Lazuli: “Prefiro fazer coisas mais difíceis, e errar mais, mas sentir que valeu a pena no fim”

[TEXTO] Paulo Pena [FOTO] HUGOOLI

Em tempos de guerra descemos à trincheira de Lazuli para conhecermos melhor o soldado por detrás da arma sonora. Em mais uma quarta-feira como todas as outras, Rui Afonso, o produtor portuense mais conhecido por Lazuli, apresentou-se ao serviço para executar as suas funções na retaguarda, longe dos grandes palcos, das grandes batalhas, e falar connosco sobre formação musical, os placements com impacto e, entre outros assuntos, projectos para o futuro.

Para quem fala através do som, o músico de 21 anos tem muito a dizer, a contar, como se vai percebendo pelo seu trabalho — basta ouvirem as suas produções em temas de Harold, Bispo, Jimmy P ou Wet Bed Gang, falando das mais recentes. E a sua ascensão notória e acelerada não é fruto do acaso (e valeu-lhe créditos em “DO YOU LOVE HER“, faixa do último disco de Jessie Reyez, por exemplo). É preciso conhecer a música para fazer música. É preciso conhecer as regras da batalha para ganhá-la. E é isso que distingue Lazuli dos seus pares.



Esta situação que vivemos está a afectar-nos a todos. Ainda assim, enquanto produtor, este isolamento forçado não interfere significativamente com o teu trabalho diário. Como têm sido estes dias nesse aspecto? 

Ainda há uns dias falei sobre isso com um amigo meu. O meu trabalho sempre foi em casa, por isso continua assim. Claro que agora não posso estar em estúdio com a malta, mas até tem havido mais colaboração, porque toda a gente está em casa. Por exemplo, nestas últimas duas semanas, poucas foram as coisas que fiz sozinho. Se for à minha pasta, quase tudo são colaborações com outros produtores, artistas ou instrumentistas. Nesse aspecto, é positivo, e acaba por custar menos do que noutra profissão. Ainda por cima, estou habituado a ser “produtor de quarto”, por isso é um bocado mais do mesmo, só que durante mais tempo. 

Estudaste música durante bastante tempo no conservatório. Continuas a estudar nessa área? 

Sim, estou a estudar produção musical na ESMAE, no Porto. Estou no último ano. No conservatório, entrei no meu primeiro ano, em regime suplectivo, ou seja, estudava numa escola “normal”, e no conservatório como extra-curricular. Depois, do 5º ao 9º ano, estudei mesmo lá. Fiz o curso complementar de música, em que tinha as disciplinas obrigatórias, mais as de música. E no secundário fiz o curso de Ciências e Tecnologias fora do conservatório.  

Dada essa educação musical mais teórica que tiveste desde sempre, como é que surgiu a produção, em especial no hip hop? 

Aconteceu por volta dos meus 12 anos. Sempre gostei imenso de música. E na altura estudava percussão, por isso, tinha de estudar instrumentos como o xilofone ou a marimba, e não tinha uma marimba em casa. Mas tinha um sintetizador, daqueles que nem se ligam ao computador, uma espécie de um piano pequeno que dava para tocar alguns sons. Então, lembro-me de passar mais tempo a construir melodias para mim, naquela curiosidade de miúdo.  

Até que um dia estava a jogar computador, e a minha mãe perguntou-me porque é que eu não instalava um programa qualquer para produzir música. Claro que na altura não dei o braço a torcer, mas, mal ela saiu da sala, fui logo pesquisar como é que se fazia música online. E o primeiro programa que encontrei nem tinha um software para instalar. Fazia-se directamente no site. Só que rapidamente esgotei todas as funcionalidades – era um programa muito básico. Por isso, continuei a procurar, e foi aí que me apareceu o Fruity LoopsInstalei, e no início foi uma grande dor de cabeça até perceber como funcionava.  

Em relação ao hip hop, na altura não ouvia muito. Comecei a produzir mais na onda EDM, electrónica. Só entrei no hip hop mais a sério há cerca de quatro/cinco anos. Já ouvia, mas não estava nas minhas primeiras opções. E como tinha a escola clássica, acabava também por ouvir muita música desse género, além de jazz, soul, música brasileira, etc. 

Quando começaste a produzir hip hop tinhas alguma referência, nacional ou internacional, na produção? 

Acho que nunca tive uma referência no sentido de seguir essa pessoa. As minhas referências eram de malta que eu gostava de ouvir, e não tanto ao nível de progressão de carreira. Sempre tive um consumo muito empírico, à base daquilo que gosto ou não. Por isso, nesse sentido, nunca tive uma linha a seguir. E a minha formação musical teve alguma influência nisso. Claro que não é obrigatório saber a teoria, tocar um instrumento, ou sequer saber o que é um Dó, para fazer música. Mas ajuda, e muito, seja a nível criativo, seja na própria logística da produção.  

E achas que essas bases musicais foram a causa da tua rápida ascensão? 

Sim, talvez no sentido de conseguir fazer coisas mais diferentes que as pessoas não estão habituadas. Por exemplo, numa progressão de acordes básica, basta adicionar um acorde mais jazzy ou na onda da bossa nova –porque tenho esse leque de vários espectros que sempre ouvi – para esse detalhe fazer a diferença, que as pessoas podem não perceber, mas sentem esse sabor diferente. Isso ajuda-me a ter uma abordagem mais fresca, e a não ficar pelo type beat. Tenho 21 anos e estudo música há 16. Não ia ficar satisfeito a fazer type beats. Não querendo parecer arrogante, mas é como teres um Ferrari e só andares a 20km/h. Nesse sentido, acho que consigo dar mais, porque tenho essas ferramentas. Prefiro fazer coisas mais difíceis, e errar mais, mas que no fim sinta que valeu a pena. É esse o meu mindset.



Como surgiu a tua participação n’O Game da WTF e o que retiraste dessa experiência? 

Por acaso, a música que mandei até tinha voz. Tinha sido produzida por mim mas havia umas partes cantadas pelo meio. E enviei essa por engano, porque era a versão que já tinha vozes. Passados uns dias recebi uma mensagem de volta a perguntar se eu queria concorrer como produtor ou cantor. No início nem percebi a pergunta. Só quando fui ouvir outra vez é que vi que tinha enviado essa versão, e, depois, sim, respondi que estava a participar como produtor. E o resto foi o que foi. Entrei, e fui fazendo. A experiência em si até foi melhor ao nível de conhecer as pessoas, foram todos incríveis. Ainda agora estamos quase todos a trabalhar uns com os outros. Criámos uma ligação pós-O Game, que foi o melhor que retirei de lá, mais do que o concurso em si. 

Qual foi a primeira grande produção em que sentiste o reconhecimento da tua qualidade como produtor? 

Não tenho um momento em que possa dizer “foi isto”. Sei que tive vários momentos críticos, como, por exemplo, a “FALA A SÉRIO” com o Kappa Jota em que senti esse placement. Não só pelos números, mas mesmo a nível musical teve um feedback bastante bom, por ter sido uma música um bocado fora da caixa. Foi pegar numa vibe tropical e juntar 808s, um afro trap mais chill. Fizemos uma cena que não existia, pelo menos cá. E foi um processo tão genuíno e natural que eu nem tinha bem noção do que tínhamos feito ali.  

Entretanto, na “Chiripiti” com o Phoenix RDC também recebi muito “sangue”, por causa do beat, da malta do movimento. Nessa, peguei num sample de soul, com um solo de gospel, e misturei com umas melodias mais escuras, mais de trap, o que surpreendeu quem ouviu. 

Mais recentemente, tive imensas reacções positivas com a “Vício”, do Jimmy P com o Gson e o Filipe Ret. Essa, para mim, foi das melhores malhas que já fiz. Não só por estar envolvido, mas acho mesmo que é das melhores músicas que andam por cá neste momento. Faço questão de ouvir a música mesmo por gosto. E ainda mais recente temos a “La Bella Mafia” dos Wet Bed Gang, que teve aquela exposição mediática toda como é normal neles. Esse instrumental tem várias camadas, mas ficou simples, consegues ouvir quase todos os elementos. 

Apesar da tua produção ser ecléctica, tens algum estilo ou género que gostes mais de trabalhar? Ou não existe um “Lazuli type beat”? 

É uma pergunta difícil, porque depende literalmente do meu estado de espírito. Há dias em que acordo e só me apetece produzir numa onda mais electrónica, mesmo a rasgar, e noutros estou virado para o R&B mais melódico. Se bem que eu não gosto de definir isso por caixas, mas só para simplificar. Por isso, não consigo responder directamente a essa pergunta. Ainda assim, embora goste de vários géneros e consiga sair desse espectro da música urbana, acho que consigo, de certa forma, deixar a minha identidade em tudo. Desde um club banger a uma sinfonia, por exemplo. Até porque tenho reparado mesmo nisso: às vezes, surge um teaser de alguém e vêm perguntar-me se o beat é meu. Mesmo no álbum da Jessie Reyez, sem eu dizer qual foi a música que co-produzi, houve malta a perguntar se tinha sido a primeira. E voltamos ao que disse anteriormente: as pessoas sentem essa diferença, só não sabem o que é. Ainda que ter identidade seja espectacular, e para um produtor isso é fundamental, além de noutros artistas ou criadores. Mas acho que a identidade não é algo que se procura. 

Como é que surgiu essa ida aos Estados Unidos da América, para trabalhar com a Jessie Reyez e o !llmind? E como foi para ti estar em estúdio com um colosso da produção? 

O meu manager é de lá. A partir daí fomos construindo contactos, porque estando lá, torna-se mais fácil chegar a esses artistas. Eles foram incríveis, e fizeram-me perceber que muitos desses artistas de topo são, na verdade, bastante humildes. Em relação ao !llmind, aprendi muito. Ele já tem calo nisto, e anda nestas andanças há vários anos. Tem uma logística de trabalho megalómana. Nunca tinha visto nada assim. E tem principalmente uma facilidade de chegar onde quer, mesmo ao nível das palavras. É conciso e profundo ao mesmo tempo, é simples mas transmite tudo. O próprio mindset dele está a anos-luz dos outros, muito à frente. Não estava à espera que um produtor do nível dele tivesse a mentalidade que tem. Está tudo estipulado sem ser uma cena rígida, ou seja, como se tivesse horários sem os ter. É um freestyle super concreto para onde quer ir. É mesmo muito diferente, não estava preparado para um mindset daqueles. 

Que projectos tens em aberto para um futuro próximo que possas revelar? 

Em termos de projectos, estou com vários em mãos. Cada vez mais estou a conseguir trabalhar com quem quero, e isso torna-se mais produtivo. À partida, trabalhares com malta de quem gostas e te identificas acaba por ter um resultado melhor do que trabalhares com alguém que só te está a pagar pelo beat. Além disso, durante este estado de emergência, acho que cabe a nós, artistas, animar as pessoas, produzir conteúdo e, nesse sentido, estou a preparar uns “brindes” para a malta. Nada muito sério, como já tenho feito em “lives” a conversar com pessoal. Parecendo que não, tirar as pessoas do tédio nessa hora já faz alguma diferença. É como se tivesse a fazer a minha boa acção do dia, e também porque faço questão de fazer isso, nem que seja para dar espaço a artistas com talento que têm muito a dizer. Pode ser que quem esteja a ver aprenda alguma coisa. 

A nível internacional, e também para não fugir muito à pergunta, ainda não posso revelar a 100%, mas estamos a trabalhar para continuar o que começámos, para que seja literalmente o primeiro de muitos, e, sobretudo, fazer música cada vez melhor. 

Já em nome próprio, estou a pensar num projecto, sobre o qual também não posso abrir muito o jogo, mas vai ser algo interessante e refrescante, tendo em conta o que se anda a ouvir. Vou tentar sair fora da caixa não saindo ao mesmo tempo. Lá está, para que as pessoas sintam a diferença de um novo sabor, sem saberem o que é. Como aquelas pessoas que nunca foram ao sushi. Vou tentar fazer o “efeito sushi” nas pessoas. 

Na tua conta de Instagram, tens uma fotografia recente, no estúdio, com o Yuri NR5. Está a caminho uma colaboração entre dois dos grandes talentos da nova geração? 

Essa sessão de estúdio aconteceu de uma forma bastante natural. Não teve uma finalidade concreta. Eu gosto do trabalho dele e ele do meu, e quisemos tentar fazer qualquer coisa juntos nesse dia. Se gravámos alguma coisa? Sim, temos coisas gravadas. Agora se alguma vai sair, acho que não, pelo menos tão cedo. Não temos isso formalizado. Ainda para mais nesta fase. Mas provavelmente teremos mais sessões de estúdio, quando isto tudo acabar, porque conectámos facilmente. Primeiro, somos mais ou menos da mesma idade, o que ajuda logo. Depois, em termos de limites, o Yuri é espectacular. Se for para fazer pimba, ele faz. E a seguir, se for para fazer um tango ou uma salsa, ele também faz, e ainda dá uns passos de dança se for preciso. Se ele estiver a sentir, entrega-se. Ponto. É mesmo genuíno.  

Nessa fotografia com o Yuri, como em tantas outras, usas a descrição “zero means (…)”. É alguma mensagem encriptada, talvez relacionada com a produção? 

Pode ter a ver com alguma coisa. O facto de me perguntares isso já é bom sinal. São umas “migalhas” que vou deixando pelo caminho. O que posso dizer é que isso se vai concluir em alguma coisa.  

Por fim, a pergunta da praxe: qual foi a produção que te deixou mais satisfeito com o produto final? 

Penso que foi a “Vício”, do Jimmy P, porque toda a produção foi muito trabalhada. Estávamos em estúdio, o Frankieontheguitar saca da guitarra e toca uns acordes sem querer (que ele às vezes toca sem querer). E nós, na brincadeira, perguntámos se ele se tinha enganado. Então, ele continuou a “enganar-se”, e todos pensámos: “temos de produzir isto”. A partir daí, fizemos um rascunho básico, só instrumental, ainda sem a voz do Jimmy. Depois foi uma questão de ir fazendo e mandando. Acho que foi a produção onde demorei mais. Estive quase meio ano a desenvolver o instrumental, a trabalhar nisso pelo menos uma vez por semana, nem que fosse para dar só um toque.  

No fim, depois de limpar o ruído da música, já a finalizar, e de mandar para o Jimmy, ele respondeu a dizer que aquilo lhe estava a soar ao que agora entendo como querendo dizer “limpo”, mas que na altura nenhum de nós tinha percebido o que era. Por isso, encontrei-me em Aveiro com o Suave para, ao fim de não sei quantas horas, percebermos que o que estava a faltar era esse ruído. São episódios engraçados, e são essas experiências que ficam.  


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