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Texto: ReB Team
Fotografia: Patricia Black
Publicado a: 25/02/2026

Depois da música, a performance.

Larie: “Desobedecer ao que funcionou antes tem-me trazido outro entendimento do que eu posso fazer enquanto artista”

Texto: ReB Team
Fotografia: Patricia Black
Publicado a: 25/02/2026

Entre os dias 27 de Fevereiro e 1 de Março, o Teatro do Bairro Alto recebe a estreia de “Mandakí”, o primeiro solo performativo de Larie. Os bilhetes têm um custo de 12 euros e as sessões diárias estão marcadas para as 19h30, com exceção da última, no domingo, que tem início pelas 17h30. 

Nascide no interior do Brasil e atualmente a residir nas Caldas da Rainha, Larie apresenta um trabalho que parte da sua experiência enquanto pessoa trans não-binária imigrante para questionar, através do corpo e do som, as estruturas fixas de identidade. “Mandakí” propõe-se como um território sensível em que o público é convidado a meditar sobre perguntas sem respostas: “O que acontece quando a presa prova do veneno do predador? Por onde caminha um corpo com barba e vulva?”

A performance é guiada pelo som, numa fusão entre o orgânico e o digital, onde a poesia encontra experimentações eletroacústicas. Em cena a sós, Larie utiliza sensores de som e movimento que funcionam como extensões do seu corpo, permitindo-lhe controlar em tempo real a luz e a paisagem sonora que habita. A peça pinta um contraste entre o analógico e o digital, o bruto e o poético, entre a memória da infância no interior de São Paulo e a necessidade contemporânea de romper com códigos coloniais, evocando o cavalo do pai “Mandakí”, símbolo de uma “liberdade condicionada, potência que resiste, símbolo do desejo latente de romper com o que foi herdado.”

Com uma carreira artística de mais de dez anos, Larie tem expressado a sua criatividade principalmente através da música. Com vários trabalhos a solo editados — da estreia em Voa (2016) ao mais recente singleDÓIDÓIDÓI” (2022) —, soma também colaborações em discos de Sangue Suor, Hélio Morais, Cabrita, Sónia Trópicos ou Meta_.

Enviámos algumas perguntas a Larie para perceber o que podemos esperar desta sua estreia em palco no formato de performance a solo.



O texto de apresentação desta performance refere que o teu trabalho “surge de uma ligação orgânica entre a poesia e as experimentações sonoras”. Podes descrever como é que esse processo “orgânico” acontece na prática? O que surge primeiro no teu processo criativo — a palavra ou o som?

Não é algo que eu penso muito para colocar para fora. Depois de anos de prática e esse amadurecimento da compreensão de como é que funciona meu processo criativo, digo que é orgânica a ligação porque não tem uma forma fixa, às vezes vem de um ritmo que fica na cabeça, começa a vir para as mãos em cima da mesa e termina em melodia na mesma métrica do ritmo — ou não. Essa forma de desobedecer ao que funcionou antes tem-me trazido para outro entendimento do que eu posso enquanto artista e é o que me move hoje. 

Uma das perguntas poéticas colocadas por esse texto é: “Por onde caminha um corpo com barba e vulva?”. Como é que a performance – através do movimento, do som e da luz – tenta mapear ou habitar esse caminho, para além das palavras?

Estamos falando da minha transgeneridade, de transmasculinidade, de não binariedade, do bonito, do dolorido, do inspirador, do difícil e as ferramentas que temos em mãos funcionam como esse caminho pra trabalhar com símbolos mais subjetivos desse universo que estamos criando pra dizer o que queremos.

Tendo uma carreira que no passado se cruzou mais com a música e agora prestes a estrear um solo performativo multidisciplinar no TBA, como é que vês esta transição no teu percurso? O que é que a linguagem da performance ao vivo te permite explorar que a música não permitia?

Há algo de diferente no timing de um espetáculo, há mais espaço para o rompimento de convenções, é algo que eu sentia mais limitado dentro da indústria da música e do como as pessoas consomem música hoje, o que tende a ser o caminho desse consumo também. Sempre estive muito próxime do universo das artes performativas, desde a adolescência em contato com teatro e dança até começar a trabalhar com direção musical, composição e produção musical para performances anos atrás, quebrar a lógica de estar fixamente em um ponto do palco e com instrumentos à frente. Queria cortar com essa premissa tão presente no meu universo e experimentar o som, o corpo e o espaço assumindo que tudo é vivo e pode ser mais que o LR [Left and Right] de um concerto em uma venue ou em um festival. 

Diz-se que o som (orgânico e modulado) guia o espetáculo. Que tipos de sons orgânicos vão ser utilizados e de que forma é que os vais modular para criar a paisagem sonora desta jornada íntima? Queres partilhar connosco quais as ferramentas que te vão ajudar em palco nessa tarefa?

A voz e elementos percussivos dão o norte desse projeto, sonicamente falando. Com recursos eletrônicos, esses elementos vão ser moldados de forma a se transformarem em outros ou adicionarem camadas imprevisíveis, generativas, dialogando com a dramaturgia que criamos e levando a outro patamar o que se pode, deslocando o som pelo espaço e jogando também com as frequências do que é projetado. Tenho uma série de gadgets que controlam som e luz pra dar suporte a esses experimentos, projetei um pandeiro que funciona como um controlador MIDI e a seguir um amigo trouxe à realidade essa ideia. Posso dizer que tem sido um universo super incrível e divertido de se explorar. 

Achas que esta performance pode vir a ter alguma consequência na tua discografia enquanto Larie? Prevês editar em disco a componente sonora que acompanha o espectáculo?

Há canções que me dão vontade de trabalhar e virem a entrar no meu próximo álbum, sim, mas pra já tenho tentado viver o momento de agora e vivenciar o que a canção se torna quando deslocada do campo habitual dela no meu fazer artístico.


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