controláveis pelos seus empregadores – como me disse um amigo neste Verão, “Mas qual é o problema? Tens conversas assim tão secretas?!”. Uma vez mais, o menosprezo pelas palavras, pela sua intrínseca humanidade, pela sua sensual clandestinidade. Será mesmo preciso explicar a gente nascida em democracia (mas talvez o problema seja esse mesmo…) e numa era de admiráveis progressos humanísticos que não interessa se essas conversas são ou não “secretas”  mas sim que, por princípio, toda e qualquer conversa diz respeito apenas e só aos seus interlocutores? Será mesmo preciso dar a ver a esta gente, correndo o risco da caricaturização (“oh, pronto, lá vêm eles com o Hitler…”), um filme como O Filho de Saul (2015, László Nemes) e as palavras que, qual derradeiro sopro de vida, aí são sussurradas, “contrabandeadas”, como tão perspicazmente escreveu o meu colega Carlos Natálio?  Uma boa parte de nós cresceu com as grandes distopias literárias de Orwell ou Huxley na mesinha de cabeceira, espécie de bíblia crítica que erguíamos na hora de defender causas. Hoje, quando já vivemos numa sociedade em muitíssimos pontos semelhante às prenunciadas por tais autores, parece que não nos incomodamos. Aliás, não parece, não nos incomodamos mesmo, antes nos submetendo, voluntária e acriticamente, às suas dinâmicas.

 



Retomando a cena de Moretti, apetece gritar novamente: AS PALAVRAS SÃO IMPORTANTES! Tenhamos cuidado com elas: pesemo-las, não as desbaratemos, pois que elas são valiosas, preciosíssimas. Em boa verdade – e este é o ponto fundamental que pretendo explorar para fazer a ponte com o hip-hop –, a reduzida exigência que temos revelado na sua utilização está em estreita correspondência com a exigência que colocamos nas palavras que ouvimos de terceiros. Trazendo o assunto para a música, refiro-me à (falta de) exigência que colocamos nas palavras de artistas e, no campo que me é mais caro, de rappers. Nos últimos anos (sobretudo nos últimos dois), tenho-me espantado com o modo como muitos rappers têm conquistado públicos, desde críticos que tenho em boa conta, passando por amigos que sempre considerei exigentes em relação àquilo que lhes dizem através de umas colunas de som, até simples anónimos. Como é possível que nomes como Future ou Desiigner, gente que não tem uma ideia, uma visão, um discurso próprio sobre absolutamente nada possam ter a recepção e aceitação generalizadas que têm? E não estará isto relacionado com o facto de, hoje, muita gente já não ouvir música mas visualizar música, ou seja, videoclips? A sobreposição da imagem ao som, do vídeo à música, do estímulo visual às palavras. Por isso, quando partilho uma canção, tantas vezes me perguntam: “Mas porque é que não partilhaste também o videoclip?” (e sabemos como este “também” é, na verdade, um “sobretudo”). Porque isto é, antes de mais, música, palavras que foram feitas para serem escutadas. Só.

Estarei a ser demasiado exigente? E se sim, será que chegamos a esse triste ponto em que ser “demasiado exigente” é não ver interesse em gente que rappa, em todas as 10 faixas de um álbum, sobre as drogas que consome (ao mesmo tempo que incentiva os outros ao consumo, e agora já não é só a cannabis, a cocaína e as pastilhas também já são “cantáveis”) e o dinheiro que arrecada? Nunca fui um “purista” (no hip-hop e em coisa nenhuma), aprecio a diversidade e a diferença, pelo que estou à vontade para dizer isto: ainda bem que há rappers a poder viver do rap (e que sejam muito ricos!, vivo bem com a riqueza dos outros), mas o que eu desejo ouvir e que me faça pensar não é rappers a falarem disso mesmo – ou, pelo menos, não quero que falem, única e exclusivamente, sobre isso mesmo, e, quando o fizerem, então que o façam com mestria e coolness.

 



Aprender a Rezar na Era da Técnica é o título de um dos mais premiados livros de Gonçalo M. Tavares. Apetece-me lançar o repto: Aprender a Rappar na Era da Técnica. Digo-o porque, actualmente, muito boa gente (a começar na própria imprensa especializada) nos quer convencer de que um bom rapper é aquele que enche o seu texto de técnica, i.e., skills: duplos sentidos e trocadilhos, rimas multissilábicas e inversões fonéticas, métricas complexas, flows desconcertantes, refrões auto-tunados. Lamento, não é. Era o mesmo que reconduzir a literatura a uma estrutura técnico-formal, como se tudo o resto – o que está lá dentro (a narrativa, ou a falta dela, as personagens, os diálogos, as emoções, as fantasias, os sonhos) – fosse, por artes mágicas, secundário ou ornamental. O rap sempre viveu de ideias – não confundir com a famigerada “mensagem”, porque essa, na arte, não interessa para nada, a liberdade é a única regra e quaisquer outras valem tanto como o bolívar venezuelano por estes dias –, da criação de discursos que podem – e devem – ser o mais variados possíveis (políticos, niilistas, surrealistas, poéticos, introspectivos, denunciadores, geeks, cómicos, o que for). Mas, ainda e sempre, discursos.

Embora a questão não se coloque, de todo, num plano binário do tipo “boom bap vs trap” – há boom bap de palavreado vulgaríssimo e há trap inteligente, o factor distintivo está na vertente sónica, não na lírica –, o certo é que grande parte do trap (repito: “grande parte”, pois há trap interessante e com coisas para dizer ao mundo) que hoje ocupa o espaço mediático é, em termos discursivos, confrangedoramente paupérrimo, se bem que, estatisticamente, claramente avassalador: refiro-me aos Futures, Desiigners, Lil Yatchys, Young Thugs, 21 Savages deste mundo. Gostos são gostos, não o discuto, e toda a gente é livre de fazer (artistas) e consumir (público) o que lhe aprouver (e ainda que bem assim é). Da mesmíssima forma, eu também sou absolutamente livre para questionar essa adesão em massa a artistas que fazem da palavra o seu caixote de lixo. E não é apenas a ausência de um discurso ou de uma ideia que se veja que me impressiona; é, também, a gritante mesmidade desses artistas, a indiferenciação substancial que nos impediria de os distinguir não fosse, enfim, o facto de as suas vozes serem diferentes (embora o auto-tune, por vezes, até isso torne igual ou semelhante). Historicamente, os grandes rappers – e, já agora, os artistas na música em geral – sempre se notabilizaram por serem aqueles que conseguem juntar a uma técnica e a um flow talentosos uma capacidade para transmitir ideias, emoções, visões sobre o mundo e sobre si, enfim, a capacidade para construir um discurso, qualquer que seja a sua matriz criativa inspiradora.

Por isso é que, com 2016 a terminar, urge que voltemos ao que realmente ficará deste ano, às palavras que verdadeiramente interessam: as de Keso, NBC, João Tamura (no EP Hokkaido, com Holly), J-K, Samuel Úria, Anderson .Paak, David Bowie, Oddisee, J. Cole, Leonard Cohen, De La Soul, Isaiah Rashad, Frank Ocean, Common, Chance the Rapper. O álbum de J-K é um bom exemplo do que pretendo transmitir: não tendo sido um trabalho que me tenha tocado por aí além (nem sequer figura na minha lista do ano), reconheço-lhe, porém, um enorme cuidado e sensibilidade na utilização da palavra e na criação de um discurso próprio. Os Corona são outro: não tendo a preocupação em elaborar um discurso “sério” ou “consciencioso”, constroem, em todo o caso, um discurso, têm palavras e ideias próprias e interessantes para transmitir sobre um determinado mundo.

 



No filme O Sacrifício, do russo Andrei Tarkovsky, o pequeno filho de Alexander termina o filme, depois de evitado o apocalipse nuclear, perguntando(-se): “«No princípio era o Verbo»… Porquê, papá?”. Talvez precisemos de voltar ao “princípio”, “à base”, ao “verbo”, ou seja, às palavras. O mesmo lugar de onde partiu o Pacman nos Da Wasel: “No princípio era o verbo, a palavra e depois a rima / Que provocou reacções como se fosse uma enzima / No princípio era a tesão, a fúria e a sofreguidão / Depois veio a calma à procura do saber e a satisfação / Inspiração para uma vida melhor, um caminho melhor / Um mundo melhor, para uma pessoa melhor”. Talvez precisemos de um reboot, de um re-aprender da linguagem (palavras, símbolos, significados e significantes) como o que Amy Adams empreende em Arrival (2016, filme de Dennis Villeneuve ao qual pertence o still que encabeça este artigo).

Ao contrário da “morte das palavras” que por aí tanto se apregoa, elas são, em 2017, mais importantes do que nunca – é que, para passarmos das palavras aos actos (como Alexander no filme de Tarkovsky), temos que ter, previamente, as palavras certas, as palavras justas. A começar por uma: NÃO!. Não à extrema-direita e às forças políticas racistas e xenófobas que espreitam em França, Alemanha e Holanda, não à silenciosa investida de Putin no leste europeu e ao assassínio de jornalistas pelo caminho, não ao terrorismo facínora praticado em nome do Islão, não à “trumpização” do discurso político e à banalização do cretinismo que ele encerra.

Francisco Noronha

Jurista, investigador universitário e crítico de música e de cinema em diversas publicações. Autor do programa de rádio "Regresso ao Futuro" (Antena 3, Rimas e Batidas). obosforo.blogspot.com.